Capitulo 5 - Não quero ver você triste
V - Não quero ver você triste
Maria Emília
A sexta-feira amanheceu como nos últimos dias, um sol para cada morador da cidade mais populosa do Brasil. Como de costume, acordei cedo e caminhei até a cozinha para preparar o café da manhã. Lembrando-me da compra que fiz ontem, decidi que no cardápio de hoje teremos tapioca recheada com uma geleia de damasco que fiz especialmente para a Vivian e queijo cottage.
Enquanto colocava a panela para esquentar, resolvi preparar também um iogurte com grãos para reforçar o desjejum da Vivi. Achei ela um tanto desanimada ontem, só não me preocupei mais pois o enfermeiro Márcio veio visitá-la ontem e me garantiu que está tudo certo com o seu coração.
Coloquei a minha mão perto da frigideira para sentir se a temperatura está ideal para começar o preparo. Não demorou muito e ouvi a porta da sala sendo fechada, é sinal que a Amélia já foi trabalhar e em poucos minutos a minha cunhada entrará nessa cozinha, quem sabe com um sorriso largo como não o fez ontem.
Vivian Machado Amorim, 38 anos de idade, delegada da Polícia Federal e recentemente tornou-se empresária social. Muito bem quista no meio policial, com grandes investigações no currículo, andava aparecendo até na televisão. Mas, infelizmente, está totalmente afastada do cargo há 2 anos e meio para ficar no tratamento de um problema cardíaco grave, com idas e voltas ao hospital.
Quando tive uma última conversa antes da minha vinda, pareci intuir esse encontro. O único problema é que ela realmente não estava nos meus planos. Assim que me toquei do enorme problema que a presença dela implica, tudo o que planejei foi por água abaixo. Essas simples observações que passaram batidas antes da minha chegada me abalaram de uma forma que tive que implorar por mais tempo. Bem, mas a culpa não foi minha, quando pedi para sondarem a vida da minha irmã, essa parte importante simplesmente foi ocultada. Para ser mais estranho, não existe nada de noivado ou algo sobre o namoro delas na internet. Não existe fotos delas juntas nas redes sociais. Isso e o fato de que Vivian esteve bastante internada nos últimos meses foi a desculpa para a falha do detetive.
Estou em uma realidade na qual não posso simplesmente fugir. Estou diante da... Vivian, minha sonhada garota da internet. Por quem me apaixonei por conversas através de uma tela. A cada dia que se passa, tento ignorar essa situação para cumprir o que vim fazer aqui, mas não consigo. Tentei somente usá-la para me aproximar da Amélia, mas nem precisei pois nossa aproximação acontece tão naturalmente que chega a ser assustador. E como não gostar? Sua energia positiva, seu bom humor, sua garra, suas palhaçadas, seu sorriso, sua... beleza.
Continuei o preparo da tapioca, depois dediquei um tempo para o recheio, preparei o suco verde e o iogurte com grãos. Cruzei os braços quando ficou tudo pronto, Vivian nunca demorou tanto para se levantar da cama.
Decidi ir até o quarto da minha irmã. Com receio, adentrei o longo corredor dos quartos e respirei aliviada quando a vi acordada pela porta entreaberta. Entretanto, mordi o meu lábio inferior para conter a preocupação que me atingiu ao vê-la com um olhar tão triste.
Voltei para a cozinha, separei a bandeja de café da manhã, coloquei todos os ingredientes e ainda acrescentei metade de um mamão. Talvez Vivian se sinta indisposta, um mimo na cama pode fazê-la se sentir melhor.
Carreguei a bandeja com cuidado para não derrubar nada. Segurei-me para não rir ao imaginar o mico que seria chegar com tudo molhado pelo suco verde.
Empurrei a porta devagar, seu olhar continuou perdido na pouca luz que entra pelas frestas da janela.
- Bom dia, Vivi! Posso entrar? - Perguntei da porta.
O sorriso que ansiei ontem veio quando os seus olhos repousaram em mim. Não demorou muito para que as suas pálpebras quase se fechassem conforme a sua boca abria ainda mais.
- Bom dia, Mili. Por favor, entre.
- Você demorou para se levantar hoje. Se Vivian não vai até o café da manhã, o café da manhã vem até Vivian.
Dispus a badeja ao seu lado e andei até a janela. O sol logo iluminou todo o quarto, faz realmente um belo dia lá fora. Quando me virei para a delegada, ela já estava sentada e olhando o que eu trouxe.
Voltei para o seu lado, peguei a mesinha com o seu pequeno banquete e ajeitei no seu colo.
- Bon appétit, madame - gastei o meu francês com excelente sotaque.
Vivian bateu com a mão na cama para que eu me sentasse ao seu lado. Aproveitei para me acomodar e toquei o seu rosto para chamar a sua atenção.
- Está sentindo alguma coisa?
- Não, querida. Eu estou bem, não se preocupe.
Suas palavras não retratam o seu semblante angustiado. Decidi não insisti neste momento, apenas peguei a faca, cortei um pedaço da tapioca e a servi na boca com a minha mão.
- Hum... delicioso - disse ainda com a boca cheia.
Achei graça quando ela fez o mesmo comigo em seguida. Foi em silêncio, afagos e procurando respostas nos olhares que dividimos o café da manhã.
Em momentos que meu lado racional trabalha, como agora, é me pedido o afastamento imediato. Já o meu emocional gosta de estar perto dela, vê-la se alimentando do que faço, tocar a sua pele, conversar. Nem mesmo as suas perguntas que tentam descobrir algo sobre mim me incomodam. Queria poder contar para ela o porquê da minha vinda, mas temo que ela seja parte daquilo que procuro evitar.
- Barriga cheia? - Perguntei sorrindo.
- Muito cheia! Você exagerou hoje.
- Você precisa ficar forte, então precisa se alimentar.
Senti os dedos da delegada deslizando na minha mão apoiada no meu joelho. A felicidade enquanto comíamos sumiu. Está na cara que ela está com alguma problema.
- Vivian, por favor, não minta para mim, diga-me o que está acontecendo. Lembre-se da sua promessa à Agnes, qualquer coisa que esteja sentindo você precisa ir ao hospital.
Convencida pelas minhas palavras, minha cunhada desabafou:
- Eu só estou triste, Mili. Eu não queria, mas estou frustrada pela minha limitação. Todos os dias esse sol maravilhoso lá fora e só posso ir até a esquina. Claro que é melhor do que ficar trancada em um quarto de hospital, mesmo assim acordei pensando se isso basta. Não está acontecendo nada do que eu planejei.
- E o que você quer fazer, Vivi? Conte-me.
- Eu queria uma praia. Aproveitar o sol, pisar na areia, entrar no mar. Tem uma praia quase escondida chamada Caramborê, em Peruíbe. É um paraíso, você precisa conhecer. Eu seria a pessoa mais feliz do mundo se conseguisse passar pelo menos algumas horas por lá.
Minha vida sempre foi agir por impulso. Foi assim que saí daqui, foi assim que não parei em lugar nenhum, foi assim que vivi em festas, foi assim que quebrei a cara, foi assim que vim parar aqui de novo.
- Quer ajuda para arrumar uma bolsa?
A pequena olhou assustada para mim. Dúvida, animação, receio, coragem, tudo isso se passava em suas expressões.
- Você... - hesitou - Emília... - sorriu - você me levaria?
- É claro, querida. Se o seu desejo é estar nessa praia hoje, vamos realizá-lo. Mas, você tem que ser sincera e me garantir que está tudo bem. Garante?
- Sim, está tudo bem, eu te garanto.
Acreditei em suas palavras empolgadas. Eu faria qualquer coisa pela sua felicidade. Corrigi a minha última frase e troquei o "pela sua felicidade" para a felicidade de qualquer pessoa com algum problema de saúde. Não posso me envolver. Por mais que seja a Vivian que sempre pensei, não posso.
[...]
Na pista do meio, evito correr na rodovia. Não quero causar nenhuma emoção ou medo para o coração da Vivian. Esta que feliz está ao meu lado, cantando baixinho a música ‘Palpite' que toca no rádio do seu carro. A playlist dela é maravilhosa, combina muito comigo. Olhei de canto para ela, aproveitei o momento leve e fiz a pergunta que está na minha cabeça há dias:
- Como você e a Lia se conheceram?
Poderia ser uma curiosidade besta, mas eu preciso entender como a delegada entrou na vida da minha irmã. Primeiro: o desejo para ter a certeza do que já desconfio desde que a ouvi dizer que a Amélia fez uma cirurgia no nariz. Segundo, o mais importante: para traçar outra estratégia na minha missão.
- Isso depende - começou a responder sorrindo. - Pessoalmente? 4 anos. Mas... olha que incrível, nos conhecemos em 2004 pelo Orkut, acredita?
Imaginei algumas vezes essa confirmação saindo da sua boca, porém ouvir assim doeu. Minha irmã fingiu ser eu! Roubou a MINHA HISTÓRIA! Gritei por dentro, apertei o volante com toda força que tenho, algo rasgava dentro de mim. Engoli o bolo que se formou na minha garganta e somente disse:
- Sério?!
- Sim! Você lembra dessa rede social, não é?! - Confirmei assentindo com a cabeça e ela prosseguiu. - Conheci sua irmã nas comunidades, se não me engano em uma de poesias. Dali para depois descobri diversas coisas em comum com ela. Maria, como ela se apresentou, tinha tudo o que sempre sonhei. Passávamos horas conversando em dias marcados. Só que ela era um tanto misteriosa, ou assim como eu tinha receio dos perigos da internet, então só trocamos fotos muito tempo depois. Eu fiquei morrendo de medo dela não gostar de mim. Até enviei minha melhor foto, mas me arrependi depois que vi a dela, achei que ela me excluiria, sei lá.
- Mas você era linda!
Deixei escapar e me atropelei nas palavras para logo corrigir.
- Quero dizer... eu imagino... imagino não, tenho certeza de que você era linda. Você é linda. Ou fez plástica e mudou tanto assim?
- Plástica só no nariz da Lia!
Ao ouvir sua risada, relaxei e a acompanhei. Logo me concentrei a minha investigação. Ou para ser mais precisa: tortura.
- Mas continua, vocês trocaram fotos e depois?
- Ah sim, se prepare, essa parte não é nada legal. Lia me convidou para ir até uma festa porque era bem na cidade que eu morava. Eu estava empolgada, tinha me arrumado e tudo, mas... sempre esse ‘mas'.
Notei o seu semblante se modificar para uma seriedade que nunca tinha visto antes. Seu lado triste apareceu pela primeira vez:
- Quando eu abri a porta do meu quarto para sair, escutei minha mãe gritar. A Lu sempre diz que a ideia da nossa ONG veio de uma aula, mas isso é meia-verdade. É apenas para me poupar pois não gosto de falar sobre o assunto, mas você é da família, e confio em você. Meu pai era um agressor e minha mãe sua vítima favorita. Quando cheguei na cozinha aquele dia, ouvi seu último grito, não cheguei a tempo de os separar como já tinha feito inúmeras vezes antes. Dessa vez não eram murros e tapas, era uma faca. Minha mãe morreu em meus braços.
Seus olhos se encheram de lágrimas. Desacelerei o carro e estacionei na parada do acostamento. Preocupei pela sua saúde.
- Desculpe-me, não queria te fazer relembrar isso. Como está se sentindo?
- Não se preocupe, eu estou bem. Só preciso respirar um pouco - disse abrindo a janela do seu lado.
Liguei o pisca alerta, peguei em suas mãos e tentei tranquilizá-la. Consegui um sorriso fraco de Vivian. Estava ali estampado em seu rosto da dor pela perda da mãe.
O dia que tudo mudou na minha vida foi um dia que tudo mudou na vida dela. Nossos destinos estavam traçados, era para ser o nosso encontro, a nossa história de amor. Era...
- Pronto - disse sorrindo e enxugando uma última lágrima que insistia em cair. - Podemos seguir pela estrada e a minha narração de como conheci a sua irmã.
- Tem certeza de que está bem? Podemos voltar amanhã...
- De jeito nenhum! Por favor, eu preciso muito ver o mar. Eu estou bem.
Suas mãos apertaram a minha como uma resposta de que sua força era maior do que qualquer condição clínica. Apenas as beijei como um sinal positivo ao seu pedido e liguei o carro em seguida.
Ao colocar o carro de volta à pista, a ouvir prosseguir o seu relato:
- Bem, continuando, depois daquele dia que era para ser feliz, tive que lidar sozinha com a morte da minha mãe e o fugitivo do meu pai. Fiquei pelo menos 20 dias sem cabeça para ligar o computador e explicar para a Lia o porquê de eu não ter aparecido na festa. Quando decidi, ela já não mais aparecia on-line. Deixei alguns recados no Orkut e depois de um mês apaguei, ela tinha sumido. Imaginei que tivesse com raiva pela minha ausência.
- Ela disse que foi pela sua ausência?
Temi pela crueldade da minha irmã.
- Não. Ela disse que coincidiu com o período de provas e que estava focada na parte profissional dela. O que convenhamos, Mili, não é muito difícil, sabe como sua irmã é focada na carreira.
- Ô se sei... e depois? Como vocês se encontraram?
- Calma que ainda tem coisa! Não seja apressadinha porque eu sei que ainda tem um tanto de estrada para percorrer.
- Tudo no seu tempo, madame!
- Então, com três meses meu pai voltou a me procurar em casa, ameaçou-me para eu dar dinheiro. Bem, depois do que eu o vi fazer com minha mãe, fiquei morrendo de medo, vendi a casa rápido e me mudei para São Paulo. Quando pisei no solo paulista, recomecei a minha vida. Me matriculei em um cursinho enquanto trabalhava de vendedora, passei em Direito e meu lado profissional foi se deslanchando. Porém, no fundo, eu queria encontrar a tal da Maria, porque foi assim que ela se apresentou para mim. Pensei em São Paulo por ela. Todos os dias eu olhava no rosto de cada mulher que passava por mim para ver se o destino estava ao meu favor.
Vivian se ajeitou de lado e apenas senti seus olhos me encarando. Numa rápida olhada correspondi o seu olhar. Como eu queria ter ficado em São Paulo.
- Os anos foram se passando, fui aceitando na marra que tinha perdido para sempre aquela mulher incrível que encaixava tanto comigo. Para os outros era loucura amar uma pessoa que apenas conversei pela tela do computador, mas eu amava. Entretanto, essas pessoas tinham alguma razão, então deixei que a vida me apresentasse outras pessoas. Tive dois relacionamentos sérios, mas ainda não a esqueci. Incrível, não?!
- Entendo - suspirei pesarosa. - Platão, através de Aristófanes, criou o conceito de ‘alma gêmea'. Na mitologia, o ser humano foi criado completo com duas cabeças, quatro braços e quatro pernas. Um dia desafiaram Zeus, que irado dividiu-os ao meio e os condenou a passar a vida procurando a sua outra metade para se sentirem completos novamente. Às vezes é isso, desejamos nos unir a uma certa pessoa porque acreditamos ser a nossa metade. Ou simplesmente sentimos isso.
- ‘O banquete', um dos meus livros favoritos.
- Um dos meus também.
Fez-se um silêncio prolongado. Era assim que aconteciam os nossos diálogos anos trás, ela falava do que gostava e surpreendente eu também gostava. Eu falava de uma música, era das suas prediletas também. A curiosidade só aumentava. Quem era aquela garota que mexia comigo à distância? É essa mulher inalcançável ao meu lado. Minha cunhada. Por que Amélia mentiu para ela?
- O GPS indica que chegaremos em 20 minutos - indiquei na tela do seu celular que estava nos guiando.
- Tempo suficiente para terminar de como eu e a Lia nos reencontramos
.
Sinceramente, não queria saber. Foi mentindo que Amélia entrou na sua vida. Entretanto é preciso engolir a dor.
- ... eu tinha acabado de descobrir a minha nova condição de vida. A cardiomiopatia hipertrófica é uma doença hereditária, e se manifestou há 4 anos, desde então tenho convivido com uma insuficiência cardíaca grave. Foi a minha primeira internação, minha primeira parada cardíaca, o choque de saber que tudo mudaria. Eu já estava muito amiga da Lu, tanto que estávamos almoçando juntas na minha casa, e foi ela quem me socorreu e me visitou todos os dias no hospital. Luciana já tinha me falando que uma amiga e vizinha dela tinha se interessado quando ela disse que conhecia a delegada da Polícia Federal que havia estado em uma operação recente que passou na TV uma semana antes da minha parada cardíaca. No almoço mesmo ela falou, mas eu não dei bola. Sei o quanto as pessoas podem ter fetiche nisso e muitas se aproximavam por puro interesse. Para a minha sorte, no dia da minha alta, Lu foi me buscar junto com a Lia que tinha dado uma carona para ela pois estava com o carro na oficina. Quando Maria Amélia surgiu na minha frente, não sei como não desmaiei. Ali eu vi que os medicamentos estavam fazendo efeito porque meu coração apenas disparou pela felicidade que senti. Tem noção que estava ali a mulher que procurei por quase 20 anos? Não me cabia de felicidade.
- Eu imagino - tentei sorrir. - E ela te reconheceu de cara também?
- Não mesmo! Ela até se assustou um pouco. Mas é compreensível, tantos anos se passaram, eu não apareci no nosso encontro e depois ainda sumi por dias. Depois que fui contando do Orkut, ela foi recordando. Foi tão mágico, me arrepio só de te contar.
Vivian me mostrou seu braço, soltei uma das minhas mãos do volante apenas para tocá-la e mostrar que estava atenta ao seus sentimentos. Por fora um sorriso, por dentro um turbilhão de sentimentos machucados, tanto por ela por não ter percebido que não era eu, quanto pela minha irmã que se aproveitou da confusão para se passar por mim. ‘Mas, por quê?' Indaguei para mim mesma.
- ... dois dias depois marcamos de nos ver. Mesmo sabendo do meu problema, Lia resolveu que viveríamos a nossa história que foi interrompida. Ela resolveu ficar do meu lado e lutar comigo pela vida. Com muita paciência, com hospital, com uma vida muitas vezes monótona, estamos juntas. Isso é importante para mim, sabe? Saber que tenho a Lia ao meu lado me faz querer viver. Ela é tudo na minha vida. Gentil, amorosa, dedicada, tudo o que sempre sonhei. Eu a amo com todas as minhas forças. Não posso reclamar da vida, mesmo com todo o problema, ainda deu tempo de encontrar o meu amor e realizar o meu desejo de fazer um projeto voltado para mulheres que sofrem violência doméstica. Mesmo que eu tenha que partir, já valeu a pena.
- O único lugar que você vai partir é para o mar daqui a pouquíssimos minutos. A entrada está chegando, já sente a brisa do mar?
Não deixei que a tristeza fizesse morada no carro. Dei a seta e acessei a pequena estrada de terra. Vivi deu seu melhor sorriso e deitou a sua cabeça no meu ombro.
- Ainda não acredito que poderei respirar um ar puro, vai me fazer tão bem - comentou voltando a ficar entusiasmada.
Beijei os seus cabelos e continuei dirigindo devagar aproveitando a paisagem de mata. Decidi por deixar o assunto "roubo da minha vida" de lado e me dedicar a fazer o dia da Vivian memorável. Avistei o limite da estrada, prossegui mais um pouco para chegar o mais perto possível da praia. Não quero a Vivi caminhando muito. Se para isso eu tenho que quebrar uma regra, farei.
Desliguei o carro e encostei a minha cabeça na dela. Ficamos observando o mar.
O meu coração acelerou de maneira esquisita quando Vivian entrelaçou as nossas mãos. Meus sentimentos estão confusos.
- Vamos? Não viemos aqui para ficar no carro - falei desfazendo o nosso entrelaço rapidamente.
Vivi saiu do automóvel parecendo uma criança que vai conhecer o mar pela primeira vez. Ao sair, peguei as nossas coisas no porta-malas enquanto ao meu lado ela já retirava o seu vestido solto e mostrava o seu belo biquini vermelho contrastando com sua pele que parece não ver sol há meses. Não pude deixar de reparar nas pintas espalhadas pelo seu corpo. Parece que foram colocadas estrategicamente para ela ficar ainda mais bonita.
Chacoalhei a cabeça antes de começarmos a ir na direção da praia, retirei também o meu vestido para ficar apenas de maiô branco e preto. Foi um momento de distração, quando procurei pela delegada, percebi que já estava no meio da faixa de areia. Com as mãos na cintura, olhava para o mar.
A deixei em seu momento e procurei uma sombra para deixar as nossas coisas. Vejo apenas de longe três pessoas, um casal e um homem. É realmente uma ótima praia para curtir e deixar as preocupações de lado.
Ajeitei tudo, inclusive a bolsa térmica para terminar uma salada que deixei para temperar aqui. Jamais poderia descuidar da alimentação da Vivian, por isso trouxe também bastante frutas.
Olhei para vê-la já molhar os pés no mar. Decidi então me aproximar para saber se está tudo bem e se precisa de alguma coisa.
Não consegui.
O barulho do mar me fez travar. Meus pés não me obedecem, sou dominada pela sensação das ondas do mar me puxando mesmo estando em uma distância segura. Pensei em gritar pela Vivi, mas posso assustá-la. Sem consegui me mover, a minha única opção foi me sentar na areia e esperar a crise passar.
Chorei.
As lágrimas desceram em uma velocidade maior do que poderia controlar. Em nenhum momento pensei que aconteceria isso de novo. Foram anos passando por um psicólogo, então entendi ter superado o meu trauma. Porém, nunca mais estive tão perto da água salgada. Imaginei que fazer a Vivian feliz seria a força suficiente para encarar de frente esse monstro chamado mar.
Tão protegida em minha bolha que não percebi a proximidade de alguém.
- Mili? Você está bem?
- Sim, querida.
Tentei esconder o meu rosto, mas a minha voz nasalada me entregou.
- Ei, o que foi? Esteve chorando? Olha para mim.
Desabei quando senti os meus braços finos me acolhendo de lado. Tudo acontecendo ao mesmo tempo, esse trauma e a minha irmã tomando o meu lugar.
Ao passar dos minutos, o meu choro cessou. Deixei-me levar pelo carinho nos meus cabelos. O aconchego do momento foi o suficiente para voltar a sentir a felicidade de quando a gente chegou.
- Sente o céu, repara o mar
Há muito mais pra eu te mostrar
Não chore não
Não fique triste assim
A voz da pequena cantarolou no meu ouvido esquerdo ao intervalo que me apertava cada vez mais em um abraço. Vivian aproveitou-se mais das indagações da música e falou como Erasmo Carlos:
- O que é que você tem? Conta pra mim. Não quero ver você triste assim. Não fique triste, o mundo é bom, a felicidade até existe. Enxugue a lágrima, pare de chorar. Você vai ver que tudo vai passar. Você vai sorrir outra vez. Que mal alguém lhe fez? Conta pra mim. Não quero ver você triste assim...
Ergui minha cabeça para encará-la. A delegada sorriu de lado, enxugou uma última lágrima que escapava pelo meu rosto. Ela espera pela resposta.
- Amélia deve ter contado que o nosso pai morreu afogado.
Havia um pouco de confusão em seu rosto que aos poucos foi dando lugar a compreensão.
- Contou por alto. Lia não gosta muito de falar sobre a morte do seu pai, nem a da sua mãe.
- Meu pai morreu tentando me salvar. Depois de muitos anos passando por um psicólogo, eu entendi que não tive culpa, foi uma tragédia. Mas nunca fiz as pazes com as ondas do mar.
- Eu não sabia... Na verdade, Lia apenas me contou que foi tentando salvar uma criança. Não pensei que... bem, eu nem sabia da sua existência. Eu sinto muito, Mili. Sinto muito mesmo. Você deveria ter me avisado. Aliás, era melhor não termos inventado essa viagem.
- E perder a chance de te ver feliz? Nunca. Foi apenas uma crise que até já passou, graças a você.
Ganhei um longo abraço. Inalei seu perfume bom, me senti em casa. Eu poderia cheira-la pelo resto da minha vida, mas cada vez mais entendo ser impossível, Vivian já ama minha irmã.
Mais uma vez, a pequena acomodou-se no meu ombro e respirou fundo.
- O que foi? - Perguntei.
- Eu quero muito entrar no mar, mas estou com medo de passar mal, e contava com a presença para cuidar de mim. Agora tenho que tomar coragem...
Levantei-me de maneira veloz e não hesitei em esticar a minha mão para que ela me acompanhasse.
- O quê? - Questionou curiosa.
- Vamos entrar no mar. Não viemos aqui para isso?
- Não, Emília . Eu jamais te colocaria nessa situação.
- Eu te cuido e você me ajuda a superar o último obstáculo do meu trauma. Eu sempre fico com vontade de entrar no mar.
A minha mão estendida finalmente foi aceita pela delegada.
Juntas, entramos até a água atingir a nossa cintura. Abracei o seu corpo magro e não deixei de estudar cada gesto seu. Se pudesse desenhar a representação da felicidade, seu rosto sorrindo seria o retrato exato. Para evitar o seu esforço, a peguei no colo de frente para mim e a segurei firme para que a onda não nos levasse.
Ficamos no mar tempo o suficiente para matar a saudade. Quando Vivi pediu para sair, logo tratei de alimentá-la. Almoçamos juntas, contei mais um pouco das minhas viagens, dos perrengues que passei, como perder o passaporte e ter que passar uma noite na cadeia nos EUA. Entramos e saímos da água mais duas vezes, além de algumas brincadeiras implicantes na caminhada pela areia.
Tudo isso fez com que a tarde passasse voando. Quando demos conta, o relógio do celular dela já marcava 17:05.
- Daqui a pouco vai anoitecer, é melhor voltarmos.
- Podemos ver o pôr do sol? Por favor? Já ficamos até agora, mais um pouco não vai fazer diferença. Ainda podemos escapar do trânsito.
Meu plano era chegar em casa antes da Amélia, queria evitar qualquer atrito que pudesse me tirar do sério e terminar por estragar o objetivo com a minha volta, mas jamais negaria qualquer pedido de Vivian.
- Claro, querida. Ficamos, vai ser ótimo.
- Será que consigo caminhar até aquela pedra? A visão deve ficar ainda mais linda.
A distância é bastante considerável, achei arriscado pelo já grande esforço feito. Porém, uma ideia acabou surgindo na minha cabeça.
Levantei-me e tirei um pouco da areia que ficou nas minhas pernas. Animada, imaginando que iríamos caminhar, Vivian fez o mesmo.
- Vem, sobe nas minhas costas, eu te levo até lá - anunciei minha ideia.
- Mili?
- O quê? Você não quer ter uma bela visão do sol se pondo? Anda logo que daqui a pouco acontece a magia.
Dei as costas para a Vivi e esperei. Ainda receosa, senti a pequena se aproximar e colocar as duas mãos no meu ombro. Abaixe-me um pouco e a ajudei a subir. Suas pernas envolveram a minha cintura, aproveitei para segurá-la pelas suas coxas para que não fizesse tanto esforço.
Sem dizer nada, comecei a caminhar pela faixa de areia firme, perto do mar.
- Você é completamente maluca, Emília. Obrigada por existir e ser assim.
- Espero que esteja aproveitando a carona.
- É a melhor carona que já ganhei na vida. Confortável. Sinto-me uma criança.
Quando chegamos ao local mais alto da pedra, o sol já estava perto do mar. Não perdi para que a Vivi descesse, nem ela fez menção de fazê-lo. Apenas me posicionei de frente para o mar e foquei no que viemos fazer ali, apreciar a bela paisagem que a natureza nos presenteia.
- Com licença, moças.
Virei-me para ver o homem que passou o dia na praia sozinho.
- Pois não? - Indaguei receosa.
- Eu sou fotógrafo e, não querendo ser invasivo, mas acabei tirando essa foto de vocês duas no caminho - disse mostrando a impressão da máquina instantânea. - E agora pouco essa vendo o sol se pôr - simpático mostrou a outra. - Vocês se importariam se eu tirasse agora uma de frente com essa linda paisagem de fundo? Ambas me parecem tão felizes.
- Claro que não nos importamos, moço. Na verdade, a gente vai adorar.
Foi Vivian quem respondeu empolgada.
Só me restou sorrir quando o seu rosto encostou no meu. A foto foi batida e em seguida a delegada vibrou. Eu já sabia do seu gosto por fotografia, lembro-me exatamente da nossa conversa sobre máquinas fotográficas pelo MSN.
- Tira outra? - Perguntou empolgada.
O homem acenou que sim, então Vivian mudou de posição. Seus lábios beijaram a minha bochecha. Não sei se a foto foi batida, quando dei por mim, estava sem graça com aquela atitude.
- Já disse que adoro as suas covinhas? - Perguntou-me procurando meus olhos.
- Foi por isso que beijou uma delas? - Brinquei nervosa.
- Também, mas foi mais por agradecimento pelo dia tão perfeito. Nenhuma palavra do mundo vai conseguir expressar o tamanho da minha gratidão.
Minha mão esquerda foi para em seu rosto. Me segurei para não fazer o mesmo gesto e beijar o seu rosto. Apenas segurei as minhas lágrimas de emoção.
[...]
Estacionei o carro da Vivian na garagem do lugar que passei a minha infância. Meu plano não era chegar quase onze horas da noite, mas a delegada, em mais um pedido que eu não consegui dizer não, me pediu para ficar mais um pouco para poder olhar as estrelas em um céu mais limpo.
As 4 fotos em seu colo são os registros desse dia feliz. Assim como o sorriso em seu rosto tranquilo que dorme provavelmente pelo cansaço. Não estou diferente, meu músculo zigomático insiste em levantar o canto da minha boca de forma involuntária.
"Sente o céu e esse é o luar
Que eu quero ver no teu olhar
Eu só queria ter você pra mim"
A música ficou a volta inteira na minha cabeça. Entre a voz da Vivian cantando e a da Marisa Monte, revivi cada momento do dia que levarei comigo pelo resto da vida.
- Vivi - tentei acordá-la com um chamado.
Parei um minuto para fazer o que fiz quando a vi pela primeira vez, reparar os seus detalhes. Agora, Vivian está corada, seus lábios estão mais rosados, seu rosto transbordando beleza.
Coloquei minha mão em seu rosto, não gostei de senti-la quente.
- Vivi, querida.
Com uma leve sacudida em seu braço, a delegada foi despertando aos poucos.
- Chegamos em casa. Na casa da Amélia - disse para situá-la do local.
- Que soninho bom - sorriu para mim com sua cara de quem acabou de acordar. Linda.
- Você está quente. Sente-se bem?
- Sim, muito bem - falou tirando o cinto de segurança e se ajeitando melhor no banco.
Acompanhei com o olhar ela pegar duas das nossas fotos e me entregar em seguida.
- Quero que fique com elas para sempre se lembrar do dia que superou o seu medo de mar. Foi perfeito.
Aceitei as fotos, a que ela beijou a minha bochecha e nós de costas observando o pôr do sol.
- Obrigada... por tudo.
Guardei as fotos na minha bolsa. Juntas deixamos o automóvel. Deixei o resto das nossas coisas para pegar amanhã. Abraçadas seguimos até o elevador.
- Consegui uma marquinha - disse ao se olhar no espelho enquanto o elevador subia.
Não fiz nenhum comentário, apenas acenei positivamente com a cabeça. A sua temperatura ainda me preocupa.
A porta do elevador se abriu e andamos lado a lado até a entrada do apartamento. Assim que a chave entrou, percebemos a porta destrancada, então Vivian apenas empurrou a porta para entrar e demos de cara com a Amélia em pé com o celular na mão no meio da sala.
- Amor! Onde você estava? Faz uma hora que estou tentando te ligar. Você não respondeu minhas mensagens desde o horário de almoço.
A pequena se aproximou da minha irmã e beijou os seus lábios.
- O que aconteceu com o seu cabelo?
Vários fios da Lia tomaram um tom loiro, luzes que a deixaram com o cabelo totalmente diferente do que era.
- Decidi mudar um pouco meu visual. Gostou?
Vivian não disfarçou o seu estranhamento. Nem eu consegui reagir bem. Foi até bom ela ter feito isso porque se nela não ficou bonito, então em mim ficaria igualmente ridículo.
- Ficou... diferente. Nunca te imaginei loira.
- Mas você gostou?
- Claro... você é linda de qualquer maneira. O importante mesmo é que você gostou e está se sentindo bem.
Meu jeito espontâneo não me permitiu segurar uma risada.
- Poxa, Amélia, deveria ter perguntado se a sua noiva gosta de loiras antes de sair pintando o cabelo assim.
Somente Vivian sorriu com a minha provocação. Minha irmã reagiu estranhamente de forma tranquila, apenas revirou os olhos para o meu lado como quem não aguenta a minha presença por mais de 2 minutos.
- Mas onde você estava, amor? Por que não me respondeu?
- Eu e a Mili fizemos uma pequena viagem.
- Viagem? Para onde?
- Praia. Depois eu te conto tudo.
Minha irmã tocou o seu rosto e, como eu, não gostou da temperatura corporal da noiva.
- Você está com febre, amor.
- Talvez eu esteja um pouco mesmo, mas nada que precise se preocupar. Eu vou tomar um bom banho e descansar. É só disso que preciso.
Sem deixar que a noiva falasse, a pequena se voltou para a minha direção, deixou um beijo na minha bochecha e agradeceu pelo dia mais uma vez para em seguida deixar a sala onde eu e a minha irmã permanecemos imóveis.
Amélia não demostrou sua rotineira raiva, nem me olhava. Talvez se a Vivian explicar que queria muito ir à praia, ela me veja com outros olhos e finalmente eu tenha abertura para fazer o que é preciso.
Ameacei sair do local, mas diferente do que estava imaginando, sua voz me impediu:
- Nada de sair, Emília. Fique, eu quero falar com você.
Eu que ainda estava parada perto da porta, vi a minha irmã sair e voltar um minuto depois. É certo que ela foi conferir se a Vivian está por perto.
Permaneci no mesmo lugar a sua espera, o que não demorou muito.
- Minha - enfatizou - noiva está tomando banho, acho que temos tempo o suficiente para colocar logo um ponto final na sua hospedagem forçada.
- Se é sobre a viagem... - comecei tentando disfarçar.
Fui interrompida pela sua mão no meu pescoço me empurrando até a porta. Soltei a minha bolsa no chão pelo impacto. Encurralada, o aperto dos seus dedos começaram a me fazer ter falta de ar.
- Acha que eu não sei o que você está fazendo? Essa aproximação... qual é a sua? Veio tentar me destruir? Continuar o que você não conseguiu antes? Já não basta o que me fez?
Senti os seus dedos afrouxarem para que eu pudesse falar.
- Não... eu não estou fazendo... nada...
Não consegui completar pois voltei a sentir a sua força no meu pescoço.
- Seduzindo a minha mulher debaixo do meu teto? É sério? Acha que eu não vejo como você a olha?
Sua voz foi sussurrada como alguém que quer manter o controle, mas parecia que gritava de tão perto que Amélia ficou do meu rosto.
- Você... você... a roubou de mim!
Busquei força e consegui tirar a sua mão do meu pescoço. Puxei o ar, seus dedos ainda parecem permanecer na minha jugular.
- Então você se lembra? Se lembra dela? Eu duvidei por um momento, mas é claro que você se lembraria.
Nossos olhos se fixaram em uma batalha silenciosa. Minha cabeça girava com tantas perguntas.
E agora? O que eu faço?
- Mas é claro que me lembro dela! Se ela me procurou por anos, você sabe o quão importante foi o nosso encontro pela internet.
- Foi! No passado! Entendi agora... Você descobriu que eu estou com a Vivian e resolveu voltar!
- Eu já te disse que não sabia nada da sua vida!
Amélia me olhou com deboche. Sempre teve esse talento de me colocar contra a parede apenas com duas ou três frases.
- Você veio para apenas para fazer as pazes então? Quer realmente que eu acredite nisso?
Desejei por um momento dizer a verdade, entretanto eu estou presa a um combinado. Eu já falhei muito com as minhas atitudes nessa vida, não vou e não posso me deixar levar.
- Sim! Para conversar, tentar retomar a nossa relação como irmã. Não te dói saber que tem uma irmã, sangue do seu sangue, brigada com você?
- Por que você sempre tem que se fazer de boazinha? Deve estar mesmo metida em dívidas impagáveis. Até mesmo para você é meio humilhante saber que eu te odeio e ainda estar aqui.
Amélia voltou a se aproximar de mim como um animal prestes a dar o bote em uma presa encurralada.
- Me diz, Emília. Estamos aqui, uma de frente para outras, só nós duas. Sem papai para separar, sem mamãe para te defender, sem a Vivian para me fazer recuar. 18 anos atrás você foi embora como uma covarde que é, agora volta as vésperas do meu casamento. Se você tem alguma dúvida de que vou me casar com a Vivi, está sendo burra. Eu posso fazer isso a semana que vem se quiser. Vivi é doida para fazer isso, só não aconteceu por causa da doença. Ela acha que vai se recuperar, mas é só eu dizer uma ou duas palavras e nos casamos.
- Me diz você, Amélia. Por que mentiu para ela? Por que se passou por mim? Inventar essa história de cirurgia no nariz, tomar para si a minha história, fingir esse tempo todo que gosta das coisas que eu gosto! Está enganando-a!
- O que você queria que eu fizesse? Foi uma coincidência! Até pela mulher que me interessei você tinha que ser uma sombra?
- Deveria ter falado a verdade!
- Que verdade? Não se esqueça que não fingi apenas que a conhecia, mas também ocultei o que você fez para que sumisse da vida dela. É isso que você quer? Que toda verdade seja revelada? Que ela saiba o monstro que você é?
Balancei a cabeça em negação. Quem estou querendo enganar? Eu poderia ter desmascarado essa história da minha irmã em dois segundos. Ela sabe o que está fazendo e eu estou de mão atadas.
- Ela pode ter começado esse relacionamento gostando do imaginário que você foi, mas passou a me amar quando começamos a namorar. Acha realmente que tem alguma chance de ela te amar? Vivian é fascinada por mim e isso é mérito meu. Só meu! Do contrário já teria terminado comigo. Posso ter começado errado, mas no final o que importa de verdade é o que nós construímos. Posso sim ter me aproveitado da situação, mas quem você acha que vai pesar se ela tiver que escolher? Você que quase destruiu a minha vida ou eu que menti porque me apaixonei por ela? Você sabe a resposta.
Eu sei. Pelo pouco que convivemos já conheço um pouco do seu caráter.
- Se você não tivesse voltado, eu e ela estaríamos em paz, eu não estaria preocupada em ser desmascarada, não estaria sofrendo com a hipótese de perdê-la, não para você, mas para a morte. Então, se você gosta tanto assim da Vivian, deixe essa casa e nunca mais volte. Não vou mais te engolir para poupar a saúde dela. A decisão está em suas mãos. Fique e a faça sofrer, vá e deixe-nos ser feliz como éramos antes da sua presença.
Era exatamente no seu coração que estava pensando antes mesmo da fala final de Amélia. Um choque pode levá-la a morte. Seria mais uma culpa para carregar.
Peguei a minha bolsa no chão e saí correndo até parar no meu quarto.
As minhas malas estão feitas, provavelmente pela Amélia mais cedo. Não tenho saída, preciso ir embora. Joguei a minha bolsa na cama, as fotos de hoje escaparam dela. Meu coração apertou quando alcancei a pequena me beija. Não tem espaço para surgir uma paixão, Vivian é louca pela noiva.
Peguei o meu celular debaixo do colchão, disquei os números para anunciar a mudança de plano para outra pessoa interessada no assunto. Mas antes de apertar o botão para a ligação, li na tela do aparelho:
"Pilar González chamando".
Fim do capítulo
Por hoje é só. Semana corrida, sabem como é. Mas tentarei dois na próxima. Até mais!
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dannivaladares
Em: 14/12/2025
Já não tenho mais a dualidade dos capítulos anteriores. Emília tem um segredo que me faz pensar em grandes conflitos. Ansiosa! ![]()
HelOliveira
Em: 24/11/2025
Muito curiosa para saber quem é Pilar González nessa história toda....
Tem coisa grande aí, e cada dia gosto menos da Amélia
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