Gabriela estava na delegacia, tentando se concentrar nos papéis espalhados sobre sua mesa, mas sua mente estava inquieta. Olívia estava na sala ao lado, discutindo um caso com Lucas, e Gabriela não conseguia ignorar a tensão que pairava no ar. Era como se a cada palavra, um fio de energia fosse cortado e refeito entre elas. Pequenas provocações, quase invisíveis, mas intensas, como se o simples ato de Olívia estar ali fosse o suficiente para acirrar seu temperamento. Algo pequeno, mas sempre presente, sempre no ar.
"Você pode, por favor, parar de achar que tem a resposta para tudo?" Gabriela disparou, sem querer, a voz mais alta do que pretendia.
Olívia a olhou de canto de olho, sem perder a compostura. "Eu só acho que você complica as coisas desnecessariamente. A lei é simples, Gabriela."
"Sim, claro, simples para quem acha que todo mundo precisa seguir o mesmo caminho. Como se a vida fosse um manual de instruções!" Gabriela rebateu, se levantando e começando a andar de um lado para o outro.
Lucas, que até então tentava se manter neutro, olhou entre as duas, como se percebesse a possibilidade de uma explosão. "Gente, vamos com calma, ok? Estamos apenas tentando resolver esse caso."
Mas Gabriela já estava fora de controle. "Não é sobre o caso, Lucas. É sobre essa mania da Olívia de querer que tudo seja no modo dela, como se fosse o único jeito certo."
Olívia, com a calma que sempre a caracterizava, sorriu suavemente, mas com firmeza. "Eu só faço o que é necessário, Gabriela. Se você não consegue entender isso, o problema não é meu."
Gabriela sentiu o coração bater mais rápido, uma mistura de raiva e algo indefinido. A cada troca de farpas, uma linha tênue parecia ser cruzada. Não era apenas uma briga qualquer, não era só sobre o caso. Era algo mais. Algo que, talvez, ela nem quisesse entender. Algo que a mantinha alerta, em constante conflito.
Ela respirou fundo, tentando se acalmar. "Está vendo? Sempre assim. Tudo vira um embate."
Olívia a olhou por um segundo, como se ponderasse as palavras de Gabriela. Depois, sem dizer mais nada, voltou ao seu trabalho. Gabriela sentiu o impulso de continuar, mas sabia que isso só alimentaria a chama da briga. Em vez disso, ela pegou mais alguns papéis e começou a organizá-los, tentando não pensar na tensão que ainda pairava no ar.
A sala caiu em um silêncio desconfortável, e Gabriela sentiu o peso da ausência de palavras. Por mais que as brigas entre elas a irritassem, havia algo ali que a mantinha focada, algo que ela não conseguia evitar. Algo que a fazia se sentir viva de uma maneira estranha, como se fosse uma parte do seu próprio ritmo diário.
Foi então que Lucas, percebendo o clima pesado, decidiu interromper. Ele se aproximou de Gabriela, sorrindo levemente. "Ei, você está bem? Eu estava pensando, talvez a gente pudesse sair para jantar hoje à noite. O que acha?"
Gabriela o olhou com surpresa. Era um convite simples, mas algo na sua voz a fez sentir um calor desconfortável no peito, não exatamente o tipo "certo".
"Ah, eu já... já tinha combinado com meus pais," ela disse rapidamente, uma mentira escapando antes que pudesse evitar. "Vou ter que passar o resto da noite com eles."
Lucas a observou por um momento, como se soubesse que algo estava sendo deixado de fora, mas apenas sorriu. "Tudo bem, então. Quem sabe outra hora."
Gabriela assentiu, tentando manter a expressão neutra, mas sentindo um desconforto crescente ao mentir para ele. No fundo, ela sabia que, talvez, a verdadeira razão fosse que ela não queria admitir para si mesma que ainda estava envolvida nas picuinhas diárias com Olívia. Algo tão insignificante, mas que, de algum jeito, a fazia sentir que algo estava acontecendo, que algo estava... mudando.
Enquanto Lucas voltava ao seu trabalho, Gabriela se sentou novamente, um sorriso involuntário surgindo em seu rosto. Ela não sabia o que estava acontecendo, mas se dava conta de que, de algum modo, aquelas briguinhas cotidianas com Olívia estavam começando a se tornar uma parte fundamental do seu dia, algo que ela ansiava, até. Disputar a última xícara de café, debater sobre o feijão em cima ou embaixo, qual era o melhor estilo musical... qualquer coisa que mantivesse a chama acesa. Algo no confronto, no desafio, parecia alimentar uma parte de quem ela era agora.
Fim do capítulo

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