Maré Rubra
Maré rubra - Dia 12
Naiovi despertou devagar no meio da noite, com os olhos ainda pesados e a mente turva. A luz da lua crescente entrava pelas frestas da janela, desenhando sombras suaves pelo quarto. Pela fresta da porta entreaberta, conseguia ouvir o som ritmado e constante da faca de Moarã entalhando a madeira no cômodo ao lado. O barulho, quase hipnótico, confirmava que ela ainda estava ali. Sorriu com um fio de alívio, sentindo a solidão suavizar. Não precisava se preocupar. Fechou os olhos de novo, entregando-se ao sono, embalada pela maré tranquila daquela vigília silenciosa.
Acordou mais descansada ao nascer do sol, o corpo ainda dolorido da queda, mas a mente finalmente mais calma. A luz suave do amanhecer filtrava-se pelas cortinas, aquecendo os cantos do quarto com um tom dourado.
No quarto ao lado, a porta semiaberta deixava escapar o ritmo lento da respiração de Moarã, entregue ao sono. Nas mãos, repousava a escultura quase pronta – uma figura animal esculpida com delicadeza.
Naiovi recostou um pouco mais a porta, com cuidado para não acordá-la. Foi à cozinha, acendeu o fogo e começou a preparar o café. O cheiro do café moído misturava-se ao ar fresco da manhã, trazendo uma sensação de normalidade que contrastava com a intensidade dos últimos dias.
Enquanto filtrava o café, ouviu passos na porta da frente. Ethel entrou com o olhar apressado, já acostumada a dias longos e pouco descanso.
– Bom dia! – disse Ethel, indo para a cozinha. – Trouxe pão quentinho! Como ela está?
– Ainda dormindo – respondeu Naiovi, indicando o quarto semiaberto. – E o bonequinho? Quase pronto.
Ethel espiou e sorriu, admirando o trabalho elaborado e cheio de afeto.
Sentaram-se na mesa pequena, uma de frente para a outra, enquanto o aroma do café preenchia o ambiente.
– Sobre a nova rota – Naiovi começou, apoiando o caderno aberto na mesa –, já tracei o plano: primeiro, enviar o relatório para Kohr. Precisamos que eles não fiquem com dúvidas sobre o andamento das pesquisas acerca da pena-de-anjo.
Ethel assentiu, observando o conteúdo do caderno.
– Depois, estabilizar o composto. Essa mistura com a seiva de Ramuá parece promissora, mas ainda é instável. Vamos precisar testar com cuidado. E, quando vier a próxima tempestade, precisamos voltar à nascente norte para coletar amostras frescas do musgo e continuar a pesquisa. O tempo é incerto, então vamos usar essa incerteza a nosso favor.
Naiovi suspirou, deixando a xícara sobre a mesa.
– Seria muito melhor se você estivesse comigo no laboratório…
– Eu sei. Eu também queria estar lá, estou com saudades das plantinhas envidraçadas, mas alguém precisa monitorar Moarã.
– Eu sei.
As duas ficaram em silêncio por um momento, avaliando o impasse.
De repente, a porta do quarto se abriu lentamente. Moarã apareceu no batente, esfregando os olhos, a expressão ainda sonolenta.
– Tão falando o que de mim? – perguntou, com a voz rouca.
Naiovi e Ethel trocaram olhares rápidos e assentiram quase juntas, como se compartilhassem um pensamento por telepatia.
– Como está se sentindo hoje?
– Melhor do que ontem, pior que…
– Vai responder isso todo dia agora?
Moarã soltou uma risada abafada.
– Mas é verdade. Hoje dói menos, sinto meu corpo mais leve. O cansaço parece ter dado uma trégua.
Moarã caminhou até a mesa e sentou-se na cadeira da ponta.
– E a ferida?
– Bom dia! Sim, eu adoraria um cafézinho. Olha, Ethel trouxe pão! Ah, sim, dormi bem, obrigada pela preocupação. – Debochou com humor ácido, tentando afastar aqueles olhares atentos, curiosos e analíticos que lhe eram direcionados, como se fossem esmiuçá-la a qualquer momento.
Naiovi sorriu com a ironia de Moarã e respondeu:
– Bom dia! Café com pão de abóbora parece ótima forma de começar.
Ethel estendeu a mão para Moarã, com um olhar mais suave:
– Vamos dar uma olhada nessa ferida? Hora de trocar o curativo.
Moarã suspirou, levantou o braço e deixou que Ethel afastasse a faixa com movimentos firmes, mas delicados. Naiovi pegou um frasco com antisséptico e um pano úmido, ajudando na limpeza da ferida.
– Está melhorando – comentou Naiovi.
Moarã fez uma careta, mas não discutiu. Aceitou o novo curativo e ajeitou a camisa.
Ethel sorriu, com um brilho diferente nos olhos:
– Quer passear, gatinha?
Moarã piscou.
– Passear?
*********
Ao chegar, o laboratório já respirava o silêncio habitual – uma mistura de química, terra e metal. A luz filtrada pelas placas solares piscou quando acendeu. Deixaram as bolsas no canto junto à porta metálica do laboratório, cuidadosamente organizadas para não atrapalhar a circulação do espaço. O caminho até o laboratório não era longo, mas respeitavam o passo lento e cuidadoso de Moarã. O solo irregular às vezes exigia atenção, mas nenhuma delas reclamava do ritmo pausado.
Ethel trazia uma pequena mochila nas costas com frutas secas e raízes desidratadas para os lanches e um colchonete no braço, enquanto Naiovi carregava duas bolsas, uma em cada lado.
– Trouxe seu “brinquedo” – brincou Naiovi, mostrando para Moarã o interior de uma das bolsas, com as madeiras e os pequenos instrumentos – Vai poder passar o tempo enquanto a gente corre atrás dele.
Moarã sorriu com a gentileza.
– Não vou reclamar. Gosto de esculpir.
Montaram o colchonete no canto mais confortável, perto da janela que deixava entrar a luz do sol da manhã. Moarã se acomodou com cuidado, pegando suas ferramentas e começando a trabalhar nas formas que iam surgindo na madeira.
– Tem certeza que quer ficar no chão? — Naiovi perguntou de novo, voltando o olhar para Moarã já sentada no colchonete como se estivesse em casa.
A muralha ergueu o rosto apenas o suficiente para responder:
– Eu prefiro.
E havia verdade ali. A madeira apoiada no joelho, o estilete firme na mão, o sol atravessando a janela e batendo no ombro dela – parecia que Moarã se assentava melhor quando tocava o chão. Como se ficasse mais… inteira.
Naiovi abriu os cadernos, espalhou frascos e tubos sobre a mesa, e começou a preparar a bancada para a próxima etapa da pesquisa. Ethel ficou ao lado, revisando anotações, monitorando Moarã, pronta para auxiliar e trocar ideias.
O ambiente ficou preenchido por uma mistura harmoniosa de trabalho, silêncio e o som rítmico da faca de Moarã marcando a madeira como um compasso.
As horas passaram embaladas pelo ritmo tranquilo do laboratório. Moarã continuava entalhando a madeira com concentração, o som da faca cadenciado, quase meditativo. Naiovi, imersa em suas anotações, mexia cuidadosamente nas substâncias, registrando cada reação no relatório. De vez em quando, Naiovi lançava um olhar para Moarã, que respondia com um leve sorriso.
Ethel, entre uma consulta ao caderno e outra, levantava-se para alongar o corpo. Olhou pela janela, observando a movimentação do povoado. Seu olhar se demorava nas sombras de meio-dia e na rotina que pulsava lá fora, como um convite para a vida além do laboratório.
– Vou almoçar com o pessoal da praça – anunciou ela de repente, voltando-se para as outras duas. – É bom sair um pouco, pegar um ar, ouvir umas histórias. Não querem vir?
Moarã ergueu a cabeça, os olhos ainda atentos à escultura.
– A gente segura as pontas aqui.
– Tá bom. Trago uns lanches pra vocês quando voltar.
Naiovi concordou, sem tirar os olhos dos frascos.
– Vai lá, não precisa se preocupar com a gente. Paz ao que te habita.
Ethel retirou a roupa de proteção e parou no batente da porta.
– Não devo demorar, logo menos tô de volta aqui. Força ao que te move.
Com um aceno rápido, Ethel pegou a bolsa e saiu, fechando a porta com cuidado para não perturbar a paz no contêiner.
A quietude voltou, preenchida apenas pelo arranhar da faca e o tilintar de vidros. Naiovi e Moarã continuaram a trabalhar lado a lado, enquanto o sol subia mais alto e a luz atravessava o pequeno espaço com um calor preguiçoso.
Naiovi quebrou o silêncio:
– Tá a fim de comer o quê hoje?
Moarã parou a faca no ar.
– Vai cozinhar?
– O que for possível.
– Aqui?!
Naiovi sorriu e retirou as luvas.
– Claro que não. A gente dá um pulinho em casa, é bom que pega um sol também.
– Não acha que vou estar fazendo esforço demais, que tem que tomar cuidado…
– Olha… você tem se comportado. Está repousando, descansando… assim ajuda, né?
Moarã a olhou de lado, desconfiada, mas com um brilho contido nos olhos.
– Tá, um pouco de sol não vai me matar – murmurou, fechando o canivete.
Naiovi pegou a bolsa com as chaves.
– Então vamos antes que você mude de ideia.
– Até parece.
Saíram com passos tranquilos. O sol de começo de tarde acariciava a pele marcada de Moarã, o ar trazia o cheiro de comida pelas ruas e crianças corriam rindo pelas vielas próximas.
Naiovi, ainda trancando o laboratório, parou com a chave no ar. Algo a fez mudar o semblante. O riso das crianças pareceu se afastar, abafado. Um estalo de madeira ecoou distante, e o canto dos pássaros estava um pouco mais baixo que o normal.
Tinha algo de errado.
Observou o chão de terra à sua frente por alguns instantes e viu Moarã, já a alguns passos a frente, prestes a cruzar o pequeno muro que cercava o contêiner. Um arrepio lhe subiu pela nuca. Sem pensar duas vezes, correu até ela e tomou-lhe pelo braço com pressa:
– Precisamos voltar.
– O qu… Por quê? – Moarã franziu o cenho, sendo conduzida de volta por Naiovi.
– Vem. Vamos esperar um pouco antes de sair.
Entraram de volta e Naiovi fechou a porta com mais firmeza que o convencional.
– O que tá acontecendo?
– Nada, eu só… estou com um mal pressentimento.
– Pressentimento? – cruzou os braços e esboçou um sorriso de canto, ironizando – Você tem isso?
Naiovi retribuiu com um sorriso nervoso.
– Digamos que sim.
O silêncio pacífico que permeava o ambiente foi interrompido por sons de pássaros voando ao lado de fora e uma mudança súbita na direção do vento.
Moarã foi à janela e abriu, se inclinando para ver a movimentação da rua e das árvores próximas. Em questão de segundos, não havia mais nenhum pássaro por perto.
Um sopro atravessou o telhado, fazendo tremer os vidros. Não havia mais aves – no lugar, um silêncio denso, cortado apenas por um som distante, grave e rítmico.
Os berrantes. E, logo depois, o eco seco de cascos contra o chão endurecido.
Moarã virou-se para Naiovi, pálida, sem entender o que estava acontecendo – ou como aconteceu. A cientista já estava ali:
– Precisamos fechar tudo. – Fechou a janela que Moarã abrira, apertou um botão ao lado da porta de entrada e um barulho metálico tomou conta do ambiente, constante, por alguns segundos.
Moarã foi o mais rápido que pôde até sua bolsa e pegou dois pedaços de tecido grosso.
– Pode não ser, mas se for… – Jogou um para Naiovi. O som lá fora se aproximava, cada barulho grave do berrante fazia vibrar dentro do peito.
– Não precisa. A vedação já foi ativada, vamos ficar bem.
Alguns minutos depois, o barulho da cavalaria se afastou e o berrante cessou subitamente.
– Deve começar a qualquer momento. – continuou Naiovi.
Moarã permaneceu imóvel onde estava, respirando rápido, ainda tentando assimilar as informações.
Agora foi a vez de Moarã se sentir estrangeira: presa, no meio daquele ambiente estéril, fechado, cercada de bancadas metálicas, vidros, plástico, eletricidade e máquinas. Mas não sentiu-se estrangeira só por isso, não. Aquilo apenas metaforava em forma um sentimento mais abstrato. Gelava a barriga, subia pelo peito e parava na garganta, como um nó ou um laço. Não era exatamente medo, talvez vulnerabilidade ou um espanto… Naiovi sabia algo. Não tem como alguém tão cético ter um pressentimento assim e agir de forma tão decidida. Poderia uma cientista tão pragmática ser supersticiosa?
Sentou-se na cadeira ao lado da porta onde Naiovi mexia na tela, retomando a respiração lentamente, olhando o laboratório em volta.
Lá fora, apenas um silêncio morto: puro, sem pássaros, sem farfalhar, sem passos, sem vento, vazio.
Naiovi checava um visor acoplado à parede, onde pequenos indicadores verdes piscavam de forma constante.
– A vedação está funcionando. Mas se houver queda de energia, deve durar no máximo uma hora.
Moarã não respondeu. Seus olhos varriam o laboratório, tentando identificar qualquer saída, qualquer sinal de ameaça. A sensação de estar cercada era pior que o perigo em si.
As luzes piscaram mais uma vez, e Naiovi apertou outro botão no painel. Um zumbido grave preencheu o ambiente, vibrando nas paredes.
– O que é isso? – perguntou Moarã.
– Selamento secundário. – A voz de Naiovi soava técnica, mas os dedos se moviam rápidos demais para quem estava apenas “seguindo protocolo”. – Só pra garantir.
Lá fora, um último toque distante de berrante ecoou. Depois, nada.
O silêncio não trazia paz, era o tipo de vazio que obriga o corpo a ouvir o próprio sangue pulsando na têmpora. De fundo, apenas o som ambiente e constante do controle de temperatura e alguns zunidos inconstantes de energia que vinham das lâmpadas.
Moarã se inclinou para frente, apoiando as mãos nos joelhos.
– Tá bom. Vai me contar o que sabe?
Naiovi parou. Permaneceu alguns segundos observando sem foco os indicadores verdes no painel e finalmente virou-se.
Os primeiros fechos de areia vermelha começaram a raspar nas paredes metálicas do laboratório. O som era mais afiado do que o que Moarã estava acostumada em toda essa vida em Valeã.
Aquele olhar dourado-acobreado sério de Naiovi misturado ao som do começo da tempestade fez subir um calafrio pela espinha e seu coração bater mais rápido. O som lá fora se tornava mais agudo, abafado pelas blindagens do contêiner.
Naiovi olhou atentamente Moarã sentada ao lado da bancada por alguns instantes, até parecer que algo dentro de si cedeu. Soltou um suspiro rendido.
– O que quer saber?
– Foi mesmo intuição? Pressentimento?
Naiovi imaginava que essa seria a pergunta. Óbvio que Moarã não ia cair nesse papo. Pensou em desconversar ou sustentar a história, mas…
– Não.
– O que foi então? Como sabia que ia chegar antes mesmo dos pássaros?
– Desculpe, não posso falar sobre isso. É assunto confidencial.
– Confidencial?
– Referente às políticas internas de Kohr.
Moarã fez uma expressão irônica, como quem perguntasse sério:
– E esse “Kohr” está aqui entre nós agora?
Naiovi soltou um riso nervoso, descrente da pergunta.
– Acho que estamos completamente fora de área, nenhum dado vem ou vai pra Kohr agora, não é? – Completou Moarã.
– Isso é verdade, a tempestade bloqueia os sinais… Funciona como uma gaiola de Faraday. – Pensou alto, constantando apenas para si mesma.
– Aí já não sei.
Naiovi direcionou o olhar novamente para Moarã, analisando cada expressão, respiração, postura.
Ponderando.
E recebia o olhar de volta, um que esperava uma resposta que sabia que ia ter.
– Você tem que me prometer não falar com ninguém.
Moarã inclinou-se mais, atenta.
– Ninguém. Entendeu? Nem Ethel.
Moarã assentiu, com tranquilidade.
Naiovi foi até a sua mochila e retirou uma pequena caixinha metálica redonda.
Hesitou.
Ficou olhando para a caixinha por um tempo, e então para Moarã.
Rosqueou lentamente o pequeno recipiente, repensando a cada segundo extra se ela poderia fazer isso ou se seria mais uma distração, outro desvio de caminho. Queria fazer, finalmente dividir isso com alguém, mas… Em Valeã, com Moarã? Que atrevimento.
E talvez por isso mesmo fosse interessante.
Dentro, revelava apenas um líquido translúcido azulado.
Moarã andou até ao lado de Naiovi e olhou para dentro do pequeno compartimento, confusa.
– É outro de seus compostos? Ele por acaso te permite prever o futuro?
– É… Mas não. Ainda não chegamos nesse nível de tecnologia quântica. – Naiovi deu um riso tenso. – Mas não é isso que quero te mostrar. – Levou a mão ao rosto, retirando uma lente de contato do olho esquerdo e colocando-a na solução.
A lente afundou devagar, tingindo-a com um brilho quase imperceptível, como se minúsculas partículas despertassem ao contato. Ao erguer os olhos de volta para Moarã, revelou-se o verde carregado por baixo daquele dourado habitual.
Moarã inclinou o rosto, franziu o cenho e piscou rápido, certa de que nunca tinha visto algo assim antes.
– Certo. Você vai ter que explicar.
Naiovi desviou o olhar para o pequeno recipiente.
– Isso… mostra coisas que você não veria normalmente. Dados. Frequências, variações, deslocamentos no ar… movimentos que antecedem fenômenos como esse.
– Então você sabia que a tempestade vinha.
– Eu sabia que algo estava vindo e que era melhor não estar na rua pra ver.
Um estrondo abafado fez vibrar os frascos na prateleira. Três segundos depois, o som agudo da areia contra a blindagem se intensificou, como se o mundo inteiro estivesse sendo lixado.
– Como…
– Nanobots. – continuou, ainda fitando a solução onde a lente descansava. – Medem pulsação, temperatura, saturação, pressão, distância, angulações… tudo em tempo real. E camuflam a cor original, corrigindo a refração de acordo com a iluminação, dando um aspecto extremamente natural.
– Camuflar?
Ela riu, curta, sem humor.
– Dourado é a cor da elite em Kohr. Já o verde… é outra história. Desde quando comecei a me tornar uma figura pública, ainda adolescente, precisei “ajustar” o que eu mostrava. É uma característica marcante e esse destaque poderia ter… consequências. Desenvolvi essa lente com Konnor, meu tutor, para parecer natural o bastante e servir às pesquisas. Juntar o agradável ao útil. Só não tem tecnologia o suficiente para armazenar dados, mas pra isso tenho meus cadernos...
Ao erguer os olhos de volta para Moarã, revelou-se novamente o verde por baixo daquele dourado-mel de sempre – um verde saturado profundo, vívido, escuro.
– O que significa que vi seu coração quase saindo pela boca até agora. – Continuou Naiovi.
Moarã observava com curiosidade: o dourado, agora ausente, lhe pareceu falso em retrospecto. Uma moeda bem polida. O verde, por outro lado, tinha um quê de insubordinação, de mata fechada. Moarã queria registrar cada tom existente naquele par de olhos direcionados a ela. Não conseguiu conter uma risada abafada, antes soltar:
– Combina com você. E do outro, não vai tirar?
– Não é lente.
– Não?! – Moarã aproximou o rosto, conferindo de perto aqueles olhos assimétricos. – Nunca vi isso.
A kohrriana desviou o rosto e se afastou alguns passos.
– O nome é heterocromia, é uma condição genética.
Moarã fitou a lente mergulhada no líquido translúcido sobre a mesa, mas não conseguia afastar a imagem. O verde parecia mais verdadeiro, mais perigoso, mais vivo que qualquer medalha de ouro que Kohr pudesse exibir.
Lá fora, o vento mudou de direção e o sopra-sangue batia com força contra as paredes. A luz oscilou outra vez, piscando em intervalos curtos, até se estabilizar num tom mais fraco.
– A tempestade está piorando – virou Naiovi – Preciso ajustar os painéis solares.
Pegou a lente sobre a mesa, já posicionando para colocá-la de volta. O gesto era automático, mas dessa vez estava quase ansioso. Moarã estendeu a mão, interceptando-a no caminho.
– Fica assim.
Naiovi sustentou o olhar por alguns segundos e acabou soltando um riso nervoso.
– Agora que você sabe, acha que vou ficar te monitorando o tempo todo?
– Sempre achei isso.
– Mas… Isso não te assusta? Não te parece… estranho?
– Assusta um pouco, mas acho que não de um jeito ruim.
Um estalar de água contra o metal anunciava o começo da chuva. O vento continuava espesso, arenoso, áspero, quente. Por um momento, o silêncio entre as duas ficou mais denso que o ar carregado lá fora.
O comentário de Moarã reverberou dentro de Naiovi, mais forte que o estrondo abafado dos ventos inconstantes. Não era comum ouvir alguém admitir o medo sem se retrair, e, menos ainda, ver isso acompanhado de um convite para permanecer. Percebeu o frio nas pontas dos seus dedos. Seus olhos estavam inteiros diante de outra pessoa. De Moarã. Sem filtro e sem leituras instantâneas.
A lente continuava em seu dedo, leve como uma gota, mas que parecia pesar toneladas. E ali estava Moarã, encarando-a como se quisesse memorizar cada detalhe, sem desviar.
– Você… – Naiovi começou, mas a frase foi interrompida por um trovão que esbravejou perto, alto e vibrante, fazendo oscilar novamente as luzes no ambiente. Por um instante, Naiovi não soube se a tensão que sentia vinha por causa de Moarã ou da ameaça da tempestade. Engoliu a seco. – Shit! Se chover, as coisas podem complicar.
Num movimento rápido, guardou a lente de volta no pequeno compartimento e foi até o outro canto do laboratório, onde havia o painel elétrico da estrutura, ao lado da janela que a caçadora talhava. Agachou e observou os fios, acariciando a própria nuca. Moarã já conhecia aquele gesto: a estrangeira fazia sempre que queria se acalmar.
– Sem a lente… parece que perco uma parte de mim. Eu sei como isso aqui funciona, como resolver, mas… parece vazio. – pegou um multímetro digital na gaveta ao lado e começou a testar fio a fio – É um vício. Os dados que você quer, bem ali, na hora, na sua frente. Prático. Sem precisar de equipamentos, sem tralha, sem perda de tempo…
– E sem paciência. – Moarã sorriu de lado. A garota de Kohr ainda era a garota de Kohr. – Tá fazendo o que aí?
Naiovi, de costas, mexia em alguns fios, reorganizando-os no compartimento. Ela estava tentando localizar a origem do curto, tentando evitar um pane, ocupando as mãos, evitando contato, se escondendo…
– A energia tá instável. Preciso descobrir se é alguma coisa que posso consertar daqui ou se só indo lá fora, quando o Red Drift passar. Melhor prevenir o estrago do que ter que consertar alguma coisa depois.
A vigia sentou-se de volta no colchonete ao lado do painel e pegou a madeira que esculpia. Fitava Naiovi de lado: seus movimentos, suas mãos ágeis, sua expressão de perfil tensa e concentrada e o tom dourado do seu lado direito do rosto.
A chuva aumentava lá fora, batendo contra a blindagem sem poder discernir o que era água e o que era poeira. Um forte vendaval fez as luzes se apagarem de vez.
– Fuck! Are u kidding me? – resmungou Naiovi, desferindo um tapa contido na superfície metálica do disjuntor.
Após alguns segundos as luzes de emergência vermelhas se acenderam, engolindo o ambiente num escarlate vivo que não iluminava de fato, apenas desenhava vultos e recortava silhuetas no escuro. Naiovi se ergueu num impulso, mas Moarã prendeu seu pulso no caminho com a mesma rapidez, a pressão exata para impedir o avanço.
– Temos uma hora, não é?
– Por aí.
– Vai passar antes disso. Fica tranquila.
– Como sabe?
– É você que precisa de lentes pra ler o mundo.
A ventania produzia uivos arrastados que parecia querer invadir pela menor fresta. Moarã tossiu, áspero e carregado, a respiração falhou por um instante. Naiovi sentiu o peito apertar e aproximou-se, percebendo um alerta que não podia ignorar. A caçadora virou o rosto, mas a mão foi instintivamente ao flanco, onde o ferimento da queda ainda latej*v*. O gesto foi rápido, discreto como sempre, mas não o suficiente para escapar da percepção treinada da diplomata.
– Moarã… – murmurou, aproximando-se.
Naiovi se ajoelhou à frente dela – seus olhos, agora assimétricos de forma inédita, refletiam a luz vermelha vibrante em um e um quase preto no outro.
– O que aconteceu? É o red... Sopra-sangue? Está sentindo alguma coisa? O corte dói? – Sua voz soou baixa, preocupada.
– Não… Acho que foi só… o esforço. Muita coisa em pouco tempo.
Naiovi não tinha dados. Não conseguia mais acompanhar os batimentos de Moarã, nem sua temperatura. Olhou para o balcão, mas não conseguia ver onde tinha deixado a lente. Voltou a atenção para ela: precisava medir pela pulsação na jugular, pelo subir e descer do peito, pelos olhos escuros que a observava de volta e a embrulhava novamente…
O breu da sala parecia fechar tudo ao redor, como se só existissem as duas e o brilho escarlate refletido delas, que pareciam desenhados em carmim e preto. O ar ali parecia mais denso, saturado por uma eletricidade que não vinha só das luzes de emergência ou dos raios. Seu foco demorou nos lábios de Moarã... talvez procurando indícios de desidratação. Percebeu que, se avançasse meio metro, a tocaria.
A guarda sabia que estava sendo examinada. Deixou. Talvez por falta de opção, resignação, ou talvez porque até que gostava de ver aqueles olhos estrangeiros percorrendo seu pescoço, seu peito, sua boca… E percebeu algo de diferente na feição tão concentrada da cientista. Uma microexpressão, apenas, mas o suficiente para dar uma fagulha de coragem: Sem hesitar, subiu seus dedos devagar pelo antebraço de Naiovi.
Ela sentiu o toque inesperado e seu corpo inteiro tremeu – quase recuou, mas retribuiu, com certa surpresa, ao olhar da caçadora.
Por um instante, não havia vento, nem pesquisa, nem mundo: só o cheiro de ervas, de álcool, da pele quente e o som entrecortado das duas respirando quase que no mesmo compasso. Moarã subiu a mão até acima do cotovelo e a fechou, trazendo firme e lentamente Naiovi para mais perto.
Só meio metro.
A distância sumiu de vez quando Moarã inclinou-se até sentir o contorno exato dos lábios de Naiovi.
Foi como faísca em pólvora seca.
Quando a mão de Naiovi pousou em seu pescoço, já não lembrava em que momento tinha parado de respirar. Sentiu uma corrente elétrica vinda de dentro e se espalhava nos dedos, que instintivamente agarraram a cintura da diplomata.
A mão de Naiovi desceu do pescoço para os ombros de Moarã, lembrando-a das elevações por baixo da camiseta leve de algodão que a caçadora vestia: as escarificações, talhadas com lâmina e fogo, estavam bem ali. Seguiu cada relevo como se lesse um mapa secreto em braile, contornando as cicatrizes até a bainha da camisa e parou ali, prestes a tocar a pele.
Moarã afastou o rosto e a encarou de perto, sem palavra alguma, mas o gesto foi claro: pegou a mão da kohrriana e a colocou sob sua pele.
Naiovi se lembrava das primeiras vezes que vira as marcas: na noite de quarto-minguante, de longe, quando tinha acabado de chegar em Valeã, e quando foi para casa de Moarã pela primeira vez. Dessas vezes precisou se conter, desviar, mas agora estava ali: bem em sua frente, perto, em preto e vermelho e então ardente em seus dedos e na palma de sua mão. Tocar a pele da sua paciente sentinela era como cruzar uma fronteira incorpórea.
Moarã avançou novamente para os lábios entreabertos de Naiovi e, num único movimento, a puxou para seu colo e deslizou a mão para a nuca, sentindo os fios que cresciam um pouco a cada dia. O beijo ficava mais exigente, e a pesquisadora correspondia com a mesma fome.
Naiovi sentia. Sentia a necessidade de Moarã. Um arrepio a percorreu inteira, gelado e quente ao mesmo tempo, e, num impulso, ergueu os braços, se livrando da camiseta que vestia, ficando apenas com o top com o brasão de Kohr.
O som e o calor da tempestade lá fora, a pressão do espaço fechado e escuro, a luz vermelha inconstante – tudo isso tornava o momento quase intoxicante, trazendo quê onírico ou de embriaguez. O laboratório desapareceu ao redor delas. O mundo lá fora, em segundo plano.
Moarã explorava a reação de Naiovi a cada parte percorrida: orelha, pescoço, sem pressa, degustando todo cheiro e sabor que era oferecido à ela. Os olhos de Naiovi brilhavam sob intensidades diferentes na luz vermelha, assistindo-a por cima. Havia uma entrega calculada naquele olhar: cedia, mas sem se submeter por completo – a cada toque, a cada reação, guiava Moarã sem que ela percebesse. Se estivesse com a lente agora, talvez veria que estavam prestes a ter um curto-circuito.
Quando tirou a camisa de Moarã, sentiu o curativo perto da costela soltar com o suor e parou. Parecia voltar a si. Uma pontada de lucidez e racionalidade a atravessou como um tiro no peito.
Recuou.
– Não, não vai. – Moarã segurou seu rosto e trouxe os olhos de volta em sua direção. – Fica aqui comigo.
Naiovi encontrou aquele olhar suplicante, nunca visto antes, e sentiu o sangue reacelerar dentro de si quase que instantaneamente.
Nem perceberam quando a tempestade começou gradativamente a diminuir. Quando Naiovi ia avançar, a luz de emergência apagou.
Por alguns instantes, apenas escuridão total.
E, então, um bip longo.
As luzes voltaram a se acender.
A claridade intensa fez ambas cerrarem os olhos, cegas por alguns segundos, sendo arrancadas de súbito do sonho escarlate e revelando detalhes que antes estavam escondidos: o brilho do suor na pele de Moarã, os traços firmes e tensos dos músculos ainda contraídos, a pele levemente arrepiada de Naiovi e os rostos corados.
Moarã sentiu uma rigidez súbita invadir a pesquisadora que estava sobre ela. Aproximou-se devagar, olhos fixos nos da diplomata, percorrendo o rosto e a boca antes de descer o olhar para o corpo abaixo. Olhou, então, para o laboratório, observando o ambiente silencioso ao redor.
– Já deu uma hora? – Moarã perguntou, quase um sussurro.
Naiovi permaneceu imóvel, parecendo tentar controlar sua respiração. Moarã, sem pressa, a envolveu em um abraço firme. Repousou sua cabeça no peito dela e o cheiro cítrico e doce de seus locs invadiu o ar da diplomata. Algo na proximidade a acordou por completo. Naiovi a aninhou entre os braços, deslizando as mãos pelos cabelos. Seu coração ainda batia acelerado, mas a respiração começava a se estabilizar.
– Não. – Pigarreou – A tempestade que está passando. – respondeu Naiovi, tentando manter a voz constante.
Moarã ergueu o rosto, olhando nos olhos de Naiovi. Um sorriso travesso surgiu em seus lábios:
– Falei que ia passar rápido.
O ar entre as duas ainda vibrava com o eco do que haviam acabado de viver. O calor, o toque, o cheiro – tudo permanecia, quase tangível. Por um instante, não havia palavras, apenas a sensação de que cada gesto anterior ainda reverberava na pele.
O som distante da tempestade diminuía lá fora, misturado ao balançar tímido das folhas molhadas e ao bater fraco da chuva.
Um sussurro de Moarã escapou entre os lábios, quase imperceptível:
– E agora?
Naiovi notou o espaço que Moarã deixava para que ela decidisse o próximo passo. Ao mesmo tempo, a pergunta a provocava. E agora? Agora que o tempo não estava mais pausado, as coisas voltariam a ser como antes. Agora... precisa voltar, contrariando seu próprio corpo. Agora, Ethel poderia voltar. Agora, tinham que almoçar. Depois disso...
A cada pensamento novo, a cada futuro projetado, reerguia a barreira dentro de si.
Se permitiu ficar um pouco mais assim, sobre Moarã, acariciando suas mechas e sentindo os braços dela envolvendo as suas costas, em silêncio, o olhar desfocado em algum canto frio do contêiner.
Moarã segurou com cuidado o rosto de Naiovi entre as mãos.
– Está pensando demais. – disse baixo, quase um sussurro – Mas está tudo bem.
Naiovi respirou fundo, sentindo o calor das mãos em seu rosto. O rubor ainda marcava suas bochechas, mas a racionalidade reconstruia o limite invisível que separava a fantasia do mundo real.
A tempestade lá fora já se acalmava e a luz branca que voltara a iluminar o laboratório tornava tudo mais real, mais duro, mais gélido. Os olhos de Naiovi encontraram os de Moarã e ficou claro que nada poderia apagar o que acabara de acontecer. Deslizou a mão pelas costas e ombros num abraço, se despedindo de cada contorno e cheiro, e se afastou lentamente.
Moarã respirou fundo, deixando que o espaço se assentasse entre elas. Vestiram-se silenciosamente. A engenheira pegou a lente que ainda brilhava com um reflexo azulado na solução e a recolocou no olho, restaurando o dourado sobre o verde. Sentou-se de frente para as telas que piscavam dados.
A caçadora se atentava a cada gesto da forasteira numa tentativa de traduzi-la, mas tudo que encontrava agora era evasão e retração. Permaneceu em pé por um tempo, até se aproximar devagar, tentando encontrar o tom certo para quebrar o silêncio sem forçar nada. Deu um passo, depois outro, até ficar discretamente ao lado de Naiovi.
Os olhos de Moarã não conseguiam se afastar dela, tentando decifrar o que se passava por trás daquela máscara dourada. Seu coração ainda batia forte, lembrando do calor, do toque, do peso do corpo leve de Naiovi sobre o seu. E queria mais disso. Agora sabia que, se Naiovi olhasse para ela nesse momento, ela também saberia disso – mas a estrangeira manteve o foco firme nas telas. Os dedos se moviam sobre o teclado como se estivesse testando sua própria paciência.
Moarã queria falar, mas as palavras pareciam frágeis diante do silêncio que pairava como um enigma no ar. Então, quase um fio de voz, deixou soltar o básico:
– Está… tudo bem?
Naiovi parou por alguns segundos, sentindo o calor da presença de Moarã ao lado, a respiração ainda quente, mas não desviou os olhos das telas. Finalmente, respondeu num murmúrio que parecia mais para si mesma:
– Sim. Tudo bem.
A resposta não foi convincente, mas o suficiente: talvez falar sobre isso agora não resultaria em um desfecho legal.
– O que você tá fazendo aí? – Tentou desconversar.
– Reiniciando os sistemas e conferindo a vedação e o fornecimento de energia.
Sons espaçados e irregulares denunciavam as últimas gotas que caiam. A chuva cessava lá fora e o sopra-sangue já tinha passado.
– Estou preocupada com Ethel… – continuou Naiovi, após uma pausa.
– Ela vai tá bem. E se deu tempo dela chegar na praça, melhor ainda.
– Mas hoje também choveu… isso não é normal. – Olhou de canto para a direção de Moarã, sem virar o rosto, mas com ouvidos atentos – Ou é? Como é a chuva por aqui?
– Depende. Nunca dá pra saber direito, mas às vezes faz tudo secar, murchar por uns dias. Aí aparece muita gente com problema de respirar, piriri, tudo fica meio frágil, doente. – apoiou-se contra a bancada que Naiovi estava e cruzou os braços – Mas se for uma chuva da boa, tudo prospera. Ela cura os males que a venenosa traz. Outras vezes os efeitos aparecem bem pouco ou nem aparecem. Pode ser extremo, por bem ou por mal, mas também pode ser indiferente.
– E é normal ser junto à tempestade?
– Não.
A pesquisadora sentiu um embrulho no estômago. O que esperar do mundo lá fora, quando as trancas se abrirem? Voltou a fitar os programas inicializando na tela, sobrancelhas franzidas, apoiando o queixo com as mãos.
– E quando os efeitos são… “Indiferentes”, a água é potável?
– Depende também.
Bufou antes de soltar um pensamento alto o bastante para Moarã captar:
– Tudo por aqui é lançado à sorte?!
A guarda não conseguiu conter um sorriso de canto carregado com deboche:
– Se tudo der certo, sim. Mas, às vezes, é lançado ao azar também.
Foi a vez de Naiovi deixar uma risada abafada escapar, ainda atenta às telas.
– Como consegue lidar tão bem com tudo isso?
– Tem como não lidar?
– Então não se importa?
Moarã arqueou as sobrancelhas
– Como assim?
– Uma tempestade tóxica junto com uma possível chuva ácida pode ter acabado com tudo lá fora, Ethel está por aí em algum lugar, seus colegas da guarda, os anciãos, Lança… Como consegue estar tão calma?
– E eu me desesperar vai ajudar a melhorar a situação?
– Não, mas…
– Vou lidar com o que vier na hora que vier. Isso não significa que não me importo. – Descruzou os braços, atenta aos contornos do rosto de Naiovi iluminados pela luz verde dos monitores.
A cientista permaneceu em silêncio, pensativa por alguns instantes.
– O que você tá querendo saber, de verdade, Naiovi? Você sabe que Valeã dá conta, passamos por isso desde sempre, temos treinamentos e protocolos de segurança que funcionam.
Um músculo no maxilar da diplomata contraiu, denunciando uma hesitação que não passou despercebida por Moarã, mas não respondeu.
– Olha pra mim.
Ela ajeitou a postura na cadeira e começou a reorganizar os cadernos sobre a mesa. A caçadora se aproximou mais, o suficiente para impor sua presença, e se curvou para ficar na altura de Naiovi.
– Agora. – ordenou.
Não tinha espaço para contestar. Numa movimentação rápida e automática – talvez acostumada a seguir e a dar ordens – virou-se de frente para Moarã e os dados saltaram quase que instantaneamente na frente de Naiovi. Antes, Moarã não sabia que ela sabia. Agora é diferente. Os olhos escuros da caçadora a encaravam e dava para ver seu reflexo dentro deles.
– Melhor assim. Agora podemos conversar direito.
– Não se incomoda?
– Foi assim até agora, não foi? É isso. Ou pretende nunca mais me olhar?
– As coisas parecem tão simples pra você.
– Só não vejo porque dificultar.
– Não acha invasivo?
– Acho que fica um pouco menos quando se tem… qual foi a palavra que você usou aquele dia mesmo? Ah, consentimento.
Naiovi soltou uma risada fungada, antes de arregalar os olhos, se dando conta:
– Então você lembra?!
– Opa, essa parte saiu sem meu consentimento.
– Por que mentiu? Isso é um dado importante!
– Achei que não era hora.
– E acha que agora é?
– Melhor impossível.
Um silêncio rasgou o laboratório no meio. Naiovi abaixou o olhar e sentiu suas orelhas arderem. Moarã conduziu o queixo da cientista de volta para sua direção.
– O que vê?
Observou aquele rosto perto do seu, as bochechas levemente coradas de Moarã, a mecha de cabelo que caía em frente com um pingente dourado perto da ponta e sentiu seu próprio peito mudar o compasso novamente.
– 37,2ºC, um pouco mais quente que o normal, mas não o suficiente para ser febre. Pressão quase alta, 12/8, batimentos a 105 bpm, acelerados… – respirou fundo.
– O que isso significa?
– Onde quer chegar, Moarã? – Começava a perder a paciência.
– Naiovi… Você é pesquisadora. Mexe com números, dados, experimentos e sei lá mais o quê. Mas também é diplomata, e tudo mostra que é uma das importantes… Essas informações todas aí, não tem só um “propósito científico”, não é?
A cientista gelou. Moarã acertou de novo. Acertou seu incômodo antes mesmo de Naiovi acessar ele por si mesma – de repente, esqueceu dos dados e encarar aqueles olhos bem na sua frente parecia inevitável, como pólos opostos de um ímã que ameaçava a engolir como um buraco negro. Impossível de escapar.
– Não preciso de uma lente super moderna pra me falar que essa cara que to vendo agora diz que meu palpite tá certo.
– Sim. Consigo ler a pessoas com algumas… vantagens. Isso não te incomoda?
– De novo? Tá mesmo preocupada comigo ou tá só procurando um motivo pra fugir?
– O quê? Como fala assim comigo? – Naiovi se levantou da cadeira, ficando frente a frente com Moarã.
– Eu não ligo se vê minha temperatura, minha pressão, meus batimentos. Dane-se. Isso pode até ser útil… Como talvez foi quando me machuquei. Mas por que você está se incomodando tanto com isso agora?
A pergunta foi cortante. A virada de perspectiva deixou Naiovi sem respostas, boquiaberta, tentando formular alguma coisa.
– Não precisa responder. Talvez seja algo que não queira ver mesmo, só assuma que não é só preocupação e empatia.
Naiovi já tinha conhecido um lado ácido de Moarã, mas esse era diferente. Era petulante, ousado. Invasivo. Ela tinha a lente, dados, mas Moarã parecia ler sua alma – e a arrogância dela fazia a cientista querer explodir. Perto da caçadora, se sentia presa. Toda aquela autoridade Kohrriana se diluía e só restava… ela. Patética sem o verniz brilhante de seu renome, sem respostas inteligentes na ponta da língua. Ali, sentia que era muito mais lida do que conseguia ler.
Dois bips longos soaram e um ruído grave tremeu de leve as paredes do laboratório. A vedação foi desativada, sinal que a tempestade cessou há alguns minutos e que já era seguro acessar o exterior. A luz voltou a entrar pela janela, mas dessa vez filtrada pelos tons alaranjados da poeira remanescente no ar do lado de fora.
– Nunca disse que era. – Naiovi respirou fundo e cruzou os braços, olhar baixo – Não bastava responder que não incomoda?
– Já tinha respondido antes.
– Você só falou que foi assim até agora.
– Talvez porque eu me incomode. Mas não com esse detalhe em específico. – Esboçou um sorriso de canto.
– Sabia que talvez você conseguiria mais informações minhas se fosse menos… rude?
– Não tenho pressa.
– Entendi. – Naiovi a encarou por alguns segundos e sentou-se novamente, voltando a configurar as telas. Apertou algumas teclas, caminhou até a bancada principal e pegou seu kit de coleta de amostras no armário abaixo. – Preciso fazer algumas coisas importantes. Depois conversamos.
Caminhou em direção a porta, mas Moarã se apressou para entrar na sua frente.
– O que foi agora?
– Naiovi… me desculpa.
– Tudo bem. Conversamos depois, agora não é hora. Preciso fazer umas coisas importantes e não posso perder tempo.
– Eu sei, eu sei. É que… – Moarã engoliu seco, trazendo um nervosismo na voz que preocupou Naiovi – Talvez você deva se preparar para o que pode ter acontecido lá fora.
O coração da kohrriana acelerou. Mesmo com a conversa que tiveram, Moarã não demonstrara estar abalada, então talvez ela tenha subestimado a situação. Mas agora tinha um abalo na voz, no semblante. Contido, mas ali. A mente criativa da cientista projetou em instantes dezenas de cenários possíveis.
– Me deixa passar.
Moarã deu passagem, seguindo logo atrás de Naiovi. Antes de digitar a senha para destrancar a porta, olhou de canto para Moarã.
– Talvez agora as máscaras venham a calhar.
Retirou de um pequeno recipiente abaixo da tranca numérica um par de máscaras respiratórias modernas e ofereceu uma à Moarã. A ajudou a ajustar no rosto e, finalmente, abriu a porta.
O ar quente, abafado e úmido invadiu o laboratório, carregando um pouco da poeira avermelhada para dentro. Não era possível ver à distância, uma neblina alaranjada engolia o horizonte. Naiovi, de onde estava, estudou o ambiente por alguns instantes, até dar o primeiro passo para o lado de fora. Olhou para um lado, para outro e para o chão. Colocou as luvas, agachou-se e tocou a terra molhada.
– E aí? – Moarã perguntou, receosa. Ainda fazia muito silêncio.
Naiovi coletou uma amostra e fechou o vidrinho.
– Parece seguro.
Num movimento rápido, a guarda avançou e saiu a passos apressados em direção ao centro da cidade.
– Ei, ei, ei! O que pensa que está fazendo? – Naiovi correu e impediu a guarda de abrir a porteira.
– Vamos ficar brincando de interceptar uma a outra o dia inteiro hoje?
– Não é brincadeira, Moarã. Você está machucada, acabou de rolar uma baita de uma tempestade, Valeã está em silêncio e…
– Exatamente. Se é seguro como diz, por que esse silêncio?
– Você não pode fazer esforço, precisa descansar!
– Hah, agora eu não posso fazer esforço? – soltou um sorriso de lado. Viu que a feição da outra não suavizou, e continuou: – Eu estou bem! E você tem que fazer, sei lá, um tanto de coletas importantes, vai mesmo perder seu tempo precioso aqui vigiando a porteira? Fique à vontade.
Naiovi olhou para Moarã, para seu kit de coleta em sua mão, para a porteira e, então, para o laboratório.
Aproveitando a distração, Moarã pulou a mureta e apressou o passo até desaparecer na névoa.
Naiovi ficou parada, com o kit ainda na mão. O corpo avançava para impedi-la, mas o cérebro paralisava. No fim, deu de ombros, murmurando para si mesma:
– Ela sabe o que está fazendo.
Virou-se, mas, antes de retornar às tarefas, olhou outra vez para a nuvem que engoliu Moarã. Certa preocupação latej*v* no fundo da sua cabeça, mas, sobre elas, Naiovi não conseguiria fazer nada a respeito, pelo menos não agora. Balançou a cabeça para tentar afastar os pensamentos e foi fazer o que era necessário.
*******
Moarã corria com um sorriso arteiro, que rapidamente se desfez ao encontrar as ruas desertas. Desacelerou o passo quando sentiu sua camiseta umedecer com um pequeno filete de sangue que vazava do curativo.
Apoiou-se na mureta de uma barraquinha para tomar um fôlego. Deu uma olhada no ferimento novamente aberto, provavelmente de quando pulou o muro.
– Droga, vão falar tanto no meu ouvido por causa disso…
Ajeitou a máscara em seu rosto, pressionou levemente o corte e tentou ajeitar a bandagem, sem muito sucesso. Caminhou lentamente para a praça central e viu tudo que havia sido deixado às pressas: pratos com comida sobre as mesas, bancos tombados, cestos de frutas pela metade. A evacuação às pressas carregava um mal-estar, mas ter ninguém era bem melhor do que ter gente envenenada ou morta pelas vielas.
Cruzou uma esquina e entrou numa passagem discreta e estreita feita de pau-a-pique que levava a uma escada subterrânea. A descida terminava numa porta de metal antigo reforçada. Bateu três vezes.
Do lado de dentro, ouviu um arrastar de trancas e a porta rangeu ao ser aberta.
O rosto de Ethel surgiu por entre a fresta, iluminado por uma luz amarelada e calma que escapava do subsolo.
– Moarã! – o alívio na voz dela foi imediato.
Moarã tirou a máscara de uma vez, puxando Ethel para um abraço. O ar ali dentro era mais fresco e limpo, diferente da poeira sufocante que ainda pairava nas ruas.
Atrás de Ethel, um pequeno espaço se revelava: corredores estreitos levavam a diferentes salas improvisadas, todas iluminadas por lâmpadas elétricas. Haviam crianças enroladas em cobertores, idosos sentados em bancos de madeira jogando baralho, jovens distribuindo chá quente em canecas de metal.
Uma única janela blindada, uma clarabóia pequena e opaca localizada no alto do esconderijo, deixava ver apenas um borrão espesso de poeira avermelhada – e talvez era isso que fazia todos acreditarem que a tempestade ainda acontecia.
O centro logístico e de acolhimento de Valeã – ou, como carinhosamente é chamado, Toupeira – funcionava como um labirinto seguro sob a cidade: um subsolo feito de corredores que se cruzavam, ventilação controlada e diversas entradas espalhadas por vielas, praças e becos. Qualquer pessoa que precisasse de abrigo urgente podia descer depressa por uma escadaria próxima e estar segura rapidamente.
As passagens interligavam-se por corredores razoavelmente largos e algumas luzes iluminavam o suficiente para guiar o caminho. Cada corredor dava acesso a salas coletivas, áreas de armazenamento e estocagem, pontos de coleta de suprimentos, tudo conectado ao núcleo central, uma espaçosa sala circular bem abaixo da praça central. As rotas eram patrulhadas pela guarda, que garantiam que ninguém usasse desse espaço indevidamente.
Moarã se endireitou, respirou fundo, e a voz firme ecoou pelos corredores:
– A tempestade já passou. Choveu forte, o vento levou a pior parte. – olhou ao redor, encarando cada olhar curioso que se erguia em sua direção. – Ainda tem poeira no ar, mas já é seguro voltar, desde que se protejam. Usem panos no rosto, máscaras, cubram bem a boca e o nariz. Evitem correr. Está tudo bem agora. Passem a informação adiante.
Um murmúrio de alívio se espalhou, alguns suspirando alto, outros agradecendo baixinho. Crianças se animaram, puxando os cobertores que já pesavam. Os mais velhos assentiram em silêncio, confiando no tom seguro de Moarã.
Subiram as escadas e gradativamente a população voltava às ruas. A guarda observava a movimentação, já a postos para auxiliar o que fosse necessário. Ethel, ao seu lado, avaliou seu estado da cabeça aos pés. Notou o filete de sangue na roupa e o curativo sujo e mal colocado escapando por baixo da bainha da camiseta.
– Passou a tempestade no laboratório?
– Passei.
– Que inveja. Eu sempre quis passar uma tempestade lá. Naiovi me ensinou o protocolo, parece tão… Sólido, impenetrável. E prático, aperta um botão e… pronto, problema resolvido.
Moarã não respondeu. Seus olhos percorriam a movimentação nas ruas e mantinha a posição da guarda, com mãos para trás e peito estufado.
– Olha ela… Só falta o facão e o manto pra completar a pose. Descansa, soldada.
– Ah… – Moarã relaxou levemente sua postura. – É força do hábito…
Ethel esticou os braços para cima, espreguiçando-se exageradamente.
– Eu ia começar a almoçar quando o céu virou de cabeça pra baixo... – riu de si mesma, voltando a encarar a amiga. – Tô varada de fome.
– Sei bem como você fica quando tá com fome... um perigo. – deixou escapar um meio sorriso. – Eu também não consegui comer.
– Pois é, nem você, e acho que nem a doutora. – Ethel rebateu rápido, procurando em volta. – Cadê ela?
Moarã pigarreou, desviando o olhar, buscando naturalidade.
– Ficou coletando amostras perto do laboratório.
– Hm. Nem sei por que ainda perguntei. Deve tá igual pinto no lixo. – Ethel sorriu torto. – Mas me diz... como é que você conseguiu que Naiovi te liberasse no meio desse caos?
– Não consegui. Ela tentou impedir, mas eu dei um olé… – suspirou, semicerrando os olhos.
– Ah, e foi aí que isso aconteceu? – Apontou para o curativo já sem cola escapando da camisa da amiga.
– Isso não é nada demais… – Ajeitou a blusa – Talvez só forçou um pouco quando pulei a cerca.
– Você pulou a cerca pra fugir de Naiovi?!
– Sim, eu… Fiquei preocupada com todo mundo, estava tudo muito silencioso.
– Ficou mesmo? – Observou Moarã, de cima a baixo.
Moarã pigarreou de novo, desviando o foco de volta para a multidão.
– Entendi. – Ethel pegou um cigarro de palha que estava pendurado atrás da orelha e acendeu. Deu algumas tragadas lentas, observando com Moarã a movimentação. O centro de Valeã começava a se reorganizar com rapidez impressionante. Moradores varriam a poeira, recolhiam restos de barracas e objetos espalhados e ajeitavam as mesas comunitárias. A névoa alaranjada gradualmente se dissipava, tornando o ar menos denso e mais respirável. – Vou limpar uma mesa pra gente. Só deixa eu fumar esse aqui antes.
– Você deveria parar com isso.
– Quem não te conhece que te compre, Moarã. Quer?
Moarã encarou aquele palheiro estendido em sua direção sem mudar a postura. Pegou o cigarro e trouxe aos lábios. O gosto azedo e amargo da palha com tabaco queimado fez Moarã franzir o cenho, e logo sentiu um entorpecimento percorrer seu corpo.
– Isso é uma porcaria.
– Mais respeito, não fumo porcaria.
******
Ethel se ocupava em pequenas várias tarefas, tirando os pratos das mesas, limpando mesas, trazendo cestos com comidas frescas, impedindo Moarã de participar demais e insistindo que ela descansasse.
– Vai lá, senta. – Ethel empurrou Moarã levemente, apontando para uma mesa que acabava de ser limpa. – Você precisa descansar.
– Acho que vou explodir se alguém me falar isso mais uma vez. – mas cedeu. Limpou uma cadeira, ajeitou a mesa e se sentou.
Infelizmente, depois de uma tempestade dessas, muita comida se contamina. O almoço não seria tão apetitoso quanto o habitual, mas ainda iria forrar o estômago.
Alguns minutos depois, Ethel e Moarã receberam seus pratos diretamente das mãos de Dona Lene. A praça seguia voltando à normalidade, enquanto a névoa se dissipava totalmente, deixando o sol tocar as mesas.
Quando estavam quase terminando a refeição, uma silhueta surgiu no horizonte da praça, olhando atentamente a movimentação. Naiovi estava ali. Parou por um instante, avaliando ao redor, até avistar Moarã e Ethel. Caminhou lentamente sobre o chão molhado e lamacento da praça.
– Olha quem chegou aí. – disse Moarã para Ethel, com um meio sorriso, tentando soar casual enquanto via Naiovi atravessar o espaço até elas.
– Parece que está todo mundo bem. – A voz de Naiovi saiu carregada de alívio.
– Hoje era lasanha, mas agora só tem empanada com areia radioativa, infelizmente. Mas um caldo verde também não cai mal, né? – Ethel empurrou a cadeira vazia ao lado, convidando Naiovi a se sentar.
– Nada mal. – Sentou-se à mesa. – Parece que cheguei no final da festa.
– Foi mal, não sabíamos se você vinha e estávamos brocadas. – Fez um sinal para Dona Lene, que prontamente atendeu e trouxe mais um prato para Naiovi. A cuia fumegante acompanhada com torradinhas fez a barriga da estrangeira roncar.
Naiovi olhou de lado para Moarã e percebeu sua camisa suja de sangue. Num suspiro resignado, assoprou o caldo, mergulhou uma torradinha e comeu. Seus olhos brilharam com uma vida que só uma comida bem temperada causa na exaustão.
– Adoraria ficar mais, mas acho que meu horário de almoço já se estendeu muito por hoje. – Ethel se levantou, ajeitando o pano em seu pescoço – Vou voltar pro laboratório pra tentar adiantar algumas coisas. Você vem comigo ou vai ficar, Moarã?
– Acho que vou descansar por aqui mais um pouco.
– Já fez muito esforço por hoje, né? – Deu uma piscadela para a amiga, fazendo Naiovi corar e quase engasgar com o caldo. – E esse curativo aí tá podre, já passou da hora de trocar, então não demora.
– Pode deixar, chefia.
– Até logo. Paz ao que te habita.
– Força ao que te move.
Antes de sair, Ethel deu uma conferida rápida e discreta em Moarã e Naiovi, deixando escapar um sorriso de canto.
– Ela sabe. – Naiovi comentou assim que Ethel se afastou, sem tirar os olhos da comida.
– Hãn? Sabe o que?
– O que aconteceu. Você contou pra ela?
– Se contei que te dei uma bela de uma fuga? Contei sim.
– Hm. Os pontos abriram?
– Não sei, acho que não. Só sangrou um pouco.
– Menos pior. – Deu mais uma mordida no pão embebido no caldo.
– Conseguiu fazer o que precisava?
– Sim. Tentei isolar uma área para estudar. Vou montar tipo uma estufa, um microhabitat. Seria incrível ter esse tipo de acesso bem no quintal! Ficou meio improvisado, mas vai dar conta por enquanto.
– Hmmm… Então não vai precisar mais ir à nascente?
– Não, não disse isso. Ainda preciso ir lá. O mais rápido possível, de preferência.
Moarã cruzou os braços, arqueando o olhar.
– E ainda não bateu o pé e exigiu ser carregada até lá? Uau…
Naiovi finalmente encarou a caçadora.
– Sério, Moarã? Febril, sangrando, e ainda me pergunta isso?
– Ah, eu me esqueço disso… – ajeitou a postura, segurando um riso. – Mas não sou a única que pode te levar e existem outros meios além de caminhar.
A cientista pareceu fisgada com nova informação.
– Outros meios?
– Posso pedir para uns aprendizes te guiar. Também posso ir com a Lança. Ethel sabe o caminho, mas nunca é bom ir em dupla, pelo menos não quando um não faz ideia de onde está pisando.
– Mas hoje, agora?
– Sim, mas só depois de um banho. Ethel tá certa, estou podre.
Quando Naiovi terminou de comer, Moarã se dirigiu ao posto da guarda ao lado e falou com os colegas que estavam ali, que assentiram e se retiraram. Caminharam lado a lado até chegar em frente a casa de Moarã. A caçadora entrou, enquanto Naiovi permaneceu parada do lado de fora.
– Não vai entrar? – perguntou, parada no batente da porta de entrada.
– Preciso buscar umas coisas no laboratório primeiro. Posso confiar que você não vai aprontar?
– Como assim? Vou me aprontar sim. E aprontar Lança.
– Ah… não foi exatamente isso que eu quis dizer…
Moarã sorriu, satisfeita. Gostava de fazer hora com a cara de Naiovi e muitas vezes a brecha na linguagem funcionava bem.
– Só quero um banho agora, princesa, pode ficar tranquila. Só não demora, temos que voltar antes do pôr do sol.
Naiovi assentiu e Moarã entrou.
Chegando ao laboratório, percebeu que Ethel incrementou e corrigiu alguns detalhes da pequena estufa improvisada. Entrou pela porta semiaberta e viu sua colega trabalhando como sempre: mangas arregaçadas, cabelo preso num coque bagunçado e uma energia contagiante. Escrevia e desenhava em papéis manchados de café, que estava bem ao lado fumegante numa xícara de cerâmica. Bateu na porta, já dentro do contêiner, dispersando o transe que a bióloga se encontrava.
– Gostei do que fez ali na estufa. – disse enquanto caminhava para sua bancada, ao lado de Ethel.
– Gostei da ideia que teve.
– Não foi de hoje. Trouxe um equipamento melhor, mas preciso de ajuda pra montar.
– Ótimo, bora lá.
– Não, agora não. Agora vamos à nascente.
– “Vamos”? – deu uma pausa. Pensou. – Quem “vamos”? Vai arrastar Moarã naquele estado pra uma trilha?! Você odeia ela?
Naiovi soltou uma risada leve e começou a organizar sua mochila.
– Ela que propôs, eu não pedi nada. – Levantou a mão em juramento. – Disse que ia chamar alguns aprendizes da guarda e vai com a Lança. Você não precisa ir, mas tá convidada.
– Eu não sei se é uma boa ideia ela ir…
– Pelo que vi, isso não era negociável. Enfim, vim te avisar e buscar minha bolsa, vamos sair em uns trinta minutos.
– Entendido, capitã! Por hoje eu passo, só traz aquela muralha viva e inteira de volta, por favor. Aproveite os adolescentes!
*******
Quando chegou em casa, Moarã já terminava de preparar a sela da égua. O sol da tarde secava o chão, fazendo uma poeira fina subir no ar.
Naiovi respirou fundo, resignada. Era inútil tentar conter Moarã, já entendia isso.
– Não me olha com essa cara. – disse a caçadora, firme mas com humor. – Prometo que tô tomando cuidado.
– Eu sei, eu sei… Quando terminar, entra pra eu fazer o curativo direito, quero ver como estão esses pontos. – Seguiu reto para dentro de casa – Vou tomar um banho rápido, já volto.
Moarã entrou logo depois que Naiovi saiu do banho.
– Senta. – a cientista apontou para o banco ao lado da mesa, já abrindo a mochila e tirando um estojo metálico com instrumentos limpos.
Moarã sentou-se ereta e os braços cruzados faziam parecer que podia intimidar o próprio ferimento.
– Levanta a camisa. – pediu sem rodeios.
– Gosta de mandar, não é?
– Se preferir, podemos deixar como está. – rebateu, fria.
Moarã arqueou a sobrancelha, mas acabou cedendo. Puxou a camisa, revelando a pele marcada, o curativo improvisado mal colocado.
Naiovi franziu o cenho quando viu a pele.
– Isso aqui não tá bom. – murmurou, molhando uma gaze com água fervida que já havia deixado pronta.
Retirou com cuidado as tiras de pano, expondo o corte. A pele estava avermelhada, irritada mas não parecia aberta demais. Ainda assim, latej*v*. Moarã apenas contraiu o maxilar quando a gaze encostou.
– Aguenta firme. – a cientista disse, voz suave, quase em tom de desculpa.
Depois de limpar, abriu um pequeno frasco de vidro âmbar, onde a pomada de citriomila e gresilha-do-véu tinha sido preparada em lote experimental. A textura era mais espessa, arroxeada, e liberava um aroma cítrico com fundo terroso.
– O que é isso? Está diferente das outras – Moarã perguntou, desconfiada.
– Minha mais nova tentativa de evitar que você se mate antes da hora. – Naiovi respondeu, aplicando com delicadeza sobre o corte.
Moarã soltou um respiro baixo quando o frescor penetrou, substituindo a dor por um formigamento suave.
– Isso arde… mas… – ela se surpreendeu. – Relaxa ao mesmo tempo.
– Ótimo, é o que eu esperava. Anti-inflamatório, cicatrizante, anestésico. Ainda é cedo pra saber, mas deve ser melhor que as outras versões.
Analisou o ferimento por um tempo, amarrou o curativo novo e limpou os dedos. Quando se afastou para guardar os instrumentos, reparou em Moarã lhe olhando direto, com cara de quem queria perguntar alguma coisa.
O momento foi interrompido por três batidas fortes na porta, seguidas de vozes jovens.
– Comandante! Trouxemos reforço, como pediu! – era Diana.
– E um bom humor que você vai agradecer. – completou Lúcio, rindo.
Moarã respirou fundo, antes de responder:
– Entrem.
A porta abriu e duas figuras surgiram, carregando pequenas bolsas.
Diana, de estatura média, tinha a pele bronzeada de brilho quente, olhos quase felinos e exibia um sorriso energético. Os cabelos estavam trançados rente à cabeça e carregava o arco com naturalidade, mas também uma confiança que esbarrava na arrogância, embora não se tratasse disso, era apenas convicção na própria capacidade.
Lúcio, um rapaz alto, cabelos cacheados amarrados num coque firme, uma barba rala que insistia em nascer, ombros largos e um jeito desengonçado. Tinha orgulho do corpo treinado, mas era ele quem mais caía em provocações – e, invariavelmente, era Diana quem as aproveitava para alfinetar.
– Tá inteira, comandante? – Diana perguntou, reparando no curativo recém feito.
– Inteira o suficiente pra não precisar de mais dois papagaios me lembrando.
– Dois papagaios? – Lúcio indignou-se, teatral. – Eu sou um falcão.
– Um falcão muito barulhento. – Moarã cortou.
Diana gargalhou alto, e Naiovi apenas observava, intrigada. Não havia disciplina ali, mais parecia uma espécie de família improvisada.
– Estão prontos? – Moarã se levantou, ajeitando a roupa e vestindo o manto sobre os ombros.
– Sempre. – disseram os dois em coro, quase ensaiado.
– Ah, antes de irmos… Diana, Lúcio, essa é Naiovi. Vamos guiá-la até a nascente norte e voltar antes da noite cair.
– Naiovi! – os olhos da aprendiz brilharam ao se dirigir à diplomata – Nunca vi alguém deixar aqueles brutamontes envergonhados como você deixou naquele dia.
– Por mim, deixava os dois se resolverem por eles mesmos. É sempre engraçado quando Antônio e Samuel começam a brigar. – Lúcio recebeu um olhar de reprovação de Moarã, e logo se justificou: – O que quer dizer que… alguém precisa colocar ordem, claro. – Pigarreou, tentando parecer sério, mas Diana já ria dele.
– Uhum, sei. Você só gosta de ver o barraco correr solto. – cutucou o braço dele.
– Claro que não, devemos trazer ordem para dentro dos muros. – rebateu rápido.
Moarã balançou a cabeça, tentando conter um sorriso.
– Chega de palhaçada. Eles são bons, Naiovi, mas às vezes esquecem que estão em treinamento.
– Esquecemos nada. – Diana ergueu o queixo. – É só que até agora ninguém conseguiu vencer a gente em dupla.
Naiovi observava a cena, cativada com a espontaneidade dos dois.
– Vocês treinam com Moarã há quanto tempo? – Finalmente perguntou, curiosa.
– Três anos. – Diana respondeu de imediato. – E não trocava por nada.
– Nem eu. – Lúcio completou. – Ela revolucionou a guarda.
– Ei. – Moarã ergueu a mão, cortando o assunto antes que se estendesse. – Isso não interessa agora. – Ajeitou a cinta do facão na cintura, visivelmente desconfortável com o rumo da conversa – Vamos, não temos muito tempo.
– Sim, comandante. – Diana fez continência exagerada, arrancando uma risada curta até de Naiovi.
O grupo iniciou a caminhada. Moarã seguia com Lança logo atrás do trio, seguindo o ritmo dos que estavam a pé.
Lúcio e Diana treinavam juntos desde o começo da adolescência, sob a tutela firme de Moarã, e era visível o quanto se estimavam: os olhares cúmplices, os risos abafados, a maneira como se cutucavam no caminho.
Durante a trilha, Moarã mantinha-se atenta, os olhos vasculhando cada canto da mata.
– Atenção às marcas no chão. – apontou com o facão para um tronco arranhado. – Quem fez isso?
– Jaguatirica! – Lúcio respondeu rápido.
– Errado. – Moarã rebateu, sem suavizar. – Reparem no alcance do arranhão. É baixo demais.
– Gambá? – Diana torceu o nariz.
– Isso.
– Gambá não vale. Ninguém liga pra gambá. – Reclamou Lúcio.
– Até que ele decida se defender e você esteja no caminho. – Moarã arqueou a sobrancelha. – Aprendam a notar o que parece pequeno, são os detalhes que salvam uma patrulha.
A cientista caminhava em silêncio, absorvendo o ensinamento com a mesma atenção dos aprendizes.
– Cuidado, Lúcio, vai tropeçar e perder a postura diante da cientista. – Diana sussurrou alto o bastante para Naiovi ouvir.
– Fica aí se exibindo, quero ver repetir amanhã… – falou baixo, mas o sorriso no canto da boca o entregava.
Diana percebeu os olhares de Naiovi e comentou, casual:
– Sabe, Moarã não começou cedo como a gente, não. Entrou tarde na guarda, e mesmo assim derrubou todo mundo.
– Ninguém entendia como alguém que manjava mais de erva e pomada que de espada conseguia desarmar a galera no treino. – completou Lúcio, rindo, sem perceber a surpresa da estrangeira.
– Foi um escândalo, lembra? – Diana cutucou o parceiro e virou-se a Naiovi. – Ela é a primeira mulher a liderar a guarda de Valeã. Metade do povo torceu o nariz e a outra metade ficou sem palavras quando viu que ela merecia.
Lúcio suspirou, abrindo os braços.
– Hoje ninguém ousa contestar. Só os invejosos, corajosos ou idiotas.
– Se bem que é fácil confundir idiotice com coragem.
Moarã, que seguia atrás montada em Lança, pigarreou de leve. Era difícil dizer se ela estava orgulhosa ou envergonhada com a exposição. Seguiu o caminho apontando pegadas, marcas em árvores, galhos quebrados. Corrigia os aprendizes sem hesitar, elogiava em silêncio e, vez ou outra, bufava quando a dupla começava a se provocar em plena trilha.
– Se gastassem no treino de resistência metade da energia que têm, já estariam prontos pra liderar algumas patrulhas sozinhos. – resmungou.
– A gente só não quer te deixar sem trabalho, comandante. – Diana rebateu com um sorriso.
Moarã ergueu os olhos ao céu, parecia pedir paciência aos ancestrais.
Quando finalmente alcançaram a nascente, o burburinho da água foi recebido com um silêncio reverente. A luz da tarde atravessava as folhas, pintando o poço natural em tons de verde-azulado e dourado. Moarã desceu da sela com a ajuda dos aprendizes e Naiovi ajoelhou-se junto à margem.
– Posso? – perguntou, tirando da mochila um kit compacto de tubos e frascos.
– É pra isso que viemos. – respondeu Moarã, apoiando o facão no chão.
Naiovi começou a coletar amostras com movimentos cuidadosos. Os aprendizes assistiam com curiosidade, arqueando o pescoço, franzindo o cenho.
Percebeu os olhares e, cada vez que mergulhava o frasco na água, explicava como se só estivesse pensando alto:
– Esta coloração mais turva é devido à forte chuva que caiu. Aqui, o musgo reage de maneira diferente, liberando compostos voláteis… – ergueu o frasco contra a luz, fascinada. – Em Kohr, não temos nada comparável. É um ecossistema que se reinventa a cada tempestade.
Diana se aproximou com os olhos brilhando, Lúcio continuou atento às mãos da cientista. Naiovi abriu uma maleta menor, exibindo instrumentos delicados.
– Este mede a acidez da água e a condutividade elétrica e indica a presença de sais minerais. – Mostrou os números piscando no indicador. – Percebem a diferença entre os dados? É como se a nascente tivesse várias vozes, cada uma dizendo algo diferente. Olha aqui. – aproximou o frasco para que Diana e Lúcio vissem de perto. – Notam como há pequenos fragmentos suspensos? Não é sujeira, são microorganismos que surgem depois do sopra-sangue. Eles se adaptaram a um ambiente que, em tese, deveria matá-los. Isso é… extraordinário.
Moarã assistia em silêncio. Havia uma dureza habitual em seu semblante, mas era impossível ignorar a maneira como Naiovi falava: cada frase carregava paixão, curiosidade e um estranho respeito pela vida escondida até nas menores partículas da água.
Diana arregalou os olhos.
– Eles vivem… no veneno?
– Exato! – Naiovi sorriu, satisfeita com a percepção da aprendiz. – Transformam algo mortal em recurso e podem neutralizar compostos que seriam fatais para nós. Não só vivem, mas é como se comessem o veneno.
Lúcio inclinou-se, curioso mas com um ar desconfiado.
– E isso serve pra usar contra o veneno do sopra-sangue?
– E é exatamente isso que estou tentando descobrir. Mas exige tempo, estudo e muito cuidado, ser precipitado pode ser tão perigoso quanto o próprio veneno. – Fez uma pausa, olhando os dois. – É como um facão: pode abrir caminhos ou ferir, dependendo da mão que o empunha.
Diana riu baixo.
– Até a água aqui dá lição de combate.
Moarã, que acariciava Lança, complementou:
– A natureza sempre foi a melhor instrutora, só precisa saber escutar.
– E por que a água fica brilhando desse jeito, como se tivesse brasa dentro? – Diana perguntou, quase hipnotizada pelo reflexo do sol nas poças iluminadas.
– Esse brilho vem de uma combinação rara. – Naiovi explicava animada, gesticulando com as mãos. – O musgo que cresce nas pedras aparentemente é potencializado quando molhado pela chuva ácida e se reproduz… bastante, pelo visto. – Olhou em volta e a quantidade de musgo se alastrava em níveis que não vira antes, espesso e úmido, escalando árvores, forrando pedras, criando um tapete brilhante vivo. – A reação dos minerais com o Ph ácido e a radioatividade do sopra-sangue gerou esse espetáculo.
– Uau! E esses frascos aqui são pra quê? – Diana perguntou, apontando para os pequenos tubos de vidro.
– Para separar amostras de diferentes camadas da nascente. – Naiovi respondeu com gosto, animada ao ter plateia. – A superfície pode reagir de um jeito, enquanto a base guarda compostos mais estáveis. Se não coletarmos direito, corremos o risco de perder alguma parte importante da história.
– Parece até camadas de bolo. – Lúcio comentou, segurando um dos tubos com cuidado exagerado.
– Um bolo que pode salvar sua pele, se um dia você beber da água errada. – Naiovi rebateu, com um sorriso convencido.
Diana deu um empurrãozinho no ombro da cientista, descontraída:
– Você fala como se fosse fácil. Aposto que já estudou tanto que até sonha com esses microbichinhos.
– Sonho mesmo. – Naiovi deu de ombros, surpreendendo os três. – Mas não com eles isolados, sonho em como se conectam. É como se a nascente fosse uma língua secreta, e cada partícula uma sílaba. Se conseguirmos entender o alfabeto, podemos entender e prever como ela muda, como responde ao ambiente e até tentar conversar com ela.
Lúcio assobiou baixo, fingindo admiração:
– Tá vendo, Diana? Enquanto você sonha com arco e flecha, a doutora sonha com sílabas d’água.
– Melhor que sonhar com sua cara de songamonga, Lúcio. – retrucou a aprendiz, rindo.
– Eu sei que você adora!
– E você, Naiovi? – Diana insistiu, com brilho curioso nos olhos. – Além de água e partículas, já sonhou com outras coisas aqui em Valeã?
Moarã pigarreou forte, cortando a conversa.
– Sem perguntas pessoais. Concentrem-se.
Os aprendizes trocaram olhares cúmplices enquanto Naiovi organizava os frascosna maleta, tentando disfarçar o rubor repentino nas maçãs do rosto.
Diana se aproximou um pouco mais dela, os olhos ainda brilhavam com as explicações.
– Você fala como se as coisas tivessem vida própria. Nunca pensei que a água pudesse ser tão… cheia.
– Porque tem. Cada detalhe tem uma história.
Lúcio, ainda intrigado, ergueu o queixo em direção a Moarã.
– E pensar que a comandante falava quase desse jeito, lembra?
Moarã estreitou os olhos.
– Lúcio.
– O quê? – Ele levantou as mãos em rendição, mas Diana riu e completou:
– É verdade. Quando entrou no treinamento, falava só de planta, natureza. Todo mundo achava estranho.
Naiovi ergueu as sobrancelhas, o assunto foi retomado.
– Moarã… estudava ervas?
A caçadora pigarreou, visivelmente desconfortável.
– Foi um escândalo quando ela entrou. Todo mundo entra no treinamento desde cedo, e de repente chega ela, mais velha, cheia de truques e… bum, amassa geral.
Moarã suspirou fundo.
– Vocês dois nunca vão aprender a ficar em silêncio?
– Aprendemos com a melhor. – Diana provocou.
– Comigo que não foi.
– Não mesmo, foi com Ethel.
– Você não contou pra ela, Moarã? – Lúcio interrompeu.
Naiovi guardou o último frasco e encarou Moarã com um olhar curioso, quase investigativo.
– Não, nunca me contou. Aposto que é uma ótima história, mal posso esperar para escutar dela quando chegarmos em casa. – A diplomata decidiu encerrar o assunto por ali, lançando um olhar cúmplice à Moarã.
O silêncio que se seguiu carregava um misto de orgulho e incômodo. A guarda virou-se para a nascente.
– Já pegou o que precisava? O sol não vai esperar a gente por muito mais tempo.
– Sim, já terminei, podemos voltar.
A trilha de volta foi mais silenciosa, apenas o som do farfalhar das folhas, o canto de alguns pássaros, o trote de Lança e o tilintar dos frascos na bolsa de Naiovi. Quando se aproximaram dos muros, o céu já escurecia em tons azulados. Então, de repente, as primeiras luzes se acenderam.
Valeã inteira cintilava. As pequenas lanternas espalhadas nas ruas e fachadas refletiam nos frutos ainda presos às árvores, criando uma constelação terrestre – mas não era só isso. O solo úmido guardava resíduos da tempestade e cada gota incrustada nas folhas parecia carregar faíscas líquidas, brilhando em verdes e dourados. Árvores inteiras pareciam como tochas vivas, e a muralha devolvia reflexos esverdeados como se estivesse coberta por vagalumes.
A praça central, vista de longe, parecia um rio de fogo esverdeado serpenteando entre as casas – uma mistura do engenho humano com o fenômeno selvagem raro que o sopra-sangue deixava para trás.
– Sempre me arrepio quando as luzes acendem… – Diana sussurrou, como se temesse quebrar o encanto. – Mas hoje… Nunca vi algo assim.
– E sempre faço questão de dizer que fui eu quem ajudou a instalar metade dessas lanternas. – Ethel apareceu na entrada da fronteira com o ar de quem já esperava o grupo, um sorriso se abriu ao ver os aprendizes. – Mas ninguém nunca me dá crédito.
– Você só carregava as ferramentas. – Lúcio zombou.
– E você só carregava as coisas de Diana quando ela cansava. – Ethel retrucou, rápida.
– Quer medir força?
– Amor, eu nem treino. Você é que devia pensar duas vezes antes de querer competir com uma nerd… Já pensou perder pra alguém que passa o dia mexendo em folhas, que vergonha?
O comentário arrancou gargalhadas dos aprendizes e até de Naiovi, que se deixava envolver pela leveza. Moarã, no entanto, já ergueu a sobrancelha.
– Vocês juntos são uma ameaça à ordem. – resmungou.
– Uma ameaça ao seu mau humor, talvez. – Ethel piscou e se virou para os jovens. – A propósito, desde quando vocês estão juntos, hein?
Diana arregalou os olhos, Lúcio deu um sorriso torto, ambos coraram até as orelhas.
– Ethel! – Moarã quase explodiu, o tom indignado abafado ecoou pelo vale.
– O quê? – Fingiu inocência, abrindo as mãos. – Eles não são mais crianças, Moarã, você deveria saber disso.
Diana e Lúcio fizeram uma reverência meio atrapalhada:
– Boa noite, comandante. Boa noite, doutora. Boa noite, fofoqueira. Paz ao que te habita. – se despediram correndo antes que Moarã pudesse falar alguma coisa.
– Insolentes. – Moarã murmurou, mas havia um traço de orgulho em sua voz.
– Poxa, entre “comandante” e “doutora” fiquei com logo com “fofoqueira”?! Eu também sou “doutora”, sabiam? – Gritou para os jovens fujões. Balançou a cabeça, ainda rindo, e puxou o trio em direção a uma barraca da praça.
O cheiro de milho assado e pão fresco recheava o ambiente. Sentaram-se em um banco, comeram entre histórias, provocações e relatos da trilha, até o cansaço falar mais alto.
De volta em casa, tomaram outro banho rápido, lavando o pó da trilha e o calor da praça. Quando Naiovi saiu do banheiro, já com a pele fria da noite, encontrou Moarã apagada no sofá, o braço caído de lado e a respiração pesada.
Por um instante, apenas ficou ali, observando a guarda que parecia sempre de prontidão, agora indefesa. Pegou uma manta que estava sobre uma cadeira e cobriu-a com cuidado.
– Descanse bem, comandante.
**********
Fim do capítulo
Outro capítulo imenso, já se acostumaram? rss
Pois é galera, aconteceu! E agora?
Queria agradecer demais vocês que estão acompanhando a história até aqui! Espero que estejam curtindo. Vem ainda muuuita coisa aí pela frente, já que até agora foi praticamente só ambientação e apresentação de personagens... Então prepara que vem bomba! Bora movimentar essa galera que nem tudo é só sombra e água fresquinha da fonte.
E, por conta exatamente disso, a partir do capítulo/dia 14 provavelmente o ritmo de postagem vai se esticar um pouco, tem muitos fios que estou precisando desenrolar e, sinceramente, não tá sendo simples. Além disso, estou num processo de escrever um projeto de mestrado, grupos de estudos, atendimentos, vida social, então.......
Se quiserem acompanhar o processo ou enviar sugestões, curiosidades, conspirações, sintam-se a vontade para me chamar no instagram @metttamorpho (inclusive, por favor! Feedbacks são importantíssimos pra mim e me motiva a escrever mais rs)
Poréeeem, pra não deixar vocês tristes, preparei uma "persona sonora" das meninas que vou disponibilizando conforme o lançamento dos capítulos E estou com um projeto de iniciar as ilustrações dos capítulos. Mas, primeiro, o que acham de nos ambientarmos em Valeã?
https://open.spotify.com/playlist/7L1mzA6ym9HysSQuRC71Bz?si=4d4c797f2c834627&pt=d71c4b274242b30017813749d539d756
Fun fact: Sim, eu nomeio os capítulos com nomes de músicas.
Fun fact 2: Sim, as playlists contém spoiler!!!
Aguardo vocês no dia 13 - toxicidade -- (Yep, de SOAD. Digamos que tem uma certa personagem que curte um rockzão).
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