Paredes, Pactos e Ameaças Veladas
O silêncio da casa parecia mais pesado do que o normal. Após desligar a chamada com Ariel, um sorriso cansado escapou dos lábios de Lia. O alívio de ter, enfim, ouvido a voz da amiga era tão palpável quanto o cansaço que a puxava para a cama. E ela se permitiu. Caiu no colchão sem resistência, o corpo inteiro clamando por descanso.
Foram horas consumidas entre livros, pergaminhos, runas e tentativas de feitiços que pareciam apenas alimentar aquela corrupção mágica que já se infiltrava em cada célula do seu corpo. A magia que, um dia, fora sua aliada, agora parecia se voltar contra ela.
O sono veio, mas não foi gentil e o som insistente da campainha logo em seguida, cortou qualquer possibilidade de descanso. Lia abriu os olhos sobressaltada, o corpo mais pesado do que gostaria de admitir. Cambaleou até a porta, com a cabeça latejando e o estômago embrulhado, e girou a maçaneta.
— Calíope? — a voz saiu mais rouca do que pretendia, meio surpresa, meio tomada por um receio difícil de disfarçar.
A visitante não respondeu. Simplesmente entrou, como se tivesse direito àquele espaço, andando com pressa, como se precisasse ocupar o ambiente antes que Lia pudesse reagir. Ela estava inquieta, as mãos trêmulas. Acendeu um cigarro, tragou fundo e soltou a fumaça como quem despeja ansiedade no ar.
— Você não deveria estar aqui. — Lia tentou manter a voz firme, mas seu corpo já denunciava o quanto se sentia enfraquecida. Sabia que, naquele estado, um confronto direto seria suicídio.
Calíope ignorou.
— Eu sei, eu sei… mas depois do que eu soube… depois do que eu soube, Lia… — ela andava pela sala, mexia nas prateleiras, analisava os livros, passava os dedos pelas velas e pelos objetos mágicos da casa, como se procurasse algo. — Eu não consegui. Eu não podia não vir…
O coração de Lia disparou. Ela sentiu, no fundo do peito, aquele instinto que sempre surgia na presença de Calíope, uma mistura perigosa de raiva e medo.
— Calíope, por favor, vá embora. Você não é bem-vinda aqui. Depois de tudo… depois do que você fez. — Lia manteve-se de pé, as mãos discretamente prontas, se fosse preciso conjurar algo, mesmo sabendo que aquilo provavelmente só aceleraria sua própria ruína.
Calíope parou. Girou nos calcanhares e a olhou, olhos dourados em brasa, como lâminas afiadas, a observando profundamente, como se pudesse ver através dela.
— Você… você vai ter essa criança? — Sua voz não era um tom de curiosidade. Era acusação. Quase um grito. — Me responde, Liana! Depois de tudo… depois de tudo entre a gente… você vai mesmo ter essa criança? — Se aproximou alguns centímetros, talvez com a intenção de intimidar e a encarou nos olhos, esperando a resposta, que demorou a vir.
— Calíope… — Lia murmurou alguns segundos depois, mas a outra não deixou que ela continuasse.
— Você devia estar comigo! Comigo, Lia! Você não sente falta? Não se lembra de como era? Você sabe o quanto… o quanto era insano, intenso… perfeito! Você sabe que gostava! — Calíope avançou alguns passos, corpo tenso, olhos semicerrados.
Lia recuou um pouco, e sua voz endureceu.
— Eu até cheguei a gostar de você, Calíope. E talvez seja isso que mais me decepcione em você. Naquela época… seu discurso… até fazia algum sentido. Você não queria que sua espécie perecesse, e eu entendi. Nós duas resolvemos isso. Mas eu não sabia que você era uma psicopata sádica. Você… você me mandou o corpo da Patrícia… numa caixa! — Soltou as últimas palavras com dificuldade. A lembrança fazendo seu estômago embrulhar. Sentiu os olhos arderem e respirou fundo para controlar o descontrole que já quase lhe alcançava. — Você é um monstro, Calíope!
O olhar de Calíope não vacilou. Pelo contrário. Ela sorriu.
— O quê? Aquilo foi um ato de boa-fé, Lia. Vocês queriam ela, eu entreguei. Tá aí. Problema resolvido. — respondeu com aquela convicção perturbadora de quem não enxerga limites entre certo e errado. — Achei que estaria facilitando sua busca.
Lia segurou o grito que queimava na garganta. As mãos tremiam. A naturalidade com o qual a outra falava sobre o assunto a deixava doente.
— Patrícia, Petúnia… a Elisa, nenhuma delas merecia o que você fez. E não ache, nem por um segundo, que eu vou te perdoar. Nem que você vai sair impune.
— O que aconteceu com a sua outra amiga, a Patricia, não é assim que se chamava? Foi um efeito colateral da situação, Lia. — Se defendeu com cinismo. — Elas estavam no lugar errado, na hora errada. Você entende bem disso, não é?
Calíope se aproximou mais. O cheiro dela, doce, amadeirado e carregado de magia, invadiu o espaço pessoal da bruxa. Ela a encurralou contra a parede, os olhos dourados faiscando de desejo e loucura.
Lia deu de ombros, sentindo o cansaço ficando cada vez mais presente. Não sentiu forças para revidar naquele momento.
— Quer saber, deixa isso pra lá… Deixa essas vadias pra lá, Lia… — Calíope sussurrou, os lábios roçando perigosamente perto, o suficiente para Lia sentir o hálito quente tocar em seu rosto. — A gente podia só… esquecer tudo isso… fingir que essas insignificantes nunca existiram. Você sabe que eu não menti… você sabe que eu te conheço como ninguém, até minha aparência nesse plano eu moldei para te agradar. — A mão dela subiu, roçando o braço de Lia, querendo alcançar o queixo. — Você não leva isso em consideração?
Lia reagiu, empurrou-a com força, livrando-se daquele toque, que, naquele momento, se tornava asqueroso.
— Sai da minha casa, Calíope! — Gritou, o rosto vermelho de raiva.
Mas Calíope não recuou. Pelo contrário. Seus olhos se tornaram mais afiados, carregados de algo sombrio e profundamente perigoso.
— Você ama ela? Ama a Elisa? — questionou em tom baixo, a voz agora fria, um sussurro cortante.
A respiração de Lia falhou, mas não hesitou.
— Você sabe que sim. — respondeu, firme, sustendo o olhar dourado que lhe fuzilava.
Um sorriso doentio deformou os lábios de Calíope.
— Ótimo. Então espero, de verdade, que essa… coisa… que você tá gerando, pareça muito com ela. Porque eu vou garantir que ele ou ela nasça só com uma mãe viva. E garanto que não vai ser a Elisa. — cuspiu cada palavra como veneno.
Lia sentiu seu corpo inteiro inflamar, o poder da Fênix se acendendo, tomando cada veia, cada músculo. Ela ia destruí-la. Aquele era o limite.
Mas Calíope percebeu. E, sorrindo de canto, deslizou a mão sobre o próprio quadril, inclinou o corpo e sussurrou.
— Quer mesmo fazer isso? Esqueceu do nosso pacto? Do acordo de paz? — Seus olhos agora brilhavam com pura malícia. — Você pode me atacar, Fênix... pode. Mas sabe as consequências. Você, esse planeta e tudo que você ama. Tá disposta a bancar esse preço?
O estômago de Lia se apertou, mas a raiva que sentia falou mais alto.
Cerrando os dentes, ergueu as mãos. Com um gesto, conjurou energia que envolveu Calíope, levantando-a no ar, empurrando-a em direção à porta. Assim que atravessou a soleira, a criatura se desmaterializou em uma explosão de luz branca, deixando no ar apenas o cheiro de ozônio e tabaco queimado.
Lia bateu a porta com tanta força que a parede tremeu.
Seu corpo inteiro tremia, a raiva misturada com medo e uma exaustão que parecia querer quebrá-la por dentro.
Foi até o celular e, com dedos trêmulos, digitou para Elisa:
“Calíope apareceu aqui. Tá completamente fora de si. Ameaçou. Disse coisas horríveis. Fica atenta e se cuida. Me responde quando puder.”
Não levou nem vinte minutos. A porta da casa se abriu com violência. Elisa estava lá, olhos atentos, os punhos cerrados, cada fibra do seu corpo transbordando tensão.
— Você tá bem? Ela fez alguma coisa com você? — Elisa perguntou preocupada, se aproximando o suficiente para analisar o rosto e a pele de lia.
— Não… Não fez. Não fisicamente. Eu tô bem, só tô cansada. — Lia tentava transmitir calma, mas sabia que estava tensa demais para transmitir qualquer tipo de tranquilidade.
Elisa a analisou de cima a baixo, confirmando que ela parecia fisicamente bem, antes de se afastar alguns passos passando os dedos entre os cabelos que caiam sobre o rosto.
— Essa desgraçada precisa ser parada. Preciso resolver isso do meu jeito. Não dá para continuarmos refém das maluquices dela.
— Elisa… não é tão simples. — Lia tentou — Existe um pacto. Se eu atacar, se eu romper esse acordo… o desequilíbrio pode me destruir completamente. E ela quer que eu quebre o pacto. É isso que ela quer.
— Eu falei do meu jeito, Lia. Você não precisa fazer nada. Eu não tenho pacto nenhum com ela, certo? — Os olhos dela brilhavam de ódio e determinação.
— Não, não tem… Mas, Elisa, ela é muito perigosa. Você viu tudo que ela já fez…
Elisa respirou fundo, segurou a cabeça entre as mãos, passou as palmas nos cabelos, tentando organizar os pensamentos.
— Precisamos ser mais inteligentes que ela e unir forças. Mas não se preocupe, eu me preocupo com essa parte. — falou com um tom mais baixo, mas com tanta determinação quanto antes.
Se aproximou novamente e estendeu a mão, tocando o rosto de Lia levemente.
Lia subiu a mão até o próprio rosto e segurou a mão dela.
— Me desculpa por tudo isso…
— Lia, tudo bem.
— Eu sei que não está tudo bem… Mas enfim… — Suspirou, dando de ombros. — Ah, Elisa, você vem comigo hoje à noite? Na sede das Demunnus?
— Claro que sim. Onde você for, eu vou. Sempre.
Fim do capítulo
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