Capitulo 17
Capítulo dezessete
CAROLINA FONSECA
Naquele fim de semana, Raquel viajaria para o interior a pedido de seus pais. Fui acompanhá-la até o aeroporto e depois que me despedi, tive de encarar o momento mais torturante da minha semana.
Voltar para casa na sexta à noite.
Fiquei alguns minutos dentro do carro no estacionamento do prédio e depois saí para pegar o elevador que subiria sete andares até chegar ao meu flat.
Ainda no corredor liguei todas as luzes da casa pelo celular.
Abri a porta e me joguei no sofá, tudo ali tinha um cheiro suave de lavanda, lembrando-me que a senhora que fazia faxina uma vez por semana tinha aparecido hoje.
Fui até a cozinha pensando em pedir algo para comer e encontrei uma travessa com ensopado na geladeira.
Sorri e me lembrei que realmente, Dona Marina havia prometido que faria algo decente pra que eu não ficasse comendo porcaria todos os dias.
Coloquei no microondas para esquentar e fui até o meu quarto, troquei de roupa, prendi os cabelos e tirei a maquiagem.
Sexta-feira era um dia em que eu costumava sair, beber um pouco, conhecer alguém que eu não ia querer ver no dia seguinte.
Mas naquele dia eu estava deprimida demais para sair, e claro, eu só poderia admitir aquilo para mim mesma e mais ninguém.
Liguei a TV e estava passando algum programa de auditório qualquer, peguei o controle e fiquei passando os canais até encontrar um filme aleatório que provavelmente já havia começado a um bom tempo.
Não importava, eu só queria ouvir alguma coisa.
Ouvi o microondas apitar me avisando que meu prato estava pronto, me levantei, notei que meu celular vibrava e peguei-o.
Trezentos e cinquenta e sete e-mails.
Fechei os olhos e levei meu notebook para a sala. Coloquei o prato com o cozido sobre a mesa e comecei a ler, um por um.
“Reunião com Enrique Fontana, Domingo às 13h”
Revirei os olhos, e enviei solicitando que ele remarcasse para segunda-feira. Meus domingos eram sagrados.
“Confraternização Editora Ilbe, dia 22 às 18h”
Trabalhei por um tempo lá.
“Farei o possível para estar presente, será um prazer revê-los”
Respondi, mas não tinha muita vontade de ir, estava sempre cansada.
“Chá de bebê - Lúcia da Redação”
Deus me livre.
Digitei rapidamente uma mensagem, desta vez para minha secretária.
“Laura, segunda-feira compre algo que seja apropriado para um chá de bebê e mande acompanhado com um cartão me desculpando por não comparecer.”
Fechei o notebook aborrecida e me lembrei da terapeuta (que eu já não frequentava há quase um ano) me dizendo para evitar me envolver com trabalho depois das 18h de sexta-feira.
Terminei de comer assistindo o filme e mesmo não tendo pegado do começo me interessei e fiquei ali até os créditos.
Já eram 21h, lavei a louça que eu havia sujado e fui até o banheiro, enchi a banheira, entrei na água quente submergindo todo meu corpo enquanto o único barulho no ambiente era o da água se movimentando.
Aquela semana havia drenado todas as minhas energias, e não era por causa da revista, eu estava muito acostumada com aquela agitação boa.
Era por causa da Esther. Por que ela tinha que voltar?
Na verdade bem no fundo eu gostei de vê-la, foi um choque, mas vê-la aqueceu meu coração.
Coloquei no meu celular, uma música que vez e outra eu escutava e me lembrava dela.
Hoje lembrei do teu amor
Hoje lembrei de coisas que eu nunca esqueci
E como poderia?
Se você me marcou pela vida inteira
Hoje me lembrei do teu sabor
Do gosto da tua boca, antes de dormir
Tanto te conhecia
E você despertou tudo o que eu sentia
Não há, chance de apagar
Deixa demorar
Lembrar você é bom demais
Vivemos tanta coisa
Lembra?
Tanto pra acertar
O tempo pra curar
A mágoa que ficou pra trás, valeu minha vida inteira
Esther não era mais quem eu conhecia, era outra pessoa ali. E embora eu merecesse, sua aspereza havia me ferido. Mas por um breve momento, quando a beijei, tive a sensação de que ela ainda me amava.
6 anos atrás.
Saí do trabalho e olhei para a mensagem na tela do meu celular.
"Vou te ver hoje?"
Era Luísa, suspirei fazendo uma careta, estava morrendo de dor de cabeça e só queria tomar um analgésico e descansar.
"Vai ficar pra outro dia. Bjs"
Respondi e ela imediatamente me enviou um emoji de joinha. Nossas conversas eram assim, profundas como um pirex e eu fazia questão disso.
Cheguei em casa e estava tudo muito silencioso, fui até a cozinha e senti aquele cheiro agradável de sempre. Esther estava trabalhando em uma cantina de comida caseira e tinha talento para ninguém colocar defeito.
Eu não jantava em casa, sempre comia qualquer porcaria na rua, mas como ela nunca fazia comida só para ela eu acabava pegando um prato.
Mas naquele dia eu não comi, só peguei um comprimido no armário e bebi com um gole de água. Fui até o quarto e Esther estava deitada.
-- Está tudo bem? -- perguntei me deitando ao seu lado. Esther dormia cedo, mas nem tanto.
-- Uhum, só estou cansada. -- Ela se virou pra me encarar. -- Chegou cedo hoje.
Suspirei desviando o olhar. -- É, estou com dor de cabeça.
-- Tomou remédio? -- Ela perguntou se sentando na cama com ar preocupado.
-- Sim, tomei… só preciso descansar.
-- Tudo bem. -- Esther voltou a se deitar, dessa vez mais próxima. Passou os braços em volta do meu corpo me abraçando com carinho.
Retribui o abraço e dei um beijo no topo de sua cabeça aspirando aquele cheiro gostoso que seus cabelos tinham.
-- Saudades de ficar assim. -- Ela me disse se aninhando mais entre meus braços. -- Faz tempo que você não me abraça assim.
Soltei um riso levemente indignado.
-- É que toda vez que eu tento, você acha que eu quero sex* e me afasta.
Esther se afastou um pouco e ergueu o olhar para me fitar os olhos.
-- Desculpa. -- Disse passando os dedos pelo meu rosto em um carinho suave.
Franzi a testa, o que ela estava fazendo? Ela não tinha que me pedir desculpas, eu que estava sendo um monstro.
Engoli em seco e a apertei contra o meu corpo.
-- Tudo bem… -- Falei baixinho.
Esther havia mudado, a fragilidade e a inocência de antes parecia ter desaparecido. Ao menos por fora ela parecia ter se tornado uma mulher dura.
Ou era só comigo?
Senti um incômodo só de pensar em como ela agia com a tal fotógrafa. Eu sabia que esse incômodo significava que um pedaço do meu coração ainda batia por ela.
Suspirei olhando para as paredes brancas do meu banheiro, havia um imenso espelho de frente para a banheira e eu me remexi sentindo a água já fria demais.
Provavelmente estava ali há muito tempo.
Levantei me enrolando na toalha e caminhando em direção ao quarto. Só me restava dormir.
Fim do capítulo
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