Capitulo 8
8 - Recomeço
Capítulo oito
ESTHER MOTTA
No dia em que a Carol saiu de casa, eu tratei de voltar para a casa dos meus pais imediatamente.
Eu sabia que cedo ou tarde ela ia aparecer novamente, afinal todas as suas coisas estavam ali e acho que eu não seria capaz de sustentar aquela mentira se tivesse que olhar nos olhos dela outra vez.
-- Meu Deus, Esther… -- Minha mãe tapou a boca depois de me ouvir contar em prantos o que eu havia feito. -- Isso não tá certo filha…
-- Filha, esquece isso… Diz pra ela que você foi ao médico e tá tudo bem com o bebê. -- Meu pai pediu, na verdade quase suplicou.
-- Desculpa pai… -- Engoli o choro. O fato do meu pai estar contra mim já me dava uma dimensão do tamanho do meu erro. Mas eu estava decidida. -- Eu não vou voltar atrás… Se vocês não me apoiarem eu vou embora do mesmo jeito. -- Esfreguei o rosto diversas vezes tentando secar as lágrimas que escorriam sem parar.
Os dois se entreolharam sabendo que eu não estava blefando. É claro que sabiam, então naquela mesma noite, eu embarquei em um ônibus com destino a Curitiba.
Pela janela, eu via o rosto apreensivo dos dois ficando cada vez mais distante enquanto o ônibus se afastava. Esperei eles desaparecerem do meu campo de visão para me permitir chorar.
Não duvido que eles tenham feito a mesma coisa.
A chegada foi de manhã, cochilei durante alguns momentos, mas dormir era impossível. Eu desci com inúmeras malas e um táxi me deixou em frente ao prédio, onde ficava o apartamento de uma conhecida da família. Os três primeiros meses do aluguel já haviam sido pagos e eu só precisaria encontrar um emprego naquele intervalo de tempo.
É, “só isso”.
Abri a porta encontrando um ambiente bastante silencioso. Reparei que apenas a cozinha possuía iluminação e também era o cômodo menos vazio, com alguns armários na parede, pia e uma mesa dobrável.
No quarto havia um colchão, o qual eu não estava muito animada para usar. Não parecia sujo nem nada, mas eu era um pouco neurótica às vezes, por isso joguei uma manta por cima dele e tentei dormir.
Sem sucesso.
Estava frio, as janelas não tinham cortina e a claridade do local não me ajudaria a descansar.
Eu só pensava em como aquele lugar parecia triste, e nem um pouco aconchegante, e foi nesse momento que a minha ficha caiu. Eu estava sozinha e sem emprego em uma cidade onde não conhecia quase ninguém.
Quer dizer, eu não estava sozinha.
Mas sobrevivi, consegui a transferência de curso e finalizei o último semestre da faculdade enquanto já trabalhava como auxiliar de cozinha em um bom restaurante da região.
Trabalhei até a 34ª semana, e acho que trabalharia uma ou duas semanas a mais se minha pequena não tivesse tanta pressa pra vir a esse mundo. Apesar de prematura, Lara nasceu saudável, ainda que parecesse o serzinho mais frágil do mundo.
Àquela altura, meu apartamento já estava bem mais confortável, principalmente o espaço no meu quarto que eu preparei para recebê-la. Acho que minha vida girava em torno daquele momento em que eu a teria nos meus braços e ainda assim, a sensação de sair com ela do hospital foi indescritível.
Foi como se o tempo tivesse parado ali naquele instante.
Mas não tinha parado, não mesmo. Os meses que se seguiram definitivamente me transformaram na mulher que eu sou hoje. Eu me vi novamente sem emprego e dessa vez, a rejeição era ainda maior.
Eu sabia que se eu não conseguisse me manter, teria que voltar para a casa dos meus pais, e isso estava fora de questão por inúmeros motivos.
Era domingo, estava colocando as roupas na máquina quando observei um cartão cair de um dos bolsos da minha calça.
Manuela Braga | Chef especialista em culinária vegana | Fundadora da rede de restaurantes “Canto Vega”.
Me lembrei imediatamente da mulher que havia feito uma palestra na faculdade e distribuído seu contato para todos os estudantes do último semestre. Com toda a correria do trabalho, gravidez e formatura eu simplesmente havia me esquecido.
Rolei o feed do instagram profissional da chef pensando em como seria estranho entrar em contato agora, depois de tantos meses, mas acabei enviando um email, com o coração aos pulos, como se tivesse alguma chance de uma mulher nitidamente atarefada como aquela me notar.
E bom, ela me notou. Não só me notou, como também me deu a oportunidade de fazer um teste na cozinha da unidade mais movimentada da rede de restaurantes.
Eu dei meu sangue nesse período, por mais que meu coração ficasse inquieto de deixar minha filha com uma babá, eu sabia que precisava ser forte por nós duas e conseguir esse trabalho era essencial.
-- Esther, vem aqui um minuto. -- Ouvi Manuela me chamar e me aproximei um pouco receosa, tentando lembrar se havia feito algo errado.
-- O que acha de assinar o cardápio? -- Ela me perguntou com uma grande cara de paisagem e eu fiquei alguns minutos tentando processar.
-- Oi?
-- Tem alguns clientes que só vem aqui no dia que você está na cozinha, eu acho que é justo incluir um dos seus pratos no cardápio oficial.
Meu coração acelerou. Eu apenas assenti, ainda sem acreditar. Um prato meu no cardápio? Aquilo era muito mais do que eu havia sonhado.
Essa lembrança me fez sorrir enquanto terminava de tomar de colocar as últimas roupas na mala. Era engraçado pensar como tudo começou, eu cresci muito naquele lugar, e por isso, me apertava o coração ter dado adeus a cada um dos meus colegas, depois de tantos anos.
De certa forma, eu não estava deixando o restaurante, Manu apenas me transferiu para a unidade de São Paulo, e isso me deixava bastante aliviada.
Olhei para o meu apartamento e sorri, ainda que já não parecesse mais, era exatamente o mesmo local em que pisei quando cheguei a Curitiba, e estava sendo difícil me despedir daquele espaço.
-- Amor, me ajuda a levar essas malas? -- Jaque me tirou da minha nostalgia.
Me levantei pegando parte da bagagem que ela segurava e a segui descendo as escadas.
Jaqueline foi mais uma das gratas surpresa da minha vida. Há 3 anos atrás, eu caminhava em direção a padaria que ficava a um quarteirão do meu prédio. Na rua, haviam se formado poças d’água da noite chuvosa, quando um carro passou jogando uma onda de água em mim, eu senti que definitivamente havia começado o dia com o pé esquerdo.
Mas não, aquele era meu dia de sorte.
Quando vi o carro parar, momentaneamente me esqueci de xingar a motorista que desceu, porque aquela carinha de culpa era terrivelmente adorável.
Assim que ela se aproximou, com uma jaqueta de couro, calça preta colada e os cabelos castanho-claro que caíam em cachos soltos pelo ombro, eu notei que pela primeira vez havia me sentido atraída por outra mulher depois da Carol. Sem que estivesse me esforçando para isso.
-- Me desculpa moça… -- Ela falou. -- Eu estava distraída e não percebi você aí.
Fechei os olhos sentindo meu mau humor voltar, mas decidi que iria manter a postura, afinal ela havia sido muito educada.
-- Tudo bem, acontece.
-- Meu nome é Jaqueline. -- Estendeu a mão que eu apertei e respondi. -- Prazer, Esther.
-- Você tá indo pra padaria? Quer uma carona?
Arqueei as sobrancelhas desconfiada. -- Como você sabe que estou indo pra lá?
-- Eu te vejo lá todos os dias. -- Sorriu.
E que sorriso lindo.
De volta ao presente, terminei de descer as escadas com Jaque e fui até o carro conferir se Lara estava devidamente segura no banco traseiro. Conferi minha bolsa para me certificar que não estava me esquecendo de nada e olhei para minha namorada, que andava a passos lentos de um lado para o outro falando ao telefone.
“Obrigada Tânia, estaremos lá domingo.”
-- Estaremos? -- Perguntei abraçando-a assim que ela desligou o telefone. Jaqueline se virou e me encarou tocando a ponta do meu queixo.
-- É só uma festa de boas-vindas da Azzo, prometo que não vai ser nada demorado.
Quando eu comuniquei minha decisão de voltar para São Paulo, Jaqueline decidiu aceitar a proposta da Azzo Magazine, uma tal empresa que já havia tentado contratá-la diversas vezes como fotógrafa.
Embora eu a chamasse de namorada, a verdade é que havíamos noivado recentemente e seria problemático um relacionamento a distância, além do fato de que Lara era louca por ela.
-- Tudo bem, vai ser bom sair um pouco. -- Eu disse inocentemente.
Mal sabia eu o que me esperava ali.
Fim do capítulo
Me desculpem por todo esse tempo sem atualizações, aconteceram muitas coisas na minha vida que eu sequer vi o ano passar. Mas estou de voltar e estou com a maior parte dos capítulos adiantados <3
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silverquote Em: 20/12/2025 Autora da história
Pois é, Esther seguiu em frente. Carol também, a sua maneira.
Obrigada pelo carinho