Última Chance
Hospital Sírio-Libanês — Estacionamento interno, 12h41
O sol batia sobre o concreto claro, e o reflexo dos carros estacionados formava manchas de luz no chão. Verena desligou o motor e ficou imóvel por um instante, as mãos ainda no volante.
O coração batia num ritmo que ela fingia ignorar. Tudo dentro do carro parecia excessivamente nítido — o relógio do painel marcando as horas, o envelope repousando sobre o banco do passageiro, a marca discreta do logotipo da farmácia ainda visível pela fresta da sacola.
Respirou fundo. Uma, duas vezes. Fechou os olhos por um instante, tentando reorganizar a mente antes de sair. Ajustou o colarinho, o cabelo, os punhos da camisa. O movimento era automático — o mesmo ritual de sempre antes de entrar num ambiente hostil. Só que agora, o campo de batalha era outro.
O espelho retrovisor devolveu o reflexo de uma mulher quase perfeita: elegante, fria, impecável. Quase. Porque os olhos denunciavam — havia algo ali que nem a maquiagem política disfarçava: medo.
Pegou o envelope e abriu a porta. O ar quente da tarde a envolveu como uma onda. O som distante de ambulâncias, o barulho dos carros chegando, o cheiro de hospital misturado a perfume e álcool — tudo parecia amplificado.
Caminhou até o hall com passos medidos, o ritmo marcando o piso claro como um metrônomo. Na recepção, o sorriso ensaiado voltou ao rosto.
— Boa tarde. Eu precisava deixar uma encomenda para a Silvia Alencar, por gentileza. Está acompanhando o pai, Álvaro Alencar, com a mãe, no quarto 412.
A atendente, solícita, assentiu.
— Claro. Deseja que eu avise que a senhora esteve aqui?
Verena hesitou. O corpo respondeu antes da mente.
— Não. Só entregue, por favor.
O envelope e a pequena sacola deslizaram pelas mãos da recepcionista como uma sentença assinada. Verena observou, imóvel, até que a moça o guardasse cuidadosamente na bandeja de correspondências internas.
Então tirou o celular do bolso. Os dedos pairaram por alguns segundos sobre a tela. O cursor piscava. Nada de longas explicações, nem discursos. Apenas uma frase curta, quase um sussurro digitado.
“Te amo.”
Apertou “enviar”. Viu a mensagem subir na tela e piscou devagar, como quem sente o peso físico de uma escolha.
Guardou o celular, recompôs o corpo e caminhou de volta até o estacionamento. O sol agora ardia sobre o capô brilhante, e por um segundo ela pensou em entrar no carro e simplesmente ir embora — pra longe de tudo, de Silvia, de Valentina, de si mesma.
Mas não foi. Ajeitou os óculos escuros, encostou-se na lataria quente e esperou o ar voltar. Sabia que, a partir daquele minuto, qualquer desfecho seria sua culpa e, de alguma forma doentia, parecia disposta a pagar pra ver.
Hospital Sírio-Libanês — Quarto 412, 13h00
O vapor ainda saía do banheiro quando Silvia passou a toalha pelos ombros, os cabelos úmidos colando na nuca. O chuveiro parou de pingar, e ela respirou fundo, aproveitando o breve silêncio antes que a mãe voltasse do refeitório.
O quarto era confortável — piso claro, cortina translúcida, o som constante dos aparelhos vindo do corredor — mas nada naquele ambiente fazia parecer um descanso.
Vestiu uma calça de tecido leve e uma blusa simples, prendeu o cabelo num coque apressado. Do espelho, o reflexo lhe devolveu uma mulher visivelmente cansada, mas ainda de postura ereta. Tentava preservar a aparência de calma, mesmo que o corpo inteiro denunciasse a vigília das últimas noites.
Lúcia esperava sentada na poltrona ao lado da cama.
— Já vou tomar o meu agora filha. — perguntou, levantando-se. — Aproveitar que o banheiro ainda tá quente.
Silvia sorriu.
— Vai lá, mãe. Eu arrumo as coisas aqui.
A mãe desapareceu atrás da porta do banheiro. O barulho da água voltou a preencher o ambiente. Silvia começou a dobrar as roupas que estavam sobre a cadeira, separando o que precisava levar pra lavanderia.
Estava fechando a pequena bolsa quando bateram à porta.
— Licença. — disse a funcionária da recepção, com um envelope nas mãos. — Acabaram de deixar isso pra senhora na recepção.
Silvia franziu a testa.
— Pra mim?
— Sim. E um envelope, sem remetente. Pediram pra entregar pessoalmente.
Agradeceu, desconfiada, e esperou a porta se fechar antes de olhar direito. O envelope era simples, de papel creme, a caligrafia inconfundível: firme, elegante, sem esforço.
Pra futura mamãe Silvia.
A mão tremeu. O coração acelerou de um jeito que detestava admitir. Por um segundo, ficou parada, só olhando para as palavras.
Verena.
Era óbvio. Só ela teria coragem — ou frieza — de escolher esse tipo de provocação.
E então, sua atenção caiu sobre a pequena sacola. Abriu com cuidado, como quem tem medo de um veneno. Dentro, a pequena caixa branca. O teste de gravidez.
O ar lhe faltou. O impulso inicial foi de raiva — uma raiva quente, aguda, que veio direto do estômago. Porque era cruel. Cruel tocar justamente naquilo que mais doía, naquilo que elas haviam discutido tantas vezes, entre lágrimas e silêncios.
Mas, logo em seguida, a raiva se confundiu com outra coisa.
Esperança.
Torta, improvável, mas esperança. Aquela palavra — mamãe — a atingiu como um soco.
Ficou olhando a caixa sobre a palma da mão por longos segundos O rótulo era banal, mas as implicações, não.
A raiva vinha e voltava em ondas. Mas, entre uma e outra, havia algo pior: a faísca breve da esperança. Uma parte dela — aquela que insistia em acreditar — quis pensar que o gesto era sincero, que talvez fosse um começo.
Mas o pensamento durou pouco. Conhecia demais aquela mulher. Sabia quando Verena movia o mundo por amor e quando fazia o mesmo por medo de perder. Não era amor. Era controle. Verena tentando voltar à normalidade, remendar o que quebrou sem precisar admitir a culpa. Passou a mão pelos cabelos úmidos, respirando fundo, tentando conter o tremor.
As lágrimas vieram antes que pudesse se controlar. Não um choro escandaloso, mas um tremor silencioso que começa pelos lábios e sobe pros olhos. Secou rápido, antes que a mãe saísse do banheiro.
Guardou o envelope na bolsa e se olhou no espelho de novo. A imagem que viu agora era outra: uma mulher tentando não acreditar no que mais desejava.
No celular, a tela acendeu. Uma nova mensagem.
“Te amo.”
Silvia fechou os olhos. O amor, nas mãos de Verena, sempre vinha embalado em algo que doía.
Hospital Sírio-Libanês — Estacionamento interno, 13h20
O ar dentro do carro já estava quente demais. Verena manteve as mãos sobre o volante, imóveis, sentindo o tecido do blazer colar na pele. O teste já não estava com ela e o simples fato de ter deixado aquele objeto nas mãos de outra pessoa parecia ter tirado parte do seu oxigênio..
Respirou fundo, tentando forçar o corpo a desacelerar. “É só um gesto”, repetia mentalmente. Um gesto calculado, simbólico, necessário. Olhou o relógio no painel. 13h21. O tempo parecia se arrastar. Pegou o celular, desbloqueou a tela, esperou que algo acontecesse.
Nada.
A conversa com a esposa ainda aberta. A última mensagem enviada parecia agora uma armadilha sem resposta. O cursor piscava no vazio, como se zombasse dela.
Verena encostou a cabeça no encosto e fechou os olhos. O barulho distante do estacionamento — vozes, portas batendo, o ronco de motores — soava abafado. Por dentro, o silêncio era outro: um zumbido constante entre a culpa e a necessidade.
Sabia que havia passado dos limites. Sabia que usar o sonho da esposa como moeda de reconciliação era o tipo de coisa que só alguém profundamente desesperado faria. Mas havia um raciocínio frio sustentando tudo: se Silvia voltasse a acreditar em algo maior, talvez voltasse também pra ela.
Pegou o celular de novo. Nada ainda. A tela refletia o próprio rosto, e por um instante ela não se reconheceu. Parecia mais velha. Ou só cansada demais pra fingir que não sentia o desprezo. Falou sozinha, num tom quase baixo demais para ser ouvido.
— Você ainda tem o controle.
Era mentira, e sabia disso. Mas as mentiras ditas em voz alta sempre soavam mais convincentes. Abriu o vidro do carro. O ar quente entrou, trazendo o cheiro de gasolina, as buzinas distantes da avenida, e a lembrança incômoda de que o mundo continuava existindo fora daquela espera.
Deixou o celular no suporte, pegou os óculos escuros e colocou devagar. Endireitou o corpo, ajeitou o colarinho. A postura voltou antes do equilíbrio. Quando o rosto se recompôs, era de novo a deputada — não a mulher que implorava por uma resposta.
Ligou o motor. O som grave do carro cobriu o último resto de hesitação. A mão pousada na marcha ainda tremia, mas o olhar, agora, era de quem voltava a agir. Saiu do estacionamento com a calma metódica de quem acaba de cometer um crime e precisa fingir que nada aconteceu.
Casa da Família Moraes — Quarto de Valentina, 13h30
O sol entrava pelas frestas da cortina, riscando o chão com faixas de luz alaranjada. Valentina jogou a mochila sobre a cadeira, o corpo ainda pesado da aula de educação física.
Tirou o moletom, amarrou o cabelo num coque frouxo e foi direto até o espelho. O pescoço ainda estava sensível, a pele mais clara no ponto onde a marca começava a sumir. Passou os dedos de leve, um toque breve, e desviou o olhar logo em seguida.
O celular ficou vibrando sobre a cama, insistente, avisando das mensagens acumuladas. Pegou o aparelho, destravou a tela, e o símbolo do Wi-Fi acendeu — o sinal finalmente conectado à internet da casa.
As notificações começaram a surgir em sequência: grupo da escola, Carol enviando um áudio, propaganda, e então... o nome que fez o coração parar.
Verena.
Valentina ficou imóvel, olhando o visor. Por um segundo, pensou que fosse um engano. Mas o texto começava com o tom inconfundível da deputada — aquele jeito contido, quase formal, como se até o arrependimento precisasse ser medido.
“Eu não quero te assustar, nem invadir seu espaço. Só precisava te pedir desculpa mais uma vez. Pelo que aconteceu, pelas coisas que eu fiz, disse e pelas que não consegui dizer.
Se um dia você conseguir me ouvir sem medo, eu quero te explicar o que houve.
Eu errei, você não merecia ser tratada daquela forma.
Eu não sou aquela mulher, Valentina.”
Valentina leu uma vez. Depois outra. A terceira, em silêncio, sem perceber que o corpo todo tremia As palavras pareciam ecoar no quarto, cada linha batendo num ponto que ela tentava manter adormecido. O estômago se contraiu. A raiva, a saudade, o medo — tudo misturado.
Sentou-se na beira da cama, o celular firme nas mãos. O barulho da panela na cozinha criava um contraste estranho com a intensidade do que lia. O mundo lá fora seguia igual, e dentro dela tudo se movia.
Não sabia o que sentir. A lembrança ainda estava ali, vívida, dolorida, mas junto dela vinha a lembrança de tudo o que sentira antes: o cuidado, o riso baixo, o olhar que a fazia esquecer o resto do mundo.
As lágrimas vieram, pequenas, quase irritadas. Não de tristeza — de confusão. Porque uma parte dela, contra toda lógica, queria acreditar que a mensagem era verdadeira. Que Verena realmente se arrependia. Que aquela mulher ainda existia.
Encostou o celular no peito e fechou os olhos por um instante. O coração batia rápido demais. Quis responder. Mas não conseguiu. As palavras simplesmente não vinham. Deixou o aparelho sobre o travesseiro e levantou. Na cozinha, a mãe a chamava para almoçar. Valentina respirou fundo, enxugou o rosto e foi.
Na mesa, o arroz soltando fumaça e o feijão ainda borbulhando pareciam o retrato exato da normalidade que ela tentava recuperar. Mas, dentro dela, tudo o que era simples já tinha deixado de existir.
Centro de São Paulo — Agência Bancária, 14h30
O hall do banco estava cheio. O ar-condicionado brigava com o calor de novembro, e o cheiro de papel, álcool em gel e café velho se misturava ao burburinho das conversas. Ana Paula já estava no balcão de atendimento há quase vinte minutos, explicando pela terceira vez o problema no cartão da conta conjunta.
Valentina esperava sentada num dos sofás laterais, o celular no colo, mas sem coragem de olhar a tela novamente. A mensagem da Verena ainda pulsava dentro dela — mesmo sem vibração, mesmo sem som.
Cada frase era um espinho e um abraço ao mesmo tempo. Ela tentava focar nas pessoas ao redor, na televisão mostrando as cotações, na funcionária chamando senhas de forma mecânica. Mas nada fixava.
Foi então que ouviu.
— Valentina?
A voz veio de trás. Quase leve demais para o susto que provocou.
Ela virou. E lá estava ele.
Léo. Mochila nas costas, camiseta cinza, crachá universitário pendurado por hábito, não por necessidade. O corte de cabelo diferente, mais curto nas laterais. O mesmo sorriso fácil — só que mais surpreso que antes.
— Caramba… — ele deu um passo à frente. — Eu achei que tinha te confundido com alguém.
O rosto de Valentina ficou quente de imediato.
— Oi, Léo… — disse, quase num sussurro. — Que… surpresa. Quanto tempo.
— Tempo nada, quantas eras, praticamente — respondeu ele, já rindo. — Sumiu, hein? Nem sinal de fumaça.
Valentina apertou as mãos no colo.
— É… eu… foi tudo muito corrido.
Antes que pudesse continuar, Ana Paula voltou, segurando um papel com a nova senha de atendimento.
— Valen, pega sua mochila, filha, acho que vamos ter que esperar mais um pouco.
Léo, no automático, já se adiantou.
— Oi! Tudo bem? Eu sou o Léo. Trabalhava com a Valentina lá na Alesp.
Ana Paula sorriu, simpática, mas surpresa com a espontaneidade.
— Prazer, Léo. Eu sou a Ana Paula, mãe dela.
Valentina afundou meio centímetro no banco, a vergonha queimando.
— Eu tava aqui pra resolver um negócio meu também — Léo continuou, enquanto tirava da máquina o papel com sua própria senha. — Posso sentar com vocês? Acabei de pegar a senha C-348… acho que vou envelhecer nesse banco.
Ana Paula riu.
— Pode, claro. C-348? Nossa, vai demorar mesmo.
Ele se sentou ao lado de Valentina. Não muito perto — mas perto o suficiente para ela sentir o perfume dele, um cheiro leve de sabonete e spray barato.
— Troquei de celular — ele disse, voltando-se para ela com uma expressão meio ofendida, meio carinhosa. — Tive que atualizar tudo do zero. Aí perdi meus contatos do período do estágio.
Valentina piscou, surpresa.
— Sério?
— Sério. — Ele deu de ombros. — Em compensação… você também nem tentou mandar nada, né? Nem um “oi, tô viva”.
Ela engoliu em seco. O coração deu aquele salto incômodo. Ele não disse com raiva, mas com sinceridade. Com saudade.
— É que… muita coisa aconteceu — ela murmurou.
Léo assentiu, olhando pra frente, como quem entende sem realmente entender.
— Imagino.
Pausa.
— Mas, sei lá… eu senti falta. Você sumiu de um jeito estranho, Val.
Ela desviou o olhar. A mensagem de Verena voltou à mente num flash tão rápido que quase doeu.
Eu errei.
Eu não sou aquela mulher.
Se um dia você conseguir me ouvir sem medo…
Valentina respirou fundo. Era muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Muita coisa para alguém que ainda sentia o pescoço arder ao menor toque.
A televisão atualizou a senha.
C-339 no guichê dois
Léo bufou.
— Falta uma eternidade.
Ele se recostou no banco, esticou as pernas e sorriu de canto, meio brincando, meio sincero.
— Então… já que estamos presos aqui… me conta, onde você se enfiou?
Valentina mordeu o lábio inferior. Não sabia por onde começar. Nem se conseguiria dizer a verdade. Ajeitou a alça da mochila no colo, tentando achar uma posição que parecesse natural.
O banco de couro sintético rangia cada vez que ela se mexia, denunciando o desconforto. Ao lado, Ana Paula folheava os documentos, conferindo assinatura por assinatura, totalmente concentrada.
Léo se inclinou um pouco para a frente, apoiando os antebraços nos joelhos, e virou o rosto na direção dela. A proximidade fez Valentina prender a respiração — não por ele, mas pelo medo do que ele poderia dizer.
Léo continuou, sem perceber o redemoinho que provocava.
— O pessoal do gabinete até achou que você tinha conseguido algum estágio novo… Sei lá. Eu fiquei meio preocupado.
Ela engoliu seco.
Olhou de relance para a mãe: Ana Paula ainda ocupada, organizando RG, comprovante de residência, uma pasta azul com tudo plastificado. Mas estava ali, perto demais. E isso deixava o corpo inteiro de Valentina tenso. Valentina fechou os dedos ao redor da mochila.
— Não… nada disso.
Ele balançou a cabeça, desaprovando.
— E nem pra avisar. Nem pra mandar mensagem.
— É que eu troquei de número também. — mentiu automaticamente.
Ele arqueou as sobrancelhas.
— Entendi! Então me passa o novo. — E pegou o celular, já abrindo a tela de contatos. — Antes que você suma de novo.
Valentina travou por um segundo. Sentiu o estômago subir, uma pequena onda de pânico.
— Depois eu… eu te passo, tá? Tô sem internet aqui dentro, acho que tá falhando…
Ele riu.
— Valentina, você sempre dá essas desculpas. — O tom era leve, mas havia um fundo de mágoa. — Se não quiser, é só falar.
— Não é isso Léo. — ela disse rápido, quase defensiva demais.
Léo franziu o cenho.
— Tá tudo bem com você?
A pergunta era simples, mas bateu fundo. Valentina desviou o olhar, olhando para a tela da televisão que agora mostrava câmbio e dólar comercial.
— Tá. — A voz saiu baixa. — Mais ou menos.
Léo observou o rosto dela por um instante mais longo do que deveria. Viu a palidez, as olheiras, o ar distante. Viu também o jeito como ela evitava encarar a mãe enquanto falava.
— Aconteceu alguma coisa? — ele insistiu, mas agora com um cuidado que não tinha antes. — Você tá… diferente.
Valentina gelou. Passou a língua pelos lábios, nervosa.
— Não. — respondeu depressa, rápida demais para ser convincente. — Só tô cansada.
Ele se recostou no banco, mas não pareceu satisfeito.
Alesp — Corredor do 3º andar, 15h03
O corredor tinha o mesmo cheiro conhecido de café requentado e ar condicionado exagerado. Verena apertou o passo, o salto ecoando rápido demais no piso brilhante, como se o som pudesse recuperar a autoridade perdida na própria ausência.
A mão ainda estava um pouco fria do volante. O estômago, um nó tenso. Ela respirou fundo antes de abrir a porta do gabinete, ajustando os ombros como quem veste uma armadura invisível.
A porta girou num clique suave. E o que viu primeiro não foi o caos de papéis ou o fluxo de estagiários frenéticos. Foi a cena exata que menos queria ver.
Rafaela, sentada na sua cadeira. Perna cruzada. Blusa branca um pouco amassada. Uma lata de Coca zero ao lado do teclado e, encostada no canto da mesa, inclinada com intimidade excessiva, Jéssica.
A advogada sorria — um sorriso pequeno, firme, que sempre parecia esconder alguma vantagem secreta. Falavam baixo. Rafaela ria de algo. Um riso diferente, frouxo, iluminado. Por um instante microscópico, Verena ficou imóvel na porta. Só um segundo. Mas suficiente para o peito reagir com uma pontada súbita — algo entre irritação e alerta.
Então ela se recompôs.
Totalmente.
— Boa tarde. — disse, num tom limpo demais para ser casual.
As duas giraram ao mesmo tempo.
Rafaela deu um pulo, literalmente, quase derrubando a lata.
— Vê! A gente… eu… eu tava só…
Jéssica, por outro lado, manteve o sorriso. Um sorriso que não pedia permissão para existir.
— Estávamos revisando o protocolo do caso Carmona — ela disse, com uma calma estudada. — Aproveitando que sua auxiliar estava… acessível.
Rafaela corou.
— Eu ia te mandar mensagem…
— Ia? — Verena respondeu, entrando enfim. A porta fechou atrás dela num som seco. — E mudou de ideia?
Rafaela piscou algumas vezes. Não era comum Verena usar aquele tom — baixo, lento, quase clínico.
— Eu… achei melhor esperar você chegar.
Jéssica inclinou a cabeça, observando a troca com interesse de quem não se preocupava em disfarçar.
— Imagino que sua manhã tenha sido… intensa — disse ela, cruzando os braços com elegância ensaiada.
Verena virou-se devagar. O olhar por trás das lentes era impossível de decifrar.
— Foi. — respondeu. — E ainda não terminou.
Rafaela engoliu seco.
— Quer… sentar?
Verena manteve o olhar por um instante na sua cadeira — ocupada minutos antes. Depois caminhou até ela com passos firmes.
— Quero meu gabinete funcionando. — disse, sentando-se enfim. — E quero saber exatamente por que, no único dia em que eu fico fora, tudo aqui parece… solto demais.
Rafaela abriu a boca, mas Jéssica cortou, suave.
— Talvez porque certas peças ficam instáveis quando a liderança está… distraída.
O silêncio caiu pesado Rafaela arregalou os olhos.
— Jéssica!
Mas Verena não reagiu como Rafaela esperava. A deputada sorriu. Um sorriso lento. Fino. Perigoso.
— Eu adorei a metáfora — disse. — Mas cuidado para não confundir ausência com fraqueza.
Jéssica devolveu o sorriso.
— Não confundo. Só observo.
E algo na sala ficou elétrico, quase imperceptível — como um campo magnético recém formado. Rafaela, no meio das duas, parecia presa num triângulo que não entendia, mas sentia.
Jéssica permaneceu onde estava — encostada na mesa, braços cruzados, a pose impecavelmente calculada. Rafaela deu um passo para trás, instintivo, percebendo que o ar se adensava como antes de uma tempestade.
Verena cruzou as pernas com calma, apoiando as mãos nos braços da cadeira. A postura dizia: é a minha mesa, é o meu território, e vocês é que vão se ajustar.
— Bom… — ela disse, ajeitando o colarinho. — Já que estão tão à vontade na minha sala, imagino que tenham algo importante a acrescentar.
Jéssica ergueu uma sobrancelha, a sombra mínima de um sorriso ainda nos lábios.
— Importante sempre há. — respondeu. — Mas posso voltar mais tarde, se preferir falar a sós com a Rafaela.
Rafaela prendeu a respiração. Verena não piscou.
— E por que eu preferiria isso?
A pergunta caiu como um pêndulo afiado.
Jéssica não recuou. Se inclinou um pouco para a frente, apoiando a palma da mão na madeira da mesa, perto demais do espaço pessoal da deputada — não por intimidade, mas por estratégia.
— Porque às vezes uma equipe precisa alinhar… dinâmicas internas.
Pausou, medindo o impacto.
— Pessoas sensíveis podem se desestabilizar com facilidade se forem expostas ao ambiente errado.
Rafaela sentiu o corpo inteiro gelar. Aquilo era sobre ela. Sobre elas duas. Sobre o que não deveria ter chegado ao gabinete. Verena apoiou um cotovelo no braço da cadeira e passou o dedo indicador lentamente pelo lábio inferior, analisando.
— Interessante. — disse, enfim. — Mas o meu gabinete não é o “ambiente errado”, Jéssica. Ele é apenas… exigente.
Jéssica sorriu, como quem aceita uma provocação.
— Exigente eu sei que é.
Olhou para Rafaela por meio segundo, como quem lança um recado silencioso.
— Só espero que todos aqui estejam à altura.
Rafaela apertou a lata de Coca com força, o metal rangendo. O rosto corou até as orelhas.
— Eu… estou dando conta de tudo. — disse, a voz firme demais para o estado emocional dela. — Não tem nada de errado aqui.
Verena desviou o olhar para ela. Um olhar calculado, mas que carregava algo mais: irritação, talvez, inquietação, com certeza.
— Está mesmo? — perguntou, num sussurro que só ela dominava.
Rafaela travou.
— Tô, claro que tô.
Jéssica observava a troca como quem assiste a um jogo que já sabia o placar antes do apito final.
— Bom — ela disse, endireitando a postura. — Já que está tudo tão… sob controle, posso ficar.
Um sorriso mínimo.
— Nunca gosto de sair no meio de discussões importantes.
Verena riu devagar. Um riso curto, frio, delicioso na crueldade sutil.
— Você não está no meio, Jéssica.
Inclinou a cabeça, os olhos como lâminas sob o brilho neutro das luminárias.
— Você só está… aqui.
Terminou com um desprezo tão delicado quanto mortal. Rafaela prendeu o ar. Jéssica manteve o sorriso.
— Presença é poder, deputada. — disse, tranquila. — E algumas presenças… incomodam mais do que outras.
Era explícito. Era sobre território. Sobre influência. Sobre o espaço que cada uma ocupava na vida da outra — e na vida de Verena, que por sua vez, descruzou as pernas, inclinando-se para a frente. O movimento foi mínimo, mas o gabinete pareceu encolher.
— Eu nunca fui mulher de me incomodar com presenças.
Uma pausa afiada.
— A não ser quando alguém está tentando testar os meus limites.
Jéssica não recuou um milímetro.
— Testes revelam muito, deputada.
Um sorriso leve.
— Especialmente sobre quem está… fragilizada.
O golpe foi direto no estômago — e certeiro. Rafaela se virou para a advogada, indignada.
— Jéssica, que inferno! Para com isso!
Mas Verena já estava sorrindo de novo. Um sorriso que não tinha calor — só estratégia.
— Fragilidade é um conceito relativo. — ela disse. — Mas obrigada pela preocupação.
Ajeitou a postura na cadeira, elegantemente.
— Agora, se não se importa…
O olhar encontrou o de Jéssica.
— Alguns assuntos do gabinete realmente precisam da minha equipe interna. Só dela.
Era a ordem mais educada de expulsão que alguém poderia formular. Mas ainda assim, uma expulsão. Jéssica sorriu como se tivesse previsto exatamente esse final.
— Claro.
Se afastou da mesa, pegou a pasta.
— Quando terminar, Rafaela me manda uma mensagem.
O olhar passou por ela como uma lâmina suave.
— Temos coisas pendentes.
Rafaela corou de novo, apertando a lata com tanta força que o alumínio se deformava.
A porta se fechou. E o gabinete ficou cheio de um silêncio denso. Verena apoiou as mãos na mesa. Olhou para Rafaela sem desviar.
— Agora… — ela disse, voz baixa, nada doce — você vai me explicar desde quando eu perdi o controle do meu próprio gabinete.
Rafaela ficou imóvel. Os ombros erguidos, como se pedissem desculpa sozinhos. Os olhos fugindo de qualquer lugar que pudesse encontrar os de Verena, que por outro lado, não se apressou. Respirou devagar, recostou-se na cadeira, cruzou as pernas com precisão — a postura de quem domina, controla, decide.
— Desde quando? — ela repetiu, num tom calmo demais para não ser perigoso.
Rafaela piscou, engolindo em seco.
— Verena… não é isso que parece.
— Então me explica o que parece. — respondeu a deputada, inclinando a cabeça de leve. — Porque, do meu ponto de vista, encontrei minha chefe de gabinete ocupando meu lugar… — um sorriso sem alegria — e uma advogada que não trabalha aqui, ditando o clima da minha sala.
Rafaela apertou a lata devagar, como se precisasse de algo físico para ocupar as mãos.
— A Jéssica só… só veio trazer uns documentos. E a gente acabou conversando enquanto eu revisava umas minutas.
Verena arqueou uma sobrancelha.
— Na minha cadeira?
O rosto de Rafaela se contraiu, breve, como um toque involuntário de dor.
— Eu só… — ela respirou fundo — eu tava cansada, Verena. E o seu computador já tava ligado. Não pensei nisso.
A cada justificativa, ficava mais evidente que ela estava agitada demais para inventar uma mentira convincente.
— Você não tem pensado em muitas coisas ultimamente, Rafaela.
Rafaela sentiu a frase bater. Do jeito que sempre bateu — não por arrogância, mas porque Verena só dizia isso quando realmente estava ferida.
— Você acha que eu falhei com você? — Rafaela perguntou, voz baixa, quase infantil no timbre.
Verena não respondeu imediatamente. E o silêncio foi mais cruel do que qualquer confirmação.
— Eu acho… — disse enfim — que você está distraída.
Pousou as mãos sobre a mesa.
— E eu não posso ter pessoas distraídas ao meu redor.
Rafaela ergueu os olhos, vermelhos, mas firmes. O orgulho sempre foi silencioso, mas enorme.
— Eu nunca falhei com você. Nunca.
— Não estou falando do trabalho. — Verena retrucou, num tom que mudava a temperatura do ar.
Rafaela travou.
— Então… está falando do quê?
A pergunta pairou entre elas como um corte. Verena manteve o olhar — tão profundo, tão íntimo, tão fatigado — que Rafaela precisou desviar antes que o corpo denunciasse alguma emoção mais evidente.
— Você está diferente. — Verena disse. — E não vem me dizer que é cansaço. Eu conheço suas fases, sei quando você está sendo você… e quando está sendo influenciada.
Rafaela apertou forte a lata, até o alumínio ranger.
— Não tô sendo influenciada.
— Não minta pra mim, Rafaela. — Verena respondeu, sem elevar a voz. — Você não mente bem.
A respiração de Rafaela saiu trêmula.
— A Jéssica não manda em mim.
— Não disse que manda.
Verena inclinou-se um pouco mais.
— Disse que ela mexe com você.
A frase a acertou como um dardo. Porque era verdade — e Rafaela sabia. Mas não uma verdade que gostaria de ver dita pela boca da única pessoa que realmente tinha poder sobre o humor dela.
— Por que isso te incomoda tanto? — Rafaela disparou, num impulso emocional que não pôde conter.
Verena não recuou um centímetro. Manteve o olhar exatamente no dela. Um segundo. Dois. E então, disse num sussurro controlado:
— Porque eu preciso de você.
Pausa.
— Aqui.
Outra pausa.
— Inteira.
Rafaela sentiu o ar queimar nos pulmões. Aquilo não era um pedido. Era quase um aviso. Quase uma confissão — quase. Ela desviou o olhar para o chão, engolindo a emoção que subia como lava em um vulcão prestes a explodir..
— Eu tô aqui — disse, com a voz mais firme do que esperava. — Mesmo quando você me esquece. Mesmo quando some. Mesmo quando volta quebrada e espera que eu conserte tudo.
Verena não respondeu. Mas a tensão mudou. O silêncio ganhou outra cor — menos cortante, mais íntima. E por um instante, ficou evidente: as duas estavam exaustas. Das últimas semanas, das brigas, do que não falavam, do que falavam demais.
Rafaela respirou fundo.
— Eu não estou contra você.
Outra pausa.
— Mas você também mudou comigo.
Verena fechou os olhos por um instante. Não de cansaço — de reconhecimento. Quando abriu, o olhar estava diferente. Mais honesto, mais vulnerável do que deveria ser no local de trabalho.
— Então… — ela disse, com voz baixa — vamos tentar fazer direito dessa vez?
Rafaela ergueu o olhar.
— As duas? — perguntou, quase num sussurro.
— As duas. — Verena confirmou.
O clima estava frágil. Tenso. Quase perigoso. Mas verdadeiro.
Hospital Sírio-Libanês — Berçário, 16h22O corredor era claro, silencioso, lavado num tom branco quase luminoso. Silvia caminhou devagar, ainda com o cabelo úmido preso num coque displicente — o jaleco da ala de acompanhantes no braço.
Não sabia exatamente por que tinha ido até ali. Talvez buscasse ar. Talvez buscasse silêncio. Talvez buscasse algo que não ousava admitir nem para si. O vidro do berçário se abriu diante dela como uma cena que alguém tinha deixado pausada.
Bebês. Enrolados em mantas coloridas. Dormindo, se espreguiçando, fazendo caretas involuntárias. Pequenas vidas recém-acontecidas. Silvia parou. Apenas parou. O tempo pareceu diminuir. Sentiu o coração bater mais devagar e doer mais fundo. O cheiro leve de perfume infantil suave a envolvia, criando uma estranha sensação de limpeza e vulnerabilidade ao mesmo tempo.
O bilhete, com seu nome escrito por Verena naquele tom doce e covarde, era um peso oculto puxando cada pensamento.
Para a futura mamãe Silvia.
Uma punhalada e uma promessa no mesmo traço. Ela tocou o ventre com a ponta dos dedos — um gesto involuntário, íntimo, quase secreto. Como quem busca algo que não está ali, mas que habita o corpo simbólico há anos.
Por um instante, um instante injusto e bonito, Silvia permitiu-se imaginar:
Seu filho ali. A mãozinha minúscula. O rosto embrulhado em manta azul ou rosa. O nome que nunca dizia em voz alta. A sensação absurda e avassaladora de segurar algo que era seu, tão pequeno, tão vulnerável.
Os olhos queimaram antes mesmo de ela perceber. Mas então veio o outro lado. A consciência. A lembrança do teste. Do bilhete. Da falta de verdade. Um aperto na garganta subiu tão rápido que ela precisou encostar a mão no vidro para se equilibrar.
“Por que você faz isso comigo, Verena?
Por que me dá esperança com uma mão e tira com a outra?”
O silêncio do corredor a envolvia quando, de repente, uma mão pousou em seu ombro. Silvia deu um sobressalto, virando-se rápido demais.
Era apenas sua mãe.
Lúcia estava sem fôlego, o rosto vermelho, os olhos marejados — não de tristeza, mas de algo que Silvia não conseguiu decifrar num primeiro instante. O cabelo preso apressadamente revelava o quanto ela tinha vindo depressa, talvez correndo pelos corredores.
— Mãe? — Silvia deu um passo à frente, a voz tensa. — O que foi? O que aconteceu?
Lúcia tentou falar, mas o ar ficou preso na garganta por um segundo. Ela apertou a mão da filha, como se precisasse do toque para conseguir se sustentar.
Então, finalmente:
— Seu pai… Seu pai acordou, Silvia.
O mundo pareceu girar um pouco. Silvia piscou, confusa, quase sem acreditar no que ouvira.
— O quê?
Lúcia assentiu, lágrimas deslizando agora sem qualquer vergonha.
— Acordou, minha filha. Acordou mesmo. Com os olhos abertos… tentando falar… — a voz falhou. — A médica tá lá com ele. Ela pediu pra chamar você.
Silvia levou a mão à boca, sufocando o som que saiu. Os olhos se encheram de lágrimas quentes e pesadas, como se viessem de um lugar que ela vinha segurando há dias, semanas, talvez meses.
— Ele… ele acordou? — repetiu, como se precisasse ouvir de novo para existir.
— Acordou. — Lúcia sorriu entre lágrimas. — Ele tá fraco, tá confuso, mas… ele voltou pra gente, Sil.
Silvia fechou os olhos por um segundo — só o suficiente para segurar o colapso que ameaçava transbordar. Ela inspirou fundo. Olhou para o vidro do berçário. Depois para a mãe.
— Vamos. — disse, firme como não se sentia. — Vamos mãe!
Lúcia a abraçou com uma força inesperada, apertada, visceral — um abraço que, se pudesse, a protegeria da vida inteira. E as duas caminharam juntas pelo corredor brilhante, sem perceber que Silvia ainda enfrentava sua própria batalha interna.
Alesp — Gabinete da Deputada Verena Castilho, 16h48Verena permanecia sentada, imóvel, as mãos pousadas sobre a mesa como se sustentassem o próprio corpo. Só o relógio de parede marcava o tempo, insistente, pontual, irritante.
Ela finalmente soltou o ar e empurrou a cadeira para trás. Levantou-se. Andou até a janela. O vidro refletia seu rosto — impecável de longe, exausto de perto. O sol da tarde avançava pelas frestas da persiana, criando linhas de luz que cortavam seu corpo como grades.
Felizmente, não havia ninguém no gabinete para ver o momento em que o queixo vacilou. Pegou o celular. Desbloqueou. Nada. Nenhuma notificação.
A conversa com Silvia seguia, parada. A mensagem parecia agora um monumento à própria compulsão. O envelope. O teste. A audácia do gesto. Uma mistura tóxica de culpa e estratégia. Verena passou o polegar pela borda do celular, o gesto automático de quem tenta evitar encarar a verdade de frente.
“Silvia sempre responde”, pensou. Mesmo quando está magoada, mesmo quando finge indiferença, mesmo quando passa dias ignorando o afeto. Mas ela responde. Mas não havia resposta. Abriu o WhatsApp pela quarta vez em três minutos.
Nada.
Fechou. Abriu de novo.
Nada.
Encostou a testa no vidro, permitindo que a frieza acalmasse o calor estúpido na pele.
“Ela viu. Leu. E escolheu não responder.”
O estômago se contraiu. A mão abriu e fechou ao lado do corpo — inquieta, impaciente. Verena voltou para a mesa e sentou-se devagar. Por um instante, o peso do corpo pareceu exagerado demais para os próprios ombros.
Abriu o e-mail institucional. Fechou. Abriu um documento qualquer. Fechou também. Os papéis não paravam de tremer entre os dedos. Ela largou tudo e voltou ao celular. Dessa vez, abriu outra conversa.
Valentina.
A mensagem que enviara horas antes continuava ali, azul, imóvel, incrivelmente silenciosa. Nenhum indicativo de que a menina estivesse do outro lado da tela. Verena apoiou o cotovelo na mesa e fechou os olhos por um segundo. Duas mulheres. Duas ausências. Dois silêncios distintos — e igualmente devastadores. Sentiu uma onda quente subir pelo peito — irritação, medo, frustração, saudade. E um pensamento intruso, pequeno e perigoso:
“E se eu tiver perdido as duas ao mesmo tempo?”
Ela mordeu o lábio inferior, forte demais. A mandíbula travou. Por alguns instantes, a figura pública da mulher impenetrável… desapareceu. Restando só… Verena. Pegou o celular mais uma vez. Quase digitou algo para Silvia. Apagou. Quase digitou algo para Valentina. Apagou. Sentiu um aperto no peito. A respiração curta. A certeza incômoda — quase grotesca — de que, pela primeira vez em muito tempo, não era ela quem tinha o controle. E isso, para Verena Castilho, era o verdadeiro inferno.
Hospital Sírio-Libanês — Quarto 408, Ala de Internação, 17h41A porta abriu com um rangido suave. Silvia entrou devagar, como quem teme que o próprio som dos passos possa machucar. O quarto tinha luz baixa, elegante, silenciosa. Equipamentos apitavam num ritmo lento, quase sonolento. Álvaro estava deitado, o rosto pálido, mas os olhos — finalmente — abertos.
O impacto a atingiu num solavanco.
— Pai… — ela sussurrou, aproximando-se de imediato.
Os olhos dele se moveram devagar, procurando, tentando reconhecer. Quando encontraram o rosto da filha, algo amoleceu dentro deles — um misto de surpresa, fragilidade, cansaço.
— Sil… via… — a voz saiu arrastada, quase um sopro.
Ela sorriu, e o sorriso era inteiro, sincero, emocionado. Puxou a cadeira, arrastando-a com cuidado para não fazer barulho.
— Tô aqui. — disse, segurando a mão dele. — Tô aqui, pai. Graças a Deus.
Ele piscou lentamente. Demorou para organizar a respiração, como se cada palavra exigisse uma força que o corpo ainda não tinha.
— Você… demorou…
Silvia apertou a mão dele com carinho, sentindo a pele fria, fina demais.
— A mamãe entrou antes de mim. — explicou, com a voz baixa. — Ela te avisou que eu tava aqui? Que você deixou a gente apavorado?
Um sorriso fraquíssimo tocou o canto da boca dele — quase imperceptível.
— Eu… acordei.
Ela riu, um sorriso emocionado.
— Acordou. E não sabe a alegria que é te ver assim.
O monitor apitou numa cadência constante. Silvia observou o pai com olhos atentos — cada pequeno movimento, cada tentativa de falar. E então, do nada, com a mesma naturalidade de alguém que pergunta as horas, ele disse.
— Neném… Cadê… meu neto?
Silvia congelou. Uma sensação estranha, algo entre choque e náusea, subiu pelo peito.
— Pai.. — ela tentou, mas a voz saiu falha. — Que neném?
Álvaro franziu o cenho, confuso por um segundo — depois sorriu. Um sorriso cheio de doçura, mas vazio de precisão.
— O… meu neto. — apontou com o olhar para o corredor, como se esperasse vê-lo entrar a qualquer instante. — Achei que… você ia… trazer.
Silvia sentiu o coração apertar tanto que chegou a perder o ar por meio segundo. Corrigir poderia deixá-lo agitado. Pedir para ele “lembrar direito” poderia aumentar a confusão. Falar sobre a real situação emocional dela… impossível.
A escolha tinha que ser a que doeria menos. Pra ele.
— Pai… — ela começou, respirando fundo — você precisa descansar agora, tá?
Pousou a mão no braço dele.
— A gente fala disso depois.
Ele insistiu, olhos cheios daquele brilho infantil que vem com a confusão neurológica.
— Mas… eu vi… — A voz embargou. — Ele… pequenininho… — Tentou o gesto de ninar com as mãos, mas a falta de força interrompeu no meio. — Pensei que… que… meu neto.
Silvia engoliu seco, sentindo o corpo inteiro tremer por dentro.
— Pai… calma. — disse, carinhosa. — Vamos com calma. Você acabou de acordar… é muita informação.
Ajeitou o lençol no peito dele só pra ter algo físico para fazer, algo que segurasse o próprio desespero.
— Fica tranquilo… tá tudo bem.
— Eu… quero ver… — ele repetiu, com a persistência suave de quem não entende que está enganado. — Meu neto…
Silvia fechou os olhos por meio segundo. Só meio. Porque mais do que isso seria arriscar desabar ali mesmo.
— Daqui a pouco, pai. — ela disse, forçando um sorriso que não alcançou os olhos. — Agora você precisa ficar quietinho. Tá bem?
Álvaro assentiu devagar, como se aceitasse sem compreender.
— Tá… — respiração curta — Só… não esquece dele.
A frase a atravessou como uma lâmina. Silvia sentiu a visão embaçar.
— Não… — ela sussurrou. — Eu nunca esqueço.
A porta abriu com cuidado. A enfermeira sinalizou com um gesto gentil que o tempo tinha acabado. Silvia inclinou-se, beijou a testa do pai — um beijo leve, rápido, o bastante para não deixá-lo perceber o tremor.
— Eu volto já. — A voz quase falhou. — Fica com Deus, pai.
Ele tentou sorrir. Silvia saiu do quarto com passos lentos, respirando como quem segura o peso do mundo na boca do estômago. Assim que a porta se fechou atrás dela, a expressão que ela vinha segurando se despedaçou por completo.
Porque o pai confundido, acreditando num neto que não existe, doía mais do que qualquer coisa. Porque era o seu sonho. O sonho dele. E agora… uma mentira acidental.
Hospital Sírio-Libanês — Varanda lateral da Ala 400, 18h00
O vento ali em cima tinha outro cheiro. Menos hospital, mais cidade. Carros passando no nível da rua, buzinas ao longe, o perfume distante de comida de rua misturado ao ar frio das alturas. Verena estava apoiada no parapeito de concreto, de costas para a porta.
A jaqueta clara ondulava com o vento, e o cabelo — impecável de manhã — agora caía solto em ondas irregulares, batendo de leve contra o rosto. Havia acabado de desligar o telefone. Silvia desceria. Sem resistência. Sem perguntas. Sem demora. E isso inquietava mais do que um “não”.
A porta automática abriu com um suspiro. Verena virou apenas o rosto e o impacto foi imediato. Silvia estava ali. Cabelo preso às pressas, camisa simples, olheiras leves marcando o rosto. Parecia mais magra, mais cansada, mais bonita de um jeito que doía. A expressão não era fria. Era pior: absolutamente impenetrável.
Verena endireitou-se devagar, as mãos deslizando pelo concreto num gesto quase imperceptível de ansiedade. Silvia parou a dois passos dela. Não avançou. Não recuou também. A tensão entre as duas se formou como um campo magnético.
— Obrigada por descer. — Verena disse primeiro, num tom calculado para soar suave.
Silvia apenas assentiu, sem emoção aparente. O silêncio ficou grande demais. Incômodo demais. Verena deu um passo na direção dela. Pequeno. Deliberado. Silvia recuou no mesmo instante. Um movimento curto, mas definitivo. O golpe foi silencioso, mas certeiro.
Verena respirou fundo, tentando não reagir.
— Eu só… queria falar com você olhando nos seus olhos.
Silvia cruzou os braços no peito — não como defesa, mas como alguém que se prepara para ouvir algo desagradável.
— Então fala. — disse, a voz baixa, firme, sem tremor.
Verena engoliu a própria estratégia por um segundo. Nada do que tinha ensaiado parecia fazer sentido diante daquele olhar. Mas ela reuniu o arsenal.
— Como ele tá? — perguntou, com voz mais suave do que usaria com qualquer outra pessoa. — O seu pai.
A resposta da esposa veio com um pequeno atraso, como se ela precisasse lembrar de si antes de lembrar da notícia.
— Acordou. — disse, enfim. — Tá consciente. Ainda confuso, mas… acordou.
Verena sorriu. Dessa vez, um sorriso verdadeiro.
— Isso é… ótimo, Sil. Você não sabe o quanto eu queria ouvir isso.
E deu um passo à frente, num ímpeto de abraçá-la. Silvia recuou imediatamente. Não muito — um meio passo. Mas suficiente. Verena congelou a mão no ar. Depois recolheu com elegância calculada.
— Desculpa. — Silvia disse, num fio de voz. — Eu só… não quero misturar as coisas agora.
Verena observou-a com atenção minuciosa. Notou o tremor leve nos dedos, a rigidez do maxilar, a respiração que acelerava sempre que ela se aproximava. Abaixou um pouco a cabeça, suavizando o olhar — o gesto exato que sabia que desmontava Silvia desde antes do casamento.
— Silvia… eu sei que te magoei. — Começou, aproximando o corpo poucos centímetros, medindo a reação. — Sei que nossa última conversa foi horrível. Eu errei.
Pausa.
— E eu queria tentar… corrigir.
Silvia não piscou. O vento levando parte de seu cabelos para trás, revelando o rosto cheio de uma expressão nova — uma mistura de frustração, cansaço e, acima de tudo, desconfiança.
— Corrigir? — repetiu, calma demais para ser um sinal de paz. — Você acha que um… gesto impulsivo resolve? É isso?
A menção ao “gesto” fez Verena prender o ar. Ela olhou para o chão por meio segundo, recuperando o controle antes que o corpo a traísse.
— Não foi impulsivo. — Respondeu, baixinho. — Talvez eu tenha exagerado um pouco, é verdade, mas….
Silvia riu. Um riso curto, sem humor.
— E você acha que isso melhora a situação?
Verena deu mais um passo, cuidadoso, lento. Silvia não recuou dessa vez, mas virou o rosto de leve — suficiente para recusar o contato. Verena sentiu cada milímetro do movimento.
— Eu só queria te mostrar que ainda existe um futuro pra nós. — Disse, tentando manter a voz estável. — Que eu ainda estou aqui. Que eu ainda acredito.
Silvia inspirou fundo, olhando para o chão. A mão esquerda tremia levemente, mas ela escondeu no bolso.
— Eu quero entender. Você sabe o que isso significa pra mim. Você sabe melhor do que qualquer pessoa. — Engoliu em seco. — Por que mandar um teste de gravidez? Por quê? A voz tremia na borda de algo perigoso. — Por que brincar com isso?
A palavra brincar atingiu Verena como uma faca. Ela fechou os olhos por meio segundo, mas não fugiu.
— Eu não brinquei com nada. — Disse, baixo. — Eu… errei na forma de te mostrar. Mas não foi brincadeira.
Silvia soltou uma risada breve, quase amarga.
— Claro que foi. — Murmurou. — Você sabe que é o meu ponto fraco. E usou pra me atingir.
Verena deu um passo para o lado, não para frente — evitando pressioná-la. Silvia olhou para o chão, depois para o vidro da varanda que refletia parte da cidade — o trânsito, o sol esmaecido da tarde, as luzes começando a acender.
— Você sabe que eu quero ser mãe. — Disse, quase num desabafo. — Você sabe há anos. E manda isso… como se fosse um convite, como se fosse… — A voz falhou — como se fosse a primeira vez que você realmente estivesse disposta.
Verena engoliu em seco.
— Eu tô disposta.
Silvia ergueu o rosto, rápido. Havia raiva, tristeza, incredulidade.
— Diz isso agora, depois de me machucar, me esconder as coisas, mentir e… — parou, porque estava prestes a perder o controle. — Verena, não faz isso comigo. Você não tem o direito de usar o meu sonho como desculpa pra diminuir sua culpa.
A respiração de Verena mudou — mais longa, mais concentrada. Ela se endireitou.
— Eu sei que o teste foi… demais.
Outro passo lateral, diminuindo a distância sem invadir.
— Mas foi a única forma que eu encontrei de te mostrar que… eu tô disposta a tentar. De verdade. Do jeito certo.
Silvia piscou, e uma lágrima escapou sozinha — silenciosa, inesperada. Limpou rapidamente, como quem se recusa a dar munição.
— Verena… — disse, com a voz quebrada — não joga isso em cima de mim se você não tiver certeza. — Inspiração curta. — Eu não aguento mais ser a única com esperança nesse casamento.
Verena sentiu algo ceder dentro da esposa. Quase deu um passo — quase — mas se conteve. O vento balançou uma mecha do cabelo de Silvia. Ela não percebeu o quanto estava tremendo. Mas Verena percebeu. E não disse nada. Apenas suavizou a voz.
— Eu não mandei aquele teste pra te enganar. — Pausa. — Eu mandei porque… eu precisava que você soubesse que eu ainda te vejo assim. — Os olhos estavam firmes. — Como a mãe dos meus filhos.
Silvia fechou os olhos como se tudo dentro dela tivesse sido puxado para fora, de uma vez.
— Eu fiquei preocupada com você. — Murmurou, aproximando meio passo. — Só pensava em como eu fui uma idiota com você e em como você faz falta na nossa casa, na nossa cama.
Silvia abaixou os olhos. A mão livre foi ao bolso da calça, apertando o tecido como se precisasse de algo para segurar.
— Verena… não faz isso agora.
— Fazer o quê? — A deputada perguntou, com calma perfeita. — Me preocupar? Ser sua esposa?
— Ser… você. — Silvia soltou, finalmente abrindo a fissura que Verena esperava. — Quando você fala desse jeito… eu… eu não consigo.
Verena piscou devagar.
— Não consegue o quê?
Silvia desviou o olhar, apertando os lábios numa linha fina.
— Não consigo pensar direito.
Inspirou fundo.
A confissão saiu baixa, envergonhada, quase infantil. Verena sentiu a vitória se aproximar como um perfume.
— Silvia… — Disse, agora permitindo que a voz descesse um tom — eu tô aqui. Eu vim. Vim porque você me pediu sem pedir.
Silvia engoliu seco.
— Eu não pedi nada.
— Você pediu. — Verena insistiu, calmamente. — na sua voz quando me atendeu. No jeito que desceu agora, mesmo dizendo que não queria me ver.
Silvia recuou um centímetro. A deputada se aproximou do mesmo espaço.
— Sil… — Verena sussurrou — Eu te amo. Eu sei que você ainda me ama. Eu sei.
Silvia fechou os olhos com força, como quem tenta impedir algo de escapar.
— Verena… não fala assim. Por favor.
— Por quê? — A deputada perguntou, inclinando um pouco o corpo para tentar ver seu rosto. — Porque você acha que é mentira? — Pausa. — Ou porque é verdade?
Silvia sentiu o corpo tremer. E Verena finalmente entendeu o ponto exato onde o fio emocional estava prestes a partir. Baixou ainda mais o tom de voz.
— Amor… Olha pra mim. Me deixa ficar. — murmurou. — Hoje. Aqui. Agora.
Silvia respirou fundo. Quando abriu os olhos, havia neles algo que doía: amor e raiva misturados em proporções que não conseguia definir. E quando encarou Verena, o rosto da esposa estava exatamente como ela sempre temia — e desejava — ver: suave, concentrado, quase terno.
Verena deu um passo — apenas um. Sem pressa, sem exagero.
— Eu sei que eu te feri. — Disse, a voz baixa e firme. — E sei que você tem todo direito de me virar as costas agora.
Silvia inspirou fundo, tentando manter a rigidez. Verena, então, escolheu o ponto exato.
— Mas eu também sei… — Ela deu outro passo, diminuindo a distância a menos de um metro — …que você não quer me perder.
O rosto de Silvia se contraiu. Uma dor tão humana que parecia física.
— Eu não quero que você diga nada. — Verena continuou, o tom quase hipnótico. — Só deixa eu ficar aqui. — A pausa que veio não era retórica, mas estratégica. — Só deixa eu ser pra você o que você sempre foi pra mim.
Silvia apertou os dedos contra a própria camisa, como se tentasse segurar algo dentro do peito. O queixo tremia — não de choro, mas de resistência. Uma resistência que estava se desfazendo.
— Verena… — disse, com a voz mais fina — eu não posso…
A deputada inclinou a cabeça, como quem aceita o argumento — para, em seguida, derrubá-lo delicadamente.
— Então por que você desceu?
Silvia piscou. As lágrimas que surgiram não eram de dor — eram de exaustão.
— Eu… — ela tentou responder, mas a voz falhou.
Verena deu o golpe final — silencioso, mas devastador. Levantou a mão devagar, sem tocar, apenas aproximando os dedos da face de Silvia, deixando o calor da pele anunciar a intenção.
— Porque você sente minha falta. — Murmurou. — E eu sinto a sua.
O gesto — quase toque, quase promessa — foi o suficiente. Silvia perdeu a força do próprio corpo por meio segundo. Os ombros desceram, a respiração acelerou, a expressão cedeu numa brecha minúscula, mas fatal. E Verena, com a precisão perfeita de quem conhece o terreno emocional da esposa como ninguém, deu o último passo.
Silvia não recuou dessa vez. O movimento foi quase imperceptível, mas ela se inclinou. Só um pouco. Mas o suficiente para desabar no lugar exato que sempre foi só dela.
Verena a envolveu pelos ombros, sem pressa. Nenhum movimento brusco. Nenhuma possessividade. Um abraço firme, calculado, mas profundamente íntimo. Silvia encostou o rosto no ombro dela. E finalmente chorou. Chorou baixo, como quem tenta se esconder e, ao mesmo tempo, não consegue mais se segurar.
Verena manteve uma das mãos nas costas da esposa, enquanto afagava os cabelos finos da nuca com a outra. — Movimentos lentos, de quem consola e conquista ao mesmo tempo.
— Tá tudo bem… — sussurrou, perto da orelha. — Eu tô aqui.
Silvia agarrou o tecido do blazer, quase sem perceber. E Verena fechou os olhos, sentindo a vitória silenciosa, a culpa pulsando junto, mas vitória ainda assim. Silvia respirou, tremendo. As lágrimas ainda desciam silenciosas, absorvidas pelo ombro de Verena. O corpo estava entregue, mas a mente tentava trazer a lucidez e a memória do motivo de ter descido.
Verena percebeu a hesitação — e apertou um pouco mais a cintura da esposa, guiando-a para perto.
— Você não precisa passar por isso sozinha. — sussurrou, a voz entrando direto na pele da esposa, quente e delicada. — Eu sei que eu errei com você. Sei mesmo. — Outro sussurro, firme. — Mas nada disso muda o que eu sinto… nem o que eu quero construir com você.
Silvia mordeu o lábio, sufocando um soluço. Sentiu o arrepio correr pelo braço de forma involuntária. Verena sentiu. E então houve um momento — pequeno, mas devastador — em que apertou o blazer da esposa com mais força, quase como um pedido de socorro.
— Verena… — murmurou, com a voz abafada no ombro dela. — Eu… eu não consigo mais esperar.
Verena abriu ligeiramente os olhos, surpresa. Silvia falava entre respirações curtas, como se finalmente deixasse escapar algo que guardou por tempo demais.
— Não dá mais pra adiar tudo. — Continuou, agora com o queixo apoiado no ombro da deputada, o corpo inteiro pedindo descanso. — Eu passei anos acreditando… anos… que uma hora você ia estar pronta. Que era só ter paciência. Só tempo.
A voz falhou.
— E eu tô cansada, Verena. Tão cansada…
Verena deslizou a mão pelas costas dela, subindo até a nuca num gesto leve, cuidadoso — profundo.
— Silvia… olha pra mim.
Silvia hesitou, mas levantou o rosto, os olhos vermelhos, ainda brilhando. O vento frio bateu entre as duas, mas Verena estava perto o suficiente para aquecê-las.
— Eu não posso colocar o meu sonho pra depois de novo. — Silvia continuou, a voz intensamente vulnerável. — Não dá mais. — As lágrimas voltaram a cair. — Eu quero ser mãe. Eu sempre quis. Eu… eu não aguento mais adiar isso por sua causa.
Verena sentiu o golpe — não como acusação, mas como verdade nua, impossível de contornar.
— Sil… — tentou, mas Silvia cortou antes.
— Se você quer voltar… — a voz tremeu — vai ser assim.— Passou o dorso da mão rapidamente no rosto, tentando retomar algum controle. — Eu não posso te dar outra chance se for pra viver do mesmo jeito. Eu não posso.
Engoliu seco.
— Eu tô te dando a última, Verena. A última mesmo.
O mundo pareceu ficar mais silencioso naquele instante. O hospital, o barulho distante de ambulâncias, o vento nos vidros, tudo desapareceu atrás da frase. Verena soltou um ar lento, como se tentasse absorver o peso daquilo. Silvia respirou fundo, olhos fixos nos dela.
— Ou você vem comigo… — Pausa curta, mas absoluta. — …ou eu vou ter meu filho sozinha.
A frase não veio com ameaça. Veio com dor. Com cansaço. Com verdade. Verena sentiu algo apertar no peito — um misto de medo, amor, orgulho ferido e a percepção clara de que dessa vez não havia brecha. Silvia não estava manipulando. Não estava implorando. Estava se despedindo, se não reagisse.
A deputada aproximou o rosto só um pouco, quase na altura do nariz da esposa, sem tocar, mas próximo o suficiente para que Silvia sentisse o calor de sua respiração.
— Eu entendi. — Verena disse, baixo, firme, sem desviar o olhar. — E eu não vou perder você.
Silvia fechou os olhos, como quem dá um passo no escuro. E Verena, por um instante raro, viu a esposa vulnerável, inteira, sem defesas.
Hospital Sírio-Libanês — Estacionamento Lateral, 18h47Verena desceu para o estacionamento com passos firmes, mas por dentro tudo estava fora de ritmo. A conversa ainda pulsando na pele — o cheiro do cabelo de Silvia, o tremor no corpo da esposa, o ultimato dito do jeito mais calmo e cortante possível.
“Ou você vem comigo… ou eu vou ter meu filho sozinha.”
A frase grudou como um segundo pulso. O sol começava a baixar entre os prédios altos, formando reflexos duros no capô dos carros. Verena apertou o controle, destravou o veículo com um estalo seco e entrou.
Fechou a porta. E só então permitiu que a respiração saísse inteira. Lenta. Pesada. Se inclinou no banco, apoiando o cotovelo no volante, a mão na testa, os olhos fechados por alguns segundos. A imagem de Silvia chorando em seu ombro voltou como um flash quente.
— Última chance… — repetiu, baixinho, com uma ironia amarga. — Claro que teria que ser assim com você, Sil…
Abriu os olhos, encarando o painel apagado como se o carro pudesse lhe dar respostas. Ela não estava em paz. Mas tampouco estava derrotada. Havia um cálculo acontecendo por trás das emoções — automático, interno, quase político. E, ao mesmo tempo, havia um sentimento genuíno arrastando tudo para baixo, criando um peso no fundo da garganta.
A decisão estava tomada. Mas o caminho… o caminho era outra história.
Verena ajustou o espelho do retrovisor com a precisão de quem precisa ocupar as mãos para não pensar demais. E nele, viu o próprio rosto refletido — abatido, tenso, mais humano do que gostaria de reconhecer.
Soltou um suspiro pesado. Queria focar só em Silvia. Na conversa. Só no que tinha que fazer dali em diante. Mas a mente nunca obedecia tão fácil. Sem pensar, pegou o celular no console. Desbloqueou. Lá estava, a última conversa com Valentina. Sem resposta.
A mão tremeu um pouco — não de fragilidade, mas de exaustão emocional. Por um segundo, pensou em mandar outra mensagem. Só um “você tá bem?”, ou “me desculpa mais uma vez”, ou qualquer coisa que aliviasse aquele vazio.
Mas não. Não podia parecer desesperada. Não com Silvia acabando de lhe entregar um ultimato que poderia mudar sua vida inteira. Deixou o celular cair no colo. Passou as duas mãos no rosto, puxando o cabelo para trás. Respirou fundo, profundamente, como se tentasse reorganizar as peças internas.
— Ótimo. — murmurou, com um riso curto, sem humor. — Mais uma pra resolver.
Verena endireitou a postura, ajustou o espelho, ligou o carro. colocou a mão no câmbio, respirou fundo, e num sussurro quase imperceptível, disse para si mesma:
— Castilho… você se meteu numa encrenca das grandes.
Girou a chave, engatou a marcha. O motor ligou num ronco suave, preenchendo o silêncio. Mas a verdade era que pela primeira vez em muito tempo, Verena tinha medo do que estava prestes a perder… e do que precisaria fazer para não perder nada. E saiu devagar do estacionamento, enquanto o céu da cidade começava a escurecer, exatamente como seus pensamentos.
Apartamento nos Jardins — 19h49O apartamento estava silencioso quando Verena entrou. Não o silêncio neutro de sempre. Mas um silêncio estranho, cheio de sombras mais longas, mais densas, como se a casa registrasse a ausência de Silvia com uma pontualidade cruel.
A porta bateu atrás de si com um clique seco.
Verena caminhou alguns passos, largou as chaves na mesa de centro e deixou o blazer sobre o encosto do sofá. O barulho metálico ecoou alto demais para o tamanho da sala. Ela ficou parada por alguns instantes, apenas olhando.
O lugar parecia… estéril.
A manta dobrada no sofá ainda estava exatamente como Silvia deixara no último dia em que dormiram juntas ali. O vaso com flores que a esposa trocava toda semana agora tinha flores murchas, caídas nos cantos.
Um tênis pequeno demais para a deputada ainda estava perto da porta — Silvia sempre esqueceu de guardá-lo. Nada tinha acontecido ali. E, ainda assim, tudo tinha mudado. Verena passou a mão nos cabelos, caminhou até a cozinha e abriu a geladeira por reflexo. Fechou em seguida — não estava com fome. Nem sede.
Estava com a mente cheia demais. Encostou as mãos na pia de inox, inclinou o corpo e respirou fundo, tentando se ouvir. O ultimato da esposa ecoou como se tivesse sido dito dentro da própria casa.
“Ou você vem comigo… ou eu vou ter meu filho sozinha.”
Verena apertou os olhos. Sabia que a frase não era chantagem. Era verdade. Silvia chegara ao limite — e isso mexia com ela mais do que gostaria de admitir. Virou-se e caminhou até a varanda. Abriu a porta de vidro, deixando o vento frio entrar. A vista dos Jardins estava acesa, azulada, viva — e completamente indiferente ao que ela sentia.
A cidade seguia.
Ela não.
As mãos apoiadas no corrimão tremeram levemente.
Última chance.
E, como se a mente traísse a própria dona, o rosto de Valentina surgiu, com aquela expressão assustada da última vez que a viu. Verena fechou os olhos de novo, agora com um cansaço que parecia atravessar os ossos.
— Porr*… — murmurou, sem ironia. — O que eu fiz?
A pergunta não tinha resposta. E o apartamento também não tinha ninguém para responder. O celular vibrando no bolso traseiro interrompeu o pensamento. Uma notificação curta. Não uma ligação. Verena tirou o aparelho, olhando a tela com uma expectativa que odiava ter.
Nenhuma mensagem de Silvia. Nenhuma resposta de Valentina.
Só um lembrete automático do calendário. Soltou um riso curto e amargo.
— Claro.
Guardou o celular, apoiou a testa no braço e se debruçou sobre a própria varanda como quem tenta impedir o mundo de girar. Sabia que, se errasse agora, perderia não só a esposa… mas também algo que não conseguia nomear quando pensava em Valentina.
Fim do capítulo
Oieee! Boa noite! :)
Espero que todos stejam bem. S2
Perdoem se encontraram algum errinho. Eu tento ao máximo não deixar passar nada. Mas quando as letrinhas começam a dançar rsrs, a tarefa fica um pouqinho mais difícil.
E gente, aproveitem a sexta. Nossa, eu amo sexta-feira rsrs. E desejo de coração que aproveitem ao máximo o final de semana. Vou tentar trazer mais um capítulo antes de segunda. E, sem spoiler, mas agora as coisas vão ficar mais... intensas.
Beijos e fiquem bem! S2
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Zanja45
Em: 22/11/2025
Verena gera muitas incertezas. - Os sentimentos dela não são instaveis. - Só que dessa vez ela caiu nas próprias artimanhas. E ainda assim ela julga que "A decisão estava tomada...mas o caminho não". KKKK! A mulher não está se sentindo em paz, mesmo apos essa ultima chance. E ela ainde se vê querendo acertar com Valentina. - Ela esta entre dois mundos e com muitos problemas para dar conta. - Por isso que ela está nesse estado, muito sobrecarregada com emoções mal resolvidas.
Zanja45
Em: 23/11/2025
É, porque ela não estava em paz. - Eu fico até com medo dela ter um troço de tanto estresse que ela vive, mas ela aguenta, pois ela domina muito bem o emocional dela, si não sabe lidar com ele.
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Zanja45
Em: 22/11/2025
A deputada dessa vez apesar de todas as estratégias e argumentos utilizados para conseguir penetrar nas defesas de Silvia. No fim, Silvia conseguiu se impor, mesmo se desmachando nos braços da esposa, pois ela percebeu que não precisa esperar mais para concretizar um sonho que sempre teve, o de ser mãe. - Verena foi forçada a decidir agora ou vai ou Silvia vai ser mãe independente.
anonimo2405
Em: 23/11/2025
Autora da história
É, pois é. Acho que não foi bem o desfecho que ela esperava né. Mas gostei da Silvia conseguir se colocar em primeiro lugar. Tudo bem que ela preferiu fechar os olhos pros galhinhos que a Verena coloca nela né, mas... Cada um com seu cada um. Vamos ver o que vai dar agora.
Zanja45
Em: 23/11/2025
Pelo visto o sonho de ser mãe é o que é o mais importante nesse momento. - E pelo que vi é o do pai também. - Cheguei até a pensar que essa ânsia de ter um filho, fosse por uma cobrança paterna. - Mas, não, Silvia tem muito amor pra dar, e vontade de ser mãe,então o que pensei não tem muita lógica.
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Zanja45
Em: 22/11/2025
Quando a mãe de Silvia chega no berçário pensei que tivesse trazido uma noticia ruim. - Juro que fiquei em alerta : "o pai dela morreu", mas que bom que ele acordou não foi o que suspeitei. KKKK!
Agora, parece que ele ficou um pouco confuso. Isso é normal após um coma, mas isso dele falar de um neto que ainda não existe, não é preocupante? Silvia não queria nem pensar em outra possibilidade naquele instante, só quis tranquilizar ele.
anonimo2405
Em: 23/11/2025
Autora da história
kkkkkkk, aii pelo menos uma notícia boa né rsrssr. Esperamos que ele se recupere bem e que essa confusão com o neto não seja nada demais. Mas talvez daqui a um tempo ele vá ter um netinho mesmo pra segurar rssr.
Zanja45
Em: 23/11/2025
Tomara mesmo! Que esse devaneio seja apenas fruto de uma consciência confusa após o período que ficou em cima.
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Zanja45
Em: 22/11/2025
Que lindo o sonho de ser mãe de Silvia, a imagem que ela formou ali enquanto observava os bebes no berçário. - Que pena que sejam contrastados pelos pensamentos mal intencionados da esposa. - Pois fere os sonhos tão lindos dela.
anonimo2405
Em: 23/11/2025
Autora da história
Aiii nem me fale. Sei que não são todas as mulheres que pensam assim e na vdd não tem certo nem errado. Mas eu vejo a maternidade como a maior experiência que uma mulher pode ter. Gerar uma vida. Ser chamada de mamãe. É muito lindo.
Infelizmente a Verena ainda não compartilha do mesmo sonho. Mas quem sabe ela mude de ideia né, ainda que sob leve pressão rsrs. Mas brincadeiras a parte, acho que pra planejar um filho, é essencial ter o consentimento de ambas as partes. Pq não é qualquer coisa. É uma vida que vai depender de vc por muito tempo.
Zanja45
Em: 23/11/2025
É, com certeza. - Verena não está pronta ainda, mas quem sabe quando ela começar a vivenciar a maternidade tenha uma mudança significativa na vida dela.
Silvia já está prontissima, pois ela já até mentalizou a realidade sendo mãe .
anonimo2405
Em: 23/11/2025
Autora da história
Siim. Eu sou suspeita pra falar rsrs, mas eu morro de curiosidade de ver ela como mãe. Não sei se vai ser agora ou mais pra frente, ou se ela vai de fato passar por isso, mas seria bem interessante. E a Silvia é perfeita rssr.
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Zanja45
Em: 22/11/2025
Esse embate de gigantes Verena e Jessica. - Mas a deputada como sempre sustentou bem as insinuações da venenosa da Jéssica. No final gostei que ela começou a ajustar as pontas soltas com Rafaella, porque Jéssica estava contando com um conflito maior, pois ela sabe que Rafa é muito emocional e que as questões não resolvidas com Verena fazem ela se dissolver.
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Zanja45
Em: 22/11/2025
E esse reencontro de Léo e Valentina? Ela ficou temerosa que ele soltasse algo na frente da mãe, por isso não foi muito receptiva com ele. - Ela estava torcendo para que ele não dissesse nada. KKKK!
Ainda bem que ele soube se policiar, apesar de tantas perguntas que ele fez. - Mas ele sabia toda a verdade sobre o interlúdio dela com Verena e as apoiava.
Léo é um fofo, apesar de ter algumas ressalvas em relação a aproximação dele com Valentiva. - Acreditava ter um interesse excuso por tras. Porém não mais o tenho, pois já percebi que os laços de amizade são muito forte nessa trama que dá até para confundir com algo mais.
anonimo2405
Em: 23/11/2025
Autora da história
kkkkkk, não é. Imagino o medo que ela deve ter ficado. Mas o Léo é uma pessoa legal, as vezes me pergunto oq ue ele faria se soubesse do que aconteceu entre a Valentina e a Verena. rsrs Pq desde o estágio ele já suspeitava né rsrs.
Zanja45
Em: 23/11/2025
Kkkk! Só depois para Valentina contar pra ele, porque com a mãe de junto ela não pode falar nada.
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Zanja45
Em: 22/11/2025
Eita, a marca já está clarificando, porém os sentimentos de Valentina ainda estão incertos quanto ao ultimo encontro, mas a saudade apesar da raiva, da dor, persiste. Entretanto o deslize de Verena ainda ecoa nos pensamentos de Valen.
anonimo2405
Em: 23/11/2025
Autora da história
Siim, a marca física é a mais fácil de resolver. Agora, a que ficou na mente, essa sim vai exigir uma reparação maior, principalmente da parte da Verena. Mas não acho tbm que a Valentina vá resistir por muito tempo.
Zanja45
Em: 23/11/2025
Verdade!
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Zanja45
Em: 22/11/2025
A cena mais dolorosa e engraçada ao mesmo tempo foi a que Silvia recebe o presente de Verena. O teste de gravidez e o bilheite. E Silvia constata que a caligrafia da esposa e só ela teria a coragem ou a frieza de fazer o que ela fez. E o "te amo". E a frase final "o amor, nas mãos de Verena, sempre vinha embalado em algo que doia". -Isso foi esmagador para Silvia. - Isso demonstra que assim como Verena conhece os pontos fracos da esposa. Silvia da mesma forma conhece a esposa que tem, mesmo não querendo acreditar na tamanha insensibilidade dela. - Ela ainda reluta, a esperança querendo sobrepor a razão, porém é gritante a medição da verdade.
anonimo2405
Em: 23/11/2025
Autora da história
Aii nem me fala rsrs. É aquele rindo de desespero. Mas foi uma atitude muito baia da Verena. Mas eu acho que o tiro saiu pela culatra hein.
Zanja45
Em: 23/11/2025
Foi, ela ficou presa na própria armadilha. - Porque agora Silvia mostrou que vai realizar o sonho dela independente de Verena estar pronta ou não.
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Zanja45
Em: 22/11/2025
Como se ela fosse para longe tanto de Silvia quanto de Valentina fosse resolver alguma coisa. - Não adianta mudar de lugar e as pessoas - Que só irá adiar as situações - porque os problemas não irão embora com o distanciamento, pois não adianta mudar o exterior, sendo que as causas são internas a ela mesma.
anonimo2405
Em: 23/11/2025
Autora da história
Exatamente. Enquanto ela não resolver as questões dentro dela, nenhum lugar que ela for vau livrá-la desses sentimentos.
Zanja45
Em: 23/11/2025
De fato, não!
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Zanja45
Em: 22/11/2025
A verdade de Verena em relação a Silvia que ela lança temores, está conectado a perda de controle. - Que ela não quer perder uma - Por isso esse medo dela. - Por mais que ela disfarce em frente ao espelho, construindo uma autoimagem dela enquanto pessoa acostumada a ganhar todas, mascarar o que sente. Ela se desmantela quando reflete que tem coisas que mesmo se cercando de muita maquiagem política não pode vencer, isso a inquieta, o medo brota, como forma de coibir as açoes dela para ter Silvia de volta.
anonimo2405
Em: 23/11/2025
Autora da história
Siim, concordo com você. Ela tenta se "vestir" de deputada imbatível e pra algumas pessoas ela até consegue passar essa imagem, mas ela não pode se esconder de si própria. E isso muitas vezes acaba interferindo na forma como ela age, nessa tentativa de manter o controle à qualquer custo.
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Zanja45
Em: 22/11/2025
OI, boa tarde, Autora! :)
Está perdoada, encontrei apenas um. Rsrsrsr! Mas será recompensada pelo seu esforço. - Que mesmo cansada e com sono trouxe o melhor de você pra gente - E somente uma palavra em 10527 não irá mudar absolutamente nada, porque aquilo que ficou "suspenso", colocamos no devido lugar para você.
Abraços! S2
anonimo2405
Em: 23/11/2025
Autora da história
Oieee! Boa noite!
Ahhh genteee. Olha, se lembrar, me fala onde tá rsrs que eu vou lá agora ver o danadinho rsrs.
Obrigada pelo carinho viu!
Abraços! :) S2
Zanja45
Em: 23/11/2025
Kkkkk!
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Hanna28
Em: 22/11/2025
E mesmo no abismo de meus pensamentos intrusos
É seu rosto,seu toque
Seus olhos que mesmo assustados
Me dominam sem querer
Me prende o ar
Me faz querer pusar
Nesse desejo tão voraz
Nessa vontade quase primitiva
Que me faz ir sempre ao seu chamado
Te quero
Te desejo
Te amo
Mas no fundo eu ainda preciso
saber amar...
anonimo2405
Em: 23/11/2025
Autora da história
Oieee, boa noite!
Genteee, que lindooo. Sério, já li várias vezes. Gente, a pessoa tem que estar muito apaixonada pra escrever essa poesia. E não adianta me falar que não rsrs.
Abraço! S2
Hanna28
Em: 23/11/2025
Kkk pior que não
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anonimo2405 Em: 23/11/2025 Autora da história
Exatamente. Enquanto ela não tomar uma atitude mais séria, escolher em qual dos mundos quer viver, ela vai viver sempre com essas perturbações, pq sabe que está vivendo pela metade.