Capitulo 19
Por Bia:
Fazer poses, cliques e cenas depois de tudo que Luísa me contou foi um verdadeiro desafio. Nada como encarar uma lente e fingir plenitude enquanto sua mente grita como um alarme de incêndio. Meus pensamentos circulavam entre flashbacks e o eco desconfortável da nossa conversa no almoço. Em um surto breve de raiva, senti vontade de me levantar e ir embora quando ela sugeriu que eu poderia usar a doença da mãe dela como gatilho para engajar qualquer tipo de publicidade.
Sim, ela teve a ousadia. Mas não fui embora. O lado que venceu foi o que acredita que ela não é completamente desprovida de noção. E não fui também porque sei que ela está prestes a entrar no tipo de furacão que arranca telhado, alma e tudo mais. A rede de apoio de Luísa se resumia a uma mãe que, apesar de me olhar como quem encara uma barata voadora, era sua única figura de sustentação. E ela estava adoecendo.
***
Os dias seguintes passaram arrastados, todos eles carregados da mesma mistura de indignação e preocupação. A rotina se manteve, as campanhas seguiram, os eventos vieram e foram. Mas Luísa? Sumiu. Não teve um oi, não teve uma indireta, nem mesmo aquele olhar atravessado. Tentei várias vezes e mandei diversos convites de almoço. Todos recusados com o clássico "tenho muito trabalho". Claro, Luísa estava tentando me evitar. Tentativa bem-sucedida diga-se de passagem. Para não despertar suspeitas das fãs sempre atentas, eu ocasionalmente postava fotos de duas canecas de café ou duas taças de vinho, marcando-a nas imagens. Encenação necessária para manter as aparências.
***
Em uma quarta-feira cinzenta lá estava eu, sentada com um cappuccino nas mãos, de frente para a mesa do Pietro, fingindo que estava 100% presente enquanto ele despejava um monte de propostas de publicidade na minha direção. A verdade? Metade de mim estava sentada ali. A outra metade estava perdida em devaneios. Ou melhor, em imagens nada castas de Luísa. Fazia quase um mês que eu não beijava uma boca. E a última tentativa de sex* havia terminado em um belo nada. Mas minha pele ainda lembrava da dela. Macia, quente, com aquele perfume gostoso que grudava em mim. Meu corpo pedia bis, e minha mente... bem, minha mente me xingava em vários idiomas.
— Bia! Hello! — Pietro estalou os dedos na minha frente, trazendo minha alma de volta ao recinto.
— Oi! Desculpa! Foi um dia puxado ontem — disse, tentando manter o ar de quem está 100% funcional.
Pietro me olhou como quem não compra nada do que ouviu.
— Sei... você não está aprontando e traindo a Luísa, né?
— Que isso, Pietro! Estou de casa pro trabalho e do trabalho pra casa. E outra, não tem como trair alguém se nem é um relacionamento real e...
— Bia... independente de ser de verdade ou não, você sabe que a...
Antes que pudesse terminar a frase, o celular dele começou a tocar uma música eletrônica insuportável. Ele revirou os olhos e atendeu.
Fiquei ali, terminando meu cappuccino e encarando Pietro respondendo "sim", "não", "aham" para a pessoa do outro lado da linha. A julgar pelas expressões de tédio e pelo modo como ele se balançava na cadeira, não devia ser coisa boa.
Quando desligou, girou a cadeira dramaticamente e me encarou.
— Nosso sonho matinal se tornou realidade. A Ângela acabou de ligar nos convocando pra uma reunião emergencial na Pelle Serenità.
— Ixi — resmunguei, prevendo que Luísa também estaria lá. — E vai ser quando?
— Agora — disse ele, levantando-se apressadamente. — Vamos logo porque o trânsito neste horário é uma loucura.
E lá fomos nós no carro de Pietro. Eu com minha ressaca emocional, Pietro com sua playlist rave, e no ar um pressentimento de que esse encontro ia render.
***
Quando entramos na sala de reuniões da Pelle Serenità, todos já estavam posicionados ao redor da mesa. O clima era pesado e as expressões nada amistosas. Senti meu corpo sendo fuzilado por olhares que pareciam atravessar minha pele, e me questionei se havia feito algo de errado. Mas não, estava cumprindo tudo. Horário? Ok. Vídeos? Entregues. Stories? Postados. Então por que, diabos, o ar parecia tão denso ao meu redor?
Me acomodei na cadeira, tentando parecer indiferente, e procurei pelo olhar de Luísa. Ela desviou o rosto na mesma hora. Ótimo. Minha manhã prometia. Valéria estava ao lado dela, com o semblante fechado, encarando um ponto fixo na parede como se estivesse a milhas de distância dali, alheia a qualquer coisa ao seu redor.
— Convoquei todos para esta reunião porque tivemos algumas mudanças que precisamos discutir em grupo — Ângela iniciou, com aquela voz firme e ensaiada de quem gosta de ter o controle. — Roger teve problemas com a fazenda que estava reservada para o ensaio que acontecerá daqui a duas semanas.
— Cancelaram a reserva — acrescentou Roger, pigarreando. — A prefeitura interditou parte da propriedade depois de uma denúncia ambiental. Parece que havia desmatamento irregular nos arredores, e como a data prevista coincide com o período de férias escolares, o movimento turístico vai estar intenso, então também não conseguimos remarcar em nenhum hotel fazenda próximo dali.
— Não podemos alterar a data e manter o local, esperando esta situação com a prefeitura se normalizar? — questionou Pietro, franzindo a testa.
— Não — Roger rebateu, curto e grosso, já meio ofendido.. — Renan está com a agenda lotada até o fim do ano e precisa ser ele como videomaker.
Segurei o riso, imaginando o “motivo real” para Roger fazer tanta questão da presença de Renan… E pela maneira como falou com Pietro, meu amigo já deveria ter rodado.
— Vamos parar com tanta enrolação e ir direto ao ponto dessa reunião — Valéria disparou de repente, deixando transparecer a impaciência. Seus dedos tamborilavam sobre a mesa.
— Exatamente — concordou Ângela, retomando a fala. — Precisávamos de vocês aqui hoje porque conseguimos um novo local.
— Não estou entendendo — Pietro insistiu. — Se a questão está resolvida, por que a reunião?
— O motivo é justamente o local — disse Ângela, fazendo uma breve pausa dramática. — Conseguimos reservar uma fazenda no interior de Vintervile.
— Oh céus… e lá vamos nós — murmurou Pietro, soltando um suspiro longo.
Meu coração disparou. Senti os olhares se virarem para mim como facas. Uma onda quente de raiva começou a subir, apertando meu peito. As lembranças vieram todas de uma vez: Helena, Marcos, Isabela… e aquele político picareta. Uma bola se formou na minha garganta.
— A principal parte não vai se manifestar? — Valéria provocou e um sorriso enviesado surgiu no canto dos lábios.
— E eu preciso? — rebati, encarando-a. — Não tenho problema algum com o local escolhido.
— Você não, querida — disse Ângela, soltando a frase com uma ironia mal disfarçada. — Mas nós sim. Vincular novamente esse lugar a você e à Pelle Serenità pode azedar os negócios, darling.
— Você conseguiu só em Vintervile, Roger? — Pietro perguntou, claramente preocupado.
— Sim. Passei segunda e terça só nisso — respondeu Roger, com um olhar cansado. — Tentei de tudo.
— Bia, você não se importa em reacender esse escândalo? Você… amiga de um político corrupto! — Luísa lançou as palavras como uma acusação. Era a primeira vez que me dirigia a palavra naquela manhã e eu preferia que ela tivesse continuado em silêncio.
— Não — respondi, sentindo meus olhos arderem. — Não me preocupo. Eu não fiz absolutamente nada errado. As manchetes na época foram sensacionalistas. Eu só tentei ajudar. Mal conhecia aquele sujeito e… — suspirei, sentindo um peso de exaustão. — Sinceramente, estou cansada de me justificar. Façam onde quiserem. No meio do mato ou no jardim da Babilônia, estou pouco me importando. Só quero terminar logo esse trabalho.
Luísa arregalou os olhos, surpresa com meu tom e com a dureza da minha resposta. Pois é, Luísa, eu também canso.
— Então, precisamos ser rápidos — disse Ângela, tentando retomar o controle e amenizar o clima — Se a Bia não se importa… e você, Valéria? Está disposta a arriscar e fazer neste local?
— Luísa decide — declarou Valéria, soltando um suspiro enquanto se recostava na cadeira com indiferença.
A sala parou. Acho que até o Wi-Fi deu lag.
Pietro ergueu as sobrancelhas e Ângela ficou com a boca meio aberta.
Até eu arregalei os olhos, porque naquele momento, todos ali sabiam: Luísa tinha acabado de ganhar as rédeas da situação todinha.
Luísa me lançou aquele tipo de olhar que você sente na espinha.
— Vamos fazer lá sim. E quem sabe dessa vez a Bia consegue sair de Vintervile sem arrumar outro escândalo, não é mesmo?
Eu soltei um riso irônico.
— Querida, se eu for cair em outro escândalo, faço questão de te levar comigo.
— Chega! Ninguém vai cair em escândalo nenhum — Valéria disse com aquela voz forte, de quem estava acostumada a ser ouvida e obedecida.
— Valéria está certa — continuou Ângela, ajeitando os óculos com a ponta do dedo, numa tentativa meio teatral de retomar o controle. — E como nas últimas semanas não houve nenhuma aparição de vocês juntas, acho que seria interessante… vocês fazerem algo para o bem dos negócios. Aumentar o hype, como dizem.
A palavra “hype” saiu da boca dela como quem experimenta sushi pela primeira vez e finge que gostou. A vontade de rir coçou na minha garganta.
— Claro — Luísa falou, de maneira irônica, enquanto girava o celular na mão. — Podemos sair para almoçar e a Bia fazer os maravilhosos posts dela.
Ah. Sorri.
— Deixei meu carro no escritório do Pietro. Vim com ele — falei, seca, com aquela objetividade que serve de armadura. Eu sabia onde aquilo ia dar e preferia não dar palco.
Pietro se remexeu na cadeira, provavelmente desejando estar em qualquer lugar.
Valéria então se levantou, com aquele ar de matriarca impiedosa de novela mexicana, ajeitando a bolsa no ombro.
— Então combinem como farão isso no seu escritório, Luísa. — A voz dela cortou no ambiente. — Vou dar essa reunião por encerrada. Todos podem voltar aos seus trabalhos.
O silêncio que veio depois foi quase constrangedor. As cadeiras rangendo, pessoas evitando o olhar umas das outras, e aquele eco invisível de “ufa” pairando no ar.
Pietro se aproximou meio de lado, claramente sem saber se me deixava sozinha ou se oferecia ajuda.
— Quer que eu te espere no carro? — ele perguntou, naquele tom de quem sabia que a situação ali tinha virado território minado.
Soltei um suspiro, ajeitando a alça da bolsa no ombro.
— Não. Me espera no saguão, beleza? Prometo não demorar pra morrer — respondi com um sorriso torto.
Ele soltou uma risada abafada e saiu.
Fui andando pelos corredores e me peguei pensando em como, diabos, a gente tinha chegado nesse ponto. De uma conversa honesta, onde eu segurei a mão dela e escutei sobre a mãe… pra isso. Esse ringue de farpas e alfinetadas. Tinha algo ali que nem a gente tinha coragem de nomear, e o problema é que o não dito sempre pesa mais.
Bati na porta do escritório dela, ouvindo a voz firme do outro lado:
— Entra.
Abri a porta e encontrei Luísa em pé, de costas, mexendo em umas pastas sobre a bancada de apoio. O cheiro dela, aquele perfume amadeirado com fundo adocicado, bateu em cheio e eu quase rolei os olhos de tão clichê que era o efeito.
Ela se virou e me olhou de cima a baixo, como quem avalia não só a roupa, mas o humor da pessoa.
— Você tá muito nervosa hoje, hein Bia… — disse, com um leve sorriso de canto, a voz carregada de provocação.
Arqueei uma sobrancelha, me apoiando no batente da porta.
— E você está muito perceptiva. Mas parabéns, Sherlock.
Ela deu dois passos na minha direção, devagar, como quem não tem pressa e sabe exatamente o efeito de cada movimento. O cheiro do perfume dela chegou mais forte ainda, prejudicando de vez minha concentração.
— O almoço hoje não vai rolar mesmo — ela disse, cortando o assunto sem pestanejar. Os olhos fixos nos meus. — Com o showzinho na reunião, até esqueci que tenho reunião com o jurídico em vinte minutos.
Parei de fingir indiferença e a encarei de frente, com um sorriso malicioso.
— Quer saber? Já que o almoço foi pro saco e a reunião foi um festival de indiretinha barata… — comecei, tirando o celular do bolso e passando o dedo pela tela, mais pra não fazer besteira do que por uma necessidade real. — A gente podia jantar hoje.
Ela ergueu uma sobrancelha, surpresa com a minha proposta direta. E antes que ela tentasse levantar mais uma provocação, resolvi me adiantar e completei:
— Inclusive, você comentou que eu estou nervosa e eu conheço um jeito bem gostoso de aliviar essa tensão toda, Luísa. — Minha voz saiu meio rouca, meio debochada. Dei um passo para frente, me aproximando e encurtando ainda mais a distância entre nós.
Vi o rubor se espalhar pelo rosto dela. Luísa desviou o olhar por um segundo e mordeu o lábio inferior, disfarçando um sorriso. O corpo dela reagiu antes do cérebro processar, se inclinando de leve na minha direção.
— Saiba, Bia, que você hoje está fazendo progressos. Geralmente você é pretensiosa, mas hoje perdeu completamente a vergonha na cara, né? — a voz dela saiu trêmula.
— Não é só hoje. — respondi, aproximando-me ainda mais. — E, pelo jeito, você não parece realmente estar ofendida e reclamando disso.
— Você é inacreditável. É melhor ir embora. Vou acabar me atrasando. — murmurou, mas a voz saiu um tom mais suave do que ela pretendia.
Olhei para ela intensamente e pude ver Luísa respirando fundo, tentando recuperar o controle.
— Me manda mensagem mais tarde e vejo — falou, virando-se rápido e desviando o olhar, como se tivesse medo de dizer ou fazer qualquer outra coisa.
— Vou mandar — prometi, recuando em direção à porta. — E você vai responder.
— Quanta confiança... — ela murmurou, mas não negou.
Sorri e saí da sala, sentindo aquele calor familiar subindo pelas costas e um frio na barriga que era parte nervosismo, parte empolgação.
Pietro já me esperava no saguão, e ao me ver, levantou as sobrancelhas.
— E aí?
— Depois te conto — respondi, sem parar de andar. Porque, se eu ficasse mais dois minutos naquele prédio, talvez eu não conseguisse resistir à ideia de voltar naquela sala e cometer uma loucura.
Fim do capítulo
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Dessinha
Em: 05/12/2025
Aí que ódio da Bia ceder tantooo!! A Luísa é uma safada que fica sempre alfinetando a Bia, poxa :/ Luísa tem que se ligar, e que essa viagem faça ela enxergar a Bia de verdade e peça desculpas pelo julgamento infeliz que vem fazendo dela.
MalluBlues
Em: 18/12/2025
Autora da história
:( ela vai... aos poucos ela muda esse jeito dela.
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MalluBlues Em: 18/12/2025 Autora da história
:( ela vai... aos poucos ela muda esse jeito dela.