Capitulo 1 - O Tesouro
Quando recebi a notícia de que minha avó havia falecido, eu estava prestes a atravessar o país dentro de um avião. Na poltrona ao meu lado, um homem chato não parava de falar sobre futebol e política. Por Dios!
Precisei me ausentar da casa de vovó para resolver questões burocráticas do meu divórcio, pois meu ex não estava sendo muito colaborativo. Quando conheci Marcos, estávamos cursando a faculdade de Filosofia. Sempre gostei de questões que remetessem à reflexão existencial e também queria lecionar. Minha mãe foi contra, como sempre. Desde as poucas lembranças da minha adolescência, dona Laurinda Suarez Batista, vulgo minha mãe, era opositora a qualquer decisão que eu julgasse correta. O papel de incentivar e abraçar ou aconselhar ficou com minha inspiração; Inês Galvão Suarez.
Vó Inês foi uma das mulheres mais incríveis que conheci e tive o privilégio de conviver. Me ensinou tudo que sabia sobre a filosofia da vida através de seus olhos. Aprendi que não devemos julgar o próximo e que o amor de uma mãe pelos filhos, por vezes, poderá tomar caminhos desconhecidos. Porém não se deve dar vereditos. Aprendi que a música cura quase todas as dores e aquelas, que porventura persistirem, a gente pode afogá-las em uma ou dez taças de vinho.
Segundo meus irmãos, vovó gostava mais de mim. Talvez por sermos tão parecidas fisicamente. Talvez seja por termos ideias e pensamentos semelhantes sobre diversos assuntos. São inúmeras hipóteses, inclusive a de que nada do que meus maninhos digam seja, de fato, verdade. Augusto Júnior e Mateus herdaram o lado dramático e passional da família materna. Sorri lembrando das discussões sem sentido.
Quando passei do portão de desembarque, vi tia Lilian andando em minha direção e rememorar uma das histórias que mais escutava. Vovó voltava de mais um dia de trabalho quando a viu no semáforo pedindo moedas junto a outros garotos. Pediu para sua amiga procurar informações e, depois de enfrentar algumas burocracias, conseguiu a guarda de titia. Lilian tem olhos castanhos expressivos e uma pinta na bochecha esquerda. Os cabelos cacheados e a pele negra. Um sorriso que encanta e a voz serena.
Quando era mais jovem, titia chegou a receber propostas para ser modelo, mas sempre foi muito tímida. Isso foi um dos motivos das muitas desavenças entre ela e dona Laurinda. Amava ouvir minha tia e minha avó cantaram em dueto as tantas serenatas que conheciam. Todas na língua mãe de vovó; espanhol. Outra característica dela era que se a gente a irritasse muito, ela nos castigava obrigando-nos a dar banho nos gatos ariscos que ela criava.
Lilian me atualizou das últimas semanas e palavras de vovó. Contou também que terminou o namoro com Maria Isabele. Não chegou a durar um mês e suspeitamos que os próximos terão o mesmo desfecho. Há tempos alguém muito importante é a dona de seu coração, mas o nome dessa boa alma apenas duas pessoas sabem. Uma delas seria enterrada em poucas horas.
Depois de um banho revigorante, fui até a casa onde passei boa parte da minha infância. Dona Inês gostava de ter a família perto então comprou um terreno imenso e construiu casas para suas filhas. Posteriormente, para os netos. Meus irmãos estavam na sala conversando com alguns amigos. Fui entrando no corredor que dava acesso aos quartos. Dei duas batidas na porta para anunciar minha entrada.
Tia Agnes estava olhando a foto do último aniversário que comemoramos todos juntos. Ao seu lado tinha uma arca que ficava sempre em cima do guarda-roupas. Abracei-a apertado. Nosso choro era silencioso e sentido. Ela não estaria mais entre nós para soltar suas pérolas. Após nos acalmarmos, ela colocou uma chave que ficava presa em uma corrente no pescoço da vovó em minhas mãos.
- Você sempre quis saber o que tinha de tão importante ali dentro. O desejo de sua avó é que conheça o conteúdo e faça algo com ele. Ela disse que você saberia.
Me deixou parada em frente a sua cama com uma chave na mão e um tesouro à minha frente. Sentei, puxei a arca de madeira envernizada e decorada com moedas e fitas para perto. Percebi que sua fechadura era diferente. Provavelmente foi personalizado para ela. Coloquei a chave e girei. A trava fez um pequeno barulho. Levantei a tampa sem crer no que meus olhos viam.
Fim do capítulo
Estou de volta!
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Zaha
Em: 22/10/2025
Oieee, Nay! Tudo bem??
Que bom ler-te mais uma vez!!
O texto está menos poético, mas relaxado, gostei!!! Enredo bom é misterioso, como gosto!!!
O que será que tem nessa Caixa pra ela se espantar?? Achei que iria ter cartas de um amor não vivido ou quem sabe....Kkkkk.
Vou esperar pra elaborar minhas hipóteses, ainda que muita coisa ronda nessa cabecinha minha!!!
Vai postar uma vez por semana, é???
Curiossísima!!
Beijos
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Marta Andrade dos Santos
Em: 17/10/2025
Curiosidade...
Nay Rosario
Em: 28/10/2025
Autora da história
Continue acompanhando...
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Nay Rosario Em: 28/10/2025 Autora da história
Estou bem.
Mistério é sempre bom.
A poesia permeia tudo.
Até breve.