Capitulo 17
Capitulo 17
A amizade desenvolve a felicidade e reduz o sofrimento, duplicando a nossa alegria e dividindo a nossa dor. - Joseph Addison
Ana Carolina estava sentada na varanda de casa, havia chegado de mais um plantão naquela semana. O celular repousando ao lado, se houvesse alguma emergência ela seria chamada ao hospital. O silêncio era denso, não de paz, mas de pensamentos que se atropelavam.
Os últimos dias foram intensos, a ligação de Rafael ainda ecoava em suas lembranças, amava o irmão apesar das diferenças entre eles, e ligação de hoje para avisar que a mãe também viria para Nova Esperança a deixou perturbada. Há mais de um ano que não via a mãe após a última briga entre elas por causa da namorada da época e na última vez que se viram, a mãe sequer olhou em seus olhos. Só disse: ‘Você escolheu esse caminho, então siga sozinha.
A noite estava clara, e a lua cheia iluminava a fazenda com uma luz pálida, tudo parecia calmo. Dentro dela, não.
As palavras dos avós ainda ecoavam. A dor do avô. A culpa. A dúvida. E o nome de Diana, que agora carregava mais do que desejo - carregava história, conflito, talvez até sangue. Os olhos encheram de lágrimas, passou as mãos pelos cabelos, tentando organizar o que sentia. Mas não havia ordem possível. Só perguntas.
"E se ela for mesmo filha do assassino do meu pai?"
"E se tudo o que eu senti naquele banheiro... for parte de algo que eu deveria rejeitar?"
"E se eu não quiser rejeitar?"
"E se for um plano dela?"
Sentia o coração bater como se quisesse sair do peito. Sabia reconhecer os sintomas. Mas não havia remédio para aquilo.
- Não posso ter uma crise de ansiedade. Não posso, Senhor... A mulher que tá mexendo comigo de uma maneira que ninguém tinha mexido pode ser filha do homem que matou o meu pai... Eu não posso... - Carol balançava a cabeça em negação.
As mãos tremulas pegou o celular e ligou para a única pessoa que poderia conversar sem medo no momento.
- Ei, já com saudades doutora?
- Alice, me ajuda....
- Carol? O que tá acontecendo?
- Estou tendo uma crise de ansiedade, me ajuda.
- Respira, fecha os olhos Carol... Eu tô aqui, tá? Respira comigo. Inspira... isso. Agora solta devagar. Você não tá sozinha. Eu tô aqui. Fica comigo.
- Eu não tô aguentando mais Alice. Ela... Ela é filha daquele homem...
- Ei... inspira e expira comigo... solta o ar com força... deixa isso tudo sair Carol... Você aguenta sim, você é forte...
O pranto veio com força deixando Alice desesperada por não estar perto da amiga.
- Carol, chora... vai... põe tudo pra fora... deixa isso sair amiga. Você quer que eu vá até ai?
- Vem Alice, por favor...
- Eu vou... não desliga o celular tá... fica comigo.
Alice chegou à fazenda em menos de vinte minutos. Estava com o cabelo preso às pressas, uma blusa larga e os olhos cheios de preocupação. Estacionou o carro sem se preocupar com mais nada. Desceu com pressa, o coração acelerado. Encontrou Ana Carolina sentada na varanda, abraçada aos joelhos, o rosto ainda molhado de lágrimas.
Sem dizer nada, Alice se aproximou e se agachou diante dela.
- Tô aqui - disse, com voz baixa. - Respira comigo de novo, só mais um pouco.
Carol fez que sim com a cabeça, tentando controlar o tremor das mãos. Alice sentou ao lado, sem soltar a dela. Apos alguns minutos ela foi se acalmando.
- Quer me contar o que aconteceu? Eu tenho conheço Carol, tem uns dias que você tá estranha, tá mais calada que o normal.
Carol demorou, mas começou a falar, como quem desata um nó apertado demais.
- Rafael ligou. Disse que tá vindo pra cá. E que a mamãe também vem. - Ela engoliu seco. - Faz mais de um ano que não vejo ela, Alice. A última vez... ela nem olhou pra mim. Só disse que eu escolhi esse caminho, então que seguisse sozinha.
Alice apertou a mão dela com mais força.
- Carol, isso não é justo com você e com ninguém. Eu sei que é sua mãe e apesar dos pesares você a ama, mas, ela não controla sua vida e quem você gosta ou deixa de gostar.
- Eu sei. Mas é o que ela faz. Sempre foi assim. E agora, com tudo isso acontecendo... com a Diana...
Alice ficou em silêncio, esperando.
- Eu ouvi meus avós conversando. O vovô... ele falou sobre o lugar onde o papai foi morto. E sobre a Diana. Ele acha que ela pode ser filha do homem que matou meu pai.
- Eita porr*!
- Eu fiz uma investigação, Alice. E não é isso que aparece nos registros. Mas tem coisa errada. Tem coisa escondida. E eu preciso ir mais fundo. Só que... se for verdade... se ela for mesmo filha dele...
- Você tá com medo do que sente por ela, né?
Carol olhou pra amiga com os olhos marejados.
- Eu tô com medo de tudo. Da minha mãe, do Rafael, da cidade, da história. E de mim. Porque eu não consigo parar de pensar nela. Mesmo com tudo isso.
Ana Carolina respirou fundo, tentando conter a própria emoção.
- Você não tá sozinha, Carol. Eu tô aqui. E você é forte. Mesmo quando não acredita nisso.
- Alice... Quando o Rafael e a minha mãe chegarem aqui, Nova Esperança vai pegar fogo.
- Teu irmão é complicadinho... é bonitinho mas, é ordinário... da última vez que ele teve aqui arrumou um monte de confusão.
- O Rafael é pavio curto, não estou dando desculpa pelas confusões dele, até porque ele é adulto e tem que arcar com os próprios erros.
Carol mexeu distraída na manga da blusa, como se tentasse afastar o peso das lembranças.
- Pavio curto... - Alice fez uma careta divertida. - Adicione filhinho da mamãe, mais um pouco de riquinho que acredita que todos estão aí para serem seus servos. Não podemos esquecer de machista...
- Isso é culpa em grande parte da minha mãe. Quando eu não fui o que ela desejava, o Rafael virou a opção certa. Ela conseguiu fazer com ele o que nunca conseguiu fazer comigo.
- Graças a Deus, né? Antes ele que você.
Carol sorriu de leve, mas logo o semblante mudou.
- Hoje eu discuti com o miserável do Décio Camargo e acho que tudo veio somar com os acontecimentos dos últimos dias.
- O que o salafrário queria?
- O de sempre e de sempre...
- Ele fez alguma coisa com você? O de sempre da vez, é por causa daqueles empregados dele que sofreram o acidente?
- Com certeza.
- Ele jogou os coitados no hospital e não quer arcar com nada.
- Sim. Você acredita que o promotor tá comendo na mão dele? Não vai acusar ele de nada?
- Conta uma novidade, né Carol... Quem não come na mão do prefeito... do vereador... até mesmo do teu avô, que eu amo de paixão... Mas, a gente sabe como é aqui em Nova Esperança.
- Ele disse que eu tô procurando o que o meu pai teve. Que eu quero poder, influência. Que tô me metendo onde não devia.
Carol abaixou os olhos, sentindo o peso daquelas palavras reverberarem.
- Aquele miserável te ameaçou? - Alice se endireitou na cadeira, a voz firme.
- Nada do que já não tenha feito ou dito outras vezes... - Carol suspirou. - Mas, dessa vez ele usou o meu pai, Alice.
- Carol... Isso tá ficando cada vez mais perigoso. Você precisa avisar ao seu avô.
- Nossas famílias brigam há anos. Por terras, política, qualquer motivo besta. Porque você acha que meu pai foi assassinado? E outra, eu sou lá mulher de abaixar a cabeça pra alguém? Muito menos por ameaça de um Camargo?
Alice sorriu, orgulhosa.
- É por isso que eu admiro você. Porque mesmo com tudo contra, você não foge.
Carol encostou a cabeça no ombro da amiga, exausta.
- Eu só queria que tudo fosse mais simples.
Alice e Ana Carolina ainda estavam sentadas na varanda, o silêncio entre elas agora mais leve, como se a dor tivesse encontrado espaço para respirar. Carol encostava a cabeça no ombro da amiga, os olhos ainda inchados, mas o coração um pouco mais calmo.
Foi quando a porta se abriu devagar, e Dona Estelita apareceu a procura da neta.
- Carol? - Chamou com doçura.
- Oi vó...
- Minha filha, você chegou e nem veio me dar um beijo.
Carol se levantou, enxugando os olhos com a manga da blusa.
- Desculpa, vó. Eu precisava de um tempo aqui fora.
Estelita olhou para Alice e sorriu com ternura.
- Aconteceu alguma coisa no hospital? Porque você está com os olhos vermelhos? E porque precisava ficar aqui fora?
- Não aconteceu nada vó... Não se preocupe. Eu tava precisando conversar...
- E eu como a pessoa mais indicada pra chorar as pitangas com a sua neta, to aqui dona Estelita.
- E que pitangas são essas, hein Alice?
- As pitangas do meu coração bobo, os problemas da profissão, as questões de família... a senhora sabe como é...
- Sei... Você tá bem? - Perguntou Dona Estelita sem precisar dizer mais nada a neta.
Carol caminhou até ela e a abraçou com força.
- Tô melhor agora vó. Não se preocupa, eu vou ficar bem.
- Então entrem para comer e irem dormir.
- Dona Estelita, eu vou pra casa.
- Nada disso Alice, está tarde.
- Que tarde o que... agora que são 22h.
Dona Estelita semicerrou os olhos para as duas.
- Está tarde. Vocês não jantaram. E ninguém vai sair dessa casa sem comer. E você vai dormir aqui e ponto final. Onde já se viu uma coisa dessa.
- Que coisa Estelita? - Dr Mário perguntou chegando até elas?
- Alice querendo ir embora uma hora dessa Mário e sem jantar.
- Tem toda razão meu amor. As duas pra cozinha jantar e depois dormirem.
As duas riram e Carol ao passar pelo avô foi abraçada por ele.
- Você realmente está bem Carol?
- Estou vô.
- Eu vi quando você chegou e ficou aqui fora. Não vim porque percebi que você precisava do seu tempo, notei que depois Alice chegou apressada. Algo aconteceu, o que foi?
A conexão entre os dois era antiga, feita de respeito, admiração e uma dor compartilhada que não precisava de palavras.
Carol beijou o rosto do avô com carinho.
- Agora estou bem melhor vô. A conversa com a Alice me ajudou bastante, amanhã converso com o senhor, está bem?
Ele balançou a cabeça sorrindo para a neta.
Na cozinha, o cheiro de comida fresca preenchia o ar. Dona Estelita servia com mãos ágeis e olhos atentos, enquanto Alice e Ana Carolina se acomodavam à mesa.
Alice pegou o garfo e, antes de provar qualquer coisa, soltou com um sorriso travesso:
- Dona Estelita, se eu casar com a Carol, posso comer essa comida maravilhosa todo dia?
Estelita riu alto, balançando a cabeça.
- Se depender de mim, já tá casada, minha filha. Faço gosto demais!
Dr. Mário acompanhou:
- Alice, eu fico feliz. Gosto demais dessa amizade de vocês. E se virar namoro, melhor ainda.
Carol riu, balançando a cabeça.
- Impossível, vô. Eu amo a Alice como irmã. Ela é minha alma gêmea, mas de outro jeito.
Alice concordou, divertida:
- Exatamente. Irmãs de alma. Se eu fosse me apaixonar por alguém, teria que ser alguém que não me conhecesse tão bem. A Carol já sabe até meus defeitos.
- E mesmo assim tá aqui - provocou Estelita. - Isso já é amor.
- Vocês podiam tentar - insistiu a avó, com ternura. - A minha neta merece alguém que a faça feliz, que a respeite, que a compreenda. E você, Alice, tem tudo isso.
Dr. Mário completou, com voz firme e olhos suaves:
- O maior desejo que tenho é ver minha neta feliz. Independente de quem ela escolher. Mas se for você, Alice, eu vou ficar muito feliz. Porque gosto muito de você.
Alice fingiu pensar, com o garfo no ar:
- Então a Carolzinha vai ter que me conquistar. E vou logo avisando que não sou fácil assim, não.
Carol riu:
- Eu que tenho que conquistar você? Olha quem tá se achando! Aqui meu amor é você que tem que conquistar.
Todos riram juntos, e por um momento, o mundo parecia leve.
Mas Carol, entre uma garfada e outra, ficou em silêncio. Pensou na mãe. Pensou em como seria bom se ela também pudesse rir assim, aceitar, acolher. Sentiu falta do amor que não vinha - da aceitação que nunca teve.
Dr. Mário percebeu o olhar distante da neta.
- Tá tudo bem, minha filha?
Alice, percebendo o clima, tentou aliviar:
- Ela tá pensando em como vai me conquistar. Mas aí lembrou que somos confidentes e ela sabe meus defeitos, meu passado negro e desistiu.
Carol riu, com um nó na garganta.
- Foi isso mesmo.
- E o Gabriel? - pergunto Alice mudando de assunto.
Dona Estelita ficou pensativa.
- Depois que chegou da lida, foi direto pro quarto. Disse que amanhã vai pra capital conversar com a Elisa. Quer tentar reatar o casamento.
Alice comentou:
- A Elisa sente falta dele. Mas quer mudança. Os tios não estão felizes em como a Elisa chegou lá. Se ele quiser mesmo voltar, vai ter que mudar e muito.
Dr. Mário suspirou fundo.
- Eu sinto que parte disso é culpa minha. A maneira como tratei o Gabriel... Eu não soube lidar com a perda do Otávio. E muito menos com a personalidade do Gabriel. Fui duro demais.
Estelita pegou na mão do marido, oferecendo conforto silencioso.
Carol olhou para os dois com ternura.
- O tio precisa de um psicólogo. Tem muita coisa pra tratar. Eu mesma errei com ele algumas vezes, mas a verdade é que a gente nunca se deu bem. Ele sempre teve ciúmes de mim, desde que eu era criança.
Estelita assentiu.
- Ele via no Otávio um modelo. O irmão era protetor, compreendia ele. Quando você nasceu, Carol, o Otávio ficou completamente apaixonado por você. E o Mário também. A conexão de vocês sempre foi forte. Isso mexeu com o Gabriel.
Alice refletiu:
- Eu entendo até certo ponto. Mas muita coisa é culpa dele também. A gente escolhe o que fazer com o que sente.
A conversa seguiu com outros assuntos. Alice começou a contar causos do hospital - pacientes engraçados, colegas atrapalhados, situações absurdas. As risadas voltaram, e o ambiente se encheu de leveza.
Depois de comerem, subiram para os quartos. Alice foi dormir com Carol, como já era costume quando ficava na fazenda.
No quarto, as duas se acomodaram na cama, deitadas lado a lado.
- Obrigada por hoje - disse Carol, olhando para o teto.
Alice sorriu, virando o rosto para ela.
- Carol, eu vou estar sempre aqui pra você. Mas, assim, você sabe que não rola nada entre a gente, né?
- Nossa Alice... Nem quando a gente era adolescente rolou algo. Eu acho que você tem uma paixão encubada por mim. Só pode.
- Paixão Encubada? Que encubada o que? É paixão visível filha... tu é a maior gostosa... é rica...
- Meu Deus Alice... - Ana Carolina fala rindo.
- Sério Carol, agora é sério, eu te amo imensamente e sou muito grata por tudo o que você sempre fez por mim, e pode ter certeza que eu vou estar sempre aqui para você também.
Carol riu, e o silêncio entre elas voltou - não como ausência, mas como presença. Um espaço seguro onde tudo podia ser dito, ou simplesmente sentido.
Fim do capítulo
Fui boazinha...
Comentem... animem a autora...
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mtereza
Em: 12/12/2025
Muitas questões na cabeça de Carol ainda bem que ela tem uma amiga como Alice para apoiar . Com saudades do casal juntas com Certeza mesmo sendo parte das preocupações Diana daria uma sacudida na Carol kkk
Dinha Lins
Em: 02/01/2026
Autora da história
Calma... que o casal vai ter momentos fofinhos... e calientes... rs
A Carol e Alice são amigas que se apoiam muito... e as preocupações...
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HelOliveira
Em: 25/11/2025
O lado da Carol tá bem pesado, mas Alice é uma amiga incrível que ela pode contar sempre..
Poxa será Carol vai lembrar que era amiga da Diana..
Obrigada autora
Dinha Lins
Em: 02/01/2026
Autora da história
Obrigada!
Quem sabe ela não lembra... e sim a Alice é muito gente boa, adoro escrever sobre ela.
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jake
Em: 25/11/2025
Linda a amizade de Carol e Alice.... parabéns autora
Dinha Lins
Em: 02/01/2026
Autora da história
Obrigada!
A amizade delas realmente toca.
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Dinha Lins Em: 22/03/2026 Autora da história
Espero que esteja gostando dos caminhos entre Alice e Liz.
Décio é um caso a parte...