Degustação.
Capitulo 2
Capítulo 02
Devia ter ficado em casa, descansando da viagem. Não havia demanda suficiente que justificasse o deslocamento ao escritório. Mesmo assim, por pura teimosia, lá estava Lara, em um prédio comercial no bairro Meireles, saindo do elevador e cruzando a porta de madeira envernizada com puxadores dourados. Trajava um tailleur elegante, com saia lápis que moldava os quadris até os joelhos e um blazer estruturado, de lapelas finas e ombros bem marcados, ambos em um tom sóbrio de cinza. Nos pés, escarpins vermelhos, que harmonizavam com o esmalte nas unhas, completavam o visual.
Assim que entrou na recepção, percebeu a presença de outra pessoa: uma mulher loira, alta, com cabelos lisos presos em um coque impecável na nuca. Seu traje era formal e refinado, composto por uma saia-lápis preta ajustada e um blazer escuro de corte perfeito, que realçava sua postura imponente. No momento, ela estava de costas, ocupada com a organização de alguns papéis sobre a mesa.
Lara estreitou os olhos, intrigada com a presença inesperada. Só podia ser culpa de Mirtes, sua secretária veterana, cuja memória começava a falhar, algo que agora parecia indiscutível. Era certo que ela esqueceu de avisar sobre o compromisso de negócios.
— Não sabia que tinha uma reunião marcada para esta tarde — declarou Lara, com uma pitada de irritação na voz, fechando a porta com um estalo seco.
A visitante se virou de imediato, quase derrubando os papéis que organizava. Apesar de os óculos grandes demais para seu rosto piscarem como neon, Lara aprovou o batom aveludado nos lábios carnudos, que pareciam saídos de uma revista de moda.
— Ah, não tem mesmo. A senhora está com a agenda livre hoje. — A loira abandonou a mesa e se aproximou de Lara. — Muito prazer. Sou Rachel Bonfim, sua nova secretária. — A mão pálida, que aguardava um cumprimento cordial, pairou no ar por longos segundos antes de se recolher à sua insignificância.
— Meu lindo nome, a senhorita já deve saber, assim como toda Fortaleza. — Lara retirou o celular do bolso e começou a deslizar o dedo sobre a tela. — Preciso ligar pra Mirtes e agradecer por toda a paciência que ela teve comigo durante todos esses anos.
A correria da viagem a Portugal causou um curto-circuito em seu cérebro, criando um delay que fez Lara demorar a processar que sua secretária de confiança havia se aposentado. Durante sua ausência, Gustavo se encarregou de preencher a vaga com uma substituta cinquenta anos mais jovem e cinquenta curvas mais privilegiada.
— Quando eu era criança — Lara continuou —, ouvia rumores de que meu pai tinha um caso com a Mirtes. — Ao mesmo tempo em que consultava a agenda do celular, divagava em voz alta. — É, eu sei. Nada mais clichê do que um caso amoroso entre patrão e secretária. — Ela desviou o olhar para Rachel. — Mas relaxa, senhorita. Meu pai já está aposentado, nem põe mais os pés aqui. E quanto a mim... Bom... Sinto decepcioná-la, mas mulher não é minha praia.
Rachel ajustou os óculos no rosto.
— A possibilidade nem passou pela minha cabeça, doutora DiAngelis.
A chefe mostrou os dentes, divertindo-se com o desconforto da nova secretária.
— É impressão minha ou a senhorita ficou corada? — Colocando o celular no ouvido, Lara atravessou a recepção em direção à sua sala privativa.
Rachel girou o pescoço para observá-la. Já a conhecia por fotos, amplamente divulgadas nas redes sociais, mas se surpreendeu com a elegância e altivez da mulher, agora conferidas ao vivo e em alta definição. Lara exibia o porte de uma rainha malvada: imponente, barriga para dentro e sobrancelha arqueada. Embora fosse um pouco menos alta que Rachel, os saltos disfarçavam a diferença.
A pele branca contrastava com o cabelo escuro e ondulado, que, na altura dos ombros, emoldurava seu rosto com perfeição. Conquistar sua simpatia não seria tarefa fácil, muito menos ganhar sua confiança. Gustavo a havia alertado sobre a personalidade forte da namorada, mas Rachel, sem alternativas, aceitou o desafio. Antes de assumir a vaga, fez um laboratório com Mirtes para conhecer as preferências da chefe. A chaleira esquecida sobre o aparador seria sua primeira aposta.
♦♦♦
Dois sachês de camomila em uma xícara com água fervente, duas gotas de adoçante e duas colherinhas de leite desnatado. Rachel aprendeu com Mirtes a receita secreta. Com a bandeja nos braços e a determinação de quem não podia errar, entrou na sala de Lara.
— Detesto chafurdo na minha sala. Assim, não consigo me concentrar direito. — Sentada na poltrona giratória, Lara deixou o contrato que analisava sobre a mesa, lançando um olhar firme sobre Rachel.
— Perdão, doutora! — Rachel arregalou os olhos. — Fiz um chá pra senhora, mas posso voltar depois.
Devia estar distraída quando a antiga secretária a alertou sobre a chefe odiar interrupções durante o expediente. Temendo ser repreendida duas vezes em sua estreia, girou nos calcanhares para sair.
— Calma, senhorita. Não se precipite. — Ao chamá-la, Lara fez Rachel dar um passo atrás, segurando a bandeja. — Coloque ali, por favor. — Com o queixo, indicou o espaço livre na mesa.
Rachel se abaixou o suficiente para apoiar a bandeja no local indicado, mas isso não impediu Lara de notar que agora ela estava com dois botões da camisa desabotoados. Uma mecha de cabelo loiro se desprendeu do coque, e Rachel rapidamente a prendeu atrás da orelha.
Lara deslizou o contrato sobre a mesa e esticou o braço para pegar o pires, com a xícara encaixada nele. Rachel permaneceu na margem oposta, aguardando a reação da chefe, que acabou de encostar os lábios na xícara.
— Acho que algo não saiu como deveria — disse Lara, colocando a xícara de volta na bandeja com um leve suspiro.
Rachel estava convencida de que tinha feito tudo certo.
— Segui à risca as instruções que a Mirtes me repassou — tentou justificar.
— Parece que a Mirtes cometeu um pequeno equívoco. A medida exata é uma colher de leite apenas, querida, não duas — Lara respondeu de maneira calma, mas incisiva.
Rachel abaixou o olhar, sentindo-se desconfortável.
— Perdão, doutora DiAngelis. Da próxima vez, eu acerto.
— Melhor que acerte, então. A senhorita está em período de experiência e não pode se dar ao luxo de abusar dos equívocos. — O celular de Lara, esquecido em um canto da mesa, começou a tocar, com a foto de Gustavo iluminando a tela. Ela desbloqueou o aparelho e o levou até o ouvido, sem tirar os olhos de Rachel. — Chegou cedo a Iguatu.
Rachel viu a expressão no rosto da chefe se anuviar.
— Quem está falando? — Lara levantou-se de repente. — Acidente? Onde? Como?
— Tá tudo bem com a senho...? — tentou perguntar Rachel.
Lara sacolejou a mão, pedindo silêncio absoluto para se concentrar no que o policial do outro lado da linha relatava. Uma informação-bomba, que ela apenas repetia no modo automático.
— O Gustavo sofreu um acidente. Um grave acidente de trânsito.
Lara fez o celular deslizar sobre a mesa e começou a andar inquieta.
— Meu namorado morreu.
— O quê? — Rachel se aproximou rapidamente, tentando colocar a mão nas costas de Lara, que se esquivou.
Lara lamentava a trágica notícia, claro. Mas a maior de suas preocupações, talvez a única, logo tratou de assombrar sua mente.
— Vou ter um trabalhão para me livrar das tralhas dele.
— O que foi mesmo que a senhora disse?
— Nada, senhorita. Pensei alto.
Fim do capítulo
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