Capitulo 18
Por Luísa:
A minha tão sonhada tranquilidade de almoçar em casa foi assassinada sem piedade. E a criminosa? Bia Albuquerque. Ela estava sentada bem à minha frente, dona de si e da salada, se servindo como se fosse dona da casa.
Ela me olhava com aquele ar divertido, como se fosse a protagonista de uma comédia romântica e eu, claro, a coadjuvante ranzinza que precisa aprender a amar. A ironia? Eu só queria silêncio, paz e uma tarde livre pra colocar a vida em ordem. Mas não, o universo tinha outros planos. Planos barulhentos e com um batom vermelho impecavelmente lindo.
Eu tinha tanta coisa para resolver. Tirei a tarde para organizar o cronograma de acompanhamentos terapêuticos que minha mãe precisaria iniciar a partir da próxima semana. Valéria, mais uma vez, tinha cometido um pequeno erro, mais um daqueles episódios que ela insiste em chamar de "lapso de memória". Doce eufemismo para um diagnóstico que caiu como um piano na minha cabeça.
A consulta com o neurologista Rubens, no hospital referência de Porto Grande, não deixou espaço para dúvidas. Alzheimer em estágio inicial. E ali, no consultório, mesmo tentando manter a postura, tudo em mim gritava por um canto escuro onde eu pudesse simplesmente desaparecer.
O olhar que minha mãe lançou ao sairmos da sala era estranho. Vazio. Quase transparente. Ela olhava através de mim, como se eu fosse um holograma. Parte de mim queria correr e abraçá-la, outra parte queria gritar de raiva por não poder fazer nada além de seguir a cartilha médica.
Voltei pra casa com os papeis e prescrições. Meu plano era me trancar, respirar fundo e tentar dar conta da maratona burocrática que me aguardava. Mas Bia, claro, tinha outros planos. Ela era o oposto do silêncio. Uma tempestade de gloss, perfume e ideias "maravilhosas" para storys.
— Está sem fome, amor? — ela perguntou com aquele olhar que misturava deboche e ternura.
— Estou com pouco apetite — respondi, encarando o prato quase vazio como se ele fosse me salvar.
— Pois eu prometo te deixar em paz se você almoçar bonitinho e, quem sabe, der uma voltinha comigo nesse jardim lindo pra fazermos um story. O que me diz? — ela falou como quem oferece um acordo de paz.
Soltei um suspiro e revirei os olhos.
— Quer saber? — disse, pegando o pegador e colocando um pouco de salada no prato — Por hoje, eu aceito. Tenho muitas coisas pra fazer. — E, sinceramente, no meio do caos, talvez um story fingindo felicidade fosse exatamente o tipo de anestesia superficial que eu precisava.
Célia tinha solicitado à cozinheira que preparasse um arroz cremoso com lascas de amêndoas e frango ao molho de damasco, que estava absolutamente delicioso. Tanto que, mesmo tentando manter o ar blasé, não pude deixar de notar Bia repetindo o prato com uma naturalidade quase criminosa.
— De sobremesa, temos sorbet de amora com calda de chocolate branco ou chocolate ao leite — anunciou Célia, enquanto Inês recolhia os pratos.
— Vamos querer. Assim damos uma volta pelo jardim enquanto saboreamos a sobremesa, não é? — Bia disse me olhando como quem joga charme de graça, e ainda teve a audácia de piscar. Piscar.
— Claro. Por favor, Inês. Se puder nos trazer. — respondi, com a voz embargada entre a formalidade e o desejo de desaparecer dali.
— Com certeza, Dona Luísa — respondeu Inês, com olhos arregalados e um brilho de empolgação que não passava despercebido. Ela ficou tempo demais parada à nossa frente. Claramente tinha reconhecido Bia.
— Ah… Inês, essa é a Bia Albuquerque.
— Eu conheço ela! Eu sigo ela nas redes sociais! Sou fã desde a época em que ela fazia aquelas viagens pelo mundo!
Viagens pelo mundo? Humpf…
— Fico feliz que acompanhe meu trabalho. E tenho que elogiar: fazia tempo que não comia uma refeição caseira tão gostosa. Lembrou muito a comida da minha mãe — disse Bia, com aquele tom nostálgico, que dosava entre o sincero e o teatral.
Inês, evidentemente emocionada, trouxe a sobremesa e tirou fotos com Bia. Que eu contei, foram pelo menos umas dez. A essa altura, o sorbet só não virou sopa de amora porque a calda e o ar-condicionado formaram uma aliança estratégica contra o derretimento.
— Foi um prazer, Inês. Vamos, amor? — disse ela, com uma naturalidade que me fez quase cuspir a primeira colherada do sorbet. Amor? Na frente da Inês e da Célia?
Minha boca provavelmente formou um perfeito "O" de surpresa. E, claro, Célia não perdeu a oportunidade de me lançar aquele olhar carregado de curiosidade e um meio sorriso malicioso. Senti meu rosto começar a esquentar de leve.
— Vamos — respondi entre os dentes.
No espaço externo, Bia se transformou numa fotógrafa profissional. Selfies sorridentes, boomerangs ridículos, closes pensativos olhando para uma flor qualquer. E, pasmem, ela parecia genuinamente encantada com o jardim.
Quando terminou a sessão "influencer em casa alheia", nos sentamos em um banco de madeira para terminar o sorbet, que, diga-se de passagem, estava divino. A mistura azedinha da amora com a doçura da calda fazia um carinho na alma.
— Está uma delícia! — ela disse, dando outra colherada com os olhos fechados de prazer.
— Sim, está mesmo — respondi, e não consegui conter um suspiro. Daqueles que escapam quando o corpo está cansado demais para fingir que está tudo bem.
Bia virou o corpo em minha direção, me observando em silêncio, o que me fez desviar o olhar com uma urgência suspeita.
— Juliana disse que te encontrou ontem.
— Quem? — tentei fingir desinteresse, como se meu cérebro não tivesse acabado de gritar "droga" três vezes seguidas.
— Juliana, minha amiga do Bistrô. — Ela insistiu, buscando meu olhar.
— Ah… — murmurei, com um tom falso de casualidade.
— Ela disse que você estava com sua mãe no Hospital Medicina On de Porto Grande.
E aí foi como se alguém tivesse apertado play no filme de terror emocional. Senti um bolo se formar na minha garganta, meus olhos começaram a marejar e a boca travou numa tentativa patética de conter o que já era inevitável.
— Sim… fomos fazer exames de rotina.
— Aham… — ela respondeu, firme, colocando a mão sobre a minha como se quisesse me ancorar de volta ao presente. — E teve algo nestes exames de rotina que te deixou mal?
— Eu… — tentei responder, mas minha garganta resolveu se fechar por tempo indeterminado.
Ela apenas apertou minha mão, e pela primeira vez desde o início daquele teatro, eu desejei que o toque dela não fosse apenas parte do script.
Eu. Eu o quê?
A palavra ficou ali, entalada entre minha língua e meu orgulho. Tentei respirar fundo, mas o ar parecia ter engrossado. Olhei pra frente… fixei em uma fileira de lavandas que Célia insistia em manter vivas mesmo com o calor infernal que fazia e me agarrei aquele roxo desbotado como se pudesse evitar afundar.
— Eu só… — comecei de novo, agora mais baixo — …eu achei que conseguiria dar conta de tudo. Do trabalho, da minha mãe, da vida. Mas tem horas que… — pausei, buscando coragem no fundo do potinho de sorbet.
Bia não disse nada. Só continuou ali, com a mão sobre a minha. Quente. Presente. Sem apertar demais, sem soltar. Era… Era tão reconfortante, droga.
— A gente teve uma consulta com o neurologista Rubens — falei, finalmente. A palavra "neurologista" saiu com gosto metálico, como se tivesse mastigado um pedaço de chave enferrujada.
Senti os olhos dela me observando, mas continuei olhando pra frente.
— Ele confirmou o que o primeiro médico já tinha afirmado… — minha voz vacilou. — Alzheimer. Início.
Falei rápido, como quem arranca um curativo com força pra doer menos.
Bia soltou um suspiro quase imperceptível, e sua mão apertou a minha com um pouco mais de firmeza. Aquele silêncio entre a gente… não era mais tão constrangedor.
— Ela vem piorando? — perguntou com delicadeza, e pela primeira vez, sem nem um pingo de ironia na voz.
Assenti, finalmente encarando seus olhos.
— Ela se perde em casa. Confunde datas. Pergunta pelo meu pai como se ele ainda estivesse vivo… — E, Bia… tem momentos em que ela me olha e… é como se eu fosse uma estranha.
Minha voz falhou de novo. E eu… eu cansei de fingir. Baixei a cabeça, escondendo os olhos, mas era tarde demais. A primeira lágrima já tinha escapado, traidora.
— Desculpa — sussurrei.
— Não pede desculpa — disse Bia, e a mão que estava sobre a minha foi parar no meu ombro, me puxando pra perto num gesto lento e cuidadoso.
Encostei o rosto no ombro dela, rendida. Pela primeira vez em semanas, deixei alguém me segurar.
E, contra todas as estatísticas da minha própria personalidade, não quis sair dali.
Fiquei por alguns segundos reclinada sobre Bia, apenas sentindo o calor da sua pele contra a minha e o cheiro doce e sutil do perfume que vinha dela. Uma fragrância que me dava vontade de fechar os olhos e esquecer do mundo. As lágrimas vieram silenciosas, deslizando pelo meu rosto. Senti sua mão quente e firme limpando-as com cuidado, com uma delicadeza que me desmontava ainda mais.
De repente, uma imagem dura e fria tomou conta da minha mente, um vislumbre catastrófico do futuro, talvez… e me afastei suavemente. Olhei para ela com seriedade, tentando recuperar alguma racionalidade.
— Isso não pode sair daqui — disse com a voz baixa, mas firme.
Ela recuou ligeiramente, o olhar confuso tentando decifrar meu tom.
— Bia, você não pode publicar isso que eu te contei. Nem comentar com ninguém. Muito menos com minha mãe.
— Mas eu nã…
— Estou falando sério — interrompi, tentando conter a urgência que tremia nas minhas palavras. — Esquece qualquer tipo de publicidade em cima disso e…
Bia se levantou de súbito e se colocou à minha frente, o corpo tenso, mas a voz decidida:
— Entendo que você está abalada, que talvez não confie em mim, e que deve estar se perguntando até agora por que me contou tudo isso. Mas não se preocupe. Eu não vou falar com ninguém. E te ofereço apenas meu apoio, seja pra conversar, ou em qualquer outra coisa...
As palavras dela ecoaram dentro de mim, quebrando o muro defensivo que eu ainda tentava sustentar. Minha garganta estava seca, a mente em branco. Ela tinha sido direta, empática, e eu... eu tinha julgado de novo. Como sempre.
Pisquei algumas vezes, tentando me recompor. Levantei com calma e fiquei de frente para ela. Havia algo no olhar da Bia que me desarmava… não o brilho sedutor de sempre, mas algo mais… mais verdadeiro.
— Eu agradeço. Ainda tenho que realizar alguns agendamentos de consulta — murmurei, evitando deixar meu olhar muito tempo preso ao dela.
— E eu tenho um ensaio em estúdio daqui a 1 hora.
— Então, eu te acompanho até a porta?! — falei, sem saber se queria que ela fosse ou ficasse mais um pouco.
— Sim — respondeu Bia, juntando nossas taças de sobremesa que estavam no banco e olhando em direção à porta lateral que dava acesso à casa novamente.
Entramos, e ela fez questão de ir até a cozinha lavar as louças da sobremesa, encontrando Inês novamente, que sorria de orelha a orelha por ela ter voltado para se despedir.
Levei Bia até a porta. Mas, antes de sair, ela se inclinou e me deu um beijo no canto da boca. Sua boca roçou minha pele com ternura, como se dissesse mais do que o gesto permitia. E então, ao pé do meu ouvido, ela sussurrou:
— Tchau, amor — a voz baixa, quente, deixando um arrepio que percorreu minha nuca até o estômago. Acompanhada de um sorriso que misturava malicia e cúmplicidade.
Ali estava. A velha e conhecida Bia. Ou talvez, uma nova Bia, com os mesmos truques, mas efeitos cada vez mais imprevisíveis em mim.
Fechei a porta sorrindo. Por que mesmo? Meu Deus! Acorda, Luísa. Ao me virar, dei de cara com os olhos arregalados e atentos de Inês, que me observava como se tivesse acabado de assistir a uma novela ao vivo.
— Dona Luísa, uma celebridade lavou a louça na minha pia.
Ri do comentário de Inês, um riso leve e quase infantil, como quem é pega no flagra de algo bom. Logo em seguida, Célia apareceu no corredor, surgindo com a pontualidade de sempre.
— Com licença — disse Inês, sorrindo ainda, antes de retornar para a cozinha.
— Como foi tudo na empresa hoje? — perguntou Célia, com o tom neutro de quem tentava sondar sem invadir.
— Tudo tranquilo, Célia. Vou começar a realizar os agendamentos agora. Me ajuda?
— Claro.
Ficamos a tarde toda concentradas na tentativa quase impossível de conciliar os horários de terapia com as janelas disponíveis no cronograma da minha mãe. Enquanto isso, repassei com Célia as instruções quanto às medicações. A partir de agora, a responsabilidade pela administração dos remédios não seria mais da minha mãe… não dava mais. Célia assumiria essa tarefa, ofertando os comprimidos no café da manhã e no jantar.
Ela ouviu tudo com atenção, assentindo e fazendo anotações, enquanto eu já conseguia visualizar os surtos que viriam como bônus. Coitada da Célia. Mas, ao mesmo tempo, não havia alternativa. Precisávamos garantir que tudo fosse feito com regularidade. E se alguém poderia enfrentar os arroubos de ranzinzice da minha mãe com firmeza e paciência, esse alguém era ela.
Dispensei Célia e fui para o meu quarto. O corpo pedia descanso, mas a mente estava num looping de lembranças involuntárias.
Tomei um banho quente e demorado, do tipo que transforma o dia. Quando saí, vesti a roupa mais confortável da vida: camiseta de algodão e calça de moletom.
Avancei em direção à cama, mas parei ao ver o notebook na mesa de cabeceira, me olhando com aquela cara de "você sabe que vai me abrir". E sim, abri. Me joguei na cama, cruzei as pernas como quem vai invocar uma deusa da procrastinação, e abri a guia de pesquisa do navegador.
Digitei: Bia Albuquerque pelo mundo. Enter. Pronto. Estava feito. Apareceram dezenas de vídeos. Influencer em Dubai, em Tóquio, em Nova York... e pasmem, até em Manaus, com direito a roupa camuflada e um discurso sobre consciência ambiental enquanto segurava uma clutch da Gucci.
Cliquei em alguns. Havia vídeos que mostravam Bia participando de cirurgias plásticas pelo mundo todo como se fosse uma fada madrinha da estética internacional. Uma lipo aqui, um lifting ali, um peeling acolá. E a pergunta inevitável veio: por que ela tinha desistido disso? Era exatamente a vida de glamour que ela adorava ostentar. Aquele palco de brilho, bisturis e filtros era a definição de Bia Albuquerque... ou pelo menos da versão que eu tinha registrado no meu tribunal pessoal.
Claro, no jantar de aniversário do Pietro ela já havia me contado o motivo. Mas minha devoção por implicar com ela era tão firme que eu ignorei e cortei o assunto. Não quis ouvir.
E além do tour pelo mundo, o escândalo em Vinterville ainda aparecia nas buscas. Aquilo era um clássico. Um hit eterno na vida dela. Como ela conseguiu vender a própria imagem para aquele tipo de gente? Políticos. Logo, políticos. A fauna mais traiçoeira do planeta. Que tipo de pacto narcisista leva alguém a se envolver com esse tipo de figura?
Suspirei e fechei o notebook. Respirei fundo e encarei o teto como se dali fosse sair uma resposta.
Ouvi uma batida na porta, suave, mas seguida da abertura direta, como as mães sabem fazer. E lá estava ela. A figura de Valéria do outro lado, com o semblante sereno e ao mesmo tempo atento.
— Deu tudo certo, Luísa? — disse ao entrar no quarto, com aquela voz que misturava preocupação e uma tentativa mal disfarçada de normalidade.
— Deu sim, mãe — respondi, me sentando na cama, tentando parecer mais organizada emocionalmente do que estava. — A Célia me auxiliou e marcamos todos os seus novos compromissos para semana que vem.
Ela suspirou e aproximou-se sentando na cama, me olhando com uma intensidade que me fez engolir seco.
— Filha, não sei como vai ser daqui pra frente, mas... para além de todas essas terapias que farei, estive pensando em me afastar um pouco da empresa... acho pertinente você começar a se envolver em todos os assuntos da PS. Em absolutamente tudo que acontece.
— Você quer que eu deixe meu atual cargo de lado? — perguntei, ainda processando.
— Pensei que você poderia contratar um auxiliar, ou um administrador para te ajudar nas suas atribuições atuais... e que você poderia passar a acompanhar minha agenda. De perto. Como sombra. Como sucessora.
Fiquei em silêncio. Um silêncio que gritava por dentro. Valéria havia passado da fase de negação, daquela mulher relutante com o diagnóstico, para uma versão que já projetava um futuro em que eu tomava as rédeas de tudo.
— Está bem, Dona Valéria — murmurei, assentindo com um leve movimento de cabeça. — Nesta semana também organizaremos isso. Mas quero te acompanhar nas primeiras consultas terapêuticas. Em todas elas.
— É mesmo necessário? — perguntou, com um rastro de resistência teimosa no tom de voz.
— Claro que é, mãe. Vou contigo e não se fala mais nisso.
Ela respirou fundo, dessa vez parecendo menos preocupada e mais conformada.
— Está bem. Agora vou para meu quarto tomar banho e descansar um pouco. Logo desço para jantarmos.
Assenti, observando-a sair. E então fiquei ali. Sentada na cama e com a mente girando como um carrossel que não quer parar. O mundo parecia estar mudando de forma bem diante dos meus olhos. E tão rápido.
Fim do capítulo
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