Capitulo 16
Por Luísa:
Enquanto Bia dormia exausta e eu me recusava a admitir que tinha passado tempo demais observando a respiração tranquila dela, passei a tarde no computador. Meu dever? Organizar orçamentos e calcular o tamanho do rombo financeiro que essa epopeia idealizada pelo Roger ia deixar. E, olha, o estrago era grande.
Depois da nossa voltinha na praia e com a chegada do jantar, minha energia já estava em um nível baixo. Como se não bastasse, recebo uma mensagem da Célia dizendo que minha mãe havia perguntado por mim, esquecendo que eu estava viajando. Ah, ironia do destino, já que foi ela mesma quem praticamente me despachou.
Fui deitar arrasada, sentindo aquele cansaço que não é só físico, mas que pesa na alma. Fechei os olhos, determinada a não pensar nisso. O problema? Quando a cabeça repousa no travesseiro, é como se abríssemos as portas do inferno das preocupações. E, surpresa, lá estavam elas: uma enxurrada de pensamentos, memórias e sentimentos embolados num nó impossível de desfazer. O choro veio sorrateiro, aquele que a gente tenta engolir, mas que, no final, se impõe.
E então… Bia.
O toque dela foi como um choque elétrico na minha tristeza. Quando os lábios dela encontraram os meus, o mundo deu uma girada estranha. De repente, não havia mais peso nos ombros, só aquela sensação quente e viciante de querer mais. E mais. E… Pera. Juízo, cadê você? Ah, achei. Empurrei Bia com o que me restava de sanidade, ignorando o protesto do meu próprio corpo.
— Isso foi um erro — ela disse, séria.
Aí doeu. Um erro? Então… deveria ser isso mesmo.
Na manhã seguinte, acordei com a cama vazia ao meu lado. Bia já tinha saído para o ensaio, o que foi uma bênção e uma maldição ao mesmo tempo. Fiquei um tempo ali, encarando o teto, tentando não pensar no que tinha acontecido. Missão falha.
Levantei, tomei um banho longo e vesti um vestido branco de algodão. Leve, soltinho e fresco, ideal para o calor que fazia. Desci até a piscina, onde a gravação estava acontecendo, e me joguei em uma mesa mais afastada.
— Um café, por favor — pedi, porque precisava de cafeína. Acrescentei ao pedido ainda um pão na chapa e uma salada de frutas.
E ali fiquei, observando Bia em ação, como se nada tivesse acontecido na noite anterior. Como se o “erro” ainda não estivesse grudado na minha pele.
Bia estava deslumbrante na beira da piscina de borda infinita do hotel. Mas, é claro, Bia sempre estava assim, fosse na piscina, num salto ou, sei lá, provavelmente até jogando o lixo fora. O sol nascia atrás dela, banhando tudo com uma luz dourada, e a cena parecia saída diretamente de um filme.
À frente dela, um fotógrafo e Renan se revezavam entre cliques e filmagens. Eu já estava ali há longos quarenta minutos assistindo Bia mergulhando, saindo da água com os cabelos penteados para trás, segurando algum produto e dizendo frases de efeito com aquela voz rouca e envolvente, perfeitamente treinada para seduzir qualquer pessoa.
Até que, enfim, Renan anunciou com aquele tom que estava misturando intervalo e entusiasmo:
— Perfeito! Acabamos. Parabéns a todos!
Aleluia.
Bia finalmente saiu da piscina e foi direto para o chuveiro, passando perto de mim sem sequer lançar um olhar na minha direção. Apenas deslizou, deixando para trás um rastro de água e perfume. Um mix de cloro e algo refrescante que grudou no ar, me cercando.
Fiquei ali, sentada, observando a Bia sem conseguir evitar. Seus passos molhados ecoavam contra o piso enquanto a luz do sol brincava nos detalhes dourados do biquíni azul-marinho de amarração que ela vestia. O tecido, encharcado, grudava em sua pele de um jeito que beirava o indecente.
Engoli em seco e me forcei a olhar para outro lado. Distância segura, Luísa.
Mas, claro, bastou ela sair do chuveiro para nossos olhares se cruzarem. E aí veio o detalhe que me desestabilizou: ela desviou o olhar antes de mim. Assim. Simplesmente desviou, antes que eu pudesse capturar qualquer informação por meio daquele contato. E eu fiquei ali, sentada, observando enquanto ela se enturmava com as modelos que estavam por perto. Todas elas rindo, jogando o cabelo, olhando para Bia como se ela fosse a última Coca-Cola do deserto. Ridículo. Ridículas.
Depois de espetar o último morango da minha salada de frutas e de assistir Bia e a equipe se divertirem como se estivessem em um parque de diversões, decidi que já tinha tido minha cota de entretenimento do dia. Era hora de voltar ao quarto e terminar de arrumar minha mala.
Só mais algumas horas e, enfim, estaria longe disso tudo.
Bia foi rápida em colocar uma pedra no assunto e seguir em frente como se nada tivesse acontecido. O mínimo que eu poderia fazer era imitar o exemplo dela. Pedra. Silêncio absoluto. Enterrar a noite anterior com se não tivesse existido.
Terminei de organizar tudo e, sem outra desculpa para me ocupar, sentei na cama e peguei o celular. Não era apenas uma tentativa de distração… eu precisava ver se havia alguma mensagem sobre minha mãe.
Desbloqueei a tela e conferi as notificações. Nada de Célia. Nenhuma atualização sobre como Valéria estava. Um nó se formou na minha garganta. Eu deveria mandar mensagem pra minha mãe? Perguntar se ela estava bem? Não, não. Logo eu estaria lá.
Mordi o lábio, hesitando, e a porta do quarto se abriu.
Levantei os olhos e lá estava Bia, parada bem no meio do quarto, me encarando.
— Não sabia que você já ia retornar. Já consegui organizar tudo por aqui. — Disse rápido, apagando a tela do celular e me levantando num impulso. Peguei minha bolsa e fingi estar muito ocupada mexendo em qualquer coisa que não exigisse olhar diretamente para ela.
— Não precisa se preocupar. — A voz dela veio casual, calma demais. — Eu vou separar as minhas coisas aqui e tomar um banho. Logo vamos almoçar.
E então, enquanto pegava um item na minha mala, ela passou por mim.
Esbarrou.
Talvez acidentalmente. Talvez não.
O toque foi mínimo. Pele com pele. Um instante curto demais para ser intencional.
Respirei fundo. Eu não ia surtar por causa disso. Eu era uma mulher adulta, perfeitamente capaz de lidar com Bia Albuquerque sem transformar isso em uma guerra. E por Deus! Era Bia Albuquerque! A influencer que tinha relações duvidosas com políticos corruptos e que eu não suportava.
Me vesti rápido e escolhi um vestido de linho azul, fresco e solto, porque o dia estava terrivelmente quente e eu me recusava a sair para almoçar suando de calor.
Antes de guardar o celular, conferi a tela mais uma vez. Ainda nenhuma notícia sobre minha mãe.
Quando Bia saiu do banheiro, já estava vestida com um jorts jeans e uma regata preta justa. Os cabelos úmidos caíam sobre os ombros, e o cheiro cítrico e almiscarado do perfume dela se espalhou pelo quarto, preenchendo tudo de novo.
— Vamos descer para almoçar? — A voz dela veio casual, enquanto me olhava de relance. — Logo vamos pegar o barco de novo.
— Sim, estava só esperando você. — Cruzei os braços e estreitei os olhos.
Bia ergueu uma sobrancelha e o canto da boca se curvou num meio sorriso.
— Então agora podemos ir.
O clima entre nós estava carregado e eu nem sabia se queria aliviar a tensão… ou puxá-la até o limite.
Descemos até o saguão envoltas em um silêncio absurdo. Não um silêncio confortável, daqueles que a gente compartilha quando está em paz. Era um silêncio carregado, cheio daquilo que não foi dito e de olhares desviados. Um silêncio quase insuportável. Pelo menos para mim.
Ao chegarmos ao restaurante, a cena era um déjà-vu irritante: superlotado, barulhento e cheio de gente demais para o meu gosto. E, claro, as modelos estavam lá. Todas reunidas, rindo e conversando, como se vivessem em um comercial de margarina tropical. Assim que nos viram, acenaram animadas para Bia, como se ela fosse a rainha delas.
Precisei me segurar para não revirar os olhos.
E então, para minha total perplexidade, senti os dedos de Bia entrelaçarem-se aos meus.
— O que você tá fazendo? — sibilei, sentindo uma irritação crescente.
Ela fez menção de ir até a mesa delas, puxando-me junto.
— Não ouse. — Travei o passo, segurando-a no lugar.
Bia suspirou, visivelmente impaciente.
— O lugar está lotado, Luísa. Não conseguiremos outra mesa. — A voz dela saiu calma, mas os olhos brilhavam com um misto de raiva e desafio. E, para completar o combo, aquele maldito sorrisinho de canto apareceu. O mesmo que dizia "Eu sempre tenho razão".
Ah, querida. Não hoje.
— Com licença. — Chamei um garçom que passava ao nosso lado, sem nem piscar na direção de Bia. — Tem alguma mesa disponível para duas?
— Vocês estão com sorte. Temos uma mesa no andar superior.
Sorri educadamente para o garçom e lancei um olhar de relance para Bia, que agora me encarava de forma enigmática.
Seguimos o garçom até uma escada lateral que levava a um deck com vista para o mar. Era um espaço mais reservado, com poucas mesas. Só uma de dois lugares estava vazia. Perfeito.
Nos sentamos, e eu agradeci ao garçom com um sorriso satisfeito.
— Pronto. Bem melhor assim. — Cruzei os braços, olhando para Bia, que me analisava com uma expressão séria.
— Poderíamos ser mais sociáveis e sentar junto com o resto da equipe.
Revirei os olhos.
— Prefiro evitar sentar junto com suas amiguinhas. Já é difícil o suficiente ter que fingir normalidade sem um público assistindo.
Bia soltou um suspiro cansado.
— Ora, Luísa… Que seja! A manhã foi exaustiva. Então, tudo bem sentarmos aqui. Só quero comer e ir pra minha casa.
Ela pegou o cardápio, como se tivesse encerrado o assunto.
Mas eu ainda não estava satisfeita.
— Imagino o quão exaustiva foi. — Cruzei os braços, estreitando os olhos e soltando um riso baixo e irônico.
Ela ergueu o olhar por cima do cardápio.
— O que quer dizer com isso?
Dei um sorriso falso.
— Quero dizer que você passou a manhã na piscina e depois ficou lá jogando conversa fora com as suas amiguinhas.
Bia fechou o cardápio com um estalo, me analisando com aquele olhar divertido que sempre vinha acompanhado de encrenca.
— Ah, entendi. Você quer discutir a minha manhã. Interessante. Quer discutir o que aconteceu ontem a noite também? — A voz dela saiu arrastada, carregada de ironia.
Revirei os olhos, me recostando na cadeira com um suspiro exagerado.
— Eu não quero discutir nada. Só estou constatando um fato.
— O fato de você prestar tanta atenção em mim. — Ela ergueu uma sobrancelha, um sorrisinho preguiçoso brincando nos lábios.
— Não se dê tamanha importância. Eu só observei porque você estava sendo totalmente indiscreta.
— Indiscreta? — Ela riu baixo, inclinando-se ligeiramente para frente. O movimento fez com que o perfume dela chegasse até mim, e eu me odiei um pouco por gostar tanto daquele cheiro. — E por que isso te incomodou tanto?
Apertei os lábios, segurando a vontade de estreitar os olhos.
— Porque eu tenho olhos, Bia. E um cérebro, ao contrário de algumas pessoas que ficam babando por você.
Ela riu de novo e aquilo me irritou muito.
— Meu Deus, Luísa. É ciúme isso?
Senti o calor subindo pelo meu rosto, mas antes que eu pudesse reagir, o garçom apareceu para anotar os pedidos.
Sem olhar para Bia, pedi um risoto de limão siciliano com camarões grelhados e um suco de maracujá, porque eu precisava desesperadamente de algo que acalmasse meus nervos. Já ela, pediu um filé de peixe grelhado com legumes salteados e uma taça de vinho branco.
Quando o garçom se retirou, Bia apoiou os cotovelos na mesa, entrelaçando os dedos, e continuou a conversa exatamente de onde parou.
— Mas e então, Luísa? Me diga, sou eu que incomodo você ou são elas? Porque, francamente, você tem prestado muita atenção na gente.
— Não é nada disso. — Cruzei os braços, me recusando a ceder. — Eu teria que estar muito distraída para não perceber que quem é viciada em atenção e adora provocar é você.
Ela inclinou-se mais para frente, reduzindo a distância entre nós, e seus olhos escuros brilharam com algo perigoso.
— Você tá insinuando que eu gosto de provocar?
Engoli em seco. O problema não era só ela provocar. O problema era como o meu corpo reagia a isso.
— Não preciso insinuar nada. Você faz isso naturalmente, querida.
O sorriso dela aumentou, e aquilo deveria ter sido um sinal de alerta.
— Hmm… E se não tá com ciúme, então por que está tão tensa e irritada com tudo isso?
Eu abri a boca para retrucar, mas o garçom chegou com nossos pedidos. Salvas pelas bebidas.
Bia pegou a taça de vinho e tomou um gole lento, com seus olhos cravados nos meus.
Mordi o lábio inferior, me recusando a responder.
Ela inclinou a cabeça de leve, estudando cada mínima reação minha.
— Quer saber? Eu admito. Provoco porque gosto de ver você se mordendo desse jeito. — A voz dela veio baixa, carregada de algo íntimo demais.
Senti um arrepio percorrer meu corpo. Eu me odiava por isso. Por saber que ela jogava comigo e que uma parte minha tinha vontade de cair direto na armadilha.
Eu não podia ceder. Não podia dar a ela esse gostinho.
Nossa troca de olhares foi interrompida novamente quando nossos pratos chegaram e o cheiro da comida foi um lembrete para que eu recobrasse a consciência de vez. Segurei o garfo com mais força do que o necessário e mantive a postura firme, mesmo com meu coração descompassado.
— Pois é, Bia. Uma pena que sua diversão tenha prazo de validade.
Ela ergueu uma sobrancelha, claramente interessada na provocação.
— E o que isso significa?
Inclinei-me um pouco para frente, imitando o jeito dela, e sorri de lado, sem pressa.
— Significa que daqui a algumas horas, essa viagem acaba. E cada uma volta para sua vida.
O sorriso dela vacilou por um instante. Detalhe pequeno, quase imperceptível. Mas estava lá.
Então, como se recuperasse o controle em tempo recorde, ela tomou mais um gole do vinho, deixando a taça sobre a mesa com um tilintar suave.
— Vamos ver, Luísa. Vamos ver. Não esqueça que ainda temos uma infinidade de scripts para encarar até o resto do ano.
A maneira como ela disse isso me fez estremecer. Engoli em seco. Talvez eu devesse mesmo estar preparada para o que quer que viesse a seguir.
Fim do capítulo
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Dessinha
Em: 19/11/2025
Mas olha só Luísa sendo testada... finalmente hein! Ponto para Bia
MalluBlues
Em: 19/11/2025
Autora da história
Aos poucos, essa relação entre as duas melhora...
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MalluBlues Em: 19/11/2025 Autora da história
Aos poucos, essa relação entre as duas melhora...