Degustação.
Capitulo 1
Capítulo 01
Ao chegar em casa, Lara percebeu algo estranho através da parede de vidro: o sofá da sala estava desarrumado, com as almofadas de seda espalhadas de forma desleixada. Ela não reconhecia a autoria da bagunça, como se alguém tivesse violado aquele espaço em sua ausência. Uma sensação de desconforto a invadiu. Será que alguém entrou aqui?, pensou. Cogitou acionar a polícia, mas logo descartou a ideia. Depois de uma semana de compromissos intensos na Europa, estava cansada demais para alimentar suas neuroses logo de manhã cedo.
Ela deixou os escarpins de verniz do lado de fora, afastou as folhas da porta de vidro, o suficiente para passar com sua mala, e entrou na sala de seu porto seguro: a imponente mansão no bairro De Lourdes, com uma garagem que comportava uma frota de carros. Em certa ocasião, chegou a se perder nos amplos espaços da propriedade e, só depois de dez minutos de busca, encontrou o acesso à piscina, decorada com um chafariz de ostra importado de Dubai, resultado de uma extravagância em dólares que somente Lara e os sheiks árabes podiam bancar.
Deslizou a mala pelo piso de mármore polido, agradecendo em silêncio ao gênio do marketing que concebeu aquela verdadeira oitava maravilha do mundo: rodas direcionais que faziam seus quatro pares de Louboutin parecerem tão leves quanto pantufas.
Lara respirou fundo e largou a mala ao pé da escada, sabendo que a diarista a levaria ao primeiro andar na manhã seguinte. Subiu os degraus, movendo a cabeça de um lado para o outro, tentando aliviar a tensão no pescoço, consequência do voo direto de sete horas entre Lisboa e Fortaleza.
O primeiro andar possuía cinco amplas suítes, o que lhe parecia um exagero na época da compra, dez anos antes. Apesar disso, decidiu fechar negócio com a imobiliária. Sabia que, mesmo se tivesse filhos, jamais ocuparia todos os quartos. Nunca desejou ser mãe e, ao descobrir em um check-up de rotina que não produzia óvulos, confirmou que jamais enfrentaria o desafio de lidar com crianças birrentas. Preferiu então transformar os espaços em biblioteca, escritório e sala de massoterapia. Por precaução, destinou um dos cômodos para hóspedes.
Ao entrar na suíte master, que, não por acaso, tinha o dobro da metragem das demais, Lara retirou o casaco de pele sintética e o pendurou no encosto da poltrona. Estava pronta para um banho quente na jacuzzi antes de descansar. Desabotoou a camisa, ainda impregnada pelo cheiro dos aeroportos, e se encaminhou para o closet.
— Surpresa! — Um homem gordo saltou lá de dentro.
Lara recuou um passo, se protegendo com os braços.
— Que droga, Gustavo! Tá tentando me matar de susto?
Terminando de arrancar a camisa, jogou-a em um canto escuro do quarto. Arrependeu-se, com todas as forças, de ter dado uma cópia da chave de casa ao namorado. Tinha uma vaga lembrança de ter tomado um porre de uísque naquela noite decisiva. Se tivesse mandado fazer uma perícia, o laudo certamente apontaria vestígios de substâncias ilícitas em seu copo, justificando tamanha loucura. Só mesmo muito chapada para ter destruído sua preciosa privacidade. Embora já tenha cogitado a ideia, Lara se consideraria, no mínimo, indelicada ao pedir a chave de volta.
— Achei que você ficaria mais animada em me ver. — Gustavo saiu do closet, com seu sorriso largo e despreocupado, e avançou para o espaço onde ficava a cama. O cabelo liso e preto, ainda úmido, estava penteado para trás, e a barba bem desenhada revelava um capricho no visual, embora não o suficiente para impressionar a namorada.
— A questão não é essa, Gustavo. Você sabe muito bem que detesto surpresas. — Lara teve vontade de acrescentar um "desagradáveis" à frase, mas preferiu manter a compostura.
— É que viajo hoje à tarde. Achei que você gostaria de se despedir pessoalmente.
Gustavo tinha uma audiência no fórum de Iguatu, uma cidade do Centro-Sul do Ceará. Viajaria em seu carro particular e retornaria no dia seguinte. Tempo curto demais para que Lara sentisse saudades do namorado, considerando-se que já passou um mês no Uruguai fechando negócios e, ainda assim, nem se lembrou da existência dele.
Lara se acomodou na poltrona para soltar a bainha da calça. Gustavo se aproximou, deixando o terno pelo caminho, e a camisa já estava quase seguindo o mesmo destino.
— Estou exausta e sem a mínima disposição pra trans*r. — Ela deu um pulo, desviando-se dos tentáculos do namorado. Correu e se refugiou no closet. — Boa viagem! Me avisa quando chegar àquele fim de mundo.
Ela ouviu passos se aproximando.
Gustavo preencheu o portal, com seu físico robusto, o terno cinza reajustado nas costas.
— Não é porque você não conseguiu exportar seus brinquedinhos pra Lisboa que precisa descontar sua frustração em mim.
Lara mordeu a língua para conter um xingamento. Quem Gustavo pensava que era para lhe jogar na cara a incapacidade de fechar um mísero contrato de exportação? Gustavo era apenas um advogadozinho do Grupo DiAngelis, do qual Lara era presidente e proprietária. Mas, com tanto que ele investiu na causa, presenteando-a com buquês de rosas gigantes e jantares refinados, ela aceitou namorar o infeliz. O problema era que, passados dois anos, o relacionamento esfriou.
— Azar dos portugueses, meu caro. Não fez nem cócegas nas minhas finanças. — Ela começou a remexer no armário em busca de uma toalha limpa, um roupão e, se tivesse sorte, encontraria também um revólver.
— Posso imaginar. Gente que nada na grana não se abala com qualquer mixaria. — Gustavo se virou e começou a sair do closet.
— Espera! — Lara largou a toalha na prateleira e esperou Gustavo se aproximar. O remorso era uma fraqueza que, de vez em quando, a visitava. Pressionando os seios contra o peitoral dele, se concentrou e lhe deu um beijo rápido. — Tenha uma boa viagem. Me avisa quando chegar à pousada.
— Hotel. Não sou do tipo que se hospeda em qualquer buraco. — Gustavo envolveu a cintura de Lara e a puxou para um beijo mais elaborado.
Ela se afastou e se protegeu entre as folhas altas das prateleiras.
— Chispa logo daqui! Me deixa tomar meu banho em paz! — disse, exibindo um sorriso forçado. Sabia que estava sendo ríspida, mas não conseguia evitar.
Gustavo devolveu o sorriso e saiu do closet. Pouco depois, Lara ouviu o som da porta se fechando. Seu namorado, enfim, entendeu que não era bem-vindo e estava indo embora, o que a fez sentir um alívio maior do que um banho de jacuzzi seguido de um dia inteiro de sono em sua confortável cama king size.
Fim do capítulo
Degustação.
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