Capitulo 10
Capítulo dez
ESTHER MOTTA
A tal Azzo Magazine devia ser definitivamente uma empresa grande, a julgar pela quantidade de pessoas que tinha naquele bar, ainda que minha namorada tivesse me explicado que muitos eram namorados ou cônjuges dos colaboradores, era muita gente.
-- Jaque! -- Uma mulher alta, que devia ter por volta de cinquenta anos, surgiu na porta. -- Você veio! -- Cumprimentou Jaqueline com dois beijinhos no rosto. -- E você deve ser a famosa Esther Motta, eu sou a Tânia, sou gerente de RH da Azzo.
Eu sorri e retribui o cumprimento, Tânia era alta, tinha um corte chanel e usava um batom vermelho intenso que contrastava com sua pele extremamente branca.
Jaqueline acabou sendo monopolizada pelo pessoal que queria perguntar sobre seus trabalhos anteriores, resolvi me esquivar para o bar, até para me distanciar um pouco da música alta que me impedia até de ouvir meus pensamentos. Pedi um drink leve e fiquei observando o movimento do local.
“Ah, que bobagem… Isso é só um ataque de estrelismo, cancele a entrevista que ela volta correndo.”
Eu gelei quando ouvi aquela voz, em meio a inúmeras conversas paralelas. Apertei o copo e fechei os olhos com força, rezando para estar tendo algum tipo de alucinação sonora.
-- Olha o que ele escreveu! -- Uma outra mulher falou em tom de riso.
-- É… Não dê atenção… É exatamente isso que ela quer. -- Mais uma vez, não tive dúvidas.
-- Ei, o que você tanto olha pra moça do bar? -- A mulher perguntou e eu entrei em desespero. Não era possível que ela tivesse me reconhecido de costas. Só então notei o espelho bem a minha frente.
Ajeitei os óculos, engoli em seco, ela tinha os olhos semicerrados, como se estivesse tentando enxergar algo distante. Tratei de abaixar a cabeça imediatamente.
-- Me parece alguém familiar…
-- Hummm namorada? -- As duas mulheres riram.
-- Que? Não… Só um casinho do meu passado. -- Ela respondeu voltando a beber.
Franzi a testa e saí apressada dali, entrando no primeiro banheiro que encontrei.
Finalmente consegui respirar, era informação demais para minha cabeça, eu tinha certeza que era Carolina sentada ali naquela mesa.
Não era possível que em uma cidade daquele tamanho eu tivesse topado com ela em menos de 24 horas.
Sim, era ela sim. Ainda que aquela mulher se parecesse bem pouco com a minha Carol.
Minha? Deus me livre!
Fechei os olhos e saí do banheiro tentando mentalizar aquele rosto que olhei de relance.
Sim, embora os cabelos estivessem agora lisos e mais compridos e as pontas vermelhas não existissem mais… Embora a maquiagem estivesse suave e o riso frouxo com ar despreocupado tivessem dado lugar a um semblante sério, aquela mulher definitivamente era a Carol.
Sorri desgostosa.
“Um casinho do meu passado”
A voz de Carolina dizendo aquilo para aquela loira de farmácia não parava de zumbir na minha cabeça. Eu tinha sido um casinho no passado dela? Que filha da mãe!
Passei a mão nos cabelos, nervosa. Precisava sair daquele lugar o mais rápido possível, mas não seria certo fazer tamanha desfeita com minha namorada.
Foi só pensar em Jaqueline, que trombei com ela, e para o meu desespero, a mulher ao seu lado, trajando um longo vestido cor vinho, era a mesma que assombrava meus pensamentos.
-- Amor! Estava te procurando. -- Jaqueline disse e se colocou ao meu lado. -- Eu não te disse que a minha noiva era a mulher mais bonita da festa?
Ela tinha acabado de me apresentar como noiva? Meu Deus! Eu sempre me esquecia desse pequeno detalhe.
Carolina arqueou as sobrancelhas. Eu não sabia dizer o que significava aquele brilho estranho em seus olhos.
Também não fazia a mínima questão de saber.
-- Meu Bem. -- Jaqueline continuou, alheia ao desespero que eu me esforçava em disfarçar. -- Essa é a famosa fundadora da Azzo Magazine, Carolina Fonseca, mais conhecida como minha nova chefe. -- Brincou e eu tive certeza que fui a única do trio a não esboçar um sorriso.
Afinal, meu mundo naquele momento estava caindo a 100 km por hora.
-- Prazer. -- Carolina se aproximou para beijar meu rosto e aquele perfume cítrico me deixou completamente zonza. Quando se afastou, nossos olhos se encontraram e eu senti um frio na barriga com a forma como ela me olhou.
Mas vamos fingir que foi náuseas.
-- Você tinha razão. -- Ela encarou minha namorada. -- Ela é linda mesmo. -- Sorriu.
Continuava debochada, provavelmente havia notado meu desconforto e estava se divertindo com isso.
Jaqueline retribuiu o sorriso e me abraçou. -- É um achado, essa mulher vale ouro.
-- Não tenho a menor dúvida… -- Carolina falou e desviou o olhar, como se estivesse buscando um motivo para sair dali. -- Parece que estão me chamando, foi um prazer. -- Ela lançou um sorriso que eu nunca tinha visto em seu rosto e saiu em direção a um grupo logo à frente.
Aquilo era um sorriso forçado?
Eu ainda estava processando aquele reencontro ridículo. Era muito azar encontrá-la em uma cidade com doze milhões de habitantes. Quis voltar correndo para Curitiba, como se fosse um reflexo natural do meu corpo.
Eu pensei que eu poderia fugir dela pelo resto da minha vida.
Fim do capítulo
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