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Quando o Tempo Parou por Bastiat

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Palavras: 5232
Acessos: 178   |  Postado em: 07/12/2025

Capitulo 7 - Assassina

 


VII - Assassina

 

 

Vivian

 

 

       No meio da penumbra, uma figura alta passou de relance pela porta da cozinha indo na direção da sala puxando duas malas enormes com a delicadeza de quem leva em suas mãos duas plumas prestes a voar. Seu objetivo é nítido, ela evita fazer qualquer barulho.

 

       De cabeça baixa, vi Emília continuar o seu caminho e a segui sem que ela notasse a minha presença. Logo decidi me fazer presente e raspei a minha garganta para chamar sua atenção quando entendi que ela estava indo na direção da porta da sala. Surpreendida, parou feito uma estátua e me encarou.

 

       - O que você está fazendo? Que malas são essas?

 

       Ao terminar meus questionamentos, caminhei até a mesa de canto ao lado do sofá e acendi a luz do abajur. Seu rosto está levemente inchado pelo choro.

 

       - Eu... Vivian, eu...

 

       - Não acredito que, depois de tudo o que vivemos hoje, você pensou mesmo em ir embora sem se despedir de mim com decência ou ao menos me dar a chance de fazê-lo. Se eu não tivesse levantado para beber água, eu nunca mais te veria?

 

       Ainda parada no mesmo lugar, com a pouca luz que joguei no local, observei o seu jeito de levar a palma da mão direita no rosto na altura dos seus olhos. Ainda há lágrimas caindo.

 

       - Juro-te que não queria...

 

       Sua voz embargada me quebrou por inteira. É tanta dor que se corpo se curva, eu não sei como ela está se aguentando em pé. Largando as malas, vi seus braços abraçando a si própria.

 

       - Mili... puta que pariu! O que está acontecendo?

 

       Sempre me sobraram palavras, talvez por isso eu seja tão comunicativa, mas elas simplesmente desapareceram no momento que mais preciso soltar algo preso dentro de mim, que ainda não sei o que é.

 

       Meu coração pediu para ir até a mulher que mais parece uma menina frágil. Assim o fiz, alcancei o seu rosto com as minhas mãos. Os nossos olhos se estudaram mesmo na pouca claridade.

 

       - Fale, Mili. Eu preciso que você fale alguma coisa.

 

       Emília olhou para cima após levar uma boa quantidade de ar aos seus pulmões. A sua busca por calma funcionou, embora seu corpo continue tremendo.

 

       - Eu não queria ir sem me despedir, mas era preciso.

 

       Entrelacei os nossos braços e a puxei comigo até perto do sofá bege com a intenção de sentarmos.

 

       - Vivi... Vivian, eu tenho que ir. Só me deixei ir.

 

       - Não, você não pode ir agora. Não pode me deixar. Seja lá o que tenha acontecido, fique por mim.

 

       - Eu preciso! - Disse angustiada. - Acredite em mim, não está sendo fácil, eu também me apeguei a você. Mas, é preciso que eu vá. Deixei-me ir agora antes que a  Amélia apareça e faça um escândalo. Eu não vou me perdoar nunca se algo te acontecer. Só... me... esqueça.

 

       - Sua irmã não vai acordar. Ela tomou um remédio para dormir e sei que quando faz isso só acorda pela manhã. Pode acontecer uma explosão que a Lia vai permanecer na mesma posição de lado e dormindo.

 

       Convencida pelas minhas palavras, consegui com que nos sentássemos grudadas. Nossas mãos se uniram no automático. Sorri para passar tranquilidade. Calma eu estou, mas a angústia por respostas deixa os meus pensamentos em pânico.

 

       Emília foi retomando o seu prumo aos poucos. Esperei o quanto foi preciso para que sua respiração indicasse o momento certo para tentar entender a sua saída na calada da noite.

 

       Olhando atentamente para o seu rosto, soltei a sua mão esquerda quando meus olhos viram seu pescoço marcado e toquei o local. A cozinheira balançou a cabeça em negação e voltou com a minha mão para segurá-la com a dela perto do seu joelho.

 

       - Você está bem? Não está doendo? Isso está horrível. Foi Amélia quem fez isso?

 

       - A única coisa que me dói é não ter conseguido conversar com a minha irmã como planejei desde o dia em que coloquei os meus pés aqui dentro.

 

       - Lia só está nervosa, não sabe como agir, está confusa, não consegue confiar nas suas palavras.

 

       Emília moveu os seus olhos para cada ponto do meu rosto. Fez um estudo minucioso da minha expressão ou ganhou tempo para pensar no que disse.

 

       - Lia ou... você?

 

       Uma excelente pergunta. Nos últimos dias a minha emoção tem falado mais alto. Eu, cheia de certezas a minha vida inteira, me vejo em uma situação inusitada de não conseguir compreender mínimas atitudes.

 

       - Eu acabei de te ver fugindo daqui como se tivesse feito algo terrível. Que culpa é essa que você carrega que não consegue se libertar? Já se passaram tantos anos, não consigo entender. Mas, eu confio em você. Sem porquês, sem lógica racional, sem nada jogando ao seu favor. Eu só confio. Existe algo que me faz gostar de você. Não digo apenas pela comida, pelas conversas, por me fazer companhia, nem mesmo por ter se aventurado comigo hoje. Algo me faz querer acreditar em você.

 

       Com um aperto mais forte nas minhas mãos, a minha cunhada as levou até sua boca e deixou um beijo delicado em cada uma.

 

       - Você é muito especial, Vivi. É por tudo isso que vou embora, Amélia está certa em querer proteger a sua saúde.

 

       Não sei se o ar ficou mais raro mesmo, se a batida errada do meu coração é sinal de que algo está errado ou se na verdade eu só estou com medo. Estou apavorada com a partida da Emília. Sinto-me como se eu fosse perder uma parte do meu ser.

 

       - Ao menos me explique o porquê da sua partida, eu mereço pela amizade que criamos. Ou tudo que vivemos juntas foi fingimento? Sua preocupação com a minha alimentação foi à toa? Porque é isso que a Lia acha. Então ela está certa?

 

       Seus olhos voltaram a se encherem de lágrimas. Seus dentes superiores morderam seu lábio inferior com força. Balançando a cabeça negativamente, soltou minhas mãos e disse:

 

      - Eu preciso ir embora para que a sua recuperação seja tranquila, rápida e sem essas situações desconfortáveis.

 

       - Isso tudo por causa de uma viagem? Você apenas atendeu a um pedido meu. Não é justo isso. Não reconheço mais a Lia.

 

       - Está tudo bem, Vivi. Fico feliz por ter lhe proporcionado tantas coisas boas. Não podemos negar que nossa aproximação está causando um desconforto na Amélia, ela nunca confiará em mim, então é melhor que eu vá. Quem sabe um dia nos esbarramos por aí.

 

       - A Lia não é ciumenta. Não faz o menor sentido. Volte para o quarto, amanhã nós três conversamos.

 

       - Por favor, querida, não vamos complicar ainda mais a situação. Agradeço de coração toda preocupação e empenho para me ajudar. Eu e a Amélia já conversamos e ficou decidido que é melhor eu procurar o meu rumo.

 

       - O que eu quero não conta? A mais interessada na minha recuperação sou eu mesma. Com você ao meu lado sinto-me mais confiante, mais corajosa, você é a melhor companhia que eu poderia ter nesse momento de agravamento da minha condição. Milagrosamente nunca estive tão bem desde que te conheci. Eu posso tentar conversar com Lia mais uma vez...

 

       - Não fala assim - me interrompeu. - Já está tudo tão difícil. Acha que essas lágrimas são pela Amélia? Não são. É por ter que te deixar. Eu também me apeguei a você. Eu vivi tudo que vivemos com verdade. Mas... sempre existe um ‘mas', não é?! Pode ficar com raiva nesse primeiro momento, mas te garanto que vai me agradecer um dia.  Não podemos te envolver mais nos nossos assuntos passados.

 

       - Eu já estou completamente envolvida, Emília! Quero ver vocês duas amigas, irmãs, companheiras. Quero estar perto da minha cunhada, te conhecer, ser sua amiga. A gente comb... a gente combina... em t... tanto.

 

       Senti um desconforto vindo da Emília. Seu olhar foi se perdendo por algum objeto atrás de mim. Mesmo sem entender o que se passa comigo, tentei agarrar as suas mãos com as minhas, mas não fui correspondida no aperto. Antes de falar, a mais alta foi desgarrando as nossas mãos lentamente .

 

       - Eu não reconheço a Amélia mais. Confesso que quando voltei, achei que ela ficaria com raiva, mas que o seu coração falaria mais alto. Eu tenho que aceitar que a perdi.

 

       - A perdeu? Como?

 

       Talvez assustada pela sua divagação sincera, Emília desfez de vez o nosso laço, chacoalhou os cabelos com uma mão e me respondeu:

 

       - Já entendi que a Amélia jamais me perdoará e tenho que respeitar a sua decisão. Vai ser melhor para nós. Se não podemos curar a ferida por agora, temos que estacar para não jorrar mais sangue - respirou fundo e finalmente me olhou. - Vivian, eu já vou.

 

       - Para onde? - Perguntei ainda confusa com sua última frase.

 

       - Nã... Não - gaguejou. - Não se preocupe, eu me arranjo por aí.

 

       Arrumei um fio do seu cabelo que ficou fora do lugar, tentei sorrir para ela passando confiança.

 

       - Minha casa.

 

       - O quê? - Perguntou confusa.

 

       - Quero que você fique na minha casa.

 

       Levantei-me e caminhei até a mesa de canto com o abajur aceso alcançando um molho de chave e que havia deixado ali por acaso com a chave do meu carro.

 

       Andei de volta para encontrar a cozinheira de pé. Estendi os objetos para ela.

 

       - Minha casa, sua casa.

 

       - Vivi, eu não posso aceitar.

 

       - Você não é orgulhosa, Emília. Deixei-me ajudá-la, tentar o que você não conseguiu. Eu fico aqui tentando fazer com que a Lia te perdoe e enquanto isso você vai ficando na minha casa. Eu vi na sua mão um celular, então me passa o seu número e vamos nos comunicando.

 

       Receosa, a cozinheira aceitou as chaves. Seus olhos mostraram um indício de emoção contida. Um sorriso brotou nos cantos da sua boca levemente carnuda.

 

       - Te entreguei também a chave do meu carro, caso você precise.

 

       - Eu vou precisar. Quero te visitar, continuar a cozinhar para você, te fazer companhia. Claro, isso se você quiser.

 

       Levada por uma onda de felicidade, joguei os meus braços por cima dos seus ombros, a puxei e dei vários beijos na sua bochecha.

 

       - Eu quero! Quero muito que você venha todos os dias, por favor.

 

       - Eu venho. Enquanto a Amélia estiver no trabalho, eu fico aqui com você. Faço seu café da manhã, seu almoço, e deixo o jantar.

 

       Voltei para encará-la, mas permaneci em um meio abraço.

 

       - Mais do que pela cozinha, Mili. A sua presença basta.

 

       Ficamos apenas de sorrisos. Aquela magia que acontece ainda sem explicação. Nós duas, nada a nossa volta, como se o mundo parasse para só a gente viver.

 

       - Está tarde, eu realmente preciso ir e a senhorita descansar - disse ainda olhando em meus olhos.

 

       Uma partida que começou dolorida, acabou por ter um final feliz. Não o ideal, mas o que irá preencher o vazio que poderia ser muito pior com sua quase fuga na calada da noite. O que é senão a vida a constante busca de nos cercar de pessoas que gostamos?

 

        Busquei o meu celular na mesa de centro e entreguei a ela para que anotasse o seu número.

 

       - Agora você não poderá sumir da minha vida, sei onde você mora e tenho o seu número - comentei em tom de brincadeira pela falta de suas informações quando me entregou o celular.

 

       Ganhei apenas um sorriso vergonhoso. Emília foi até as suas malas ainda paradas na entrada do corredor e recomeçou a caminhada para a saída.

 

       Fui até a porta e fiz questão de abri-la. Quem não abre a porta sempre volta.

 

       - Cuide-se, querida. Não descuide da sua alimentação neste final de semana, tenta não passar dos horários dos medicamentos, nada de muito esforço. Cuide da Amélia também, não deixe que ela cometa nenhuma besteira.

 

       Depois de deixar um beijo demorado na minha bochecha, saiu sem que eu pudesse pedir explicação sobre a minha noiva fazer alguma besteira. De qualquer maneira, não vale a pena, não é da cozinheira que eu vou ouvir o que aconteceu para que o ódio entre irmãs nascesse.

 

     Fechei a porta, suspirei. Planejei não deixar a Emília ir embora, mas foi melhor assim. Quero a minha Amélia de volta, não nego que a ausência da irmã pode trazê-la ao seu normal. Também uma forma de buscar respostas para as minhas perguntas de maneira mais fácil.

 

       Antes de entrar no quarto que divido com a minha noiva, decidi passar no quarto que ocupava a minha cunhada.

 

       Adentro o local, logo o seu cheiro me absorver para um mundo desconhecido. Tão pouco tempo, mas a sua ocupação deixou marcas. Olhei o álbum de fotos e sorri, aposto que mesmo com raiva Emília ainda quis uma foto da irmã.

 

       Caminhei até a cama, peguei o travesseiro e como uma viciada em seu cheiro floral natural, coloque o nariz para apreciar o bom perfume que exala dali.

 

        Abracei o objeto macio em uma cena ridícula. Mili vai voltar, eu sei. Mas, tenho a sensação de que ela pode ir embora a qualquer momento. Foi de lugar em lugar até hoje, o que a faria ficar? É uma pessoa sem laço, nada a fez pousar. Nada que eu saiba.

 

       Coloquei o travesseiro na sua posição, ainda dei alguns tapas leves como se ajeitasse para ela se deitar e descansar a sua cabeça. Quem precisa de uma cama sou eu, a febre que tive foi um sinal de esforço para além das minhas capacidades.

 

       Mas antes de me deitar, já no quarto que minha noiva dorme profundamente, peguei as duas fotos tiradas hoje na minha bolsa. É um dos momentos mais bonitos da minha vida eternizados. Coloquei em um lugar seguro, dentro de um bolso falso na mesma bolsa.

 

 

 

[...]

 

 

 

       "... Todos os dias eu olhava no rosto de cada mulher que passava por mim para ver se o destino estava ao meu favor."

 

       Meus pensamentos vagam pela atitude dos meus olhos buscarem o seu rosto de lado. Foi como se eu tivesse procurando ali na Emília algo que perdi. O que não faz sentido nenhum pois sei bem que já encontrei o meu amor.

 

       Talvez, se o destino tivesse colocado Mili ao invés da Lia na minha frente, certamente eu teria facilmente caído no erro de gostar da irmã errada.

 

       - Bom dia.

 

       Por um breve momento, pensei ser a Emília por causa da voz parecida. Ao levantar minha cabeça, após ter meus pensamentos interrompidos, os fios mais loiros descartaram a possibilidade.

 

       - Bom dia, amor.

 

       Ganhei um selinho quando ela se aproximou de mim e me puxou pela cintura com suas mãos firmes.

 

        - Está tudo bem, Vivi? Achei que acordaria tarde - disse bocejando.

 

       - Pelo visto você queria dormir mais um pouco.

 

       - Senti falta do seu calor na cama, do seu cheiro...

 

       Esperei alguma atitude mais carinhosa, não veio. Achei suas palavras frias, como quem diz algo no automático. Eu que acabei buscando-a em um abraço, beijei o seu pescoço, um contato mais íntimo com a mulher que sempre despertou todos os meus desejos.

 

       - Vivian, você não... - afastou-se. - Você não me respondeu se está tudo bem. A sua febre, passou? Acho melhor passarmos no hospital só para garantir que está tudo bem.

 

       A sua preocupação é válida, apenas respirei fundo de desfiz nosso contato. Queria sim um pouco da sua atenção carinhosa, mas ignorei o meu desejo e decidir por encarar logo o embate já que amanheci bem.

 

       - Fisicamente está tudo certo, porém  psicologicamente sinto-me culpada.

 

      - Culpada? Culpada pelo o quê?

 

       - Emília. Sua irmã  foi embora de madrugada. Você conseguiu o que queria, arrancá-la mais uma vez da sua vida.

 

       Dando-me as costas, Amélia bufou pela cozinha até chegar perto da mesa. De braços cruzados e me encarando com sua costumeira seriedade, disse:

 

       - Olha o perigo no qual ela te colocou, Vivian! Você poderia ter tido muito mais que uma febre, meu amor. Foi muita irresponsabilidade te levar a quilômetros de um hospital.

 

       - Que perigo, Lia? Emília tomou todos os cuidados. Acho que nem o Márcio como um ótimo enfermeiro que é, cuidaria tão bem de mim como ela fez.

 

     - Não fale bobagens, Vivian. Te arrastar para uma praia só me mostrou como ela não mudou nada. As mesmas atitudes de sempre, levando ao limite o seu gosto pelo perigo. Minha irmã te usou para me atingir. Aliás, se eu não tomasse uma atitude ontem, ela continuaria te usando.

 

       - Fala sério, Amélia! Eu comentei com a Emília sobre a minha vontade de ir à praia, assim como fiz com você pelo menos cinco vezes. Está tentando dizer que ela planejou tudo isso? Poupe-me das suas conspirações.

 

       - Eu só pedi para você esperar mais um pouco que eu conversaria com a Agnes. Desculpe-me se tenho o que fazer e não consegui tempo para perguntar para a sua médica. Não sou uma vagabunda que nem ela. Era questão de esperar mais um pouco.

 

       - EU TENHO PRESSA DE VIVER!

 

       Gritei e me segurei na bancada quando ficou tudo escuro.

 

       - Olha aí, amor! O que você está sentido?

 

       Quando dei por mim, Lia já estava ao meu lado para ser o meu apoio.

 

       - Tem certeza de que a culpa é apenas da Emília? - Falei enquanto caminhávamos para a sala.

 

       Minha noiva me ajudou até que eu estivesse acomodada no sofá. Meu esforço repentino juntou-se com a raiva de momento e de repente a minha bateria carregada ficou com pouca porcentagem. Amélia como uma criança culpada, aconchegou-se no meu peito.

 

       - Eu não posso te perder, Mili. Fiz o que fiz pensando no seu bem.

 

       Com a mão, puxei de leve o seu queixo e olhei para baixo buscando os seus olhos.

 

       - Me perder para a morte ou para ela? Isso é puro ciúmes, Lia. Um ciúmes ridículo.

 

       Fechei os olhos quando seus dedos deslizaram pelo meu rosto. Foi o silêncio necessário para fazê-la refletir as suas atitudes.

 

       - Seja o que for, te perder está fora de cogitação. Coloca-se no meu lugar, eu sei o quanto a Maria Emília pode ser encantadora, as mulheres sempre se jogaram aos seus pés. É uma conquistadora nata.

 

       Abri os meus olhos, vejo medo em seu rosto. Amélia nunca foi insegura e sabe do meu amor por ela, o quanto esperei para viver tudo isso.

 

       - Isso é bobagem, meu amor. Você sabe que eu jamais te deixaria. Sua irmã  roubou alguma namorada sua? Esse é o motivo da briga? É por isso que você a expulsou daqui?

 

       - Não, Vivi. Eu só estou dizendo o que vejo.

 

       - O que você vê? - Perguntei sem paciência.

 

       - Desde que se conheceram, você não para de falar dela. É sempre dizendo que ela fez isso de comida, como a Mili - disse fazendo uma voz debochada - é divertida, o que vocês conversaram, assistiram, como ela gosta de poemas, teatro, musicais.

 

       Balancei a cabeça indignada pela imaginação maliciosa da minha noiva.

 

       - Está aí algo que não consigo entender: vocês são tão parecidas, tem o mesmo gosto para várias coisas, gostam dos mesmos livros, praticamente das mesmas músicas, até a Florbela é a musa de vocês.

 

       Senti suas mãos apertarem, as bochechas serem mordidas, o olhar se mostrar assustado.

 

       - Em... Emília não gosta de nada disso. Ela sabe o que eu gosto e resolveu te enganar, confundir a sua cabeça. Não vê?

 

       - Ela me pareceu ter profundo conhecimento de cada assunto. É incrível como ela lembra de cada detalhe dos livros que leu e que a maioria eu também li.

 

       - Está se ouvindo? Mais uma vez você elogiando a minha irmã com um sorriso estampado no rosto.

 

       - Não começa, por favor - pedi já desfazendo o meu sorriso. - Emília é como se fosse uma novidade e estou descobrindo um monte de coisa de uma pessoa que eu vou entrar para a família. É natural que eu esteja empolgada com tudo isso, eu sou assim, você sabe disso. Se tem alguém que escondeu várias coisas aqui, esse alguém é você. A morte do seu pai, por exemplo.

 

       A advogada saiu dos meus braços, colocou uma perna no sofá e ficou quase de frente para me encarar.

 

       - Emília te contou? Ela nunca gostou de falar sobre esse assunto, passou por anos no psicólogo.

 

       - Suas emoções ao chegar tão perto do mar falaram mais alto. Ela acabou fazendo um pequeno desabafo.

 

       - Eu pedi tanto para ela não entrar no mar, eu via que as ondas estavam grandes de o mar agitado. Sei que ela era uma criança, mas talvez se ela não fosse tão teimosa... - disse com pesar - papai era tão jovem.

 

       Seus olhos miraram o teto e começaram a piscar como quem não quer permitir a lágrimas rolarem. A trouxe para o meu peito novamente, abracei com força.

 

       - Não a culpe, muito menos se culpe, meu amor. As coisas aconteceram como tinham que acontecer. Garanto que o seu pai entraria no mar por qualquer outra criança que estivesse se afogando.

 

       - Pior que entraria mesmo, ele era tão generoso, lembra-me muito você. Talvez isso tenha feito eu me apaixonar por você. Você é o amor da minha vida.

 

         Consegui com que a Amélia se acalmasse com um gostoso cafuné em sua cabeça. Essa sim é a minha noiva, a mulher pela qual me apaixonei, sempre usando palavras gentis.

 

       - Você me escondeu muitas coisas, Lia. Pensei que sua irmã fosse a única coisa, mas agora reparo que não te conheço tão bem. Não conheço suas dores, suas angústias, seu passado bom ou ruim. Quase não falamos de você.

 

       - Perdoa-me por ter te escondido tanta coisa, meu amor. Eu só queria que você conhecesse quem me tornei, a Maria Amélia que sou agora, não essa cheia de tragédias. É como se eu pudesse recomeçar a minha vida com alguém do zero.

 

       Lembrei-me das palavras da Emília: as pessoas só apresentam aquilo que querem, o resto é descoberta.

 

       - Mas tudo isso fez ser quem você é hoje, amor. Nós mudamos para melhor apesar de tudo de ruim. Eu, por exemplo, desacelerei a minha vida por conta de uma doença e não pretendo voltar a ser aquela mulher que só pensava na carreira. Esperei por você, a encontrei quando já tinha perdido a esperança. Eu te amo como você é hoje, assim como te amei nas nossas primeiras conversas pelo MSN, e vou amar a Amelinha criança, a Amélia adolescente e a Maria Amélia que se tornou, a sua melhor versão. Não acho justo ter te colocado profundamente na minha vida e notar que te conheço tão pouco.

 

       A advogada saiu do meu aconchego mais uma vez. Os muros foram quebrados. O beijo que deixou nos meus lábios foi doce.

 

       - Não é justo mesmo. Vamos nos casar em breve, então é bom que você saiba de tudo mesmo. Assim você decide se casa ou não comigo.

 

       Como um simples peão em um tabuleiro de xadrez, senti que fui movida para o sacrifício como uma estratégia de jogo. Amélia vai me dar a sua versão, mas vejo um interesse por trás.

 

       - Eu fiquei presa por 16 meses, acusada de assassinato.

 

       - O quê? - Agitei-me.

 

       - Calma, eu não assassinei ninguém. Olha bem para a minha cara, não mato nem formiga.

 

       Minha noiva até tentou descontrair, mas logo os seus olhos se tornaram obscuros, seu rosto duro, seus lábios uma fina linha. Raiva.

 

       - Eu estava a um passo da catraca da faculdade quando ouvi uma voz grossa me dar voz de prisão. Achei que fosse uma brincadeira, mas quando ouvi o barulho de sirenes e os dois policiais andando na minha direção, apavorei-me. Fui algemada na frente de todos, humilhada quando disse que havia um engano e colocada no camburão como uma assassina.

 

       Na sua situação eu já estaria aos prontos, mas Lia está firme, fechada, cheia de mágoa.

 

       - As provas foram colocadas em cima da mesa. Um cartão com a minha assinatura da empresa que eu estava estagiando há um mês e uma multa de trânsito que batia com o local com mais ou menos o horário do assassinato. Eles não tinham dúvida da minha culpa. Eu não tinha dúvida da minha inocência. Quem estava com o meu carro aquela noite era a Emília.

 

       Engoli seco qualquer palavra que pedia para sair da minha garganta. Não queria dar a entender que estava questionando a versão do meu amor e muito menos me precipitar em inocentar a Emília para mim mesma. Com o meu silêncio, Lia continuou:

 

       - A primeira coisa que fiz foi explicar que tinha uma irmã muito parecida comigo. Óbvio que eles a chamaram para depor. Foi ali que todas as minhas certezas quanto ao caráter da minha irmã se confirmaram. Emília me jogou dentro de uma cela imunda ao arranjar um álibi tão mentiroso quanto ela.

 

       - Está me dizendo que a Emília jogou a culpa em você?

 

       Indignada, minhas mãos começaram a tremer pela possibilidade de estar errada na minha intuição. Notando o meu nervosismo, Amélia as juntou com as dela. Meu porto-seguro.

 

       - Quem quer passar anos na cadeira, Vivi? É claro que ela fez isso. Minha própria irmã tentou destruir o sonho de me tornar uma reconhecida advogada, quase me destruiu, prejudicou-me de todas as formas a vida inteira. Eu poderia ficar anos na cadeia, mas graças a alguns amigos, consegui provar a minha inocência.

 

       Não resisti e perguntei:

 

       - Como você provou a sua inocência? Como você pode ter tanta certeza assim de que ela matou alguém? Aparentemente as provas eram frágeis. Não foi você, assim como poderia não ter sido ela também, mas sim uma terceira pessoa.

 

       Amélia deu risada, talvez pela minha descrença perante os fatos, mas limitou-se a esclarecer:

 

       - Uma simples digital achado no corpo do homem assassinado ou na arma usada esclareceria tudo, mas o laboratório foi incendiado antes que pudesse dar o resultado. Para o meu azar, na época a tecnologia não estava bem avançada, nada ficava armazenado na nuvem. Mas eu sei que foi ela que matou e depois queimou as provas. Você conhece essa Emília se fazendo de boazinha. Eu conheço a profundidade da Emília, sei o quanto ela pode ser cruel. Enquanto eu estava presa, Emília estava vadiando com várias mulheres por aí, torrando praticamente toda herança deixada pelos meus pais com viagens de luxo, carros e drogas. Eu deveria ser milionária, mas pouca coisa restou depois que saí do presídio.

 

       Minha cara não deve estar das melhores. Estou tão chocada quanto me custa a acreditar. Nada me tira da cabeça que algo não se encaixa.

 

       - Vivian, meu amor, eu sinto muito por te fazer passar por isso, não queria mesmo te ver decepcionada. Emília é a minha irmã, então me dói muito mais lembrar pelo o que eu passei por culpa dela. Mais difícil do que perdoá-la, é trazê-la para a nossa vida. Eu não acredito na mudança dela, não confio. Eu depositei o dinheiro justamente porque não queria de todo o seu mal, dei essa chance na sua vida pedindo que ela sumisse. Não é justo que eu a ajude de novo. Não é.

 

       Entendi o lado da minha noiva, apesar de ainda escutar o meu coração dizendo que Mili não é uma assassina.

 

        - Mas como se resolveu esse assassinato? Que provas você conseguiu?

 

       - Outro dia entramos por esses detalhes. Acho que ultrapassamos o seu limite, suas mãos estão tremendo, seus lábios quase brancos. Por agora que você já sabe o quão pesado é o meu passado, acho que você entende o porquê não quero Emília por perto.

 

       - Agora eu entendo, mas...

 

        - Não tem ‘mas'! - interrompeu-me. - Se depois do que te contei, você quiser terminar, vou entender e respeitar. Entretanto, se ainda insistir em procurar a Emília, quem vai terminar essa relação sou eu.

 

       - O quê? Terminar?

 

       - Sim, eu quero me casar com você, mas se insistir em trazer de volta Maria Emília para nossas vidas, me esquece.

 

       - Você está me ameaçando com um término?

 

       - Não! Eu só estou te pedindo: me prometa que nunca mais verá Emília. Não a procure, por favor. Se ela entrar em contato lembre-se de todo mal que me fez e a ignore.

 

       Meu peito apertou como se meu coração se rasgasse em mil pedaços. Não sei se pela pressão do momento, por esse mal-estar, se pela tensão que não me deixa respirar por medo de perder Amélia ou se pela menção de nunca mais poder estar com a Emília.

 

       - Promete?

 

       Amélia insistiu. Seus olhos me olhavam com faíscas de ódio pela irmã e expectativa pela minha concordância. Terminar com o amor da minha vida, a mulher que esperei por anos, está fora de cogitação. Contraria-la será pior pois está movida pelo ódio.

 

       - Prometo.

 

       Menti. Essa será a minha primeira promessa quebrada da vida. Vou atrás de Emília ouvir o seu lado.

 

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Por hoje é isso.

Próximo capítulo: a versão da Emília.


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