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Legado de Metal e Sangue por mtttm

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Palavras: 10829
Acessos: 54   |  Postado em: 05/03/2026

Notas iniciais:

Demorou, mas chegou! 

Galeris, está chegando um ponto que a história demanda de mais complexidade e polimento, então vou demorar na frequência da postagem, mas não abandonei vocês e nem as minhas amadas meninas não, viu! Junta com estudos, trabalho, casa, amigos, família... vish.

Esse tempinho off foi importante pra amadurecer algumas decisões da história, que, sinceramente, vai ser babado! Então, por favor, tenham paciência e não larguem a leitura por causa disso :')

Prudência

Dia 13

Moarã acordou cedo com o som de Naiovi na cozinha, que tentava, sem muito sucesso, preparar o café sem fazer barulho. As mãos, que sempre eram tão precisas, estavam mais distraídas.

Demorou alguns minutos antes de se levantar, no limiar entre o sono e o despertar, observando a colega de costas, virada para o balcão. Naiovi vestia um cropped preto de alguma antiga banda de rock que permitia ver parte da sua lombar machucada, com alguns hematomas que se espalhavam principalmente pelo lado direito. Quando enfim se ergueu, foi silenciosa. Passos firmes, mas leves – leves demais para alguém do seu tamanho. Num piscar, já estava atrás da engenheira.

Naiovi quase derrubou o coador quente quando os braços de Moarã surgiram apoiados no balcão, um de cada lado, cercando-a ali sem encostar.

– Bom dia, doutora. – murmurou Moarã, a voz rouca, quente contra a nuca. – Cuidado pra não se queimar.

Escutou um zunido metálico escapar de um discreto fone de ouvido sem fio que Naiovi usava de um só lado e se inclinou para ouvir melhor, ficando próximo o bastante para que seu queixo quase descansasse no ombro dela.

– Como você…? – começou ela, em meio a um sobressalto, virando levemente o rosto para o lado. O tom era de incredulidade, quase riso. – Como foi tão furtiva?! Com esse porte todo?

O café escorria no pano, preenchendo a cozinha com seu cheiro. Tinha deixado uma frigideira esquentando no fogão e misturava uma massa viscosa em uma cumbuca. Virou o rosto um pouco mais, só o suficiente para encarar a guarda pelo canto dos olhos. O sorriso estava preso entre um susto e um nervosismo.

– Você devia andar com sinos amarrados nos tornozelos. Isso não é normal. – Disse e continuou o fazia.

Moarã ergueu uma sobrancelha, sem recuar.

– Também não é normal estar ouvindo barulho no ouvido e ainda achar que controla o ambiente. – respondeu. – Se eu fosse outra pessoa, já tinha te desarmado.

– Ah, claro. – Naiovi bufou, mas a boca tremeu num quase riso. – Vou acrescentar “vigiar café” no meu manual de sobrevivência em Valeã, então.

– O que é isso? – Indicou o fone com um gesto com o queixo.

– Ah, isso… nada demais, é só um fone de ouvido mesmo. – Virou-se, e a proximidade com Moarã fez com que ela a afastasse com sutileza, indo buscar uma concha do outro lado da cozinha. – Hoje a noite acaba o prazo para a entrega completa dos relatórios.

Moarã apoiou-se de costas na bancada se divertindo com o jeito que Naiovi disfarçava, como se pegar aquela concha fosse uma missão urgente. 

– Escutar música me dá uma motivada. – Naiovi mergulhou a concha na mistura e jogou uma parte na frigideira, subindo um chiado e um cheiro adocicado de dar água na boca.

– O que está ouvindo? Parece um monte de barulho sem nexo.

– Deve ser porque você está ouvindo de fora… – Colocou a mão dentro do bolso da bermuda, retirou uma caixinha, pegou o outro fone de dentro e ofereceu à Moarã. – É uma banda do mundo antigo, System of a Down.

Moarã manteve o fone no ouvido, impassível por fora, mas com o pé involuntariamente quase marcando o ritmo contra o chão. 

– Até que é… legal. Diferente. – Tirou o fone e o devolveu.

– Já tinha escutado rock?

– Claro que já. Vocês acham que Valeã voltou à idade da pedra, não é?

– Ahm… Não, claro que não… – pigarrou, virou a massa na frigideira e guardou os fones – Eu só não vejo muitos aparatos… elétricos por aqui.

– Foram esses aparatos que nos levou à decadência, então concordamos que não precisamos disso pra viver bem. Mas temos sim, só não usamos, só em ocasiões especiais. E nada que envolva adiantar a morte ou atrasar a vida, não temos interesse em brincar de deuses.

Naiovi soltou uma risada de espanto.

– Que interessante. Em Kohr, se acabasse a energia, tudo colapsaria em algumas semanas, talvez dias. Acha que estamos brincando de Deus?

A resposta calou Moarã. Decidiu mudar de assunto:

– O que é isso que tá fazendo? O cheiro está ótimo.

– Panquecas de banana. – Despejou a primeira rodela pronta em um prato e começou a preparar mais uma.

A panqueca tinha a aparência perfeita, macia por dentro e crocante por fora, feita com uma precisão cirúrgica. Fitou Naiovi focada na frigideira por alguns segundos.

– É um vício mesmo, não é? Até pra cozinhar. Não tira nunca? Dorme com ela? – Referia-se à lente que Naiovi usava. A cientista passou lentamente a mão nos cabelos antes de responder:

– Tiro. Preciso limpar, recarregar e descansar a cada dois dias, por meia hora. Contanto que faça isso, não tem risco em dormir com ela também. 

– Recarregar?!

– Ela é higienizada e recarregada quando está submersa na solução.

– Que loucura. Você tem energia até no olho.

– Sim. – Virou-se para Moarã – Já tá me achando meio ciborgue? 

Os olhos dourados de Naiovi, que ontem estavam evitativos, atravessou Moarã como se também pudesse soltar raio laser. Percebeu os sinais vitais da caçadora mudando e, sem perceber, esboçou um sorriso satisfeito.

– Acho que seria justo me contar alguma coisa sobre você também, não acha?

Moarã sabia que ela não iria deixar passar em branco os comentários dos aprendizes.

– É uma longa história…

– Tenho tempo. – Colocou a panqueca no prato, sobre a anterior, e começou a preparar a terceira. Na cumbuca ainda tinha massa o suficiente para preparar mais umas quatro ou cinco.

A guarda respirou fundo, sem argumentos. Serviu o café para ela e para Naiovi e sentou-se à mesa, dando um gole demorado. 

– Não era pra eu estar na guarda. – Começou, contemplando os tons do café na caneca. – Eu… iniciei tarde. Enquanto os outros treinavam desde pequenos, com oito, nove anos… eu só entrei aos quatorze. 

Deu mais um gole na bebida e se ajeitou na cadeira, que mais parecia ser feita de pregos. 

– Antes eu era aprendiz de Manturã. Ajudava em tudo, passava o dia em meio às plantas. Aprendi a misturar, ferver, macerar, destilar, catalogar. Fazia de xaropes a perfumes. – um canto da boca se ergueu, nostálgico. – Eu era boa nisso, sabia? Era o que eu sabia fazer e o que eu achava que iria fazer pela vida inteira.

Naiovi não interrompia. Apenas ouvia, e aquela escuta fazia Moarã se sentir mais à vontade para falar.

– Então minha mãe adoeceu. Foi rápido. Um dia estava de pé, no outro já não respirava direito e, poucos dias depois… – Engoliu seco, desviando os olhos. – Meu pai e meu irmão não suportaram. Diego… – suspirou o nome. – O meu irmão foi tomado pelo ódio. Precisava encontrar alguém para culpar, algo que desse sentido à morte de nossa mãe… e tudo foi direcionado à Manturã. Ele surtou, dizia que tinha sido erro médico, um assassinato lento, planejava fazer uma besteira… – a frase parou no meio. – Meu pai descobriu a tempo e decidiram partir antes que algo pior acontecesse. Fugiram no breu da primeira noite de lua nova depois da morte de minha mãe.

– E você ficou.

– Eu fiquei. Kauã, irmão do meu pai, me acolheu na guarda. Foi assim que uma garota conseguiu entrar no treinamento, mesmo que tarde.

– Mas… Por quê? E Manturã?

– Os aprendizados com ela ficaram diferentes pra mim depois disso. Tudo me lembrava, cada planta, cada cura, cada mistura… Ela entendeu quando me afastei. Precisava continuar de alguma forma. Precisava lutar.

– Não era permitido a entrada de mulheres na guarda?

– Não, só em casos excepcionais. Kauã convenceu Sebastião, o capitão da época, a me aceitar. Teve resistência, claro. Mas… – a voz dela endureceu levemente, lembrando a tensão, mas saiu em tom de ironia – …Que tipo de guarda seria essa se recusassem uma garota que tinha acabado de perder tudo?

A respiração saiu pesada, e ela mudou de assunto como se fechasse uma porta.

– Aprendi muito com eles antes de partirem. O Diego era cinco anos mais velho que eu. Queria ser patrulheiro de além-fronteira, estava no caminho, treinava desde cedo, um prodígio. Meu pai, carpinteiro. – Um leve orgulho brilhou no olhar. – Quando entrei na guarda, eu já sabia me defender. Meu irmão sempre chegava do treino me mostrando o que tinha aprendido no dia, mas entre a gente não tinha regras, a gente quase se matava de verdade se ninguém separasse. – Soltou uma risada curta – Imagina, Naiovi. Um cara do dobro do seu tamanho te dando um sacode. Mas eu não achava ruim não. Ele sempre dizia que mulheres tinham que saber se defender, e que se eu conseguisse me defender dele, conseguiria me proteger de qualquer um. Foi aí que aprendi a ser malandra também, nem tudo é só técnica. 

Deu um gole demorado no café. Naiovi assava o restante das panquecas, ouvidos permaneciam atentos.

– De resto, completei com o que aprendi com a alquimia. Preparava misturas energéticas, comia o que dava força, conhecia os venenos e as curas pelo caminho. Fui crescendo lá dentro, mas não com a intenção de ascender, mas por questão de sobrevivência e honra. Não podia dar mole um dia que eles me sacaneavam, tinha noites que eu mal conseguia dormir. Quando me dei conta, já estava numa patente alta, rodeada de caras. Só assim consegui respeito e espaço pra respirar e perceber o que tinha acontecido. Ganhei a disputa pela liderança no rito de passagem e abri a guarda para meninas também poderem ingressar livremente.

A cientista terminou de despejar a última concha de massa na frigideira, mas nem reparou no formato que ela tomava. A cada palavra de Moarã, seu corpo mais atento e mais devanador ao mesmo tempo, os dedos mexiam distraidamente no cabo da espátula sem perceber.

Deixou o silêncio se alongar um instante. O som que restava era do chiado da panqueca na frigideira.

– Você abriu caminho. – disse, finalmente, em um tom baixo, sem tirar os olhos do fogo do fogão.

Moarã deu de ombros, um gesto desinteressado.

– Eu só… não queria que outras passassem pelo que eu passei.

Naiovi colocou a panqueca no prato e ficou ali, olhando para Moarã com uma expressão estranha.

– Você transformou seu luto. – disse, mais firme, como se estivesse avaliando um projeto. –  Você foi exceção. – Naiovi inclinou a cabeça. – E depois decidiu que ser exceção não era suficiente.

Moarã desviou os olhos, desconfortável.

– Não foi bem isso…

– Foi, sim. – cortou Naiovi, sem aspereza. – Você acha que foi só sobrevivência, mas eu vejo estratégia. Você acha que só “ficou”, mas foi escolha. Você acha que só queria honrar a sua família… mas, Moarã, você revolucionou a guarda inteira. Na verdade, não só a guarda, mas Valeã.

O silêncio voltou. A guarda olhou para o café, para o prato, para qualquer lugar que não fosse aqueles olhos dourados que a puxava como um imã. O polegar dela passou distraído sobre a cicatriz no dorso da mão.

– Eu não gosto de falar disso. – murmurou – Sinto como se fosse contar uma história que não é minha de verdade, sabe? Fiz só o que era necessário ser feito, o que achava que deveria fazer. Não tive intenção de… “revolucionar” nada.

Naiovi respirou fundo, baixando a cabeça. Quando ergueu os olhos de novo, havia um brilho diferente neles.

– Eu sei como é. – Pousou a espátula com cuidado ao lado do prato.

Moarã piscou, surpresa com a frase, mas não respondeu. Ficaram ali, por alguns segundos, as duas em silêncio, com o cheiro doce preenchendo o espaço. Levou os pratos à mesa e serviu Moarã.

– Você também acha que foi culpa de Manturã?

– Sinceramente, não sei. Algumas plantas são parecidas por fora, mas por dentro… Tinha uma delas na receita que minha mãe tomava. Nunca soube qual foi o erro… Se foi erro. Talvez foi a doença mesmo, talvez não tivesse cura e foi só uma paranoia do meu irmão… – sua voz embargou.

Naiovi estendeu sua mão sobre a de Moarã em cima da mesa.

– Está tudo bem agora. 

Moarã não se afastou, manteve os olhos fixos na mesa. O calor dos dedos de Naiovi se fazia presente. A cientista demorou um pouco antes de falar, olhando não para a guarda, mas para o entrelace discreto de mãos sobre a mesa.

– Obrigada. Por confiar em mim com isso.

O cenho de Moarã se franziu no mesmo instante, como se a palavra “confiar” fosse demais. Puxou a mão de volta e quis retrucar, dizer que não havia confiança alguma ali, apenas insistência da visitante. Abriu a boca para dizer algo, mas nenhuma palavra saiu. Naiovi ergueu os olhos:

– Você podia ter guardado, mas escolheu dividir comigo. 

O silêncio se instalou outra vez, mas agora parecia menos áspero. A guarda desviou o olhar para a caneca, para as panquecas, qualquer coisa que a resgatasse daquela proximidade. O movimento não passou despercebido.

– Você sempre fica assim quando recebe reconhecimento? – pontuou Naiovi, arqueando a sobrancelha. O sorriso era quase invisível. – Parece até que preferia uma crítica.

Moarã pigarreou, tentando recompor a postura.

– Não é isso… só não gosto de…

– De ser vista? – completou a engenheira, inclinando a cabeça como se experimentasse um sabor raro. – Interessante. Para alguém que lidera uma guarda inteira, você até que se esconde bem.

O rubor subiu rápido às bochechas da comandante, denunciando o que a expressão dura tentava disfarçar.

– Você é uma sabichona, não é?

– Talvez. Um pouco. – Naiovi fingiu inocência, empurrando o prato na direção dela. – Mas agora só estou admirando uma paisagem rara de ser vista.

Moarã mastigou devagar, ganhando tempo para reorganizar as próprias defesas. Vulnerável não era uma palavra que gostava de sentir na pele. Então, deixou escapar um meio sorriso enviesado.

– Cuidado… quem procura pode não gostar do que encontra. Paisagens mudam o tempo todo.

Naiovi arqueou a sobrancelha, divertida.

– Está me ameaçando?

– Não, claro que não. – Moarã pousou o garfo com calma. – Mas eu devo te acompanhar, te defender e defender Valeã. Ou seja, se alguém tiver que acabar com você, vai ser eu, mais ninguém.

A resposta pegou Naiovi de surpresa, e ela soltou uma risada curta antes de recostar na cadeira. 

– Não entendi se devo me sentir ameaçada ou protegida. 

– Não ache que sou boazinha. – murmurou Moarã, e o leve sorriso nos cantos da boca traía o esforço de parecer rígida.

– Ah, eu não acho. De qualquer modo, seria uma honra ter uma execução particular marcada com a comandante da guarda.

– Tu é estranha, gringa.

O silêncio caiu descontraído desta vez. Moarã pegou mais uma fatia e Naiovi deixou escapar um sorriso no canto de boca:

– Agora entendi por que você me olha meio torto quando eu picoto as ervas de qualquer jeito. – comentou, num tom sério demais para ser sério. – É trauma profissional.


**************


Encontraram Ethel no caminho para o laboratório. Passaram a manhã adaptando a estufa – Cabos, sensores e placas abertas ocupavam a mesa e Naiovi tentava integrar os painéis de Kohr a um termostato antigo, enquanto Ethel segurava as peças e comentava que as plantas dela nunca tinham pedido nada disso. A tarde foi silenciosa, com Ethel e Naiovi finalizando os detalhes nos relatórios e Moarã entre cochilos e entalhes. 

A bióloga se espreguiçou na cadeira e deslizou para trás, até encostar na de Naiovi.

– O que acham de comemorar essa entrega tomando aquele fermentado que já tá fazendo aniversário na sua sala, Moarã?

– O trabalho não acabou só porque entregamos os relatórios, Ethel… Ainda há muitos dados novos pra processar, conferir os históricos da estufa, atualizar as tabelas, fazer análi… – A engenheira foi interrompida antes que terminasse toda a lista de afazeres.

– Naiovi, minha querida – interrompeu Ethel, erguendo a mão –, cê já teve um piripaque?

– O quê? Não.

– Tem certeza? Como fazia lá em Kohr pra acalmar esse furacão aí ligado o dia inteiro na sua cabeça?

Naiovi demorou alguns longos segundos pensando no que responder.

– Ah, temos remédios pra isso.

– Como assim?

– Igual quando estamos com dor de cabeça e tomamos um analgésico. Quer dizer, o mecanismo de ação é bem diferente e não é tão simples assim… São pílulas potencializadoras. Se está cansado, ansioso, sobrecarregado e precisando de uma ajudinha… 

– Misericórdia – cortou Ethel – isso aí pra mim já são sintomas do piripaque.

– Mas decidi não trazer para Valeã. Queria fazer uma imersão total.

Moarã ouvia silenciosa a conversa das duas, até bufar na tentativa de segurar um riso.

– Imersão total? – ela repetiu, arqueando uma sobrancelha.

– Sim, um detox, aprender como vocês vivem.

Ethel e Moarã se entreolharam cúmplices, tentando conter o riso.

– O que foi? Falei algo de errado?

– Ah, minha colega… – disse Ethel, rindo. – Às vezes esqueço que, vez ou outra, você solta uma pérola. Mas tudo bem, vou até te ajudar nessa sua “imersão total”: aqui a gente não usa remedinho mágico, não. A gente tenta viver. Então seu remedinho de hoje vai ser desligar, descansar, falar futilidades e beber um fermentado muito bem feito pelas mãos mágicas, fortes e firmes da nossa capitã bonitona aqui. – Apontou para Moarã. – Que privilégio, hein? 

– Ei, eu não concordei com isso! – protestou a guarda, fingindo seriedade.

– Você tá me devendo aquele barril!

– Não estou nada!

Naiovi sentiu suas orelhas queimarem. Quando olhou para Moarã, percebeu os sinais elevados, mas ela parecia ter um ótimo controle para não deixar transparecer… muito. Desviou o rosto para o caderno e respirou fundo.

– Ok, posso tentar.

O relatório foi finalmente concluído ao anoitecer, horas antes do prazo expirar. Naiovi ainda queria aproveitar o tempo restante para atualizar os dados e algumas análises, mas, sob a insistência de Ethel, acabaram fechando o laboratório.

– Vou dar um pulinho lá em casa pra pegar umas sementes pra gente petiscar, não demoro! – avisou Ethel, já saindo em disparada.

Naiovi e Moarã seguiram juntas para casa. O ar do fim da tarde estava frio e úmido, carregado de luz alaranjada.

– Se você ficasse mais um minuto lá dentro, juro que eu mesma te arrastava – disse Moarã, ajeitando o manto nos ombros. – Como conseguem passar tanto tempo naquele cubículo climatizado artificialmente? Que agonia.

– Eu nem vejo o tempo passar. – respondeu Naiovi. 

– Taí o problema – provocou – Um dia você vai olhar pra trás e perceber que passou metade da vida presa num laboratório.

– Para mim, melhor que passar metade da vida presa num quartel.

– Touché. – Moarã soltou um sorriso, rendida ao contra-ataque. – Pelo menos é área externa, o vento circula.

– A área externa de Kohr não é muito convidativa.

O som dos passos lentos ecoava pelo chão de terra. Moarã seguiu em silêncio, sorrindo, pensativa, Naiovi um pouco mais distraída. O vento trazia o cheiro das ervas que cresciam no quintal de alguma casa próxima e o céu começava a se tingir de azul profundo.

– Sabe, eu achei que Kohr fosse mais... – Moarã buscou a palavra. – Rígido. Que vocês não soubessem rir.

– Alguns não sabem mesmo, mas isso não é exclusividade de Kohr. Eu aprendi com a prática.

– Com a prática?

– É. Descobri que rir é um mecanismo de defesa.

Moarã arqueou a sobrancelha, divertida. 

– Uau. E contra o quê você está se defendendo agora?

– De você, aparentemente.

Deram uma risada curta, um som quase incrédulo veio de Moarã.

– Então boa sorte.

Elas já avistavam a varanda quando Ethel surgiu apressada do outro lado da rua, equilibrando uma cesta nos braços.

– Minhas estrelas laboriosas! – gritou. – Trago sementes, um restinho de fermentado e o espírito da irresponsabilidade.

– Isso existe? – perguntou Naiovi.

– Em Valeã, tudo existe, se a gente tiver fé o suficiente – respondeu Ethel, com a confiança de quem já tinha começado a beber no caminho.

Moarã balançou a cabeça, mas o riso escapou antes que pudesse impedir.

– Entra logo antes que alguém veja essa sua “fé” tropeçando na rua.

Ethel entrou cantarolando, e Naiovi a seguiu. Moarã ficou um instante na porta, olhando as duas. Depois suspirou e entrou também – sem saber se era mais perigoso o fermentado de Ethel ou a calma inesperada que Naiovi começava a lhe causar.

A casa estava morna e o ar tinha o cheiro doce das ervas que Naiovi deixara secando sobre o fogão. Ethel largou a cesta sobre a mesa, abriu o fermentado e serviu as três, sem cerimônia.

– Às cientistas guerreiras sobreviventes da burocracia! – brindou, erguendo o copo.

Moarã bateu o seu devagar no dela. Naiovi acompanhou o gesto.

– E a quê mais estamos brindando, exatamente? – Naiovi perguntou, desconfiada.

– Aos experimentos que dão certo – respondeu Ethel, abrindo um sorrisinho que dizia mais do que devia. – E aos que quase saem do controle.

O olhar dela passou rápido de Naiovi para Moarã e de volta, como quem saboreava a tensão invisível entre as duas.

– Quase saem do controle? – repetiu Naiovi, tentando manter o tom neutro.

Ethel se recostou na cadeira, observando a bebida avermelhada no copo, girando lentamente.

– Esse é um fermentado que fiz outro dia, tô testando uma receita nova. Digamos que as outras tentativas foram meio… amargas. Adoraria saber a opinião de vocês.

Naiovi deu um gole na bebida.

– É forte. – comentou, franzindo o cenho e limpando o canto da boca. – e doce no final.

– Hm. – Ethel apoiou o queixo nas mãos, estudando-a. – E você, Moarã, achou forte e doce também?

– Eu acho que você devia arrumar um novo passatempo.

– Esse já me diverte o suficiente. – Ethel piscou, satisfeita. Serviu as sementes em uma cumbuca e continuou – Aliás, passaram uns forasteiros por aqui ontem. Um deles perguntou do laboratório. Disseram que vieram do litoral sul, procurando abrigo.

– Litoral sul? Mas essa rota está interditada há meses. – Naiovi se endireitou, atenta. 

– Pois é – respondeu Moarã. – A patrulha sul disse o mesmo. Têm aparecido muitos passantes ultimamente.

– Ou informantes. – murmurou Ethel, brincando com o copo.

– Que seja. Não tem segredo por aqui.

– Ethel, por que não se junta a eles? É o seu povo, não é? – perguntou Naiovi, curiosa.

– É… não muito. Não mais. Os passantes são um povo forte, mas fragmentado como um mosaico. Se uma parte quebrar não prejudica a imagem total e outro caco pode ocupar o lugar. A minha parte quebrou há anos, desde então Valeã é o meu lar.

Moarã a observava de lado. Havia nas palavras de Ethel um toque nostálgico que não combinava com o brilho costumeiro nos olhos.

– E se pudesse voltar pra estrada? Voltaria? – ela insistiu.

Ethel girou o copo, pensativa.

 – Acho que não. Já aprendi que liberdade demais também limita muito. Pode ser que um dia eu mude de ideia, só não vejo motivo pra isso agora.

– E aqui você se encontrou? – insistiu.

– Aqui eu tenho paz, é diferente. – Ela deu um sorriso enviesado, depois inclinou-se sobre a mesa, com aquele mesmo brilho zombeteiro voltando ao olhar. – Mas parece que quem anda se encontrando ultimamente é você, doutora.

Naiovi piscou, confusa. 

– Eu?

– É. Tá diferente, mais solta, devaneando…

Moarã bufou. 

– Ethel…

– O quê? Eu só disse que a moça tá bem cuidada. – Ethel bebeu tranquila, sem disfarçar o divertimento. – Valeã tem esse efeito em quem decide mergulhar na “imersão total”. – Fez aspas com os dedos.

– Pra que eu fui topar isso… – resmungou Moarã.

– É mesmo! Bora abrir aquele barril! – anunciou Ethel, já de pé. – Se é pra celebrar a paz, que seja com estilo.

– Ethel, aquele barril era reserva pra lua cheia. – advertiu Moarã, mas sem convicção.

– E você colocou ele como garantia?!

– Óbvio. Sabia que não ia perder.

– Problema! Reserva é pra quando o mundo acaba. E, sinceramente, eu já perdi as contas de quantas vezes ele já acabou – rebateu, já puxando o pequeno barril para mais perto – Depois te compenso com um da minha coleção.

Apoiou o barril sobre o balcão como se estivesse posicionando uma peça rara. Passou a mão pela madeira, avaliando a temperatura, e girou a rolha com cuidado, quebrando o lacre com um estalo. O cheiro ácido e frutado escapou primeiro em um sopro, depois se espalhou pelo ar. Ethel inclinou o rosto, aspirando com atenção. Pegou os copos pelo pé, evitando marcar o vidro, alinhou-os à frente com simetria quase obsessiva e inclinou o barril. 

O líquido âmbar desceu em um fio contínuo, sem respingar, girando no fundo do copo antes de subir devagar, formando uma espuma fina na borda. Ergueu um dos copos à altura dos olhos, girou levemente o pulso para observar a viscosidade, o modo como o fermentado escorria pelas paredes internas. Aproximou o nariz, inspirou uma vez, profunda e lenta. Os olhos se fecharam – avaliação completa. Só então levou à boca. Um gole pequeno, deixou o líquido percorrer a língua antes de engolir. Sorriu.

Estendeu o outro copo para Naiovi com um leve inclinar de cabeça. Naiovi observava, curiosa, o ritual quase solene e natural com que Ethel servia o líquido âmbar nos copos.

– Que chique. Isso é pra análise sensorial? Estou me sentindo em um restaurante do setor 1. – brincou, pegando o copo.

– É pra análise de sobrevivência. – Ethel ergueu seu copo e dessa vez deu um gole generoso. – Se eu acordar viva amanhã, tá aprovado.

Moarã balançou a cabeça: 

– Você é o pior exemplo de cientista que qualquer um poderia ter.

– Discordo. – Ethel apoiou o cotovelo na mesa e olhou para Naiovi, convencida. – Eu sou o exemplo de que às vezes a experiência prática vale mais que a teoria.

– Eu diria que você é a exceção que reforça a regra – respondeu Naiovi, com um sorrisinho de canto.

– E eu diria que a senhorita tá ficando boa nas respostas rápidas. – Ethel inclinou a cabeça, estudando-a de novo, num tom mais baixo. – Kohr deve estar perdendo uma diplomata e ganhando uma mulher perigosa.

Naiovi riu. 

– Perigosa?

– Ah, eu não disse no mau sentido. – Ethel piscou, deixando a frase pairar no ar. – Perigo e beleza sempre andaram de mãos dadas. – apontou para o copo de Naiovi. – Sente só a belezura que aquela perigosa ali fez.

Moarã ergueu as sobrancelhas, mas preferiu não intervir – ficou apenas na expectativa da resposta de Naiovi.

Naiovi pegou o copo, sentiu o aroma e bebeu.

– Hm… – lambeu o canto da boca, pensativa. – É diferente.

– Diferente bom? – provocou Ethel.

– Diferente intrigante.

– Melhor ainda. – Ethel se recostou, satisfeita. – Intriga é o tempero da vida.

– Em você, é o principal ingrediente – murmurou Moarã, apoiando o queixo na mão e dando um gole.

Ethel deu uma risada leve. 

– E em você, qual é?

– Disciplina.

– Ai, que chatice. – Ethel rolou os olhos e comeu uma castanha. – Ainda bem que tem gente pra trazer emoção pra sua rotina.

O olhar rápido que Moarã lançou para Naiovi foi o bastante pra fazer a engenheira se engasgar com o gole seguinte.

– Eu… hm… acredito que disciplina pode ser… produtiva – disse ela, tentando manter a compostura.

– Produtiva – repetiu Ethel, testando a palavra. – É, eu chamaria de outra coisa, mas tudo bem.

Moarã deu um leve chute no pé dela por baixo da mesa.

– Você devia mesmo arrumar um filtro.

– Eu tenho. – Ethel piscou. – Mas só uso quando quero. E você, Naiovi, qual é seu o ingrediente principal?

Naiovi ficou em silêncio por um instante. O olhar pousou no copo, depois em Ethel, como se estivesse pesando cada sílaba antes de deixá-las saírem.

– Prudência.

– Hm… parece coisa de quem já queimou a língua.

– Algumas vezes. – Ela deu um meio sorriso. – Mas ainda prefiro isso a me queimar inteira.

 Ethel riu, Moarã ergueu uma sobrancelha:

– Achei que seria curiosidade. 

– Prudência e curiosidade não se excluem – devolveu Naiovi, dando mais um gole na bebida. – Só precisam de medida. 

Ethel a observou por um instante, o olhar brincando entre o copo e o rosto da engenheira. Então cantarolou baixinho, quase num sussurro:

– “Mas longe de qualquer perigo eu me afundo num tédio, que vida vazia sem nenhum mistério, na dura apatia de um controlador.”

– O quê?

– É uma música antiga. Prudência, o nome. – Ethel girou o copo nas mãos, e continuou. – “As paixões que me descontrolaram são as que fizeram eu ser como sou…”

Fez uma pausa e completou, olhando direto para Naiovi:

– É. Faz sentido. – Bebeu lentamente do copo – Engraçado falar de prudência logo depois de desarmarmos umas bombas que você mesma plantou, heim?

Olhou para Moarã, abrindo um sorriso enviesado e apontando pro copo à frente dela:

– E você nem deveria estar bebendo, mas hoje tá liberado. Só um pouquinho. Depois, só na lua cheia. – Ethel ergueu o copo. – Ah, e troca o curativo antes de dormir.

Moarã bufou, fingindo impaciência.

– Já ia fazer isso.

– Eu sei. – Ethel sorriu de canto. – Não precisa esperar as consequências aparecerem pra aprender.

Naiovi levantou o olhar, entendendo o recado não muito sutil. Ela não respondeu, só girou o copo entre os dedos, observando o líquido escorrer pelo vidro com atenção exagerada.

– Às vezes, aprender custa caro – Concluiu Ethel.

– Às vezes, vale o preço – devolveu Naiovi.

O silêncio que veio depois foi denso o bastante pra fazer a brasa da lenha no fogão estalar mais alto. Naiovi olhava o copo, Moarã olhava Naiovi, e Ethel… olhava as duas.

– Ei – disse fazendo um gesto com as mãos, quebrando o ar pesado. – Não leva a mal, tá? A pesquisa tá indo bem, agora temos até uma estufa! Moarã tá melhorando e, convenhamos, conseguimos entregar todos os relatórios pendentes sem ninguém morrer, matar ou ser preso.

Moarã bufou uma risada curta:

– Você fala como se isso fosse um milagre.

– E não é? – Ethel deu de ombros, depois virou-se para Naiovi. – Falando em milagres, ainda não entendi como é que você carrega tanto título nas costas.

– Título? – Naiovi franziu o cenho.

– Ora, claro – Ethel começou a enumerar nos dedos, teatralmente. – Vamos ver se aprendi: Naiovi Sareth de Kohr, Herdeira do Conselho Cinzento, Primeira Linha de Ommar, Engenheira da Seca, Filha da Reconstrução, Diplomata das Fronteiras… esqueci algum?

Moarã apoiou o queixo na mão, divertindo-se.

– Acho que só faltou “Domadora dos Cavalos Domados” e “Rainha dos Relatórios Infinitos”.

– Verdade. – Ethel estalou os dedos. – Esses dois são os mais recentes. Mas me explica, Sareth de mil nomes: Isso tudo cabe num crachá?

– Não usamos crachá – respondeu Naiovi, o que só fez Ethel rir mais.

– Tá, mas de onde vem? – insistiu Ethel. – Isso não é muito normal por aqui, que eu saiba.

– Em Kohr, títulos são funções. Heranças de deveres, não de vaidade. – Naiovi apoiou o cotovelo na mesa. – “Herdeira do Conselho Cinzento” quer dizer que fui designada pra suceder um dos sete assentos do Conselho, quando um se tornar vago.

– Conselho Cinzento? – perguntou Moarã. – É um nome estranho.

– Cinzento porque se considera neutro. Nem branco, nem preto, sem extremos – explicou, a voz mais distante agora. – São os que administram a reconstrução, manutenção, os fluxos de energia, de água, de população, os que decidem o que deve ou não ser priorizado.

– E você concorda com eles? – A pergunta veio rápida, sem o filtro de Moarã.

Naiovi pensou um pouco antes de responder.

– Concordar não é sempre uma opção. São sete assentos justamente para impedir empate, já que para tomar uma decisão são necessários 3+1 votos. Então, a partir daí, a decisão é soberana e deve ser respeitada. Objeções são permitidas, mas deve tomar cuidado para não ser considerada traição.  

– Então… mesmo se não concordar, precisa aceitar? – Ethel ergueu as sobrancelhas, fingindo espanto. – E não pode nem reclamar?

– Pode. – Naiovi apoiou o copo na mesa. – Desde que saiba como e até que ponto reclamar.

– Que conveniente. – Moarã cruzou os braços. – Obedecer sorrindo.

– Não é obediência. – O tom de Naiovi se manteve calmo, mas algo na rigidez da postura denunciava o incômodo. – É… sobrevivência. Se cada um fizesse o que acha certo, Kohr já teria implodido há décadas.

– Você acha? – A voz de Ethel soou leve, mas o olhar era mais sério do que costumava ser.

Naiovi respirou fundo antes de responder.

– O preço de um erro em Kohr é alto, seja para quem erra ou quem sofre com os erros dos outros. O caos mata mais do que as leis.

– Às vezes, leis podem matar mais do que o “caos”. – Moarã sustentou o olhar. – Nenhuma neutralidade é neutra de fato.

Naiovi piscou lentamente, desviou o olhar para o copo nas mãos e Moarã inclinou-se levemente para a frente.

– E então…?

A kohrriana ajeitou-se na cadeira e deu um gole lento antes de responder.

– Não acho que seja questão de concordar ou não, mas o que é possível fazer nessas condições.

– E mesmo assim, você saiu de lá para vir pra cá? Não poderia ter sido outra pessoa, menos importante?

– Eu pedi pra vir. Ainda não faço parte do conselho, então ainda tenho um pouco mais de liberdade. – A confissão foi quase seca. – Todas as nossas missões diplomáticas são voluntárias.

– Ou castigos bem disfarçados… – murmurou Ethel, ligando as peças, mas Naiovi fingiu não ouvir. Depois de virar o copo, completou, com a voz um pouco mais mole: – Você veio logo depois de denunciar aquele contrabando, não foi? 

Naiovi ergueu o olhar. Não havia surpresa, apenas aquele cansaço de quem sabe que o passado nunca fica tão passado quanto gostaria.

– Já conversamos sobre isso.

– Eu sei. Mas Moarã não.

Moarã endireitou-se, o cenho contraído.

– Contrabando?

– Um caso antigo – respondeu Naiovi. – Um membro da equipe desviava insumos da purificação. Foi contido e todos foram punidos.

– E você foi punida? – insistiu Moarã.

– Não, eu consegui provar minha inocência, mas todos os outros foram. Perdi minha equipe e fui… realocada. – A pausa foi calculada, mas o peso da palavra traiu o desconforto. – Preferi me afastar um pouco daquilo tudo.

– E veio tirar férias em Valeã?

– Quem me dera, talvez um dia. Vim fazer o que vocês já sabem.

O olhar de Moarã ficou curioso, mais atento, enquanto a conversa mergulhava na história de Naiovi.

– E a tal “Primeira Linha de Ommar”? – perguntou ela. – Quem é Ommar?

– É uma incubadora. OMMAR é um programa de reprodução e formação estatal: Organização de Manipulação e Monitoramento de Avanços Reprodutivos. Crianças nascidas sob controle genético e educacional do Conselho. São criadas com recursos e educação máximos, sem laços familiares tradicionais e quem se destaca na Linha tem chance de assumir posições importantes no Conselho, ou outras funções estratégicas.

– Como assim? Sem família? Sem pais?! – Ethel se inclinou.

– Biológicos, não. Somos gerados para funções específicas e a primeira linha é a de maior índice de compatibilidade e desempenho.

– Ou seja, você nasceu pra dar certo. – murmurou Moarã.

Naiovi esboçou um sorriso curto.

– Tecnicamente falando, sim. Fui criada entre regras, mas nunca totalmente moldada. Os primeiros da linha têm acesso a tudo, mas ainda precisam provar que podem escolher o caminho certo.

– Que maluquice! – Ethel respondeu, virando o copo. – por que precisam disso? Não tem como só terem filhos pelo jeito natural, não?

Naiovi riu com a perplexidade da amiga.

– Até tem, mas, desde a Reconstrução, o povo de Khor é majoritariamente infértil. Modificamos alguns aspectos do corpo pra tornar ele mais… eficiente. Se reparar, não preciso comer ou beber muito, não na mesma frequência ou quantidade que vocês.

– E, de quebra, ainda ganham um baita controle de natalidade. – Concluiu Ethel.

Um silêncio pesado caiu por um momento. Ethel foi quem quebrou o ar, com a leveza estudada de sempre.

– Engenheira da Seca, Filha da Reconstrução… isso pelo menos soa bonito.

– São projetos. – Naiovi respondeu. – A Seca foi por conta de uma série de sistemas de captação e reciclagem de água. A Reconstrução veio antes, com expansão, abrigos, educação, redes descentralizadas.

– Mas por que “filha”?

– Porque eu nasci no final dela. A Reconstrução foi o período mais longo depois das Guerras. Muitos de nós da Linha fomos criados nesse intervalo para repovoar o que sobrou. “Filhos da Reconstrução” virou uma categoria, um símbolo de que o sistema funcionava.

– Então você é meio heroína lá. – pontuou Moarã.

– Tá explicado de onde vêm tantos nomes, cada um é uma coleira diferente. – Provocou Ethel.

Naiovi arqueou levemente uma sobrancelha, sem negar nem confirmar.

– É. As coleiras também servem pra manter a estrutura em pé. – respondeu com serenidade. – Não tenho problema com isso, o problema só acontece quando se esquece quem puxa a corrente ou quem está preso nela.

Ethel deixou escapar uma risada curta, sem real humor.

– E você sabe qual dos dois é?

– Depende do dia e do que precisa ser feito pra ninguém morrer de sede ou intoxicado.

O comentário caiu pesado. Moarã desviou o olhar por um instante, observando as brasas.

– A água outra vez… – murmurou. – Sempre volta pra ela, não é?

– Sempre. – Naiovi assentiu. – Onde tem água, tem poder. Onde falta, tem medo.

Ethel suspirou, apoiando o queixo na mão. O álcool começava a soltar o tom dela, deixando a voz mais mansa, quase confessional.

– Você fala disso com tanta naturalidade…

Naiovi pensou antes de responder. O fogo refletia em seus olhos dourados, e, por um instante, ela parecia longe no tempo, entre as lembranças e o agora.

– É natural para mim. – respondeu, enfim. – Mas ninguém nasce sabendo engolir o que não pode mudar.

– E o que não pode mudar?

– A natureza das coisas. – disse Naiovi, quase num sussurro. – A água cai pra baixo, o poder sobe. E no meio… a gente tenta aprender a nadar pra não se afogar.

Ethel soltou um “hm” pensativo, apoiando o copo vazio no joelho.

– Bonito isso. Meio trágico, mas bonito.

– Prudente. – pontuou Moarã.

Naiovi sorriu de leve, quase cansada.

– Eu avisei. É meu ingrediente principal.

Ethel riu, dessa vez com sinceridade.

– Pensei que seria um papo descontraído, mas parece que esse tanto de título aí pesa até o clima.

Moarã riu baixo, o som rouco quebrando o ar pesado.

– Deixa, Ethel. Pelo menos agora a gente entende porque ela fala como se fosse um protocolo ambulante.

– E você como quem está sempre de armadura – retrucou Naiovi.

Moarã deu de ombros, o canto da boca curvou num meio-sorriso e bebeu um gole longo. 

– A diferença é que a minha armadura não fala em terceira pessoa.

– Como assim?

– Assim. – Moarã inclinou-se pra frente. – Quando você fala sobre você, parece que não é você que tá falando, mas um outro, um narrador, um oráculo. – Moarã apoiou os cotovelos na mesa, ainda sorrindo de canto. – Imagino que você teve uma vida confortável com todos esses privilégios que as coleiras te proporcionaram.

Naiovi ergueu o olhar, fixo, quase cortante.

– Confortável? – repetiu, a voz baixa, medida, mas firme. – Não confunda meu propósito com a minha história. Conforto não compra narrativa e nem define quem conduz a própria vida.

A caçadora piscou, surpresa pelo tom incisivo da diplomata, mas o sorriso não desapareceu – pelo contrário, cresceu. E com o sorriso, um desafio, uma insolência que raramente ousavam ter com Naiovi, que sentiu subir um calor de dentro que misturava raiva com instigação.

Ethel observava as duas como quem assiste a uma dança antiga, se deliciando com as sementes servidas à mesa. A guarda riu e se levantou para encher os copos, servindo primeiro o de Naiovi.

– E o conforto daqui, o que tem achado? – disse, carregada de curiosidade, com aquele sorriso que só aumentava a provocação.

Naiovi inclinou-se levemente para frente, o olhar calculista fixado em Moarã. Seus dedos brincavam com a borda do copo, medindo palavras. Conseguia ver os sinais de Moarã e sabia que ela também estava se contendo. Deu um gole e a encarou:

– Bem… desconfortável, pra ser sincera.

A caçadora riu, baixo, como se a resposta a tivesse divertido mais do que a incomodado.

– Ah, mas o conforto desconfortável é que é bom! – Ethel não conseguiu se conter por muito tempo. Queria participar da conversa, mas achava ainda mais divertido assistir. – Se ficar confortável demais, simplesmente morremos! – Fez um gesto largo com os braços, quase derrubando as sementes à sua frente.

Ambas olharam para Ethel, tinham esquecido que ela estava ali.

A botânica piscou, meio sem graça. Tentou explicar:

– Ó… o que eu quis dizer é que… se a gente fica sempre muito confortável, não vive. Se não sente fome, não come. Se não sente sono, não tem aquele cochilinho gostoso depois do almoço... – continuou, rindo, meio tropeçando nas ideias – Só morto que não tem com o que se preocupar. – Deu um gole e voltou a mexer no copo, satisfeitíssima com a própria explicação. – Já conheci um cara que dizia que as três melhores coisas do mundo eram comer, dormir e…

Moarã rapidamente completou o copo de Ethel.

– E chega por hoje. – disse, interrompendo a amiga e guardando o pequeno barril no canto da sala.

– Poxa, logo agora que estava ficando interessante! – Ethel protestou, abanando as mãos.

– Quais são as três melhores coisas do mundo? – Naiovi se interessava, arqueando-se em direção à Ethel.

– Comer, dormir e cagar! – respondeu Ethel, e caiu na risada.

– Você sempre tem que falar isso?! – Moarã reclamou, sentando-se novamente.

– Mas veja só, minha camarada… faz sentido! – Ethel ergueu o copo, ainda rindo. – As melhores sensações são aquelas que vêm ao matar um desconforto. E que bobeira de tabu, não pode falar de cagar, eu hein. Todo mundo caga! – Deu um gole longo na bebida, orgulhosa com sua argumentação.

– Pronto, filosofia com excrementos. Amiga, você deveria escrever um livro, ia ser revolucionário. – Moarã ironizou.

Ethel arqueou a sobrancelha. 

– Saliva também é um excremento… e vai me dizer que você não adora beijar na boca, amiga?

Moarã soltou um riso rouco, balançando a cabeça. Naiovi reprimiu um sorriso, mas seus olhos ficaram curiosos com aquele subtexto inesperado. O clima deixou faíscas no ar que Ethel captou com prazer.

– Mas eu ainda acrescentaria mais um nessa lista! – Ethel continuou, apontando o dedo para cima, já antecipando o choque.

– Tenho até medo de saber… – Naiovi murmurou, franzindo levemente o cenho.

– Goz*r! – completou Ethel, caindo em gargalhada novamente, que gradativamente se transformou num choro teatral – Nossa, quanto tempo!

– Você não tava saindo com aquela assombração da praça? – Moarã arqueou a sobrancelha, rindo. – Sumiu?

– Ciúmes não combinam contigo, Moarã. – Ethel inclinou a cabeça, olhos semicerrados. – Você sabe bem que já teve o seu momento. Mas pode ficar tranquila, você sempre vai ter um cômodo especial no meu coração pra você assombrar, ela era só um passatempo.

A guarda soltou uma gargalhada curta, misturando-se ao estalar da lenha.

– Até parece que vou sentir ciúmes da maior arroz de Valeã.

– Arroz?! Ora, minha filha, arroz é base, sustento, alimento! Todo mundo precisa de um pouco de mim. – Levou a mão ao peito, fingindo estar ofendida.

Naiovi não conteve o riso:

– Confesso que nunca ouvi um argumento tão convincente pra devassidão.

– Ah, diplomata… – Ethel piscou, inclinando-se em direção à Naiovi na mesa. – Você fala fancy até pra xingar. 

Já não era possível dizer se o corado no rosto de Naiovi era por conta do álcool, do rumo da conversa ou da aproximação de Ethel. Ergueu o olhar, encenando seriedade:

– Então é um dever cívico te agradecer pelas caridades prestadas à comunidade.

Ethel gargalhou, brindando no ar.

– Exatamente, doutora. Eu sirvo ao povo.

– Com dedicação exemplar, pelo visto. – respondeu Naiovi, e o sorriso que escapou depois já não tinha nada de diplomático.

Moarã, que observava o diálogo com um sorriso discreto, sacudiu a cabeça, divertida.

– Vocês duas… Quem teve a ideia de juntar, heim?

– Ah, deixa de ser ciumenta, Moarã. Vocês têm que admitir que o jogo aqui está ficando bom. Olha só as faíscas.

– Não estou com ciúmes de você, Ethel.

– Não falei que era de mim.

A pausa que veio tinha sabor de fermentado. Naiovi endureceu, mal escutou o que falaram depois.

– Faíscas… Damn, esqueci de arrumar a fiação da energia solar. – murmurou, acariciando a lateral da cabeça.

– Aconteceu alguma coisa? –  perguntou Ethel, fingindo desentendimento, mas com os olhos brilhando de curiosidade.

Silêncio. Moarã e Naiovi trocaram um olhar rápido. Ethel sorriu e se encostou na cadeira. 

– Não aconteceu nada… Quer dizer, a energia ficou instável durante o Red drift. – respondeu Naiovi, a voz baixa, quase com relutância.

– Aaaah, sim, me lembrei agora! – Ethel estalou os dedos. – É, no dia em que Moarã se esborrachou passei lá no laboratório e rolou umas piscadas estranhas.

– Então você sabia.

– Sim.

– E não relatou? – A voz dela ganhou uma rigidez imediata, o timbre cortante de Kohr voltava à superfície. – A queda de energia poderia ter sido evitada.

– Muita coisa aconteceu. – Ethel girou o copo entre os dedos, sem pressa. – Eu também esqueci alguns detalhes. – Bebeu as últimas gotas, com um meio-sorriso.

Naiovi olhou para Moarã, procurando alguma resposta nela que a ajudasse a traduzir a colega. Moarã apenas fechou os lábios, e um sorriso de lado se formou, contido, mas cúmplice.

– Princesas, acho que esse é o sinal. – Ethel se levantou, ajeitando o lenço no pescoço com um ar teatral. – Hora de caçar meu rumo.

– Sabe que, se quiser, pode passar a noite aqui, né? – disse Moarã, com cordialidade.

– Eu sei. – Ethel respondeu, já pegando o casaco pendurado na cadeira. – Mas tenho um compromisso me esperando.

– Um compromisso? No meio da noite? – Naiovi arqueou a sobrancelha.

Ethel fez uma pausa calculada. O olhar deslizou devagar até Naiovi, medindo a reação antes mesmo que ela viesse.

– Quer vir descobrir o que é? 

Manteve o olhar firme, sabendo muito bem que ela não aceitaria. Naiovi piscou uma vez, pega de surpresa e endireitou a postura quase automaticamente.

– Agradeço o convite, mas acho que preciso recusar. – levantou o olhar para Ethel – Assim pode continuar imaginando o que faria se eu aceitasse.

Ethel sorriu, satisfeita como quem confirma uma aposta silenciosa, e inclinou a cabeça, estudando Naiovi.

– E você adoraria ter algo que não pudesse controlar. – disse, pegando uma mãozada de sementes e caminhou até a porta.

– E eu, não vai me chamar? – Moarã perguntou.

– Uai, criatura. Você tá toda quebrada. – o olhar desceu rápido pela costela enfaixada. – E você é tira. Não pode. – disse, abrindo a porta, e virou-se para Naiovi – ah, lembrando que amanhã é dia de lua crescente. Não sei se vou ao laboratório, talvez esteja ocupada. Paz ao que te habita! – Não esperou resposta e saiu com o passo solto. A porta fechou com um estalo seco, o vento da noite ainda roçou o chão antes de se dissipar.

Moarã soltou um riso baixo.

– “Você é tira. Não pode.” – repetiu a imitando. – Eu devia me ofender ou me preocupar? – Moarã riu, apoiando o queixo com a mão. – Ethel… Sempre numa missão estranha. 

O silêncio que ficou era próximo demais. Naiovi percebeu primeiro o calor. Depois, a distância curta entre seus ombros. O ar parecia mais espesso. Levou um segundo além do normal para organizar a própria respiração.

Piscou. Foco.

Moarã a observava.

O coração de Naiovi acelerou sem autorização.

Ela se levantou quase brusca para quem costuma calcular movimentos.

– Preciso de um banho.

– Precisamos.


*********


Depois do banho, Moarã tentava fazer o curativo sozinha em seu quarto. Naiovi percebeu ela se atrapalhando.

– Deixe que eu… – começou, se aproximando, mas Moarã tentou se virar sozinha. – Como pode ter sido aprendiz de Manturã e fazer um curativo feio desses? – murmurou.

– Tente fazer um curativo na barriga sem se curvar ou se esticar. Não é tão simples quanto parece.

– Sei. Deixa que eu faço. – Pegou os materiais e o composto em gel e começou a organizar na mesa de cabeceira. – Ethel… ela é como fogo em palha, não é? 

– O que quer dizer?

– Não sei, ela se infiltra, mexe em tudo e não sai sem mudar quem está em volta. Brinca com a gente na nossa frente, tem uma habilidade de expor sem mostrar, é debochada, fala o que pensa…

– Mas você gosta dela, não é?

– Gosto.

– Ela só “brinca” com a gente assim porque sabe que estamos dentro da brincadeira. A brincadeirinha agora é esconde-esconde.

– Esconde-esconde?

– Ela finge que não sabe de nada e nós fingimos que nada aconteceu.

– Não é exatamente assim.

– Só não falei porque estou respeitando seu tempo. Nem nós conversamos sobre o que rolou ainda. Agora, por que entrar na brincadeira dela e reclamar dessa escolha?

– Não foi minha escolha.

– A partir do momento que Ethel joga verde, alguma coisa ela vai colher, pode ter certeza. Não tem nada que escape da percepção dela. – disse Moarã, recostando-se, já conhecia bem o estilo da amiga. – No momento, ela tá colhendo uma Naiovi bem engraçadinha e não vou negar que estou me divertindo também. – completou, com um sorriso provocador.

– Engraçadinha? – Naiovi tentou manter a voz firme, mas o tom soou mais defensivo e agudo do que pretendia. – Eu só estava sendo cordial.

– Cordial? Hm… Entendo.

A diplomata ergueu o queixo, em um gesto automático de quem tenta retomar o controle da situação.

– Não é o que você está pensando.

– Ah, eu não tô pensando nada, só observando. – respondeu Moarã, cruzando os braços e sorrindo de canto.

O silêncio entre elas durou um instante, até que Moarã falou outra vez, a voz mais baixa, quase conciliadora:

– Quer dizer… você também poderia tirar os panos de cima desse assunto e conversar com ela abertamente. 

Naiovi piscou, surpresa com a sugestão.

– Conversar com Ethel? Sobre… o quê exatamente?

– Sobre o que você quiser. – Moarã deu de ombros. – Sobre o que ela viu, o que entendeu, ou o que você não quer que ela imagine. Porque, do jeito que é criativa, vai inventar o dobro.

– Assim ela sossega?

– Sim. Ela pode parecer boca de sacola, mas lealdade também é um dos ingredientes principais dela.

Naiovi assentiu, de alguma forma ela já sabia disso.

– Você confia nela, não é?

– De olhos vendados.

Começou a arrumar o curativo.

– Sabe, Moarã… Eu geralmente não sou assim.

– Como?

– Assim… – gesticulou, tentando materializar os pensamentos que as palavras não alcançavam – desse jeito que estou agora. Nos meus cargos, em Kohr… não tenho muitas dúvidas, não me sinto fora do prumo, pisando em ovos, sei o que fazer, o que responder, qual escolha priorizar e qual sacrificar… E agora estou aqui, me sentindo numa saia justa por causa de uma colega intrometida.

Moarã soltou uma risada curta.

– Se sentindo mais jovial?

Naiovi riu também, um som leve, quase aliviado.

– Talvez eu esteja me sentindo como uma adolescente confusa de novo.

– Se importar com as coisas causa isso na gente. Um medo de perder.

Naiovi encarou Moarã e terminou de fechar o curativo.

– Agora sim.

Moarã olhou para o próprio abdômen, passando os dedos pela borda do novo curativo.

– Ficou um pouco melhor do que o anterior, tenho que admitir.

– É claro que ficou.

Moarã soltou um som baixo, algo entre um riso e um suspiro e um silêncio confortável se instalou. Naiovi pareceu distraída por um tempo, sem foco, antes de continuar.

– Você sente esse medo?

– Claro que sinto. O tempo todo.

– E o que você faz?

– Não temos opção a não ser seguir em frente, assumir e ver o que fazer com isso.

Naiovi continuou introspectiva, como se já esperasse aquele tipo de resposta que na verdade não responde nada.

– Olha, não tem receita certa ou que funciona pra todo mundo, mas o medo pode ser um ótimo combustível também. Eu e Ethel só chegamos onde estamos agora por causa do medo.

– Não seria por causa da coragem?

– Coragem sem medo é só estupidez.

Finalmente uma resposta. Rudimentar, mas era alguma resposta. 

Naiovi ainda estava ajoelhada à frente de Moarã, próxima demais. A distância mínima entre as duas parecia concentrar o calor do cômodo inteiro. Ela percebeu o próprio coração acelerar novamente, a respiração falhar por um instante. Tentou se convencer de que era apenas o cansaço, o calor da lenha, o fermentado… Mas sabia que não era.

Moarã estava distraída, observando o novo curativo, a mão apoiada na cama, o corpo inclinado, relaxado. Naiovi ficou parada ali, ainda com as mãos próximas da pele dela, sem coragem de recuar.

– Seu fermentado estava uma delícia. – escapou.

Moarã ergueu o olhar, surpresa, um sorriso curioso, diferente, surgiu devagar.

– É mesmo? Fico feliz que gostou. Já testei muitas receitas, essa é a que mais gosto de fazer.

– Sim. Quem te ensinou?

Moarã manteve o sorriso leve, a voz mais baixa:

– Receita originalmente de Manturã, mas eu incrementei com um toque de canela e gengibre.

– Ah, esse foi o gosto intrigante…

– Provavelmente.

O silêncio voltou, dessa vez mais íntimo. Naiovi pigarreou, sem se afastar. O corpo de Moarã ainda exalava o cheiro do banho e da pomada herbal. Levantou o olhar e aqueles olhos de carvão em brasa estavam alí, a observando. A expressão de Moarã era… calma. Simplesmente. Não tinha desafio, não tinha resistência, não tinha pressa, apenas a olhava e permitia ser olhada de volta. Parecia estar percorrendo sem pressa cada detalhe em seu rosto.

Naiovi respirou fundo, hesitou apenas o tempo de um suspiro, e se inclinou lentamente em direção à guarda.

O beijo veio breve, incerto. Moarã não recuou. Sentiu o toque, suave, e deixou que acontecesse.

Quando se afastaram, a respiração das duas era o único som. 

Naiovi abaixou os olhos e disse, quase num sussurro:

– Desculpe… eu…

Moarã balançou a cabeça, ainda próxima o bastante para que Naiovi sentisse o calor da sua pele.

– Não precisa. – recostou-se, o olhar firme, avaliando-a em silêncio, antes de completar, num tom rouco: – Mas e aí, pretende conversar sobre isso primeiro com Ethel ou comigo?

O silêncio entre as duas durou tempo demais. Moarã ainda estava recostada, o curativo limpo, olhar firme. Naiovi, no entanto, parecia em outro lugar.

– Eu preciso dizer uma coisa. – começou, enfim.

Moarã endireitou o corpo, atenta.

– Diga.

– Isso… o que aconteceu agora… – Naiovi respirou fundo. – É perigoso.

– Perigoso? 

– Pra nós duas. – respondeu de imediato. – Você é uma liderança aqui, uma comandante. As pessoas te escutam, te seguem, recorrem a você. E eu… eu represento Kohr, um nome cheio de carga. Não faz nem duas semanas que eu cheguei e já seria imprudente me envolver com qualquer pessoa daqui, ainda mais… com você.

– Entendo. – Moarã acenou com a cabeça – Mas não lembro de ter te pedido envolvimento.

Naiovi piscou, boquiaberta, e Moarã completou com voz mais branda:

– Aconteceu, só isso. Eu também quero. Você está falando de política, eu estou falando de duas pessoas num quarto.

Naiovi sentiu o golpe da simplicidade. Era sempre mais difícil quando Moarã simplificava.

– Não é tão simples. – insistiu. – Você se tornou o caso experimental número um do composto que estamos desenvolvendo. Mal começamos os testes de estabilidade, nem sabemos se o que apliquei hoje em você pode causar alguma alteração a longo prazo. Eu… não quero perder outra pessoa.

A palavra ficou suspensa. Naiovi desviou o olhar.

– Permanência é difícil pra mim, e não falo só de política. Eu sou criada de OMMAR, Moarã. Fui moldada pra representar e pra agir com precisão, vivo em trânsito e é mais fácil quando se é sozinha.

– Mais fácil ou menos doloroso?

Naiovi não respondeu. O silêncio dela já era resposta suficiente. Moarã se inclinou um pouco pra frente, apoiando um antebraço na perna, a voz mansa, mas firme:

– Escuta. A gente não precisa se casar, conhecer família, trocar juramentos de sangue ou anunciar pra Kohr ou Valeã inteira. – Um pequeno sorriso atravessou o rosto dela. – Não precisa colocar o Estado no meio, nem protocolo, nem nada. Só… estar. Depois vemos o que fazer com o que foi construído.

– O problema é que eu sou o Estado, Moarã. – respondeu, amarga. – Onde quer que eu vá, ele me acompanha.

Moarã a observou por alguns segundos, pensativa, e arqueou uma sobrancelha.

– É o Estado? – repetiu, lenta, saboreando uma ironia. – Uau. Então vou precisar te guilhotinar mais cedo ou mais tarde.

Naiovi piscou, sem saber se escutou direito.

– Não perde a oportunidade de me ameaçar, não é? Estou falando sério com você agora.

– Você não é o Estado, minha cara rainha francesa. Ainda não faz parte do conselho, e, mesmo quando fizer, vai ser só uma parte de sete. Talvez esteja se dando importância demais.

Naiovi a olhava sem saber se ria ou se chorava, não era comum alguém desdenhar de sua posição.

– Que conforto. – Naiovi murmurou, o sarcasmo arranhado.

Moarã deu uma risada curta.

– Não foi pra te confortar. Foi pra te lembrar que é gente, não uma máquina ou um regime político.

– Será que sou?

– O que mais seria?

– Um experimento. Algo que me tiraram a possibilidade de escolher ser.

– Ninguém pede pra nascer ou escolhe o peso que carrega, só o que faz com ele. – Moarã ajeitou-se, mais relaxada agora. – E, sinceramente, se o Estado de Kohr se resume a uma mulher que fica choramingando pelos cantos e beija mal sob efeito de álcool…

Naiovi ergueu o olhar:

– Beijo mal?

– Eu disse “sob efeito de álcool”. – Moarã sorriu torto, denunciando a provocação.

– Não estou bêbada. 

Moarã arqueou uma sobrancelha, estudando-a com um misto de divertimento e cuidado.

– Ah, não?

Naiovi piscou e mordeu o lábio, sem saber se recuava ou ria.

– Não o suficiente pra deixar uma substância decidir o que faço.

– Mas parece que você deixa um monte de coisas decidirem por você.

A pesquisadora abriu a boca pra retrucar, mas parou. Poderia rebater, pôr seus pontos, mas para quê? O que ela queria ou tinha que provar para Moarã? Foi o tempo exato de uma resposta simples:

– Não tudo.

O silêncio que se seguiu não era de tensão, mas de desafio. 

– “Não tudo”? – Moarã repetiu, quase um sussurro. – O que ainda é escolha tua?

Naiovi respirou fundo com a provocação. Um músculo da mandíbula se contraiu antes de se inclinar novamente em direção à guarda.

Dessa vez o beijo não teve incerteza. Foi lento, firme, o tipo que começa como teste e termina como decisão. Moarã respondeu no mesmo ritmo, a mão subiu devagar pela nuca de Naiovi, sentindo o arrepio imediato que percorreu a diplomata.

Por um momento, tudo pareceu se dissolver. Naiovi foi quem se afastou primeiro, o rosto próximo o bastante para que o nariz roçasse no dela.

– Não acho que isso é outro fim do mundo. – Brincou Moarã.

Naiovi riu baixinho, nervoso.

– Talvez não.

– Kohr não dorme aqui hoje. – A voz de Moarã soou como um convite. – Só nós duas.

O ar entre elas ficou abafado, como se o tempo parasse num ponto de calor impossível de ignorar. Naiovi fechou os olhos. Pensou em Kohr por um último segundo e deixou o pensamento afundar, como se desligasse um transmissor. 

O beijo veio mais calmo, mais fundo, como quem reconhece um território recém-descoberto.

E, dessa vez, não houve culpa nem desculpa. Só o som das respirações sincronizando-se e o meio-luar que atravessava as frestas da janela. Moarã passou a mão pelas costas de Naiovi por baixo de sua camiseta enquanto beijava o pescoço dela. 

Sem dizer nada, Naiovi afastou-se o suficiente para observar o curativo na barriga de Moarã – limpo, a pele reagindo ao composto. Tocou com cuidado, como se buscasse confirmar que ela estava mesmo ali.

– Está quente. – murmurou.

– É assim mesmo. – respondeu Moarã com um meio sorriso nos lábios, puxando Naiovi de volta para os beijos.

Naiovi deixou escapar um sorriso e ia continuar, mas seu olhar caiu novamente no curativo.

– É sério. Está muito quente. – a expressão e o tom de Naiovi mudaram para um ar de preocupação.

– Não deve ser nada, estou bem.

– Não, não está certo. A pele está reagindo. O composto não deveria provocar aumento de temperatura localizado. Não agora.

– Reagindo?

– Hiperemia visível. – Naiovi passou os dedos ao redor do curativo. – O tecido ao redor está corado, mas… – ela inclinou a cabeça, intrigada. – Não sente dor?

– Nenhuma. – Moarã respondeu, observando-a com um meio sorriso. – Quer dizer, a não ser na minha cabeça pelo tanto de preocupação repentina.

– Isso não é engraçado. – Naiovi ergueu o olhar, as sobrancelhas arqueadas. – Se a temperatura continuar subindo, pode indicar uma reação metabólica inesperada.

– E vai medir com o termômetro ciborgue ou naturalmente com a mão? – provocou Moarã. – Eu prefiro a segunda opção.

Naiovi suspirou, tentando não sorrir, mas a tensão se dissolveu por um instante.

– Você é insuportável.

– Eu sei. 

Ela pensou por um momento.

– O composto pode estar interagindo com alguma resposta fisiológica, talvez uma liberação hormonal… não dá pra saber ainda, mas precisamos reverter isso logo. 

O silêncio voltou. Moarã respirou fundo e ajeitou-se na cama, conformada, abrindo espaço ao seu lado:

– Então acho melhor a gente descansar.

Naiovi ficou parada por um instante, avaliando aquele convite e o espaço que Moarã deixara ao lado. A cama era espaçosa, mas parecia pequena demais para as duas. 

Apagou as luzes, deixando apenas o brilho fraco do luar recortando o quarto. O fogo estalava devagar, o vento passava pelas frestas e o ar trazia o cheiro de terra e madeira do quarto de Moarã. Deitou-se ao lado dela. Moarã estendeu o braço e aninhou Naiovi em seu ombro.

Aos poucos, o ritmo da respiração se estabilizou e o corpo cedeu onde a mente resistia. O silêncio que veio foi o mais leve desde que se conheceram.

– Ainda é só uma hipótese. – murmurou Naiovi. – Preciso monitorar a reação durante a noite.

– Tá bom. – respondeu Moarã, quase dormindo. – Só não traz seus cacarecos pra cama.

Um riso baixo escapou de Naiovi.

– Não seria melhor eu dormir no meu quarto?

Moarã abriu um olho.

– Não.

Puxou-a um pouco mais para perto.

– Já está bom aqui. Se alguma coisa acontecer, você vai saber.

A mão dela começou a afagar lentamente a cabeça de Naiovi. O ar entre o pescoço de Moarã e o próprio fôlego tinha cheiro de ervas, algo entre alecrim e tangerina, misturava-se ao calor constante da respiração da caçadora.

Os ombros de Naiovi finalmente relaxaram.

– Só por precaução.

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Yessssss finalmente consegui o capítulo que eu queria!! (Sort of... provavelmente num futuro, se eu decidir publicar o livro, vou mudar algumas coisinhas rsrs)

Esse dia já estava escrito há MESES, mas não estava achando legal de jeito nenhum. Inclusive, se revisitarem as notas finais do último capítulo, mudei até o título rs e revisando fiquei CHOCADA como vocês não sabiam de TANTA coisa que só é falado nesse cap!!

Vem aí o dia 14, dia de lua crescente. Duas semaninhas apenas que Naiovi tá comendo o pão que o diabo amassou, mas já aconteceu tanta coisa... Haja fogo e fermento pra massa!

E, como prometido, vos apresento a nossa muralha Moarã:

https://open.spotify.com/playlist/5K8YjHrGDMqG2jAkZfO3VY?si=d4609e0f024e4aca&pt=4515357e8e38e3239c3d45231ab9c2c0

E está em ordem de desenvolvimento de história/personagem ;) 


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