Capitulo 3 - Testando a fé alheia
Quando chegamos na casa de Agnes, estávamos sendo aguardadas por Romero, advogado de vovó. Foi ele também que cuidou da papelada do meu divórcio, a pedido da vovó. Ele disse que aguardava enquanto tomávamos um banho e o resto da família chegava.
Fui para a casa de Lilian, pois havia deixado minhas malas e outros pertences lá. Uma ducha quente revigorou minhas energias. Antes de sairmos, ela me fez lanchar algo. Eu tinha o péssimo hábito de passar horas sem me alimentar. Já fiquei mais de 24 horas, e obviamente desmaiei. Naquele dia, estava na faculdade e fui levada para a enfermaria.
Retornamos para a casa central. Meus irmãos já haviam chegado e meu pai estava presente. Parece que vovó tinha deixado algo para ele também. Romero deu início a leitura do testamento que resumia-se nela dizendo que estava de posse de suas faculdades mentais e havia tomado essa atitude para evitar problemas desnecessários, pois conhecia bem a filha e os netos.
Para cada um dos familiares, ela entregou as escrituras das respectivas casas e uma boa soma em dinheiro. Papai ficou dono de uma loja que ele tinha em sociedade com ela e ninguém da família sabia, com exceção de sua esposa. Para Agnes ficou a casa onde elas construíram a família delas e o refúgio delas; um sítio na saída da cidade. La Señora, a Casa Latina ficou dividida entre mim e Lilian, sócias. Tinha também uma carta para cada um de nós e uma gravação para assistirmos. Pluguei o pen drive no notebook e espelhei na Smart TV para que pudéssemos assistir.
- Olá, meus amores. Serei breve. Vocês sabem que vivi de maneira intensa. Amei e fui amada por todos. Fiz algumas escolhas no passado que se arrastaram até o presente, culminando nessa doença. Não fiquem tristes por mim, já me conformei e desfruto do tempo que me resta em paz. Romero já comunicou minhas decisões e peço que não tentem desfazer meus desejos, pois tudo foi organizado de maneira precisa. Sem margens ou brechas. Cada carta contém minhas últimas palavras em particular, leiam como se me escutassem falar. Amo vocês hoje e além. “Te esperaré en el cielo, corazón para empezaremos de nuevo.”
Todos saíram e eu continuei olhando a imagem congelada. É verdade que a doença havia tirado um pouco de seu brilho, mas Inês sempre seria La Señora. Vovó sempre foi uma mulher de “chamar atenção” por onde passava. Logo na entrada da casa, tinha uma parede branca com um enorme quadro pendurado. Era uma foto dela cantando em um evento de gala. Sua pele negra contrastando com o vestido prata, todas as joias possuíam o brilho característico das pedras preciosas que ela amava ostentar. Um sorriso sedutor e os olhos tão negros quanto o portal de um abismo. Uma vez que alguém demorasse os encarando, perdia-se. Inês Gaspar era misteriosa e sabia como encantar e seduzir homens e mulheres. Já Inês Suarez era calma, risonha e alegre.
Na cozinha, mamãe falava com meus irmãos sobre ser, mais uma vez, preterida por sua mãe. Que até no leito de morte ela não foi capaz de reconhecer tudo o que ela fez e todo o discurso que já estamos cansados de ouvir. O que difere é a tentativa de se vitimizar e macular a memória de alguém que já não pode mais defender-se.
- Chega, mamãe! Não teve um dia que você não acusasse vovó de algo que julgava ser o que lhe acontecia. Por amor a Dios! Vovó acabou de ser enterrada. Será que consegues não ser tão narcisista? Consegue respeitar a dor de Agnes e Lilian?
- Duas interesseiras. Uma ficou com a melhor casa e a outra ficou com metade de algo que era para ser meu e de teus irmãos. Elas deviam ter morrido também.
- FORA! _ estava enojada com o que ouvia sair da boca da mulher que me colocou no mundo.
- Não grite comigo. Sou sua mãe.
- Não. Você não merece meu respeito. Nunca mereceu. Você me deixou aos cuidados de vovó e Agnes. Nunca me apoiou. Nunca esteve aqui quando eu precisei. Tia Lilian foi mais mãe do que você. Fora! Saia dessa casa. Se não consegue respeitar as escolhas e decisões das pessoas não merece pisar nesse solo. Na entrada da casa tem o lema de suas donas: Nesta casa não cabe o preconceito. Respeitar é um dever. Já saiu?!
Estava ofegante e levemente nauseada. Eu sabia que ela guardava rancor por alguns acontecimentos, mas não imaginava que chegava a níveis tão altos. Meus irmãos sempre foram a sombra de Laurinda e, decerto, compartilhavam do mesmo pensamento.
Quando aceitei e assumi a minha sexualidade iniciando meu processo de separação, ela quase foi em cima da vovó dizendo que eu havia sido influenciada. Foi bem complicado. Tia Agnes me deu um chá de erva doce e conversamos trivialidades. Tentava distrair meus pensamentos.
Fim do capítulo
Até breve!
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