Capitulo 4
Varka
Maeryn entrou na sala e o mundo ficou em silêncio por um instante. Mesmo com os murmúrios dos seus irmãos, com o ranger das cadeiras pesadas de carvalho, com os estalos da lareira acesa no canto da sala, tudo sumiu no exato momento em que ela cruzou a porta.
Ela estava vestida de um modo que beirava o insulto à lógica, sóbria, mas deslumbrante. Um vestido escuro, de tecido leve, mas firme, moldando seu corpo com elegância precisa. A gola alta, os punhos fechados, como se quisesse esconder algo e eu sabia o quê. Sabia onde estavam os pequenos hematomas que deixei na sua pele, as marcas que minha boca traçou nas curvas de seus quadris, no interior das coxas. Marcas que agora pertenciam a mim mais do que a ela, mesmo que o mundo não pudesse saber disso.
Os cabelos dela estavam presos com perfeição, e um único fio solto ao lado do rosto me distraiu como um golpe bem dado. Os olhos dela não me procuraram, ou fingiram não procurar. E eu fiz o mesmo. Fiz o que precisava fazer. Finjo. Me calo.
Não podia olhar.
Se o rei soubesse… se qualquer um ali soubesse…
Maeryn era filha do rei, de Valmont. Nobre de sangue antigo, herdeira de um reino que só recentemente tolerava minha presença, e apenas porque o medo fala mais alto que o orgulho. Eu era Skarn. Era osso, ferro e cicatriz. Era a filha de Korgun, o Lobo do Norte. Entre ela e eu, havia séculos de ódio, e agora… havia um segredo que queimava dentro do meu peito como se fosse pólvora acesa.
Ela se sentou do lado oposto da mesa. Reta, altiva, como sempre. E por um instante, desejei que tivesse ficado no quarto. Que nunca tivesse vindo. Porque vê-la ali, linda, séria, entre homens velhos e mapas rasgados, me fez querer esquecer onde estávamos e por quê. Me fez querer voltar à noite passada, ao calor da sua pele, ao som da sua respiração cortando o escuro.
Mas isso não era uma tenda de guerra. Era o salão real de Valmont. E estávamos prestes a decidir o destino de dois reinos.
O som das portas se abrindo novamente me arrancou do devaneio. Os representantes das Casas Nobres foram entrando um a um. Passei a prestar atenção nos seus irmãos, nos príncipes de Valmont. Teyrion, alto e magro, sempre com aquele olhar de quem já leu o final da história antes de todo mundo. Corwin, corpulento, rijo, desconfiado, nunca gostou da ideia de ouvir Skarn. Meu irmão Ragan postou-se ao meu lado, braços cruzados, como se o mundo inteiro fosse uma ameaça que ele estivesse pronto pra esmagar.
Alric se posicionou próximo do rei Aldren, e quando ele levantou, a sala se calou.
(Aldren) — Sabem por que estamos aqui. — Sua voz preencheu o ambiente como a lâmina de uma espada sendo desembainhada. — Rumores se espalham há meses, e agora temos provas. Não de magia. Não de boatos. Mas de homens. De exércitos movendo-se pelas bordas do mundo conhecido.
Todos se entreolharam. Era estranho ouvir o rei de Valmont falar com tanto peso. Ele costumava ser um homem de diplomacia, de palavras precisas e pausas bem colocadas. Mas não agora. Agora ele parecia alguém que sentia o chão sumindo sob os pés.
Alric abriu um rolo de pergaminho sobre a mesa, um mapa detalhado com marcas vermelhas nas fronteiras norte e leste. Em seguida, Ragan jogou sobre a madeira pesada um saco de couro. Dele, tirou pedaços de tecido rasgado com brasões estranhos, pontas de flechas com entalhes desconhecidos, e o mais grave, tiras de couro humano tingido com símbolos que nenhum de nós conseguiu decifrar.
(Ragan) — Encontramos isso nos vilarejos destruídos ao norte de Skarn — disse Ragan, com sua voz baixa e firme. — Nenhum sobrevivente. Nenhum corpo conhecido. Apenas isso.
(Corwin) — E são homens? — perguntou Corwin. — Humanos?
(Varka) — São — respondi, sem pensar. Todos me olharam. — Humanos como nós. Mas organizados, silenciosos. Entram, matam, queimam, somem. Não deixam trilha. Não lutam por honra ou glória. Lutam por algo que ainda não sabemos.
(Velho) — E o que vocês propõem? — Questinou o velho líder de uma casa nobre. Os dedos batendo ritmados na borda da mesa. — Que unamos espadas com bárbaros?
Maeryn ainda não havia dito uma palavra. Ela ouvia. Sempre ouviu mais do que falou. Mas seus olhos me atravessaram por um breve momento. Ali, naquele segundo, algo entre nós ardeu como brasas sob cinzas. E então ela desviou. Elegante até no desprezo.
(Aldren) — A guerra virá — disse o rei. — E não poderemos enfrentá-la divididos.
A sala mergulhou num murmúrio nervoso. Alguns protestavam, outros ponderavam. Alguns se mostravam contra. Outros pediam mais provas. Alric falava de reforçar fronteiras. Ragan queria atacar de imediato. Eu mantinha os olhos fixos na mesa, tentando me lembrar de quem eu era antes de deitar naquela cama.
E Maeryn.
Ela era a única que não falava.
E ainda assim, sua presença era o que mais pesava naquela sala.
A discussão se arrastava como lama em tempo de degelo.
Os nobres de Valmont falavam em voltas, girando em torno das mesmas palavras, aliança, desconfiança, garantias. Um velho bufava a cada menção de Skarn, como se engolir a ideia de unir forças com bárbaros fosse um veneno amargo demais até para sua garganta endurecida pelo vinho e pelas caçadas. Teyrion queria mais relatórios, mais confirmações, mais segurança, como se a guerra esperasse por certidões em papel selado.
Ragan, impaciente, soltou a voz como um trovão. Nem parecia que era o mais jovem dos filhos de Korgun.
(Ragan) — Continuem duvidando enquanto eles queimam suas vilas. Quando o inimigo bater nos portões de Valmont, não restará mais ninguém para enviar um corvo.
(Velho) — Cuidado com o tom, filho de Korgun — rosnou ele, levantando-se da cadeira. — Isso aqui não é uma tenda de guerra.
(Varka) — Mas será — respondi, me levantando também. Minha voz não foi alta, mas bastou para calar todos por um momento. — Este salão, este castelo, essas muralhas de pedra polida — apontei em volta — não vão resistir quando o inimigo vier. Vocês acham que seus escudos dourados vão assustá-los? Acham que o brasão dos Valmont os fará recuar?
O rei ergueu a mão e o silêncio caiu de novo.
(Aldren) — Ninguém aqui nega a gravidade dos relatos — disse ele. — Mas também não podemos esquecer o peso da história. Valmont e Skarn passaram gerações com as lâminas apontadas um para o outro. Uma aliança forjada no medo pode se partir no primeiro sopro de traição.
Eu senti os olhos de todos sobre mim. Mas principalmente os dela. Maeryn.
(Varka) — Então o que propõe, senhor? — perguntei, sabendo que já haviam discutido isso entre si antes. Esta reunião era mais encenação do que decisão real.
O rei olhou para Alric, depois para Maeryn, como se procurasse certezas nos olhos dos que ainda confiava. Por fim, voltou-se para mim.
(Aldren) — Proponho uma aliança, sim. Mas sob juramento solene, registrado perante todos os chefes das casas de Valmont e Skarn. Uma aliança selada com sangue, com trocas reais. Não apenas promessas.
(Ragan) — Trocas? — Ragan franziu o cenho. — Que tipo de trocas?
(Corwin) — Reféns — respondeu ele, direto. — Garantias. Um membro de cada casa será enviado ao domínio do outro. Que vivam ali, como hóspedes honrados. Mas que nos lembrem de que a confiança tem um preço.
(Ragan) — Reféns são palavras de inimigos — resmungou Ragan.
(Alric) — E aliados sem honra são mais perigosos que qualquer inimigo — rebateu Alric.
Eu permaneci calada por um instante. Aquilo era previsível. Era o tipo de medida que homens de política sempre propunham quando tinham medo de perder o controle. E mesmo assim, eu sabia que Korgun aceitaria. Ele queria os postos de Valmont protegidos. Queria tempo para reagrupar os guerreiros do norte, para fortalecer os passos de Skarn.
(Varka) — Faremos o juramento — falei. — Meu pai o aceitará. E mais, Skarn enviará um de seus filhos para viver aqui, sob o teto de Valmont, como prova de sua palavra.
(Maeryn) — E vocês aceitarão o mesmo? — perguntou Maeryn, pela primeira vez naquela manhã. Sua voz cortou a sala como lâmina fina, e por um segundo, meu coração titubeou. Era ela. Era a primeira vez que dizia algo desde que entrou para mim.
(Varka) — Sim — respondi, encarando-a, por mais que doesse. — Mas se um fio de cabelo de qualquer membro de Skarn for tocado aqui… essa aliança se dissolverá em sangue.
Os olhares voltaram-se ao rei. Ele se levantou, lento, com o peso da idade e da decisão nos ombros.
(Aldren) — Que seja. Valmont firmará aliança com Skarn contra o inimigo que se aproxima. Que os escribas preparem o pacto. Que os nomes sejam dados. E que os corvos voem antes que o silêncio traga a guerra até nossas portas.
A tensão na sala cedeu como uma corda sendo solta aos poucos. Alguns protestaram baixinho, outros se calaram de vez. O velho que se negava a aceitar estava prestes a cuspir no chão. Teyrion assentiu com um gesto seco. Alric murmurava algo a um dos escribas. Ragan me lançou um olhar de aprovação, tenso, mas leal.
E Maeryn…
Ela não me olhava mais. Havia voltado ao papel de filha do rei. Diplomata. Senhora do silêncio.
Mas eu sabia, como se seu corpo ainda tocasse o meu, que dentro dela, algo também tinha mudado.
Quando a reunião terminou e começamos a sair da sala, minha mão roçou a mesa onde ela estivera apoiada. Um gesto involuntário.
Frio.
Ela não estava mais ali.
Nem no corpo, nem no olhar.
Mas em mim…
Ela ainda estava em todo lugar.
A aliança foi firmada com sangue e silêncio.
Nos dias que se seguiram à reunião, as Casas Nobres de Valmont se reuniram em pequenos conselhos paralelos, discutindo os detalhes do tratado com Skarn. Não havia festa, nem honra pública, porque nenhuma das duas terras via aquilo como uma vitória. Era uma rendição mútua diante do medo.
O rei Valmont e Korgun, meu pai, trocaram palavras através de corvos. Letras firmes, seladas com cera e brasões, carregadas pelo vento entre muralhas e torres. E mesmo sem ouvir sua voz, eu sabia o que ele diria. Korgun não hesita quando a guerra se aproxima. Ele escolhe com frieza, como um guerreiro num campo minado, não o mais querido, mas o mais útil.
E foi assim que veio a decisão.
Eu seria enviada para Valmont.
Não Ragan, não Kael, não Dravak ou Jorun. Eu.
O corvo chegou ao amanhecer, com as penas encharcadas pela névoa e o pequeno tubo de couro pendendo da pata. Foi entregue diretamente ao rei Aldren, mas soube da escolha antes mesmo de ele anunciar. Soube pelo modo como os olhos de Alric me encontraram no salão. Pelo breve e quase invisível mover dos ombros de Maeryn, ao lado do pai, como se algo a atravessasse.
Eu não quis ouvir a leitura. Não quis as palavras formais de Korgun ditas em voz alta por uma boca estranha. Elas soariam erradas, pequenas, vazias do calor da voz de meu pai, que, mesmo duro, ainda era o norte que me mantinha de pé.
A sala estava repleta de figuras nobres quando a decisão foi oficialmente anunciada.
(Aldren) — Skarn enviará sua filha, Varka de Tharn, para viver sob nosso teto até o fim da guerra — disse o rei, com voz grave. — E em troca, Valmont enviará o jovem príncipe Teyrion Valemarch, para o domínio de Skarn. Que ambos estejam sob proteção real. Que ambos carreguem o fardo da confiança.
Teyrion demonstrou insatisfação.
Alguns nobres cochicharam. Outros franziram a testa, como se não pudessem aceitar que uma mulher fosse o elo entre dois mundos tão distintos. E Maeryn... permaneceu imóvel. Perfeita em sua postura, sua frieza, sua nobreza forjada em séculos de tradição. Mas seus olhos...
Os olhos não sabem mentir.
Eles me olharam por um instante e desviaram. Como se doer fosse fraqueza. Como se lembrar da noite em que fui só dela fosse um crime que não poderia mais se repetir.
Maeryn e eu, estivemos juntas em corredores, salões, no pátio de treinos onde eu ia para gastar a raiva em lâminas. Sempre com distância. Sempre como se fôssemos duas estranhas fingindo não ouvir o eco da pele contra a pele que ainda vivia em nossas lembranças.
Certa tarde, cruzei com ela na biblioteca. Sozinha. Os cabelos soltos, os dedos percorrendo um livro antigo. Ela não me viu, ou fingiu não ver. E eu também segui adiante, como se nada queimasse em mim. Como se meu corpo já não a reconhecesse em cada cheiro de papel velho, em cada silêncio da fortaleza.
Na manhã em que os corvos voltaram de Skarn, trazendo novos relatos do leste, mais vilarejos queimados, patrulhas desaparecidas, símbolos desenhados com sangue nas muralhas destruídas, a tensão em Valmont tornou-se um fio à beira do rompimento.
Estávamos todos reunidos no salão do conselho novamente. Os pergaminhos foram abertos sobre a mesa de pedra. As notícias não eram boas. O inimigo agora movia-se também ao sul, em florestas próximas a regiões neutras. Nenhuma bandeira, nenhum padrão. Apenas fogo, escuridão e silêncio.
Eles estavam se aproximando.
Eu assisti à leitura das cartas em silêncio. Não pela dor das palavras, mas porque Maeryn estava sentada ao lado de seu pai, e a rigidez em seus ombros me dizia que ela lia nas entrelinhas algo que ninguém mais ali percebia.
Ela sabia.
Sabia o que viria. Sabia que eu não estaria mais ali quando a guerra finalmente batesse às portas de Valmont. Porque, apesar de estar sob aquele teto, eu nunca seria uma deles. Era estrangeira. Era filha do inimigo que agora se tornava aliado por necessidade.
E mais do que isso:
Era a lembrança viva de algo que ela não podia tocar outra vez.
Quando todos se dispersaram, quando os conselheiros deixaram a sala com mapas, ordens e teorias, Maeryn permaneceu.
Eu também.
Ficamos em silêncio, cada uma de um lado da sala. Havia uma guerra lá fora, e uma guerra maior dentro de nós. E nenhuma das duas sabíamos ainda como vencê-la.
A sala ficou vazia devagar.
Os conselheiros se foram aos poucos, como folhas arrastadas por um vento que não sabiam nomear. Cada um levando mapas, ordens, medos, dúvidas. Só sobramos nós duas. E o que não havia sido dito.
Maeryn estava de pé agora, junto à mesa de pedra onde os relatórios haviam sido lidos. Seus dedos repousavam sobre um dos pergaminhos, sem apertar, como se quisesse sentir o frio da pedra atravessar o couro seco e alcançar sua pele. Os cabelos estavam presos com firmeza, mas havia algo na curvatura de sua coluna, nos lábios cerrados, que traía o controle.
Eu permaneci onde estava, à sombra de uma coluna, sentindo o couro da minha armadura pesar sobre os ombros. Eu a vesti não como proteção, não ali dentro, mas como uma barreira entre mim e tudo o que não podia mais tocar.
(Maeryn) — Você vai partir — ela disse, sem olhar pra mim.
Não era uma pergunta. Era uma constatação.
A voz dela saiu baixa, firme, mas com algo trincado por dentro.
(Varka) — Não tão cedo quanto você gostaria — respondi, mais áspera do que devia.
Ela virou o rosto.
Me olhou, olhos verdes musgo.
E aquilo doeu.
Porque nos olhos dela ainda morava a noite que tivemos. Ainda havia calor, lembrança, vontade. Mas havia, sobretudo, medo. Não do que éramos, mas do que o mundo faria conosco se soubesse.
(Maeryn) — Não desejei que partisse — ela disse, por fim. — Eu... só não sei o que fazer com isso.
Isso.
Como se o que houve entre nós fosse algo fora dela. Uma coisa qualquer. Um erro.
Mas eu vi o tremor leve no canto da sua boca. Vi como os olhos vacilaram. Ela era boa em disfarçar, mas o corpo dela não mentia pra mim. Nunca mentiu.
(Varka) — Então não faça nada — falei. Dei um passo à frente. — Continue sendo a filha perfeita. A dama de Valmont. Deixe que os deuses decidam o resto.
(Maeryn) — E você? — ela perguntou. — O que você vai ser aqui?
(Varka) — Um cão na coleira dourada. — Sorri com um canto da boca. — O lobo domesticado que vai dormir nas muralhas e fingir que confia no povo que sempre quis cortar sua garganta.
Ela abaixou os olhos. Como se não quisesse ver o que havia ajudado a construir.
(Maeryn) — Não foi isso que eu quis. Eu nunca quis…
(Varka) — Não diga isso — interrompi. — Não estrague o pouco que tivemos com arrependimento.
O silêncio entre nós ficou espesso. Denso. Como neblina no alto das montanhas.
Lá fora, os sinos do castelo tocaram uma vez. Sinal do meio-dia. Mas naquele instante, o tempo era só nosso.
Ela se aproximou. Devagar. Cada passo dela parecia carregado de dúvidas e vontades. E quando parou diante de mim, pude sentir o cheiro da pele dela.
Cedro, pergaminho e algo doce que nunca consegui nomear.
(Maeryn) — Quando for embora... — ela começou, mas não terminou.
(Varka) — Quando for, nada muda — completei. — Porque já mudou. Tudo.
Quis tocá-la. Por todos os deuses esquecidos, eu quis. Mas não fiz.
Porque ali, naquela fortaleza de pedra e glória ancestral, amor era uma fraqueza. E desejo... uma arma apontada para dentro.
Maeryn recuou um passo. Respirou fundo. Endireitou os ombros.
Vestiu novamente a máscara da mulher que o reino esperava. A herdeira que fala quando é necessário e cala quando tudo dentro dela quer gritar.
(Maeryn) — O rei quer vê-la no salão de armas antes do fim do dia. Disseram que quer supervisionar a posição dos vigias do norte.
Assenti.
Era um pretexto qualquer. Mas não importava.
Nada importava mais.
Eu já estava partindo mesmo estando ali.
Ela saiu da sala sem mais palavras.
E eu fiquei.
Por um instante.
Sozinha.
Com o som distante de corvos nos telhados.
Com o gosto da ausência na boca.
E a certeza de que a guerra mais difícil não seria contra o inimigo invisível que queimava vilarejos, mas contra aquilo que ela e eu carregávamos no corpo.
Aquilo que nunca seríamos autorizadas a nomear.
Maeryn
Eu saí da sala como quem foge de um incêndio.
A cada passo, sentia o calor do olhar de Varka ainda colado nas minhas costas, como se os olhos dela me tocassem de um jeito que suas mãos já não podiam. Meus pés pisavam firme pelas pedras do corredor, mas por dentro, era como andar em areia movediça. Um gesto em falso e tudo me tragaria, o que senti, o que desejei, o que escondi até de mim.
Quando cheguei ao pátio alto, respirei o ar frio, esperando que ele arrancasse o gosto que aquela conversa deixou em minha boca. Mas não saiu. Não sairia.
Ela ficaria em Valmont.
Seria o símbolo da aliança entre reinos que sempre se odiaram. E, ironicamente, também era o símbolo do que jamais poderia ser dito em voz alta entre essas muralhas.
O rei meu pai me elogiou mais tarde, por ter mantido a postura diante dos chefes das casas. "Comedida", foi a palavra que usou. "Fria, como convém a uma filha do rei." Assenti, agradeci, cumpri o papel. Mas por dentro, o orgulho dele me machucava.
Porque nada do que eu fiz foi frieza.
Foi medo.
Eu temi o que vi nos olhos de Varka quando ela disse que já estava partindo mesmo estando ali. Porque ela estava certa. O que houve entre nós era um abismo, e eu não tive coragem de atravessar.
À noite, me trancafiei na biblioteca, cercada de velhos livros de heráldica e registros de guerras esquecidas. Precisava de um mundo onde tudo tivesse começo, meio e fim. Onde as histórias fossem controláveis, previsíveis. Onde o amor não fosse uma brecha.
Mas as páginas tremiam sob meus dedos.
E meu corpo ainda doía da noite em que fui dela.
Na torre mais alta do castelo, os corvos voltavam um a um. Sempre ao cair da tarde. Vi de longe um mensageiro subindo apressado com uma nova carta para o rei. Mais notícias do leste. Mais vilarejos silenciosos. Uma nova vila desaparecida sem vestígios, apenas restos de brasas e marcas no chão que ninguém sabia interpretar.
Eu desci às pressas. Os corredores escuros pareciam mais longos naquela hora. Não havia mais tempo para dúvidas. E mesmo assim, eu não conseguia pensar em outra coisa além dela. Varka. A enviada de Skarn. A selvagem da fronteira. A mulher que deitou comigo como se não houvesse manhã.
Ela estava no salão de armas quando cheguei, discutindo as rotas com Alric e um dos comandantes da guarda. A postura era de guerreira: mãos firmes, queixo erguido, os cabelos presos de forma prática. Um guerreiro jamais confundiria. Mas eu já a tinha visto de outro jeito, nua, vulnerável, por um instante, minha.
Ela me viu. E não desviou o olhar.
Alric continuou falando, mas eu não ouvi. Havia algo pulsando entre nós, algo que nenhuma decisão real poderia selar ou enterrar. Uma promessa silenciosa. Ou talvez uma despedida que nunca seria oficial.
(Alric) — Maeryn — disse Alric, me chamando de volta ao mundo. — Os últimos relatos falam de acampamentos sendo montados perto do antigo desfiladeiro de Meron. Não sabemos se são deles. A patrulha que seguiu para Skarn com Teyrion e Ragan não chegou e não deu notícias. Estão três dias atrasados.
(Varka) — Se eles forem mortos antes da chegada… — murmurou Varka, — …essa paz se desfaz antes mesmo de existir.
Assenti.
O ar da sala pareceu pesar mais.
(Maeryn) — Enviem uma nova patrulha ao desfiladeiro. Eu irei com eles — falei.
Alric protestou, claro. O rei me proibiria se soubesse. Mas eu estava farta de ser a filha que assiste tudo de longe. Eu precisava ver com meus próprios olhos. Precisava sentir o gosto do mundo lá fora.
E parte de mim, se era honesta, queria ver se Varka tentaria me impedir.
Mas ela não disse nada.
Apenas me olhou. Longo. Firme.
E então falou com o mesmo tom que usaria num campo de batalha:
(Varka) — Eu vou com você.
(Alric) — É loucura! — protestou Alric, a voz transbordando frustração. — Você tem que ficar, Varka. É parte do acordo! Enquanto houver esperança de paz, Skarn precisa estar representado aqui.
Varka cruzou os braços, inflexível. O rosto duro como as montanhas que moldaram seu povo.
(Varka) — Esperança? — Ela riu, mas não havia humor algum. — O príncipe de vocês está sumido. Meu irmão também. Se eles forem encontrados mortos naquele desfiladeiro, não haverá tratado, Alric. Haverá guerra. E vocês vão precisar de mim em campo, não trancada neste palácio de cortinas e promessas.
As palavras dela caíram como pedra em água calma. Nenhum de nós respondeu de imediato.
Alric passou as mãos pelo cabelo, impaciente. Seus olhos encontraram os meus, buscando razão. Mas eu não lhe daria. Eu também queria ir.
(Alric) — Varka… — ele ainda tentou. — Pense um segundo no que isso significa. Se os dois reinos perderem herdeiros, o que você acha que acontece? Quem sobra para negociar? Para impedir que nossos pais transformem isso num campo de ossos?
Varka o encarou com uma calma sombria.
(Varka) — Quem sobra? — repetiu. — Nós.
E é por isso que não podemos esperar.
Silêncio.
Eu dei um passo à frente.
(Maeryn) — Alric… — minha voz estava mais firme do que eu me sentia por dentro. — Eu vou. Com ou sem a permissão do rei. Não sou mais uma princesa sentada em cadeira de ouro, esperando que o mundo se resolva. Se os corvos que chegaram estão certos… não há tempo.
Ele me olhou como se eu fosse feita de vidro trincado.
(Alric) — Maeryn… se algo acontecer com você…
(Maeryn) — Algo já está acontecendo comigo — respondi. — Está acontecendo com todos nós. Só que ninguém quer olhar.
Houve uma longa pausa.
Então ele assentiu com um pesar mudo. A decisão pesava em seus ombros como uma coroa que não queria.
(Alric) — Partimos ao amanhecer — disse, por fim. — Levarei vinte homens comigo. Não vamos como emissários. Vamos preparados.
A tensão se espalhou pela sala como fumaça. Eu vi nos olhos dele que essa era sua última concessão. E, mesmo assim, um fio de mágoa permaneceu ali.
Varka assentiu. Curta. Militar. Mas quando nossos olhos se cruzaram, eu soube: ela não estava apenas indo por causa do tratado. Nem apenas pelos irmãos. Ela ia por mim também.
Ficamos os três em silêncio por um instante.
Sabíamos o que significava atravessar aqueles portões com armas à mostra, sem o consentimento dos nossos pais e reis.
Sabíamos o que podia nos esperar entre as sombras do desfiladeiro.
Mas, antes do nascer do sol, quando os estábulos ainda estavam mergulhados em penumbra e os soldados preparavam os cavalos com passos abafados e palavras murmuradas, eu a vi.
Varka estava de pé, junto ao seu cavalo negro como cinza de armadura. A luz tênue da tocha mais próxima dançava em suas tatuagens, revelando fragmentos de batalhas passadas. Ela vestia couro escuro por baixo da cota de malha, o capuz jogado para trás, o olhar fixo no horizonte cinzento, como se já pudesse ver o que nos esperava além das colinas.
Aproximar-me dela foi como entrar num círculo de silêncio sólido.
(Maeryn) — Não veio ontem à noite — falei. Quase num sussurro como quem deixa um pensamento proibido escapar.
Ela virou-se apenas o suficiente para que eu visse seu perfil.
(Varka) — Eu não sirvo pra despedidas — respondeu, sem emoção.
(Maeryn) — Nem pra promessas?
Varka me encarou então. O olhar dela… havia algo ali que eu não soube nomear. Como se ela visse tudo, tudo que eu escondia até de mim. E aceitasse, mesmo assim.
(Varka) — Promessas quebram antes das espadas.
Respirei fundo. Era típico dela. Crua. Honesta. Às vezes cruel. Mas verdadeira. E, por alguma razão que eu ainda tentava entender, isso me ancorava.
(Maeryn) — Ainda dá tempo de me impedir, sabe — provoquei. — Pode dizer que sou fraca. Que não durarei um dia.
Ela caminhou até mim. O chão de pedra soou firme sob suas botas. Quando parou à minha frente, estávamos tão próximas que o frio da manhã não mais me alcançava.
(Varka) — Eu nunca disse que você é fraca. Disse que o mundo é. E que vai tentar quebrar você. Todos os dias. — A mão dela tocou de leve meu ombro. Forte, quente. — Mas se for quebrada… que seja lutando.
Não respondi. Não havia resposta. Apenas aquele silêncio entre nós, onde palavras eram inúteis.
Alric chegou logo depois, com armadura leve e rosto cansado. Os soldados estavam prontos. Vinte homens escolhidos a dedo, experientes, leais. Cavalos selados, lanças presas às costas, escudos marcados com o símbolo de Valmont e bandeiras enroladas para evitar alertas indesejados. Nenhum estandarte seria hasteado até que soubéssemos o que havia de verdade naquelas terras.
Atravessamos os portões com os primeiros raios do dia iluminando o céu acinzentado. A cidade ainda dormia, alheia ao que acontecia.
Cada batida dos cascos nas pedras parecia um presságio.
Enquanto cavalgávamos rumo ao desfiladeiro, meus pensamentos eram uma névoa espessa. Alric ia à frente, firme, silencioso. Varka cavalgava ao meu lado, sempre atenta, como se seus olhos jamais descansassem. E eu… eu tentava sufocar o medo que vinha crescendo dentro de mim desde que os corvos chegaram.
Não era medo da guerra.
Era medo de descobrir que já começara.
Foram dois dias de marcha dura. Cruzamos bosques silenciosos demais, vilarejos abandonados com pressa, portas escancaradas, comida largada nas mesas, marcas de pegadas indo numa única direção, longe.
O desfiladeiro de Haran se ergueu diante de nós ao entardecer do terceiro dia, esculpido pelo tempo e pelas batalhas antigas. Um lugar que deveria estar vigiado por sentinelas de ambos os reinos. Mas não havia ninguém. Nem bandeiras. Nem corpos. Nem resposta.
(Alric) — Fiquem alertas — disse Alric, já com a mão no cabo da espada.
Varka desmontou e se aproximou da trilha estreita, agachando-se. Seus dedos tocaram algo entre as pedras.
(Varka) — Pegadas. Muitas. Passaram por aqui com pressa, mas não eram bandidos. Isso foi uma movimentação militar. — Ela olhou por cima do ombro. — Mas não foi recente.
Seguimos a trilha por mais duas horas, até os últimos vestígios de luz desaparecerem. E então vimos.
A fogueira ainda fumegava. Junto a ela, uma capa real de Valmont, encharcada de sangue seco. Um dos cavalos do príncipe, reconhecível pelo arreio bordado, jazia caído próximo, o flanco aberto. E marcas de arrasto levavam até a beira da ravina.
O silêncio que caiu foi mais cortante do que qualquer grito.
Eu me aproximei devagar, quase sem respirar.
Varka me segurou pelo braço antes que eu chegasse perto demais.
(Varka) — Não vá — disse.
Mas eu fui mesmo assim.
E ali, entre pedras e sangue pisado, vi algo que congelou meu peito, o broche de Teyrion. O mesmo que ele usava todos os dias em Valmont. Caído. Partido.
Engoli o choro. E me obriguei a ficar em pé.
(Alric) — Isso não foi uma emboscada comum — disse Alric, os olhos vasculhando o entorno. — Foram levados. Não mortos aqui.
Varka assentiu devagar.
(Varka) — Alguém está tentando nos dividir. Separar nossos herdeiros, silenciar as vozes que podem impedir a guerra.
(Maeryn) — Mas por quê? — perguntei. — Quem ganharia com isso?
Varka ergueu o olhar para o norte. O céu escurecia com nuvens de tempestade. E sua voz foi baixa como uma prece sombria.
(Varka) — Alguém que não pertence nem a Valmont, nem a Skarn.
E então entendi.
A guerra que tentávamos impedir já tinha começado.
Só não sabíamos ainda quem a estava vencendo.
A chuva começou como um sussurro, um tamborilar tímido nas folhas retorcidas da ravina. Mas logo virou lamento. O céu desabou sobre nós com uma violência repentina, como se tentasse lavar o sangue que manchava aquelas pedras.
Alric praguejou, puxando o manto para cobrir os ombros. Eu só conseguia olhar para o broche partido entre meus dedos. O metal frio, a rachadura no meio, como um presságio de tudo que se partia dentro de mim também.
(Alric) — Precisamos sair daqui — disse ele. — Se essa tempestade crescer, o desfiladeiro vira um túmulo de lama.
(Maeryn) — Não podemos voltar — falei, quase num sussurro. — Ainda há rastros. Eles podem estar vivos.
Varka se aproximou. A chuva escorria por seu rosto, pingando da linha do queixo como suor em campo de batalha. Ela olhou para o alto da ravina e depois para os cavalos inquietos atrás de nós.
(Varka) — Não seguimos pela trilha agora. Com o solo encharcado, os cavalos escorregariam. — Ela fez uma pausa, avaliando. — Há cavernas a leste. Usadas por caçadores de cervos. Podemos abrigar o grupo lá até a chuva passar. Depois seguimos a pé, se for preciso.
Alric hesitou. Podia ver no rosto dele o conflito entre a urgência de voltar ao castelo com notícias, más ou boas, e a responsabilidade de não deixar nenhum nome cair no esquecimento. Mas então ele olhou para mim, e pareceu entender que nada me moveria dali sem respostas.
(Alric) — Vamos. Protejam os cavalos. E fiquem atentos.
A trilha até as cavernas era íngreme, traiçoeira. Rios de lama já começavam a se formar pelas encostas. Varka foi à frente, guiando cada passo com olhos treinados, como se conhecesse cada curva da montanha. Os soldados vinham em silêncio, armaduras cobertas com mantos escuros para não refletir luz. A tensão entre nós era mais densa que a névoa que subia do chão.
Entramos na caverna pouco antes do entardecer. Era funda, com teto alto o suficiente para abrigar os cavalos e o grupo sem desconforto. As pedras pingavam com a água da chuva, mas havia madeira seca empilhada nos cantos, deixada por caçadores. Varka acendeu o fogo com precisão metódica, como quem executa um ritual antigo.
Quando o calor começou a se espalhar, sentei-me perto das chamas, os joelhos encolhidos contra o peito. A capa molhada colava-se à pele, e o broche de Teyrion ainda estava em minhas mãos.
(Varka) — Está partida — disse Varka, sentando ao meu lado. — Mas não quebrada. Ele pode estar vivo.
Assenti, sem conseguir responder.
(Varka) — Se alguém o levou, foi com intenção. Isso não foi ataque. Foi plano. Isolamento. E eles sabiam onde encontrar a patrulha.
(Maeryn) — Há traidores — murmurei. — Ou espiões.
(Varka) — Ou ambos.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo estalar da lenha queimando.
Alric, do outro lado da caverna, falava em voz baixa com dois soldados. Passavam os mapas, refazendo trajetos, tentando entender onde os rastros levavam. Mas a chuva lá fora lavaria tudo até o amanhecer. E quando amanhecesse, já estaríamos às cegas.
Varka se recostou na parede de pedra. Os olhos pesados, mas atentos.
(Varka) — Descansaremos quatro horas. Depois disso, partimos. A pé, se for preciso. Eles não podem estar longe.
(Maeryn) — E se for uma armadilha? — perguntei. — E se souberem que vamos atrás?
(Varka) — Então que nos esperem — ela respondeu, com aquela calma fria de quem já viu o pior. — Porque eu não vou recuar.
Na madrugada, a tempestade cessou como veio, abrupta. O mundo do lado de fora estava transformado. O solo era lama, os arbustos encharcados, e os sons da floresta voltavam timidamente, um corvo isolado, o farfalhar de galhos distantes.
Seguimos cedo. Os rastros que Varka encontrou não eram nítidos, mas existiam, folhas quebradas num padrão estranho, marcas de corda arrastada, e um lenço com o brasão de Valmont preso num galho alto demais para ser acidente.
Eles estavam vivos.
Ou tinham sido levados vivos.
Por quem, ainda era um mistério. Mas aquilo nos guiava. E nos prendia, como um fio invisível que puxava a cada passo.
(Varka) — Se estiverem feridos, vão deixá-los para trás — disse Varka, depois de horas caminhando entre penhascos e mata densa.
(Maeryn) — E se estiverem mortos? — perguntei, num sopro. — O que fazemos?
Ela me olhou. Havia algo novo no olhar dela. Não só dureza. Não só fúria. Mas dor contida.
(Varka) — Então a guerra começa. E come
ça com sangue.
E seguimos. Porque era isso que restava a nós: seguir. Mesmo sem saber se o que nos esperava era verdade, ou apenas a última ilusão antes da ruína.
Mas uma coisa eu sabia: se eles estavam vivos, nós os traríamos de volta.
E se estivessem mortos… o mundo sentiria o peso da nossa resposta.
Fim do capítulo
Pra quem está lendo, não sei o que estão achando, me digam por favor kkk
Espero que se divirtam, por mais que seja uma história diferente, garanto que vale a pena.
Beijos
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Pantera
Em: 02/08/2025
História interessante, estou gostando muito, ansiosa pelos próximos capítulos.
Natalia S Silva
Em: 03/08/2025
Autora da história
Que ótimo, vou atualizar agora mesmo.
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Antonia
Em: 30/07/2025
A história está maravilhosa!!! Fico esperando a postagem..
Natalia S Silva
Em: 30/07/2025
Autora da história
Ai que bom. Já estava triste kkkk
Obrigada
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NICOLY S
Em: 30/07/2025
Eu tô lendo e curtindo bastante ansiosa pros próximos capítulos a história prende bastante como falei não é “mais do mesmo“ é um tema diferente de histórias, que eu gosto muito então continua tá muito bom a tensão o suspense tudo é bom rs ansiosa pro momento que elas vão ceder ao desejo e se entregar novamente rsrs
Natalia S Silva
Em: 30/07/2025
Autora da história
Obrigada, fico muito feliz em estar agradando.
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Natalia S Silva Em: 06/08/2025 Autora da história
Oii. atualizado agora mesmo.
Espero que goste beijo.