Capitulo 8 - Pela Verdade
VIII - Pela verdade
Vivian
- Não, Vivi! Para...
Quanto mais cócegas eu fazia, mais Emília se agitava na cama. As nossas gargalhadas se misturam no quarto que ela ocupou enquanto esteve hospedada neste apartamento.
- Anda, Mili! Fala a verdade. Eu não vou parar enquanto não ouvir a verdade saindo da sua boca.
Passei ainda mais os meus dedos pelos pontos mais sensíveis das suas costelas. Era para ser apenas uma brincadeira, mas os meus olhos pediam para que eu continuasse só pela visão que eu estou tendo: a cozinheira dominada por mim em cima dela, seu rosto vermelho com o sorriso aberto, olhos fechados e nariz franzido.
- Eu... eu... - Emília não conseguia falar de tanto que ria.
Tudo poderia ser lindo, se não tivesse me esquecido completamente do meu problema cardíaco. Tudo ficou escuro de repente, minhas mãos não mais corresponderam a minha vontade movê-las, senti-me fraca até para respirar.
A minha queda por cima do corpo dela foi inevitável, sua procuração também.
- Vivi? Vivian, o que foi? Por favor, fala comigo.
Fechei os meus olhos, preciso me recuperar do esforço que fiz há pouco. Sorte apenas ter me sentido fraca de repente, sem nenhum outro sintoma preocupante. Meu único desejo é descansar e me senti segura quando Emília me abraçou.
- Querida, fale comigo, o que está sentindo?
Com algum esforço, minha voz fraca conseguiu sair:
- Cansaço. Apenas isso.
Eu pude sentir o seu desespero quando o seu coração bateu acelerado junto ao meu. Suas mãos passaram pelos meus braços procurando me tranquilizar.
- Como fui irresponsável - culpou-se. - Acabamos de voltar da caminhada, fomos mais longe porque você queria chegar até o Ibirapuera e ainda deixei que se esforçasse com as cócegas.
- Não seja boba, Emília. Eu já estou me recuperando, apenas fiquei fraca. É normal na minha condição, tenho essas quedas. Estão diminuindo, principalmente quando estou com você e tenho a sensação de segurança e liberdade, mas às vezes extrapolo esquecendo-me da minha doença.
A campainha tocou, então Emília foi obrigada a se mexer. Com delicadeza, a cozinheira me levantou ainda grudada a ela e me deitou na cama.
- Para a nossa sorte, deve ser o tal do enfermeiro Márcio. Vamos saber se fiz um estrago aí ou não.
Com os olhos ainda fechados, recebi um carinho no rosto para em seguida não sentir mais o seu corpo perto do meu e ouvir os passos da minha cunhada cada vez mais longe.
"Emília me jogou dentro de uma cela imunda..."
Na presença da Emília não tinha dúvida da sua inocência. Na sua ausência me questionava ao me recordar das palavras de Amélia. Há 4 dias tenho adiado qualquer conversa sobre o assunto com essa pessoa que ri gostoso com uma simples cócega.
- Então a minha paciente preferida mudou de quarto?
Para a minha surpresa, a voz da Dra. Agnes adentrou os meus ouvidos, então abri os olhos para olhá-la na porta. Vestida toda de branco, a primeira coisa que fez foi se aproximar de mim e pegar o meu pulso.
- Que surpresa boa! O Márcio que viria, o que mudou?
- Márcio está resolvendo um problema pessoal, mas fiz questão de não desmarcar essa consulta e por isso vim. Você está corada.
- Estou caminhando todos os dias.
- Pensei que sua cunhada já estivesse ido embora. Amélia comentou algo assim quando perguntei se você estava sozinha durante essa viagem dela.
- Chamei a Emília para passar a noite aqui mas Amélia não sabe, acha que estou com uma enfermeira que contratei. Por favor, não diga à ela que sua irmã está aqui.
- Ok... - concordou, mas percebi que ficou com vontade de perguntar detalhes. - Sua cunhada acabou de me informar o que vocês aprontaram. Uma caminhada até o Ibirapuera é longe, Vivian.
- Ué, mas você mesma me autorizou se eu estivesse me sentindo bem. E estou me sentindo bem esses dias, cada vez mais forte.
- E chegar toda agitada, pular em cima da sua cunhada para fazer cócegas faz parte do pacote?
Sorri como uma criança que toma bronca dos pais. Dei falta da cozinheira enquanto Agnes começava o preparativo para usar o eletrocardiograma que trouxe.
- E Emília? - Perguntei.
- Se enfiou na cozinha quando disse que poderia ser apenas fraqueza pela energia gasta e ainda não reposta.
- Hum... já estou imaginando alguma delícia vindo por aí.
A médica esperou que o aparelho mostrasse a impressão dos meus batimentos. Mais alguns exames com o estetoscópio e finalizou com uma luz nos meus olhos para saber se o meu reflexo está comprometido.
- Para o alívio de geral, nada além do esperado pela sua condição e o esforço extra que fez. Eu diria até que houve uma melhora desde a última consulta.
- Isso quer dizer que estou de alta para praticar aquela coisinha?
- Coisinha? Que coisinha?
- Sexo, mulher! Transar, fazer amor, revirar os olhos, finalmente morrer... de prazer.
Agnes gargalhou gostoso da minha ansiedade.
- Depende, Vivian.
- Depende do quê? Você tinha me dito que se eu melhorasse desde a minha última consulta, me liberaria. Melhorei, não foi?
- Sim, você sabe que está se sentindo mais forte. Finalmente os medicamentos estão fazendo o efeito esperado, talvez até pela combinação da sua nova dieta, de fato essa sua alimentação só tem te ajudado. Além disso, essas caminhadas são essenciais para seu fortalecimento. Então, se não for fazer estripulias, pode voltar a sua vida sexual.
- O que seriam estripulias, Agnes?
- Você sabe, Vivian... por exemplo, você nua pendurada no parapeito da varanda enquanto rola uma bela ch*pada. Misturar o medo da queda e o prazer pode ser demais para o seu coração. Mas se buscar apenas prazer, pode apostar que isso vai te fazer até bem, amiga.
- Dra. Agnes Martins? Eu lá tenho cara de quem fica nua na varanda buscando aventura?
- Preciso mesmo responder?! - Segurou o riso e fez cara maliciosa.
Caímos na gargalhada em seguida. Eu adoro o bom humor da médica que acabou se tornando a minha amiga. Foi com a ajuda dela que consegui passar por tudo sem me afundar na tristeza.
- Preparei um lanche para nós - Maria Emília anunciou ao entrar no quarto.
Meus olhos buscaram o seu rosto, sorrimos juntas no automático. Agradeci a responsável não só pelo cuidado com a minha dieta ou por me conseguir fazer comer com seu talento na cozinha em transformar até mesmo um jiló em algo saboroso, mas por me trazer de volta o sorriso no meu rosto, o prazer de seguir lutando pela vida.
Agnes coçou a garganta e quebrou o meu momento de admirar a cozinheira que mais uma vez se mostra prestativa ao sussurrar próximo ao meu ouvido:
- Sexo só com a sua noiva, ouviu Vivian?
Arregalei os meus olhos para a enfermeira que fazia uma brincadeira horrível numa hora imprópria.
Decidi por ignorar a insinuação descabida para passar a meia hora que veio pela frente apenas comendo o lanche preparado pela Emília e dar alguns palpites na conversa entre as duas sobre comida.
- Bem, já fiz o meu trabalho, até já comi e bebi, nada mais me segura aqui - Agnes disse ao se levantar da cama.
- Fica mais um pouco, daqui a pouco eu começo a preparar o jantar, garanto que você nunca comeu um filé de peixe igual ao que faço - Emília disse simpática.
- Hoje tenho plantão, querida. Aliás, se eu não sair agora, não chego no horário.
Agnes chegou perto para se despedir de mim e eu não disfarcei a minha chateação ainda pela sua fala.
- Desculpa pela brincadeira, tudo bem? Eu sei que não tem nada a ver, pura bobagem. Cuide-se, estou no celular se precisar.
Assenti para ela e nos despedimos com um beijo no rosto. Pelo menos ela tem a noção da bobagem que falou. É claro que só penso em sex* com a minha noiva, ora essas!
A cozinheira acompanhou a doutora até a porta. Fiquei esperando a sua volta com uma certa ansiedade inexplicável.
Outra coisa me incomoda, além da insinuação da Agnes: esse sentimento tolo de pertencimento de algo que não é meu. Emília realmente ofereceu o meu peixe extremamente saboroso para outra pessoa? Me achava especial...
- Vivi? Vivian?
Saí do meu louco devaneio quando Emília estalou os dedos na minha frente chamando pela minha atenção.
- Podemos mudar o cardápio de hoje? Não estou a fim de comer peixe.
- Claro, querida. O que quer? Posso preparar o que quiser.
- Na verdade, eu quero pedir uma pizza. Amélia me deu o número de um lugar especializado em comidas saudáveis e vi que vendem uma deliciosa de palmito.
Uma flor murchando, foi essa cena que vi acontecer no rosto da minha cunhada. C-u-n-h-a-d-a frisei em meus pensamentos.
- Mas... - o que ela falaria morreu em sua garganta. - Tu... tudo bem. Então, eu vou... acho que vou para a sua casa.
- Por quê?
Maria Emília ainda tentou sorrir, mas está no ar o peso que deixei com os meus pensamentos confusos.
- Não sei se foi uma boa ideia eu passar a noite aqui. Amélia pode voltar a qualquer momento, estive pensando, a dra. Agnes sabe que estou aqui e pode soltar.
- Quanto a isso não se preocupe, Agnes jamais falaria. Além disso, Amélia está viajando para fora do Brasil e mesmo que ela quisesse voltar correndo por saber, jamais chegaria tão rápido.
Sorri para passar confiança para ela ficar. Olhei para suas mãos, meu instinto foi de alcançá-las mas parei no meio do caminho ao me recordar das palavras da minha amiga.
Levantei-me rápido para ir até o guarda-roupa, peguei uma tolha e estendi para Emília.
- Fica e vá tomar o seu banho. Depois... eu quero... nós precisamos conversar.
- Precisamos? - Perguntou me encarando com curiosidade.
- Não se preocupe com o conteúdo da conversa, apenas espero que fique, é muito importante para mim sobre o que vamos conversar.
- Tudo bem, senhorita mistério. Vou tirar esse suor do corpo. Preciso mesmo, não me recordava como São Paulo consegue ser quente.
- Problemas climáticos, não temos mais como fugir.
A cozinheira pegou as toalhas, uma muda de roupa que trouxe e seguiu na direção do banheiro. Inventei de fazer o mesmo, então saí do seu quarto por uma noite e andei até o da Lia. Não me demorei para pegar as toalhas e logo já estava debaixo do chuveiro.
Assim que a Amélia me disse que viajaria a trabalho para atender um cliente importante na Colômbia, inventei para ela que eu mesma contrataria uma enfermeira já que ela estava atrás disso. Meu plano está feito: se ela ligar para o porteiro, ele falará que não estou sozinha, de quebra ainda consigo ter a conversa com a Emília com mais tranquilidade.
Tive diversas brechas durante o dia para introduzir o assunto, mas falhei em todas, até mesmo inventei de ir ao parque. Será que estou adiando com medo da cozinheira não ter um discurso convincente? Mas o que seria algo convincente? Eu quero a verdade, seja ela qual for. Mesmo se ela confirmar o que fez, quero sentir o seu arrependimento.
Desliguei o chuveiro, me enxuguei rapidamente e caminhei nua até o closet. Procurei um pijama confortável, usei o secador, respirei fundo diversas vezes não por falta de ar, mas em busca de coragem.
Saí do quarto e pensei em passar pelo quarto de hóspedes, mas decidi esperá-la na sala. Porém, para a minha surpresa, quem me espera sentada no sofá é ela.
O clima não está dos melhores, sua respiração é acelerada. A minha cunhada está quase encolhida no canto do sofá enquanto olha para o nada.
Pensei em ocupar o outro sofá, mas tomei a decisão de me sentar próxima a ela. Não demorou muito para ela sentir a minha presença. Olhamo-nos e esperamos para saber quem se atreveria a dirigir as primeiras palavras.
- Vivian, você enjoou do meu tempero? Você deve imaginar que eu sei fazer pizza, não é?!
Segurei o riso. É nítida a sua ansiedade para o assunto principal, mas mesmo assim ela procura tentar me fazer relaxar. Funcionou. Eu só consegui achar graça do seu jeito, da sua pergunta boba e seu semblante de cachorro sem dono.
- Jamais, Mili. Eu posso comer a sua comida todos os dias pelo resto da minha vida que não vou enjoar.
- Então por que decidiu pela pizza?
Como eu explicaria que fiquei chateada por ela ter oferecido o meu jantar especial para a Agnes? Apenas desejei fugir de mais questionamentos e a única maneira que encontrei foi dizendo:
- Esquece a pizza, nós precisamos conversar.
- Hum... pela segunda vez você me diz isso então vejo que o assunto é urgente e sério. O que foi? - Perguntou preocupada.
- Amélia me contou o que a fez pedir para que sumisse da vida dela.
Não vi nenhuma reação que me fizesse desconfiar que eu estou correndo algum perigo. Maria Emília me parece um pouco envergonhada com uma ligeira preocupação.
- Ontem? - Foi o que conseguiu perguntar.
- Na manhã seguinte que você foi embora. Mas isso não importa, só quero ouvir agora a sua versão. Por mais horrível e escandaloso que eu tenha achado você ter deixado a sua própria irmã na cadeia, ainda assim quero saber a sua versão, seja ela qual for. Só peço, te imploro pela verdade.
Não precisei buscar os seus olhos, o seu castanho se misturou ao meu em um prenúncio de sinceridade.
- Eu sempre fui festeira. Na verdade, eu passei a procurar em festas o escapismo para uma jovem que não sabia o que fazer da vida. É difícil achar caminhos, ainda mais após perder a minha maior orientadora, minha mãe. Nunca fui forte como a Amélia. Minha mãe me chamava de bagunça e a minha irmã de organização. Digo tudo isso não para me justificar, mas para te explicar como parei na festa de um empresário milionário que mais tarde descobri ser ligado ao tráfico internacional de drogas.
Eu prestava atenção em cada palavra e me coloquei na posição de desconfiar de tudo. Entre as duas, preciso acreditar primeiro na minha noiva.
- Era normal aceitar qualquer convite para festa, logo jamais recusaria uma puro luxo em um dos bairros mais ricos de Campinas. Parecia seguro, nunca me passou pela cabeça que um lugar tão rico como aquele poderia mudar a minha vida para sempre. Se eu soubesse, jamais teria convidado... - interrompeu-se desviando o olhar por alguns segundo, mas retomando em seguida. - outras pessoas. Eu fui sozinha pois encontraria os meus amigos lá. Quer dizer, não eram bem meus amigos, apenas os conhecia de outras festas. Mas, eu precisava muito ir e a entrada com eles era certa.
Seus dentes superiores morderam o seu lábio inferior como quem prende um segredo a sete chaves.
- Chegando lá, o irmão desse empresário se encantou por mim. Claro que eu logo o dispensei. Mas, diferente de outras vezes, porque até ali nenhuma pessoa havia insistido comigo, não daquela forma ostensiva, ele continuou me perseguindo pelos lugares que eu caminhava. Quando percebi que não me deixaria em paz, decidi ir embora da festa. Amélia, de forma surpreendente, me emprestou seu carro. E foi ali que o meu pesadelo começou.
Maria Emília fechou os seus olhos. Vejo o seu esforço para não chorar ao se recordar do que aconteceu. Suas mãos tremiam, sua respiração acelerou.
- Vou buscar uma água, você me parece nervosa. Acho melhor continuarmos essa conversa depois...
- Não! Não preciso de água. Agradeço a preocupação, mas eu vou e preciso continuar. Não foi para isso que você me chamou? Para tentar entender o meu lado? Você só vai entender como eu e a Amélia chegamos até aqui quando me ouvir.
Após respirar fundo, voltou a olhar os meus olhos e relatar:
- Assim que coloquei a chave na porta do carro da minha irmã para abrir, o homem me pegou por trás e colocou uma arma na minha cintura. Como estacionei o carro na rua, estava muito escuro e senti muito medo. Você já deve imaginar que fui obrigada a entrar no carro da Amélia e ir com ele. Dirigi até a casa dele morrendo de medo, a pistola era apontada para mim a todo momento e as mãos... aquelas mãos nojentas apertava partes do meu corpo. Pensei em deixá-lo me matar, acho que até cheguei a pedir por isso. Foi uma dúvida cruel querer sobreviver ou morrer, na metade do caminho já estava em completo choque. Quando dei por mim, estava no quarto da casa dele. Foi tudo no automático enquanto a pistola pairava ora na minha cabeça ora minha cintura.
O brilho corriqueiro nos olhos da minha cunhada apagou-se pela primeira vez. Estavam opacos, tristes, carregando uma dor que seus lábios se torturavam ao falar:
- Ele me tinha dominada pelo medo. Me agarrei a chance de ser libertada ou morta de uma vez depois que ele fizesse o que quisesse comigo. Lembro-me que fui tirando a minha camisa social lentamente, queria ganhar tempo para um milagre acontecer. E aconteceu...
Respirei aliviada assim como a cozinheira também o fez. Só de pensar que alguém poderia ter ido ao mal total contra ela, o ódio começava a tomar conta de mim.
- A mulher dele chegou. Na hora que ele olhou assustado para sua esposa, eu aproveitei para tomar a arma da sua mão. O objeto voou longe. Com raiva, o infeliz entrou em luta corporal comigo no chão. Quando consegui me levantar, corri, mas fui encurralada por ele novamente. Recebi um soco e esperei por mais. Dois disparos o fez perder a vida na minha frente.
Pela primeira vez, algumas lágrimas caíram. Emília não me deixou tocá-la no rosto quando tentei enxugá-las, parece não querer a minha solidariedade.
- Eu não matei aquele homem, mas se tivesse a oportunidade o faria. Juro que o faria. Mas eu não atirei, não o matei. Te juro, Vivian.
- Eu sei, Mili. Acredito em você. Mesmo que tivesse o feito, seria em legítima defesa. Seus olhos não mentem, eu tenho certeza da sua inocência e acho até que posso compreender a confusão.
Sozinha, ela enxugou suas próprias lágrimas. Meu desejo era abraçá-la, protegê-la do mundo em meus braços e nunca mais deixar que o mal viesse ao seu encontro. Porém, preferi esperar o seu tempo, não a toquei.
- Não, você ainda não consegue compreender. Agora eu imagino que você queira saber o motivo pelo qual eu deixei a minha própria irmã ser presa no meu lugar.
Sim, eu ansiava por essa resposta. Eu poderia esperar, vejo o quanto tudo isso a tortura, mas não consegui dizer que podíamos continuar em outro momento pois ela continuou falando:
- A única coisa que a mulher dele disse foi para eu ir embora. Ela parecia até fria para quem havia atirado no próprio marido. Eu, desesperada, não pensei duas vezes, desci o mais rápido que consegui, peguei o carro da Amélia e saí como uma louca daquele local. Acelerei pelas ruas que nem conhecia direito até que avistei a rodovia, onde consegui sentir um certo alívio. Fui para a casa de um amigo, não queria encarar minha irmã porque eu estava transtornada, com medo dela arrancar o que aconteceu de mim. No fim eu sei que Amélia iria me culpar por ter ido à festa... Continuando, dias se passaram e eu achei que o assunto tinha sido encerrado pois sei que o cara nem prestava, até que uma semana depois eu recebi a ligação de uma amiga da Lia me dizendo que ela foi presa na porta da faculdade. O que eu não me lembrava era que o filho da puta tinha pegado um cartão da Amélia no carro e guardado no bolso. Só depois que associei tudo e fiquei sabendo que a mulher estava pagando de viúva que não estava o local na hora do crime. Então, eu tomei a pior decisão da minha vida...
- Deixar a sua irmã na cadeia no seu lugar - completei quando ela quase se engasgou pelo choro que queria surgir.
- Não... eu queria provar a minha inocência, pois sabia que se fosse presa ou morreria pela mão do empresário traficante, afinal de contas o irmão dele morreu, ou ficaria anos e anos presa. Amélia não me ajudaria, isso ficou claro quando eu fui visitá-la pois foi a primeira coisa que disse. Então meu desespero se transformou em uma estratégia delicada, uma decisão difícil. Eu quis me dar uma chance para não me sujar com a justiça e ao mesmo tempo tirar o mais rápido possível a minha irmã da cadeia. Apenas eu sabia como tudo aconteceu e com a ajuda de um amigo tinha certeza de que conseguiria. As coisas complicaram mais quando a mulher que o matou ateou fogo no laboratório para que a arma usada não fosse periciada. Era a minha esperança para as coisas serem mais rápidas, eu fui atrás da arma, indiquei o local, eu lutei...
A emoção de Emília se transportou para mim. É como se eu tivesse no lugar dela, nas suas decisões tomadas, no seu desespero. Não sei se eu faria a mesma coisa, mas não me sinto no direito de julgar negativamente as suas atitudes. Talvez eu tomaria a mesma decisão.
- Eu já não tinha encontrado câmeras, testemunhas ou qualquer outra coisa. Acha que não pensei em me entregar? O tempo todo. Meu amigo não deixava. Um ano vendo minha irmã inocente na cadeia, sem poder visitá-la porque ela não permitia, seu ódio aumentando e eu vendo todos me julgando, amigos, vizinhos, parentes distantes, todos. Eu estava praticamente sozinha. Não completamente sozinha, eu tinha o meu amigo de infância e da vida toda, Henrique.
Guardei o nome comigo, mesmo curiosa para perguntar mais sobre seu amigo. Preferi não interrompê-la, os detalhes me interessam. Diferente de Amélia, Emília detalhava.
- Minha única esperança se tornou encontrar aquela mulher e foi quase um ano passando por diversas situações até alcançar o meu objetivo. Ela estava escondida no interior do Rio Grande do Sul porque eu fiz o irmão do traficante desconfiar dela no começo de tudo. Talvez isso tenha influenciado o seu desespero, mas no fim acho que acabou se tornando a melhor estratégia porque ela sabia da minha existência, ajudou na minha denúncia, só não pensou que eu tinha uma gêmea. Ao encontrá-la, percebi que ela tinha mais medo do traficante do que da polícia, dei para ela o que queria: dinheiro para fugir de verdade. Vendi todas as joias da mamãe e as duas casas na praia da família. Dei tudo para ela. Em troca, me entreguei para a polícia com um vídeo da sua confissão e outro vídeo completo que antes estava cortado com sua entrada e saída da casa.
Lágrimas rolavam pelos seus olhos e começavam a encher os meus também. Peguei em suas mãos sorrindo. Eu sempre soube que ela era inocente. A Emília que conheço jamais mataria alguém e destruiria a vida da irmã a troco de nada. Ao não sentir mais resistência aos meus toques, a puxei para um longo abraço. Desabamos juntas.
- Eu te juro, Vivian. Te juro que nunca quis o mal da Amélia. Eu a protegi a todo momento que esteve lá dentro. Peguei todo dinheiro que nossa mãe deixou para os meus estudos e paguei sua proteção. Vi em um filme que nos presídios tem sempre duas quadrilhas rivais, então entrei em contato com a outra. Foi arriscado, tenho plena consciência de que poderia dar tudo errado, mas algo me dizia que tudo ficaria bem no fim. Só que não ficou, eu a perdi. Mas mesmo assim, fico feliz por ela ter alcançado os seus sonhos, seguido sua vida.
Eu passava minhas mãos pelas suas costas na tentativa de acalmar o seu coração pesado. Ainda abraçadas, continuei nossa conversa:
- Você não tem mais contato com essa mulher que acabou te ajudando? A Lia não sabe de tudo isso? Por que tanto ódio se no fim deu tudo certo?
- Não, não tenho contato porque ela morreu na Europa meses depois. Provavelmente o empresário e irmão que mandou assassiná-la. Tudo foi caindo no esquecimento, menos o sofrimento de Amélia. É por isso que não a julgo por me odiar tanto. E se a minha irmã sabe que sou tão inocente quanto ela? Claro que sabe. Mas não acredita. Acha que fiz tudo isso para me safar da cadeia, comprei a confissão da mulher para falar o que eu queria. Pelo julgamento da justiça eu fui inocente, mas pelos olhos de Maria Amélia eu sou culpada. Achei que ela já teria mudado sua visão, o tempo poderia fazer esse milagre, mas infelizmente temos que sua mágoa jamais passará.
Apiedei-me ainda mais pela Emília. Chorei por ela, pela Lia, por toda situação.
Não sei se tenho tempo de vida o suficiente para vê-las unidas novamente. Posso estar melhorando, mas a qualquer momento sei que meu coração pode parar. Isso também me dói. Talvez seja essa a minha missão: convencer e mostrar para a mulher que pretendo unir o resto de minha vida que às vezes temos pouco tempo para perdoar, para viver, fazer tudo valer a pena.
- E agora, Vivian? E agora que você sabe de tudo isso? A minha versão de como as coisas aconteceram? - Sussurrou no meu ouvido.
Separei-me dela sentindo um certo arrepio pela sua voz. Sorri ao olhar seu rosto. Aquela nuvem carregada de chuva clareou mostrando seu brilho conquistado com muita luta.
- Agora é fazer a Lia acreditar em você como eu acredito.
- É melhor não, Vivi. Deixe essa história cair no esquecimento como Amélia deseja. Agora que te contei a verdade e você me entendeu, melhor que eu vá embora como ela mandou.
Ao sentir seu distanciamento repentino, me sentei em seu colo trazendo o seu rosto para me conectar novamente com seus olhos e unir nossas almas.
- Vai desistir? Eu terei que me encontrar escondida com você pelo restinho da minha vida? Um dia eu vou me casar com a sua irmã, quero te ver na minha festa. Eu quero que a gente seja uma família.
Emília se aconchegou no meu peito me abraçando forte pela cintura.
- Ei, o que foi? - Perguntei fazendo carinho no seu cabelo.
- Nada, querida. É só que... eu quero muito me aproximar da minha irmã, mas não quero te envolver em nada mais. Achei que quando Amélia te contasse o que aconteceu, você automaticamente se afastaria de mim. Estou... surpresa.
- Não deveria. A minha intuição nunca falha. Assim que bati o olho em você senti... eu senti... senti algo diferente. Curiosidade por nunca ter sido mencionada, talvez. Desejo por entender os seus mistérios, pode ser. Agora que está tudo resolvido, meu objetivo se tornou ajudá-las. Sua irmã gosta de você. No dia em que ela me contou o que aconteceu, disse que só não te queria ao lado dela, mas nunca quis o seu mal. Vai ser fácil fazê-la acreditar, eu consigo dobrar qualquer pessoa.
A cozinheira deu risada que saiu abafada. Saindo do nosso abraço, sorriu timidamente para mim.
- Eu que o diga, não é dona Vivian?! Tento negar os seus pedidos, mas é só você jogar esse olhar de cachorrinho que caiu da mudança que me derreto todinha.
- Qual olhar? Esse?
Pisquei os meus olhos e fiz um bico. As covinhas apareceram entre uma piscada e outra pelo sorriso largo.
- Esse mesmo. Eu seria capaz de construir um foguete para buscar qualquer estrela que você me pedisse.
- Hum... bom saber. Mas eu não pediria uma estrela porque seus olhos já são tão brilhantes e bonitos quanto uma, então não teria sentido pedir o que já tenho.
Meu coração disparou e não foi pela minha condição de saúde. O que eu disse? Nervosa pelo seu brilho aumentando, mudei rapidamente de assunto com a primeira besteira que veio na minha cabeça:
- Mas eu quero mesmo é a resposta da pergunta que te fiz antes de começar a te atacar com as cócegas.
- Qual? Não me lembro - Tentou disfarçar.
- Maria Emília, não brinca comigo. Olha que eu vou te fazer chorar de rir de novo ou vou te olhar daquele jeito.
- Não, por favor.
- Então me responda: o que te fez ficar na Argentina? O que te fez sossegar em Buenos Aires?
O sorriso da cozinheira foi diminuindo, mas não encerrado. Hesitou, fez carinho na minha cintura, mas por fim disse:
- O que pode prender uma pessoa em um lugar mesmo que a liberdade pareça mais sedutora?
Dessa vez o sorriso que acabou se desfazendo foi o meu.
- Uma mulher? Você tem alguém?
Senti a minha boca seca, engoli o ar com medo da resposta.
- Uma mulher sim, mas não estou com ela. A conheci na Europa, ela recebeu uma proposta para trabalhar na capital argentina, acabei vindo com ela e ficamos juntas por 8 anos.
- 8 anos? Caramba, muito tempo. Por que vocês se separaram?
- Porque eu não a amava como ela merecia. Foram 8 anos entre idas e vindas, não uma relação sólida, bonita, feliz. Nos últimos dois anos viramos mais amigas do que qualquer outra coisa e foi assim que ela finalmente percebeu que não era amor de verdade.
Cheguei a tirar todo o ar do meu pulmão de tão aliviada que fiquei, mas logo pensei que era besteira pois não tinha a ver com a vida amorosa da minha cunhada. Cunhada. Amiga e cunhada. Nesses segundos também me questionei: e se ela está mentindo e ainda está com essa mulher? Seria estranho ela ter pedido guarida aqui, estaria na Argentina, não é?! O que poderia ser ruim, pois eu começaria a desconfiar da sua volta.
Vivian, deixa de bobagem! Devo estar ficando louca. Ela acabou de te fazer todas as revelações que pediu com uma sinceridade genuína. Mentiria por quê?
Desci do seu colo me joguei ao seu lado como um ato natural, mas por dentro senti um incômodo sem explicação. A cozinheira virou a cabeça para mim e eu fiz o mesmo. Cara a cara.
- Você deve ser muito cafajeste mesmo - falei a primeira coisa que veio na minha cabeça. - Aposto que não conseguia ficar com uma mulher só e isso que gerava essas idas e vindas.
- Mas de onde você tirou que eu sou cafajeste?
- Ué, foi o que você mesma disse para a Luciana aquele dia. Sua fama não é das melhores por aí, Maria Amélia.
- Só fiz aquela cena porque a Luciana olhou estranho para a nossa interação e queria evitar que ela falasse uma interpretação errada para Amélia.
- Não... não tinha... só estávamos nos divertindo como duas amigas... - suspirei e voltei para o assunto anterior brincando - safada, cafajeste, sem vergonha e sedutora, é isso que você é.
Emília soltou uma risada curta e balançou a cabeça em negação.
- Nunca fui santa admito, entretanto nunca enganei ninguém. Mamãe dizia que eu era assim porque tinha medo de me apaixonar, de amar e ser amada. Talvez tenha sido a forma que encontrei para não sofrer por amor.
- E ela estava certa?
- De certa forma sim.
- Por quê? - Indaguei observando a sua pupila dilatar de tão perto que eu estava.
- Porque o amor realmente traz muito sofrimento. Tenho comigo um amor que nunca se realizará.
O meu erro foi continuar olhando para aqueles castanho-claros que são como uma armadilha para confundir os meus sentimentos. É a Emília ou a Amélia que está na minha frente? Com muito sacrifício, consegui me descolar dos seus olhos, mas acabei parando na sua boca. A minha que antes estava seca, acabou salivando, mordi o meu lábio inferior para tentar me conter.
Para a minha sorte, ou azar, vi os seus lábios se moverem e sua voz que parecia longe dizer:
- Pizza.
- Oi? - Foi o que eu consegui dizer após sair do transe.
- A pizza que você queria. Já pediu?
Levantei-me procurando alguma direção na minha vida.
- Não, eu nem me lembrei. Para se bem sincera, não estou com fome.
- Você está bem? - Perguntou se levantado e segurando a minha mão preocupada. - Foi muita informação, não é? Está sentindo alguma coisa? Quer que eu chame a Agnes? Melhor irmos para o hospital.
- Não, não precisa, Mili. Eu estou ótima. Só sem fome para uma pizza mesmo. Outro dia você mesma pode fazer uma, quero ver se tem talento para isso também.
- Desafio aceito.
A cozinheira está agindo como se não tivesse acontecido nada. Mas não aconteceu mesmo! Para ela sou apenas a sua cunhada, eu que estou ficando louca.
- Ótimo - consegui sorrir dissipando a conversa sobre o seu relacionamento e as imagens anteriores da minha mente.
- O nosso filme ainda está de pé? Podemos fazer uma pipoca já que você não está com fome.
- Sim, pode ser. Vai lá preparar enquanto eu escolho alguma coisa.
- Pode ser uma comédia romântica? - Perguntou começando a deixar a sala ao soltar minhas mãos.
- Eu vou pensar no seu caso. Não se esqueça que a última palavra é sempre minha.
Escutei apenas a risada alta da cozinheira já longe.
"Vivian... Vivian! Você não pode ficar confundindo as duas! Um dia chama a Amélia de Emília, agora queria beijar a sua cunhada por confundi-las. Não faça besteira, sua noiva é a pessoa certa, a mulher que você esperou por anos", conversei baixo.
No fim escolhi o clássico ‘Um Lugar Chamado Notthing Hill'. É mais uma coisa que Emília se distingue da irmã já que Amélia odeia qualquer filme do gênero. Sorte a minha que agora tenho uma cunhada que gosta. Cunhada, frisei mais uma vez no dia.
Fim do capítulo
Não, eu não abandonei, jamais faria isso. Ganhei uma férias inesperadas no final do ano e mais alguns dias, então decidi viajar e curtir um pouco o dia a dia. Mas voltei! Por hoje é isso!
Feliz e próspero 2026 para todas!
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