Trago mais um capítulo - perdão pela demora - onde começa o desenrolar dessa história.
Esse capítulo pode conter cenas de violência e gatilhos emocionais, além do uso de palavrões, alcool e tabaco. Caso seja sensível a esses temas, não é recomendada a leitura.
Enfrentar o que vier.
PV Julia
Finalmente é sábado e tudo o que quero é chegar em casa, pedir comida e me jogar na cama pra comer qualquer porcaria assistindo alguma série antiga que me traga conforto até perder a conta de quantos episódios se foram. Mas assim que paro na frente do apartamento, com a mochila pendurada no meu ombro esquerdo, desisto de selecionar a chave da porta, ao ouvir a voz de Clara e Renato, juntos e rindo.
Que porr* está acontecendo com minha vida?
Respiro fundo e ouço um pouco sobre o que falam, segurando as chaves com força suficiente para sentir o incômodo na palma da mão mas não me movo.
“ -Menina, que loucura tudo isso, mas vem cá - Renato responde e ouço Clara responder com a voz meio abafada, talvez por um abraço.
-E eu finalmente me cansei de ser usada como bem entendem, Re… eu mereço ser feliz, mereço ter bons sentimentos, mereço ser amada também, sabe?”
Não ouço mais nada, como assim "ser usada”? Quem a usou? Eu? Fala sério… ela é CASADA e em nenhum momento pensou em me avisar nada!
Ouço o miado de Tião na porta, que sempre vem me receber. Fui descoberta. Ajeitei a bolsa no ombro e desci correndo até a portaria, saí dali sem pensar em nada, em tempo record eu diria.
Vou pro único lugar no mundo onde poderia tomar um banho e deitar, mesmo que desconfortavelmente, para desopilar a mente, esquecer do que se passa aqui fora.
Entro no escritório da minha floricultura pelo acesso da rua de trás, onde é mais seguro àquela hora, mesmo que a rua esteja agitada como sempre. O escritório tem um pequeno banheiro separado, tomo banho por ali mesmo e como só tenho uma toalha de rosto disponível, é com ela mesmo que me seco, coloco uma camiseta enorme da loja que compramos e nunca usamos mas ficou por ali, peço comida pelo celular e me deito no sofá de 3 lugares, com o notebook em mãos sem saber muito bem o que assistir ainda.
Já estou no quarto - ou quinto - episódio da série que escolhi e uma embalagem de papel descansa com alguns legumes e o resto do molho de comida chinesa que pedi, no chão ao lado do meu celular, Renato me liga insistentemente, só olho pra tela e o ignoro, virando o celular com a tela pra baixo.
Em algum momento e muitos episódios depois, pego no sono e por sorte, acordo de madrugada com o notebook ainda no colo, o apoio no chão e busco a manta de decoração do sofá para me cobrir. Amanhã resolvo sobre minhas acomodações para os próximos dias, ou quem sabe semanas? Talvez nunca mais volte a morar com Renato também.
O domingo chega e meu celular desperta bem cedo, aproveito que já estou na loja e tomo um banho como de costume, me vestindo com as mesmas roupas de ontem, escovo os dentes com a escova que deixo na bolsa e quando estou finalmente pronta, ligo o sistema de irrigação automático das plantas fixas da loja, decido tomar um café na padaria que tem aqui no bairro mesmo, antes de abrir a loja para o meio expediente do dia.
Tomo café observando as pessoas passando na rua, o sol já desponta no céu, ainda tímido mas se faz presente, fico numa mesa ali na calçada mesmo, refletindo sobre como cada pessoa que passa ali tem uma verdade única e tanta pressa, pressa pra chegar ou sair de algo, de algum lugar, e a verdade que somente elas podem contar.
Minha mente me trai, arrumo o cabelo meio desconfortável quando meus pensamentos me trazer a imagem de Clara me olhando de cima pra baixo com desejo, enquanto eu dançava pra ela. É automático, o meio de minhas pernas aquece e me reprimo por isso. Por isso sempre estou com alguém diferente e nunca, repito, nunca, mais de 2 vezes, porque sempre dá errado.
-Bom, ao menos foi uma vez só, está dentro do esperado - comento comigo mesma e dou de ombros, terminando o café delicioso em minha xícara.
Chego na loja com uma sacola de doces em mãos, não resisti. Depois de ligar as luzes e conferir novamente as entregas de material que recebemos ontem entre flores, rosas e folhagens, abro as portas às 07hrs em ponto quando Malu, a fiel atendente da loja chega. Coloco meu avental branco e azul, e me posiciono no balcão, montando agilmente alguns tipos de arranjos, alguns mais sofisticados, outros mais românticos, ou rústicos. Faço isso há tantos anos que sequer percebo a rapidez e a intuição com que mais de 10 arranjos surgem em minha frente.
O dia de vendas é agitado, por incrível que pareça domingo é sempre assim e até uma de minhas obras que estavam disponíveis aqui eu vendi, também tivemos alguns agendamentos de projetos maiores, como de um casamento de duas moças lindas que passaram na frente da loja e entraram pra conhecer, ou mesmo um jardim inteiro que precisa “urgentemente de uma mãozinha", como disse a senhora dona da propriedade.
Às 13hrs fechamos as portas, Malu é bem atenciosa com todos ao redor e a presença dela me deixa confortável o suficiente para me abrir um pouco, quando estamos fazendo a conferência do caixa.
-Mas ficou por isso mesmo, diva? - Ela me pergunta, arrumando alguns cachos ruivos que caíam insistentemente em seu rosto, enquanto ela almoçava comigo o delivery que pedimos do chinês que tem aqui no bairro mesmo.
-Como assim, Malu? Eu tive uma noite das deusas, com uma deusa e acordei com uma maluca berrando comigo, segurando meu braço!
-Chefinha, vamos lá… você não teria se incomodado tanto, se essa tal de Clara não tivesse despertado algo em você.
-Sabe qual é o problema? Eu tô com um medo danado de admitir isso em voz alta e se tornar ainda mais real… tudo está uma verdadeira bagunça e aconteceu de uma hora pra outra.
-Se a gente fosse avisado antes dos grandes acontecimentos, que graça teria a vida?
-Maluzinha, no auge dos seus 19 anos, acredito que já tem a sabedoria suficiente pra ensinar a nós, meros humanos, como viver a vida levemente.
-Julia - ela começou séria.
-Eita, me chamou pelo nome, lá vamos nós…
-Você merece mais, você é mais do que a filha da puta da Larissa te deu, desculpa a palavra.
-Pode ficar à vontade para xingar essa daí! Sem culpa.
-Continuando, você merece sentir coisas boas, esse frio na barriga, essa tensão que começa a ensurdecer a gente quando prestamos muita atenção na outra pessoa ou… tesão mesmo, eu acho, esse tesão desenfreado também.
-Sinto que tem um mas por aí!
-Mas precisa ser mais aberta e compreensiva também, ser compreensiva e aberta somente com seus amigos já te gerou algo além de uma noite?
-Somente duas noites - brinco e sorrimos um pouco, até ela continuar.
-Então vamos - se levanta e me estende a mão - arrumar essa bagunça aqui - apontou para a sala primeiro, depois pro meu peito - depois essa!
Malu na verdade se chama Maria Luiza e ela foi um achado nessa vida, apareceu aqui na loja há pouco mais de um ano, procurando um "trampo onde mexesse com plantas e gente” segundo ela mesmo em sua entrevista de emprego. Pouco depois que iniciou os trabalhos aqui, se formou no ensino médio e esse ano ingressou na faculdade de arquitetura e urbanismo, tem sido uma pessoa muito importante nos meus dias e nos tratamos como irmãs (e sempre perguntam se realmente somos, aqui na loja) desde o primeiro dia de trabalho dela comigo.
Arrumamos o escritório e ela se despede quando o namorado Matheus passa pra buscá-la de moto, não sem que antes os dois me amassem em um abraço em grupo como sempre fazem e já estou acostumada na verdade, gosto do Matheus, ele é um cara legal e cuida da Malu como uma princesa.
Mais uma ligação de Renato e atendo enquanto entro no carro de aplicativo que pedi para levar um arranjo que preparei de última hora pra casa.
-Escuta, Julia - ele começa com a voz baixa e gradualmente percebo que vai aumentando - eu sei que não sou seu pai, eu sei que esteve no trabalho hoje e por isso não te incomodei mas que ideia é essa de sumir sem avisar nada? Pensei que fôssemos famí…
-Desculpa - o interrompo - já tô indo pra casa e…
-Tudo bem, eu já tinha te desculpado de toda forma, tô esperando aqui, temos visitas daqui 1hr mais ou menos.
Ele não me deixa perguntar de quem se trata, desliga o telefone e eu que lide com a ansiedade em descobrir quem é.
Chego em casa em menos de 10 minutos e tudo que encontro é o Tião completamente esticado no sofá ocupando-o quase todo.
Acomodo o arranjo de flores em um vaso que eu mesma fiz, na mesa da sala de jantar e sorrio ao ver que o resultado tem minha cara. Corro pro quarto pra tomar um banho relaxante, pra me arrumar com calma.
Quando estou saindo do banho, ouço uma voz que reconheço como sendo de Renato, tem mais algumas outras que não consigo identificar com tanta facilidade e me arrumo sem pressa.
Fim do capítulo
Oi, meninas! Tô de volta, depois de sobreviver às provas da faculdade!
Espero que estejam todas bem, aproveitei o tempo livre (que foi pouco) pra desenvolver algumas coisas que precisava nessa história.
Uma grande e querida amiga me ajudou com a opinião sobre a história completa e algumas coisas foram mudadas, o final não está tão longe assim e foi ótimo cada opinião, percepção e dica que ela me trouxe. Nada como sentar em um bar por horas pra papear sobre um hot sáfico tomando cerveja e comendo porções pra trazer o ânimo da escrita de vorta hahahahahah
Y vamos de história!
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