Capitulo 16
Capitulo 16
"A maturidade começa quando sentimos que nossa preocupação é maior com os outros do que com nós mesmos." - Albert Einstein
O carro cruzou o portão da fazenda com o sol já se inclinando no céu. A luz dourada tocava os galhos das árvores como se abençoasse o fim de um dia que, para Mariana, havia sido mais revelador do que esperava.
Liz desceu primeiro, silenciosa. Mathias carregava algumas sacolas, e Mariana vinha logo atrás, pensativa. Alice havia se despedido ainda na cidade, com um sorriso leve e uma promessa de "te encontro por aí". Mariana não comentou nada, mas guardou o gesto.
Na sala, Brito conversava com Rico e Douglas. O clima era descontraído.
- Ué, não foram comprar suplementos agrícolas?
- Aproveitei e comprei algumas coisas a mais querido para você e Douglas.
Douglas já pegou as sacolas das mãos de Mathias.
- Obrigado Mathias! Pode descansar e até amanhã.
- Não há o que agradecer seu Brito, até!
- Como foi na cidade amor, a Liz nem demorou aqui subiu rápido pro quarto.
- A cidade estava tranquila - respondeu Mariana, tirando os óculos com calma. - Mas o dia foi tudo, menos comum.
- Por que, Mariana? - Rico questionou.
- Conversei com alguns vendedores e ouvi coisas interessantes. Mas o que mais me chamou atenção foi conhecer uma moça... gentil, espontânea. Liz disse que vocês a viram no Rancho 7. Alice Fontes, o nome dela.
Rico franziu o cenho, mas não disse nada. Douglas riu.
- Eu não cheguei a conhecer, foi a Liz e o Rico que conversaram com ela.
- Se você chama o que tivemos de conversar... Ela é muito abusada, isso sim.
- Sério? Abusada? Conosco ela foi muito gentil, uma conversa leve, extrovertida e espontânea.
- Gentil? - Rico franziu o cenho. - Aquela lá? Uma folgada. Ficou me testando o tempo inteiro. Ainda flertou com a Liz, não gostei do jeito dela.
Rico desviou o olhar, como quem tenta esconder o que realmente o incomodava.
Douglas deu uma risada curta.
- Você ficou chateadinho é porque ela não deu trela pra você, isso sim. Pelo que percebi de longe ela é linda...
- Nada a ver, isso Douglas. É porque você não viu como ela implicou comigo enquanto estávamos lá. Ela foi muito antipática.
Mariana riu, cruzando os braços com um ar divertido.
- Não consigo ver a pessoa que eu conheci hoje essa que você está falando Rico. De verdade, vocês podem dizer o que quiserem, mas eu vi em primeira mão a tal Alice flertando com a Liz. E foi engraçado... de uma leveza tão grande. Nada invasivo. Ela tem um jeito espontâneo, respeitoso. E Liz, apesar de fingir que não gostou, não se afastou.
Brito soltou uma risada curta, acompanhado por Douglas.
- Liz nunca demonstrou interesse por mulher - comentou Brito. - Mas também... ela é adulta. E se tiver, vai saber se cuidar.
- Ela está é forçando a barra - rebateu Rico, com o cenho franzido. - Não tenho nada contra, minha irmã é lésbica, vocês sabem. Mas essa Alice... ela não conversa, ela canta a pessoa.
Douglas gargalhou.
- Rico, você tá é com dor de cotovelo. A Alice tem mais jeito que você. E você não tá sabendo lidar.
- Dor de cotovelo? - Rico bufou. - Vocês estão viajando.
- Vocês dois, parem com isso - disse Mariana, ainda sorrindo. - Liz não deu muita trela. Mas foi engraçado ver as duas trocando farpas. E eu gostei da maneira como minha filha ficou... leve, provocada, viva. Quem sabe elas possam ser amigas. Todos merecem amizades que fazem bem.
Nesse momento, Diana entrou na sala, ajeitando o cabelo preso com uma presilha.
- O que vocês estão falando aí que tá todo mundo rindo?
Rico se levantou, emburrado.
- A Mariana tá toda encantada pela nova amiguinha ... a tal Alice.
Todos riram da maneira como ele falou, até Brito balançar a cabeça, divertido.
- Vai descansar, Rico. Tá precisando.
- É o que eu vou fazer - disse ele, saindo da sala com passos firmes.
Douglas se levantou também, esticando os braços.
- Eu vou tirar um cochilo antes do jantar. Mas quero ver essa Alice de perto. Parece personagem de novela.
Mariana esperou que os dois saíssem, então olhou para Brito e Diana com um olhar mais sério.
- Vamos conversar um pouco? No escritório. Tem coisa que ouvi hoje que merece atenção.
O tom dela mudou. Não era mais sobre farpas ou flertes - era sobre algo maior.
Brito assentiu, e Diana, curiosa, seguiu os dois pelo corredor. O sol lá fora começava a se esconder atrás das árvores, mas dentro da casa, as luzes estavam apenas começando a se acender.
O escritório estava silencioso, como se aguardasse a conversa que estava prestes a acontecer. Mariana se acomodou na poltrona ao lado da estante, Brito sentou-se à sua frente, e Diana, ainda intrigada com o que ouvira na sala, se acomodou ao lado do amigo.
- Hoje, enquanto conversava com um vendedor na loja de insumos, ouvi coisas que me deixaram pensativa - começou Mariana, com voz baixa e firme. - Ele falou sobre a Dra Ana Carolina, sobre a Alice... e sobre o Dr Mário.
Diana se remexeu na poltrona ao ouvir esses nomes, principalmente o de Ana Carolina.
- O que você ouviu meu amor?
- Em primeiro lugar, todos foram unânimes em falar bem do Dr Mário, Diana. Ele é um médico aposentado, muito bem quisto. E como vocês já devem saber, um dos homens mais rico da região, ele tem grande influência em muitos negócios e áreas aqui da cidade principalmente, mas não impõe pelo que ouvi o que quer.
Diana levantou-se nessa hora, como quem tenta conter uma lembrança que ainda arde.
- Não impõe? As pessoas já devem estar acostumadas ao terror. Eu sei muito bem o que ele fez comigo e com a minha mãe há anos atrás, Mariana.
Brito e Mariana olharam-se e ela continuou:
- Não estou dizendo que ele não tenha feito isso com vocês, o que estou dizendo é que ele tem o respeito da comunidade, ajudar os moradores, cooperativas. Isso não quer dizer que ele não seja culpado por outras coisas.
Diana voltou a sentar-se para ouvir o restante da conversa.
- Me desculpem.
Mariana se aproximou devagar e pegou com suavidade as mãos da jovem, como quem oferece abrigo sem tirar o espaço.
Seus olhos encontraram os de Diana com firmeza e ternura - havia ali carinho, proteção e respeito pela mulher que ela se tornou, mesmo depois de tudo o que enfrentou.
Mariana sabia que, por trás da força de Diana, havia feridas que ainda pediam silêncio.
- Di, eu sei o quanto tudo isso mexe com você - disse Mariana, com a delicadeza de quem protege sem sufocar. - Mas se o que você realmente quer é descobrir a verdade, e ainda não está pronta pra que as pessoas saibam quem você é de verdade, vai precisar aprender a guardar melhor o que sente. Principalmente quando o assunto é a tragédia da sua família. Seus olhos falam antes das palavras, e nem todo mundo vai saber ler com carinho.
Diana apertou levemente as mãos de Mariana, como quem agradece sem precisar dizer. O silêncio entre elas não era vazio, era cheio de compreensão.
- Continuando, o Dr Mário apoia o atual prefeito Régis que também é apoiado pelo presidente da Câmara o seu tio Décio.
- Há algo ai... - Brito comentou.
- Com certeza, vamos investigar o prefeito. Pode continuar Mari.
- Apesar do avô apoiar o prefeito, Dra Ana Carolina bate de frente com ele, segundo o vendedor, e também com o seu tio, em uma reunião da Câmara eles discutiram feio que foi preciso o prefeito intervir, e mesmo assim ela não recuou.
Diana sorriu.
- Ela tem o jeito determinado, uma presença forte. Não leva desaforo pra casa.
- Não leva mesmo, viu. Ele disse que as brigas em relação a pautas de saúde pública, atendimentos hospitalares para a população é motivo frequente para brigas entre eles três. Muitas vezes o dr Mário precisa intervir na relação entre a neta e o prefeito, porque, na relação entre ela e o vereador, ele é o principal incentivador.
Brito balançou a cabeça, impressionado.
- A neta é o orgulho dele. Nem mesmo o filho Gabriel tem o apoio que ela tem. Segundo eles, ela é a sucessora do avô.
- Então o Dr Mário, mesmo sendo próximo do prefeito, se posicionou contra ele?
- Sim, e não foi só ela que teve o apoio do Dr Mário.- continuou Mariana. - Alice também foi pressionada pelo prefeito. Por causa de uma denúncia que ela apoiou, sobre negligência em uma clínica conveniada a prefeitura. O prefeito tentou intimidá-la. E foi o próprio Dr Mário quem interveio. Disse que não admitiria perseguição contra a neta nem contra a melhor amiga dela.
Diana estava em silêncio, absorvendo tudo.
- E parece que isso criou um mal-estar. O vendedor disse que Dário, o assessor do prefeito, e o próprio prefeito já ameaçaram as duas. Indiretamente, claro. Mas deixaram claro que estavam sendo observadas.
- Peraí o tio Décio ameaçou a Ana Carolina e a amiga?
- Sim. E o Dr Mário usou da força política que tem e quase caçou o mandato do seu tio. Só não o fez porque o prefeito implorou. Disse que, se isso acontecesse, uma nova guerra estaria declarada e Nova Esperança é que pagaria o preço.
- Meu Deus... - Diana exclamou, passando a mão nos cabelos. - Isso é muito maior do que eu imaginava.
Diana entrou no quarto e fechou a porta com cuidado, como se não quisesse que o mundo a ouvisse. Sentou-se na beira da cama, tirou os sapatos e ficou ali por alguns segundos, olhando para o chão. Depois se levantou, foi até a cômoda e puxou a gaveta de baixo.
De dentro, tirou uma caixa de madeira escura. Abriu com delicadeza, como quem toca uma memória viva. Dentro, entre fotos antigas, lembranças que trouxe da casa dos pais quando esteve na capital, pegou com cuidado uma foto do pai, umas das últimas que ele tirou em família, pouco antes de todo o inferno que aconteceu com eles.
Ao remexer mais um pouco, pegou a foto esquecida entre as outras e que a fez sorrir, estavam na foto ainda crianças, ela, Ana Carolina, Rafael e Carlinhos. Por várias vezes ao longo dos anos ela pensou em rasgar essa foto, e agora ao reencontrar Ana Carolina bons momentos vieram a tona.
"Como é que eu não consegui reconhecer você Carol..."
Diana fechou os olhos por um instante, ainda com a foto nas mãos. E, como se o tempo se abrisse em silêncio, ela voltou para aquele dia - um fim de tarde morno, o céu pintado de laranja, o vento soprava leve, fazendo as folhas da mangueira dançarem acima das cabeças delas.
Flashback on
Ela e Ana Carolina estavam sentadas sob a sombra de uma mangueira, com os pés sujos de barro e as mãos ocupadas com pedrinhas e folhas secas. Tinham construído um "castelo da paz" com galhos e flores caídas, e agora fingiam que eram rainhas de reinos vizinhos.
- Meu avô disse que a sua família não gosta da minha - disse Carol, com a franqueza de quem ainda não aprendeu a esconder o que sente.
Diana olhou para ela, séria, mas sem medo.
- Ele discutiu com o meu pai ontem a noite. Eu ouvi tudo da escada. Minha mãe também disse que meu pai era um tolo por confiar no seu.
- A família do meu pai não gosta da gente também. Meu avô e meu tio tiveram aqui no fim de semana e brigaram com o meu pai. Eles disseram que ele um frouxo, que manchava o nome da família, então o meu pai deu um soco no meu tio e meu avô bateu na cara do meu pai. Eles discutiram bastante, foi preciso os empregados pra separar eles.
- Meu avô nunca bateu no meu pai. - Carol respondeu olhando para a amiga.
- Eu não acho seu pai um tolo e o meu não é frouxo, o papai bateu no meu tio...
- Ele não é frouxo, não.
As duas riram e se deitaram na grama, lado a lado, olhando o céu mudar de cor.
- Quando a gente crescer, você acha que ainda vai querer ser minha amiga? - perguntou Carol, virando o rosto para ela.
Diana demorou a responder, mas quando falou, foi com a certeza que só as crianças têm:
- Se você não esquecer de mim, eu não esqueço de você.
Carol pegou uma pedrinha e desenhou um coração na terra entre elas.
- Pronto. Agora tá selado.
Flashback off
Diana abriu os olhos devagar. A foto ainda estava em suas mãos, mas o que pesava era a saudade. O quarto estava silencioso, mas dentro dela, tudo era ruído - vozes antigas, promessas infantis, o som da terra sendo remexida por mãos pequenas.
Ela passou os dedos sobre o rosto de Carol na foto, como quem tenta tocar o tempo.
- Você não esqueceu de mim, né, Carol? - murmurou. - Porque eu... eu nunca consegui, mesmo odiando o seu avô...
Guardou a foto com cuidado dentro da caixa, como quem sela um segredo. Depois se deitou, abraçando o travesseiro, os olhos fixos no teto. A lembrança ainda pulsava, viva, como se tivesse acontecido ontem.
Lá fora, o vento balançava as folhas da mangueira. E Diana, sem saber, sentia que algo estava prestes a mudar.
########
Liz estava deitada em sua cama, com o abajur aceso e o celular apoiado sobre o travesseiro. A noite lá fora estava silenciosa, mas dentro dela, os pensamentos ainda dançavam entre as conversas do jantar e os olhares trocados na cidade.
Uma notificação surgiu no topo da tela: alice.fontes_ começou a seguir você.
Ela franziu o cenho, surpresa. Tocou no perfil. Era mesmo ela, a médica de sorriso fácil.
Logo vieram outras notificações: Alice curtiu três fotos suas. E em duas delas, deixou comentários com emojis - um 🌻 numa foto de Liz no jardim, e um 🔥 numa imagem dela com um vestido preto, tirada num evento da cooperativa.
Liz mordeu o lábio, entre surpresa e divertimento. A curiosidade venceu. Entrou no perfil da médica.
O feed era vibrante. Muitas fotos com amigos, homens e mulheres, em festas, trilhas, cafés, congressos. Ana Carolina aparecia em várias - sempre ao lado, sorrindo, cúmplice. Os comentários eram intensos. Gente flertando, elogiando, chamando Alice de "deusa", "tentação", "perigo bom".
Liz rolou mais um pouco e parou numa foto que a fez travar por um segundo. Alice estava abraçada a um homem bonito, de barba bem feita e sorriso largo. A legenda dizia: "Com o chef mais talentoso e teimoso que já conheci. Obrigada por tudo, Marcilio."
Liz reconheceu o nome na hora e olhando atentamente viu que o tal Marcilio, era realmente o dono do restaurante que almoçaram mais cedo.
Ela sentiu algo estranho. Um incômodo leve, como quem não quer admitir que algo mexeu. Respirou fundo, bloqueando o pensamento.
- Besteira - murmurou. - Só curiosidade.
Não seguiu Alice de volta. Mas antes que pudesse fechar o aplicativo, outra notificação apareceu:
Mensagem de alice.fontes_
Liz hesitou, depois abriu.
Alice Fontes: "Adorei suas fotos marrentinha. Você tem um olhar forte e uma presença que atravessa a tela. Ps: aquele vestido preto... perigoso demais pra ser usado sem aviso prévio 😉"
Liz riu, sem querer. Um riso curto, abafado. Digitou uma resposta, apagou. Digitou de novo, apagou outra vez. Por fim, largou o celular e se virou na cama, o coração batendo um pouco mais rápido.
Fim do capítulo
Nossa doutora não perde tempo... rs.
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mtereza
Em: 12/12/2025
Então elas já tinham uma história eram amigas de infância
Dinha Lins
Em: 02/01/2026
Autora da história
Sim, eram ainda muito crianças e se passaram 20 anos... as lembranças acabam esmaecendo...
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HelOliveira
Em: 25/11/2025
Será que Liz vai resistir por muito tempo as investidas da nossa Doutora?
Dinha Lins
Em: 02/01/2026
Autora da história
A doutora é atacante... goleadora nata...
Acho que a Liz nem vai saber o que a atingiu...kkkk
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jake
Em: 25/11/2025
Eita amei a Dra Alice cheia de atitude....
E Diana a Dra Carol vai ter que reação ao te vê e saber quem é vc.
Dinha Lins
Em: 02/01/2026
Autora da história
Quem poderá nos ajudar com a reação da Carol?
Diana vai enfrentar alguns desafios...
E a Alice ainda vai surpreender muito...
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Dinha Lins Em: 22/03/2026 Autora da história
Alice é camisa 10....kkkk