Capitulo 16
Capítulo dezesseis
ESTHER MOTTA
Parei no sinal vermelho, apertei o volante e senti as lágrimas quentes escorrerem por meu rosto mais uma vez.
Eu não podia acreditar que por um instante eu me deixei levar por ela. Não podia acreditar que eu fiz a coisa que eu mais achava repulsiva, com a pessoa mais repugnante da face da terra.
Sim, eu tinha traído a Jaque. E eu estava com nojo de mim mesma.
Mas por que diabos a única imagem de vinha na minha cabeça agora era o semblante da Carolina depois de me ouvir dizer todas aquelas coisas horríveis?
Bom, ela merecia.
De qualquer forma, eu precisava expulsar ela da minha vida, estava apavorada com aquela aproximação.
Parei no semáforo, olhei para o lado e a cidade como sempre, estava alheia a todos os meus problemas, e isso de certa forma era reconfortante. Nenhuma daquelas pessoas sabiam o que eu fiz.
Como previ, nas noites seguintes ela não voltou a aparecer, seu orgulho imenso era uma de suas características mais marcantes e eu sabia que ferí-lo a afastaria de mim, pelo menos temporariamente.
Jaqueline parecia cada dia mais empolgada com a Azzo, todos os dias me mostrava as fotos que tirava, ela realmente fazia um ótimo trabalho. Eu não fui capaz de contar nada para ela, eu acho que nunca seria capaz.
-- E aquela tal de Raquel? Ainda te alfinetando? -- Perguntei enquanto preparava o molho da macarronada, era sexta-feira à noite e eu estava de folga pois me avisaram de última hora que eu trabalharia no sábado.
-- Não, graças a Deus. -- Jaqueline disse ajeitando a mesa. -- Agora ela está muito focada num projeto com a Carolina… Não tem muitas fotos nessa sessão, é mais um trabalho com a equipe de arte, por isso eu mal vejo ela, o que é ótimo.
Queria não precisar ouvir o nome dela, principalmente da boca da minha noiva, mas eu não podia pedir isso.
Balancei a cabeça em concordância e fui até a sala onde Lara assistia TV.
-- Meu amor, vamos jantar? Amanhã você continua a assistir ok? -- Falei pausando o desenho que ela já deveria ter visto umas vinte vezes.
-- Não quero janta! -- Lara falou cruzando os braços e se encolhendo no sofá em sinal de protesto. -- Quero assistir.
-- Lara… Por favor. -- Me aproximei. -- Mamãe fez macarrão, você não gosta de macarrão?
-- Não!
Franzi a testa, ela amava macarrão.
-- Eu vou comer tudo sozinha então, tá bom?
-- Pode comer… -- Respondeu como se não importasse.
-- Ok, estou indo lá. -- Falei me levantando e indo em direção a cozinha. Poucos segundos depois ela apareceu correndo.
-- Mãeeeee! Quero macarrão.
Eu ri balançando a cabeça negativamente, já estava colocando o prato dela. Lara sempre fazia doce pra comer porque gostava que a paparicassem um pouco antes.
-- Mãe, você vai dormir comigo hoje? -- Ela perguntou enfiando o macarrão na boca. -- Já que você não vai trabalhar.
Arqueei as sobrancelhas e sorri, Lara tinha seu próprio quarto e eu não dormia mais com ela, mas vez e outra ela pedia pra que eu dormisse por lá e eu não era muito boa em recusar os pedidos da minha filha.
Olhei cuidadosamente para Jaqueline que riu, eu tinha dito que passaria a noite com ela, mas ela sabia que tinha perdido aquela disputa pela minha companhia.
-- Claro que a mamãe dorme com você meu anjo. -- Falei fitando aquele par de olhinhos brilhantes. -- Agora termina de jantar que depois você vai me mostrar o que viu na escolinha hoje.
-- Hoje eu me apresentei, eu disse que tenho uma mãe, mas não um pai, mas que minha mãe tem uma namorada.
Eu sorri, mas fiquei preocupada, eu sempre tinha medo da reação das pessoas, ainda que em Curitiba sempre fosse tudo muito tranquilo.
Afastei uma mecha do cabelo dela e deixei que continuasse a falar.
-- Então o João disse que que mora com dois pais e que não tem mãe.
-- Certo. -- Sorri um pouco aliviada.
-- Mãe, por que a Jaque não é minha mãe também?
Hum… É… -- É porque a mamãe conheceu a Jaque depois que você nasceu.
-- Mas mãe… -- Lara hesitou um pouco. --- A Jaque não pode ser minha mãe também?
-- Se você… -- Jaqueline começou a falar e eu a cortei imediatamente.
-- Não, não pode. -- Ela me olhou parecendo um pouco chateada e eu me arrependi. -- A mamãe tem ciúmes. -- Disfarcei, enquanto fazia um carinho nos cabelos da pequena.
Assim que minha filha saiu para tomar banho, Jaqueline me encarou, eu notei que ela ficou um pouco desconfortável e sabia que viria falar comigo.
-- Você não tem ciúmes… -- Ela disse com calma, mas eu sabia que ela não estava tão calma assim, apenas não demonstrava.
-- Jaque… Desculpa. -- Me aproximei tocando seus braços. -- É que…
-- É que ela já tem outra mãe? -- Perguntou desacreditada. -- Esther! Você nem sabe por onde anda essa mulher.
Ah eu sabia sim.
-- Não é só isso. -- Fechei os olhos. -- É que eu não quero que ela se acostume com algo que pode não durar pra sempre.
Jaqueline se afastou e me olhou surpresa. Logo me dei conta do que eu havia acabado de dizer.
-- Você não disse isso… --- Minha noiva deu um riso nervoso e se virou de costas, provavelmente decepcionada.
Eu precisava consertar aquilo.
-- Desculpa meu amor. -- A abracei. -- Não foi o que eu quis dizer. -- Virei-a para mim e encarei aqueles olhos verdes que estavam particularmente tristes naquele momento. -- Eu só quis dizer que preciso pensar no bem-estar da Lara, e querendo ou não, relacionamentos podem terminar e eu me preocupo como a minha filha ficaria numa situação dessas caso ela comece a te tratar dessa forma.
Vi minha noiva suspirar e olhar para o teto e a abracei com mais força.
-- Não fica assim. -- Disse tocando seus lábios, mas fui interrompida.
-- Mãe, posso escolher minha roupa? -- Lara perguntou aparecendo enrolada em um roupão.
-- Vou lá te ajudar. -- Falei me afastando de Jaqueline. -- A mamãe já falou pra você ir direto pro quarto, olha esse chão todo molhado. -- Espera um segundo Jaque. -- Pedi e ela se sentou no sofá.
Acabou que demorei bem mais que um segundo, e quando cheguei Jaqueline já estava dormindo no sofá, me aproximei sentando ao seu lado e toquei seu rosto com carinho.
-- Esther? Desculpa… -- Jaqueline falou se levantando rapidamente.
-- Tudo bem, eu demorei. -- Falei me sentando ao seu lado e segurando sua mão. -- Quer conversar agora? -- Perguntei e ela meneou com a cabeça que sim.
Fim do capítulo
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silverquote Em: 20/12/2025 Autora da história
Realmente, o relacionamento "perfeito" com a Jaque deu uma abalada agora.