Apresentação da rotina da protagonista.
Capitulo 1
Salta do seu cavalo, Trovão, que ganhara o apelido da dona ainda quando era um corcel miúdo. A mulher negra conduz-se segurando a corda de guia do animal até a beira do igarapé. O bicho rebaixa a cabeça para matar a sede na água doce do rio. Ela o prende a um galho de uma mangueira, não muito longe da margem daquele lugar tranquilo e silencioso, digno de uma paisagem de filme. Belo e natural: o verde das copas das árvores ao redor, o solo acinzentado-escuro, a água de coloração coca, com folhas secas caídas nas beiradas, poderiam facilmente inspirar uma obra de arte de um pintor talentoso. O conjunto era encantador. O ambiente servia de refúgio e esconderijo para descanso nas vezes em que Roberta precisava fugir da rotina da lida. O pequeno igarapé ficava na propriedade das terras do fazendeiro César. Ali, o clima lhe fazia bem, perto da natureza.
Roberta afasta da carola o chapéu amarronzado de couro, com dobras para cima, copa alta e abas grandes, e se desfaz das roupas e das botinas desgastadas pelo uso contínuo, ficando só de calcinha boxer e top. Sem tardar, entra em passos lentos no rio, sentindo a maciez da areia e das pedrinhas sob os pés. O contato com a temperatura gelada relaxa todos os músculos do corpo, causando uma sensação imediata de paz. Ela fecha os olhos e começa a nadar de costas, deixando-se levar pelas correntes do rio, equilibrando-se e se concentrando no canto distante dos passarinhos.
Roberta nunca foi de lamentar o trabalho pesado na fazenda, até porque foi escolha sua seguir aquela vida. César, o grande fazendeiro da região, mandava e desmandava na pequena cidade. Conhecia Roberta desde que ela se entendia por gente. Oferecera apoio à sua mãe, recém-chegada e sem família naquelas bandas. Roberta concluíra o ensino médio e cursara Administração, que agora usaria para auxiliar na fazenda Pôr-do-Sol, mas seus verdadeiros sonhos sempre estiveram ali, nas terras onde nasceu, onde deu seus primeiros passos, onde aprendeu a montar, a cuidar e a estar próxima das pessoas que amava. Dos serviços mais pesados aos mais simples, tudo passava por sua supervisão. Na rotina corrida de afazeres, pouco sobrava tempo para reencontrar os velhos amigos e às vezes até vinha uma vontade repentina de sair para espairecer, como fazia anos atrás, mas as responsabilidades falavam mais alto, e a vontade logo passava. O gosto de uma loirinha gelada num bar bem pé-sujo, escutar um brega marcante… isso dava saudade. Talvez, qualquer dia desses, ela achasse uma brecha.
Roberta sai da água e alcança seus pertences. Para retirar o excesso de líquido dos cabelos, sacode-os de um lado para o outro. Vestida e pronta para ir embora, desamarra Trovão de onde o havia colocado e parte rumo à sede da fazenda.
Prendendo as rédeas firmes entre as mãos, a mulher negra controla o ritmo para o animal galopar mais rápido. O sol do meio-dia estava um para cada corno — quente, pensou ela. O suor começa a impregnar sua pele e molha a regata branca colada ao corpo definido pelo trabalho no campo. No verão, no Norte do país, o calor era mais rigoroso do que nos demais territórios, pois a linha do Equador o cortava.
Na espaçosa e agradável cozinha do grande casarão, Helena, uma senhora encorpada e de cabeleira embranquecida, encontrava-se concentrada no preparo do almoço. Mexendo a colher de pau na panela de alumínio sobre o fogão a lenha modernizado, ela nem percebeu a chegada da filha pela porta dos fundos. O cheiro do guisado invade as narinas da mais nova. Galinha caipira com maxixe e jerimum.
Helena muda de posição para pegar a colher de sal e acaba sobressaltada ao enxergá-la ali. Solta gritinhos de susto e puxa o guardanapo que estava sobre o ombro, desferindo o tecido envelhecido contra Roberta, acertando o golpe e vingando o espanto que levara.
─ Ai! Tu queres me matar, sua moleca véia! — A senhora dá outra batida de pano na filha. Roberta desvia e solta risadas.
─ É para testar o coração. — sorri, provocando.
─ Minha beça!
Roberta se aproxima da mãe para abraçá-la.
─ O cheiro está bom! — Seus olhos brilham ao mirar a panela de cozido.
– Que Deus lhe dê vergonha! — resmunga. — Pode ir saindo de perto do meu fogão.
Roberta gruda um abraço apertado em Helena, que balança o corpo para trás e para a frente, tentando se desagarrar.
─ Pare com isso, Roberta! — reclama. — Tu estás suada, menina!
Chamegos não eram o forte de Helena. Segundo ela, “é muita frescura pro meu gosto”. Suas demonstrações de carinho vinham tímidas e desconfiadas. Sua criação fora assim. A filha se alegra por roubar aquele sorriso envergonhado da mãe amada.
─ Seu padrinho chegou de viagem. E está querendo lhe ver. — informa Helena.
─ Que viagem rápida. — Roberta franze as sobrancelhas grossas. — Faz tempo que ele chegou à sede?
Ela solta a mãe do aperto e puxa uma cadeira.
─ Assim que tu saíste para ir ao galpão dos peões, César e Zé Antônio apareceram. — narra Helena. ─ Nem o café da manhã seu padrinho quis saber; está trancafiado no escritório desde cedo.
A senhora retira a panela do fogo, anda até a bancada e a apoia ali.
As viagens de negócios de César costumavam durar de duas semanas a um mês completo. Difícil o fazendeiro negar um pretinho quente, não importava o momento ou a hora. As palavras da mãe lhe despertaram preocupação.
─ Agora deu medo, viu…
Com a pulga atrás da orelha, ela esfrega a nuca. Roberta se põe de pé, vai até a bancada e pega utensílios para se servir do guisado. Volta a se sentar e se delicia com a comida caseira.
─ Vou matar o que está me matando antes. — enruga os olhos, sorrindo. — Depois vou até o padrinho.
Helena continua seus afazeres.
Fim do capítulo
Comentem se gostarem.
Comentar este capítulo:
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook:
Sil R.S Em: 09/12/2025 Autora da história
Muito obrigada! ??