Capitulo 17
Por Bia:
Eu observava cada detalhe com uma mistura de ironia e desdém. A mesa, que antes fervilhava em uma conversa cheia de ferpas, agora era testemunha de um clima tenso e carregado. Era como se cada garfada e cada gole tivessem selado um pacto silencioso de que, entre nós, nada mais seria dito e tudo seria lido nos olhares furtivos e nos silêncios prolongados.
— Vocês estão prontas para a volta? — Pietro perguntou, aparecendo de repente ao nosso lado, exalando uma energia insuportavelmente positiva.
— Sim, já vamos para o quarto buscar nossas malas. — Respondi, sorrindo para ele de um jeito quase ensaiado, tentando dizer “não vale a pena tentar socializar conosco agora”.
— Okaaay — disse Pietro de maneira arrastada e com um sorriso nervoso, afastando-se de nós.
Olhei para Luísa. Ela estava em silêncio, o olhar perdido em algum ponto distante, como se estivesse mergulhada em pensamentos que eu não pudesse acessar. O contraste entre a energia contagiante de Pietro e o vazio silencioso que ela exalava fazia eu me sentir confusa.
— Então, o que você acha? — perguntei, quebrando o gelo com uma pontada de sarcasmo. — Encerramos as encenações por hoje?
Ela me lançou um olhar estreito que misturava confusão e uma pitada de humor, alternando entre olhar meu rosto e o resto do suco do copo, como se estivesse ponderando seriamente a possibilidade de jogar o líquido na minha cara.
O garçom apareceu e, enquanto recolhia os últimos vestígios do nosso almoço, uma leve inquietação começou a borbulhar no meu estômago. Num impulso, me levantei e estendi a mão em direção a Luísa. Ela me olhou com surpresa, mas logo percebeu que a encenação precisava continuar por mais alguns instantes. Levantou-se e segurou minha mão, e eu senti suas mãos geladas, um contraste com o calor da minha e do ambiente.
Fomos juntas até o quarto para pegar nossas bagagens. Por um breve instante, considerei sugerir que subíssemos à sacada para tirar uma foto, mas rapidamente decidi enterrar a ideia. Era o mais sensato a fazer, dado tudo o que havia acontecido na noite anterior. O que deu em mim quando comecei a beijar Luísa e a tocar ela ontem a noite? Carência, talvez. E o que Valéria diria se soubesse de tudo? Certamente, me afogaria nessas águas sem pestanejar. Será que ela contaria algo? Meu contrato seria encerrado e poderia virar um escândalo. Outro na minha vida.
Ao embarcar no catamarã, Luísa e eu nos separamos. O sol batia forte, fazendo com que todos procurassem desesperadamente uma sombra. Eu me sentei em um dos bancos à beira da embarcação, sentindo meus pés quentes sendo levemente resfriados pela brisa do mar, enquanto o oceano se estendia em um azul profundo ao nosso redor.
Novamente avistei Luísa, afastada, mexendo no celular com uma expressão séria. Uma irritação súbita me invadiu. Eu não sabia se deveria ir até ela e ficar por perto ou me afastar de vez. A verdade é que, por mais que Luísa duvidasse, eu realmente estava cansada e ainda precisava gravar um story. Decidi que o mais rápido e simples seria registrar o cenário: filmei o catamarã se afastando da ilha, capturando a silhueta da terra se dissolvendo lentamente no horizonte. Adicionei uma música animada e coloquei na legenda vários emojis felizes. Claro, nada daquilo refletia, de forma alguma, o que eu sentia naquele momento.
Senti que só relaxei de verdade quando fechei a porta do meu apartamento e deixei o mundo do lado de fora. Fiz um voto solene de detox digital pelo menos até amanhã de manhã, quando inevitavelmente teria que encarar os balanços de engajamento das minhas postagens. Porque, no fim das contas, até mesmo o escapismo tem seus boletos.
Passei o resto do domingo tentando devolver meu apartamento a um estado minimamente habitável. Entre enfiar roupas sujas na máquina, tirar uma camada respeitável de poeira dos móveis e trocar a roupa de cama, minha mente, claro, se recusava a colaborar e insistia em me arrastar de volta para o assunto “Luísa”. Um namoro fake, um prazo de validade estampado em letras garrafais, um espetáculo que acabaria em poucos meses. Mas a que custo? Minha vida social não existia. E, sinceramente, não seria a primeira vez que um beijo nasce de um surto de carência e do desejo primal de sentir pele contra pele. Pelamor, era melhor parar de pensar nisso.
Dormi cedo, o que foi um milagre, e na segunda-feira já tinha um compromisso que, pelo menos, prometia ser agradável: um café da tarde com Juliana.
***
Para o café com minha amiga, vesti um cropped branco, um macaquinho jeans rasgado nos lugares certos e finalizei com um par de tênis brancos.
Cheguei ao bistrô e, assim que entrei, vi Juliana vindo animada ao meu encontro.
— Até que enfim conseguimos marcar algo só nós duas! — disse ela, sorrindo.
— Nem me fala, Ju. Foram dias intensos. — Respondi, puxando-a para um abraço.
Nos sentamos à mesa, e logo ela trouxe uma jarra de limonada suíça e uma bandeja com sanduíches. Perfeita como sempre.
— Ah, hoje pela manhã fui com aquela minha amiga na consulta com a médica que você recomendou. — comentou entre um gole e outro da limonada.
— Que bom. E deu tudo certo? — perguntei.
— Deu sim. Inclusive, encontrei sua namorada por lá com a mãe.
Foi nesse exato momento que eu quase engasguei com o suco. Tossindo e me tentando recuperar, soltei a primeira coisa que me veio à cabeça:
— Nossa, minha sogrinha também estava marcando um procedimento estético? — soltei uma risada meio forçada, esperando que a conversa seguisse por esse caminho banal e inofensivo.
Mas Juliana franziu a testa e me cortou com uma informação que gelou minha espinha.
— Na verdade, acho que não. Encontrei as duas na recepção, e elas foram chamadas para o setor de neurologia. A Luísa nem me olhou, talvez não tenha me reconhecido. Parecia meio abalada, sabe? — Seu tom ficou sério, e o meu estômago deu um nó.
Ajeitei a postura, tentando disfarçar a inquietação que começava a se instalar.
— Abalada como? — perguntei, tentando soar casual.
Juliana suspirou, me analisando com aquele olhar de “você realmente não sabe de nada, né?”.
— Ai, Bia… eu tô te contando isso e, pelo jeito, você nem estava sabendo de nada. Me desculpa. — Ela apertou os lábios, como se já estivesse arrependida de ter tocado no assunto.
— Não se preocupa, Ju. Me conta como ela estava. — Minha voz saiu firme.
— Olha… parecia que ela tinha chorado muito. A mãe dela estava com uma expressão tão séria que me dava calafrios só de olhar.
Tentei rir, mas soou sem vida.
— Isso na Valéria é normal. Eu fico assim quando participo de reuniões com ela.
Mas, lá no fundo, alguma coisa me dizia que não era o normal dela. Não dessa vez.
No caminho de volta ao meu apartamento, fiz uma parada estratégica no mercado. A faxina do dia anterior tinha exposto as lacunas no meu estoque doméstico, e como uma adulta responsável (ou quase isso), precisei repor o básico. Entre um corredor e outro, jurei que tentaria não pensar muito no que Juliana me contou sobre Luísa e Valéria. Eu não deveria meter meu bedelho onde não fui chamada. Claro que: falhei miseravelmente.
Era como se a informação estivesse gravada na minha cabeça em neon piscante: neurologista. O tipo de palavra que não se encaixava no universo sempre controlado e meticulosamente planejado de Valéria. Uma palavra que fazia minha inquietação crescer.
***
Na terça-feira, às 9h50 em ponto, eu estava atravessando apressada o hall da Pelle Serenità rumo ao elevador. Entrei sozinha, pronta para mais um dia de fingir que eu adorava todo aquele corporativismo, quando no terceiro andar as portas se abriram e Luísa entrou. Ela me analisou com aquele olhar calculista e, sem pressa, me cumprimentou:
— Bom dia!
— Bom dia… amor! — deixei a última palavra sair num tom arrastado, saboreando o impacto.
Luísa não me olhou diretamente, mas vi o canto da sua boca se curvando em um sorriso discreto. O perfume dela preencheu o espaço apertado, e eu reprimi uma vontade absurda de me inclinar para mais perto, como se aquele cheiro tivesse o poder de me puxar como um imã.
Ao sairmos do elevador, Pietro nos avistou e soltou um animado:
— Chegaram juntas!
Roger, Valéria e Ângela estavam focados no notebook sobre a mesa de reunião, e eu apostava que estavam analisando os takes do ensaio na praia. Valéria, com sua presença imperial, abaixou os óculos e me escaneou com um sorriso típico de quem está prestes a te usar para algum objetivo.
— Aí está ela! — disse, agarrando minha mão e me puxando para a mesa, ignorando completamente Luísa ao meu lado. O clima entre as duas estava de cortar com uma faca cega. Seria esse o motivo da cara de choro que Juliana tinha notado?
Luísa sentou-se na minha frente, e Ângela deu início à reunião:
— Pietro e Bia, conferimos os documentos que vocês enviaram, e os números estão excelentes. Seu ensaio na praia, Bia… deixou todos aqui boquiabertos. Você é incrivelmente fotogênica e trouxe uma sensualidade perfeita para a campanha.
Eu sorri, jogando meu cabelo para o lado:
— Que ótimo que vocês estão satisfeitos!
— Satisfeitos e impressionados. Tivemos o resultado de algumas pesquisas feitas por parceiros, e os números ali são incríveis. Tivemos aumento de 70% nas vendas para o público LGBT e… bem, para a parafernalha de letras toda e os deficientes.
Minha espinha enrijeceu no ato.
— Pessoas com deficiência. — Corrigi, apertando o maxilar.
— Isso, pessoas deficientes.
— Sim, pessoas com deficiência. — Repeti, pausando a palavra "com" para ver se a mensagem se infiltrava em suas sinapses fossilizadas.
Valéria, sendo Valéria, mal piscou. Roger, tentando dissipar a tensão que ele percebeu que começou a se formar entre Ângela e eu, sorriu:
— Resumindo, esse casal está fazendo os números subirem!
Luísa, no entanto, continuava muda, fitando um ponto qualquer na parede.
E então, Valéria soltou:
— É isso que o Vitor falou. Tudo está ótimo.
Silêncio.
Roger arqueou as sobrancelhas. Pigarreou.
— Roger, Dona Valéria. Meu nome é Roger.
Ela franziu o cenho, como se aquilo fosse um detalhe irrelevante:
— Sim, eu sei. Foi apenas um lapso de memória.
Mas eu vi. Vi a expressão de desconforto de Luísa, o jeito como suas mãos se apertaram sobre o colo, como se estivesse tentando conter alguma coisa. Vi a peça solta do quebra-cabeça se encaixando no meu cérebro.
E de repente, aquele neon piscante na minha mente brilhava mais forte: neurologista.
Roger e Pietro continuavam empolgados, repassando detalhes das próximas gravações como se estivessem anunciando uma turnê mundial. Duas filmagens em estúdio nos próximos meses, além da rotina básica de postar stories e marcar presença em eventos ao lado de Luísa.
A morena, por sua vez, não se deu ao trabalho de fingir entusiasmo. A careta que ela fez quando nosso "relacionamento" foi mencionado foi digna de um Oscar.
Quando Valéria deu a reunião por encerrada, decidi que aquele era um ótimo dia para almoçarmos juntas. Afinal, que melhor maneira de demonstrar para o mundo o quão "apaixonadas" estávamos?
— Luísa — chamei, apressando o passo para chegar até ela.
O corpo dela ficou tenso, como se estivesse prestes a enfrentar um interrogatório. Respirou fundo antes de se virar, os olhos semicerrados.
— Oi?
— Vamos almoçar juntas? — Minha voz saiu despretensiosa, mas juro que ouvi um "meu Deus" saindo em forma de suspiro exasperado.
— Hoje não dá. Vou almoçar em casa. Não vou trabalhar à tarde.
Perfeito. Uma deixa dessas eu não poderia desperdiçar.
— Melhor ainda! — sorri, tentando soar animada. — Nada mais íntimo do que um story de almoço na casa do meu love. Conhecendo o lar da minha futura esposa... — Fiz um coração com as mãos, e o revirar de olhos que recebi dela foi instantâneo.
— Hoje não estou para brincadeirinhas e discussão — disse ela, com aquele tom de quem estava tentando ter paciência sem sucesso. — Você vai até lá, almoça, grava seu story e depois me deixa em paz pelo resto da semana. Combinado?
— Claro — respondi, mordendo o lábio para esconder um sorriso divertido. — Se é assim que você quer...
— Me espera no hall. Vou pegar minha bolsa e já te encontro.
O tom dela era de comando, mas isso não significava que eu não pudesse me divertir um pouco. Me aproximei mais, deixando nossa proximidade um pouquinho mais “romântica” para os olhares curiosos ao redor.
— Está bem, amor — enfatizei a última palavra com doçura fingida, piscando para ela antes de sair.
Acho que ouvi um suspiro de frustração vindo dela, e isso só fez o meu dia melhorar. Nada como saber que minha simples existência conseguia arrancar reações de Luísa, mesmo que fossem de pura irritação. Pequenas vitórias.
Quando ela finalmente apareceu no hall, pude ver com clareza o revirar de olhos ao me avistar na mesa da recepção, onde eu batia um papo despretensioso com a secretária. Se existia um ranking de olhares mortais, aquele com certeza ficaria no topo.
— Vamos! — disse de maneira seca e ríspida.
— Vamos sim, amor. — Respondi com um sorriso exagerado, como se fossemos um casal recém-saído de um comercial. — Tchau, Lívia! — acenei para a recepcionista, que apenas assistia à cena com uma expressão divertida.
Luísa, visivelmente exausta da minha presença, sacou o celular e começou a digitar com a expressão de quem preferia estar em qualquer outro lugar do planeta.
— Vou pedir um Uber. — Informou, sem nem se dar o trabalho de me olhar.
— Não precisa. — Respondi, deslizando minha mão sobre a dela antes que ela conseguisse abrir o aplicativo.
Foi nesse instante que nossos olhares se encontraram. E por um segundo, um mísero segundo, juro que vi algo ali. Não sei dizer o quê, mas era intenso o suficiente para me fazer esquecer de respirar. Uma corrente elétrica percorreu meu corpo, da ponta dos dedos até a nuca. Só que, como sempre, Luísa foi rápida em cortar qualquer clima que pudesse surgir. Desviou os olhos como se nada tivesse acontecido e soltou um suspiro impaciente.
— Eu vim de carro. Me passa o endereço. — Falei, já caminhando em direção ao estacionamento com um sorriso de canto de quem sabia que aquele pequeno instante entre nós não tinha passado despercebido.
O caminho até a casa de Luísa foi preenchido por um silêncio constrangedor. Daqueles que se arrastam e fazem até o som do piscar de olhos parecer barulhento. Ela não deu um pio. Nem uma frase clichê do tipo “o tempo virou” ou “trânsito tá terrível”. Nada. Eu, claro, respeitei o momento e me contentei em observar, de vez em quando, seus olhos fixos na janela.
Quando estacionamos em frente à casa dela, minha mandíbula caiu. Literalmente.
— Você mora aqui? — soltei, sem filtro, ainda tentando processar o impacto visual.
A casa parecia ter saído de um editorial de arquitetura minimalista com orçamento ilimitado. Fachada imponente, vidro fumê, jardim vertical, uma porta que dava pra entrar com um carro esportivo se quisesse. Tudo meticulosamente limpo, simétrico e caro. Só faltava um tapete vermelho e alguém anunciando minha chegada com trombetas. Talvez até tivesse, mas estavam de folga naquele dia.
Antes que Luísa pudesse responder à minha exclamação embasbacada, a porta se abriu e uma mulher de meia-idade surgiu com um sorriso gentil e olhos curiosos.
— Dona Luísa, que bom que deu certo de vir almoçar em casa hoje. E trouxe visita — disse ela, inclinando levemente a cabeça para o lado e me analisando.
Ela logo deu passagem para que entrássemos e, se eu já estava boquiaberta antes, por dentro então... A sala de estar era tão grande que meu apartamento inteiro caberia ali dentro.
Um quadro na parede prendeu meu olhar. Era uma fotografia antiga de Luísa ainda criança, sorridente, entre o pai e a mãe. O contraste me chamou a atenção: o pai, branco e loiro, tinha o braço pousado sobre os ombros de Valéria, que retribuía com um olhar afetuoso. E ali, bem no meio deles, estava Luísa, cuja pele tinha um tom lindo que carregava a mistura viva dos dois.
Enquanto eu girava o pescoço tentando absorver tudo, senti os olhos da mulher ainda em mim. Um olhar afiado, clínico, como se tentasse decifrar qual categoria eu ocupava: amiga, sócia, ou futura decepção amorosa.
Luísa, percebendo o climão silencioso, tratou de cortar o suspense:
— Célia, esta é Bia. Bia, essa é Célia, a governanta da casa.
Governanta. GOVERNANTA. Isso ainda existia? Eu achava que esse cargo tinha morrido junto com a aristocracia europeia.
— Prazer. — Sorri, tentando parecer tranquila.
Fim do capítulo
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