Capitulo 2
No escritório, as luzes solares da tarde adentravam pelos grandes janelões e batiam na estante de livros e quadros de fotografias pessoais às costas da mesa robusta de carvalho. A residência tinha a estrutura colonial-moderna de dois andares e reunia duas varandas cobertas nos dois pavimentos. No térreo, havia diversos vasos de plantas; a frente da casa era emoldurada por palmeiras e um gramado verde bem cuidado. Para completar o cenário, o céu da tarde estava limpo, uma tarde bonita e suave. A arquitetura do casarão passou por reformas há cinco anos, mas César não quis se desfazer da história do lugar, assim manteve alguns móveis antigos do passado.
César viveu e cresceu na cidade de Terra Firme, herdou as terras do pai. Seu pai, Carlos Luís, um empresário do ramo do agronegócio, expandiu seus bens e aumentou o patrimônio; era criador de bovinos e cavalos de raça, fora os cultivos de cacau, pimenta-do-reino e outros. Tinha empresas em algumas partes do país. O fazendeiro, sendo o filho único, acabou tomando conta de tudo. César herdou também o mesmo tino para os negócios.
Roberta subia os degraus da escada. Dá uma batida fraca na porta de madeira.
─ Entre…
O fazendeiro mantinha a postura reta, sentado na poltrona. Os dedos inquietos na mesa executiva tamborilavam.
─ Sua bença! ─ fala a vaqueira. ─ O senhor queria me ver?
Ele dá a bênção para a afilhada erguendo a mão direita. César acena com a cabeça para a cadeira à frente de sua mesa, e Roberta se senta obedecendo ao homem.
─ Pensei que o senhor voltaria só no fim do mês. ─ A mulher fala.
─ Resolvi meu assunto por lá mais cedo. A viagem ocorreu como eu estava esperando.
César afasta-se da poltrona e vai até o Bar Office, que abriga garrafas de bebidas de variadas marcas.
Sobre a superfície da ampla mesa de carvalho, há alguns papéis espalhados. Roberta observava a postura do padrinho; o rosto do fazendeiro expressava preocupação, seus ombros estavam tensos. Aquela atitude aumentava a curiosidade dela a respeito do que o padrinho queria tratar. César serviu-se de uísque de cor líquida âmbar, segura o copo de cristal e então retorna ao assento, sendo avaliado pelo olhar de Roberta.
─ Visitei uns conhecidos meus e, entre conversas, ganhei orientações, ideias sobre o novo empreendimento… ─ Roberta franzia a testa.
─ Não entendi.
─ Sua proposta de patrocínios…
─ Ah… e por que a mudança agora, padrinho? Por duas vezes tentei fazê-lo ver os relatórios, como poderia ser lucrativo para a marca da empresa, mas o senhor sempre desconversava da ideia. Continuo sem entender. ─ Levanta sutilmente a sobrancelha esquerda.
A primeira vez que Roberta citou o interesse de participar de competições de rodeios profissionais, o fazendeiro não quis investir. Roberta mostrou o funcionamento de como a empresa ganharia visibilidade caso fizesse o investimento.
─ Égua! O senhor não confiou no que lhe mostrei! ─ Ela critica.
─ Claro que confio em ti, menina! ─ Ele fala firme. ─ Mas as palavras de alguém com mais experiência seriam boas para nós, seria um norte a seguir sem erros, Beta. Levei comigo o gráfico para me orientar e vi os números.
César ergue o copo de uísque até os lábios e toma a dose. Bate os pés contra o piso.
─ Mas… nessa viagem para São Paulo eu fui… ─ Ela estremece, pois sabia onde o padrinho fora. ─ Sei… sei que tu e Bianca tiveram…
Bianca — essa era a pessoa que César comparecia para visitar. Roberta conhecia os olhos castanhos, os cabelos, a boca carnuda dela. Todas as noites, Bianca marcava presença nos seus pesadelos profundos.
─ Essa conversa não é sobre o patrocínio, né? Na verdade, o senhor nunca quis esse negócio.
O fazendeiro via como citar o nome de Bianca ainda mexia com a afilhada, mas não tinha intenção de machucá-la de forma alguma.
─ Tá explicado agora seu nervosismo. ─ Um músculo em sua mandíbula contrai.
─ Tu não és besta, sei que já entendeu. Bianca vem… ela vem dar uma força pra gente. ─ Fala de uma vez.
César não queria mágoa. Roberta, o homem sabia e viu no que deu a história das duas, porém Bianca precisava estar perto deles para conseguir colocar seu plano em prática. Consertar um erro antigo.
─ Eu… eu não impediria a volta dela, padrinho. Ela é sua filha.
A vaqueira expressa sua indignação encarando o homem.
─ Foi ela, né? Ela propôs alguma condição para nos ajudar, propôs? ─ Ele retira o olhar.
Roberta sai da cadeira em que sentara e anda de um lado para o outro. César fica desconfortável com aquilo, por isso teve receio de ter a conversa com ela.
─ Passaram anos desde que vocês…
─ Vocês… você tem que superar… ─ suspira pesado.
─ Eu tenho? Ela está querendo meu afastamento… É ela que não superou! ─ Para de dar voltas. Respira com pesar, a testa franzida. ─ Sou eu. Sou eu a imposição dela de não trabalhar aqui. ─ Murmura baixo. Seus olhos estavam molhados.
─ Ele vem junto dela?
─ Beta, nessa história de vocês duas, estou neutro…
Escutar as palavras do padrinho entristece a vaqueira. César curva a cabeça para baixo, envergonhado.
─ Nenhuma vez lhe pedi que escolhesse um lado, padrinho. Jamais fiz isso com o senhor.
─ Sei meu lugar. Por isso o mistério para tocar no nome dela.
Afirma mais para si mesma do que ao fazendeiro, que não mira a mulher negra.
─ Não causarei nenhum problema aos dois… também, se o senhor for prosar a respeito de trabalho, a gente resolve… entre nós.
─ Quando Bianca perguntar por mim, diga que recebi o recado. ─ Os olhos verdes-esmeralda da vaqueira ardem, denunciando o choro preso.
Então se dirige para ir embora. Segura a maçaneta da porta, abre com força e se vai. Há três anos, jurou não derramar nem uma gota de lágrimas por quem não merecia. Sofreu sozinha, enquanto Bianca vivia de boa ao lado do noivo, tranquila, como se nada tivesse acontecido.
Ela havia superado, sim, confirmava em pensamento — e mentia para si.
Na caminhonete preta 4×4, o veículo deslocava-se para o único lugar ao qual recorreria para extravasar a dor, a raiva e a mágoa. Se fosse fácil esquecer tudo como o padrinho mandava, ela já teria achado um manual, uma fórmula. Assim não sentirei nada, o sentimento seria indolor, pensa Roberta. Ela apertava as mãos no volante, o automóvel corria veloz na estrada de terra avermelhada e batida.
César continua sentado na poltrona, calado com o copo de uísque renovado noutra dose. A consciência pesava. Ele pega o papel sobre a mesa e avalia o conteúdo. Roberta estava certa: existia outra razão para o nervosismo dele e o significado de longe eram as duas, Bianca e Roberta. A única pessoa que conhecia o verdadeiro motivo, e em quem ele confiava, era Helena.
Fim do capítulo
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