Segredos por Elliot Hells
Capitulo 47 Puzzles
Elizabeth Heinz(Izzy)[1] estava reflexiva, ver o passado não foi nada fácil, foi como um soco no estômago. Um soco que ela ainda se sentia nocauteada. Ela precisava circular pela cidade e foi o que fez, decidiu levar a Blues para fazer um passeio mais descontraído, a cadelinha já tinha tomado todas as doses e estava autorizada pela dra. ChoHee Wei a passear publicamente. ChoHee Wei tinha ido fazer uma consulta no apartamento das Heinz. Sua irmã, Bess que atendeu. A doutora informou que Blues estava bem e perfeita, também contou que ninguém apareceu na clínica informando o desaparecimento de uma border collie blue merle.
Quando apareciam pessoas no grupo de cachorros perdidos informando serem os verdadeiros tutores da Blues, muitos diziam que era macho, que ela possuía olho com heterocromia, outros mostravam uma foto adulterada. Pegavam a foto original que Vivienne e Elizabeth tinham postado e acrescentavam a imagem deles ao lado. Nesses casos, Elizabeth sempre investigava com pessoas da área tecnológica que mostravam a foto original e quando conversavam no privado com aquela pessoa, desconversava ou nunca mais falavam. O tempo foi passando e Blues ficando e sendo cada vez mais de Elizabeth e Vivienne.
ChoHee Wei informou que os exames de sangue estavam bem, a anemia também, porém ainda era necessário cuidar da otite da pequena. Para parabenizar as jovens pelo resgate e oficialização da adoção da Blues, a veterinária trouxe uma tag de identificação com o nome das tutores “Vivienne e Elizabeth” com os respectivos contatos. Além na parte da frente ter o nome da Blues.
Agora, oficialmente andando pelos locais, Blues estava com Izzy, Blues adorava sair com a Izzy, pois tinha a oportunidade de se exibir e a outra de paquerar com as mulheres. Bess assumia todo o trabalho de ensinar novos comandos e truques para a border collie, enquanto Izzy, só precisava treinar junto para aprender. Foi assim que fizeram com Joe, então, necessariamente, a outra já havia aprendido como cuidar perfeitamente de um cão e formas de adestramento. Porém, hoje esse passeio com a border não era para conquistar mulheres, ela queria a companhia de alguém.
Devido a sua condição, não podia sair e aproveitar com sua irmã, sendo assim, ter a Blues ali perto é como ter um pouco da Bess consigo. Dirigiu até dar de cara com um antigo prédio. Heinz conhecia aquele departamento como ninguém e não entendia por qual razão, inconscientemente, foi levada para lá.
Aquela universidade também tinha um campus dedicado para escola de centro fundamental e médio. Ocupando as três zonas de fundamental, médio e universitário, a Universidade Federal Nova Amsterdam (UFNA). Ela estacionou e decidiu vasculhar aquelas portas do passado.
Naquela universidade, precisamente, na parte do ensino médio tinha conhecido Lorelai, cursaram juntas a graduação e ela pensou que poderiam seguir a diante. Porém, tudo se mostrou distante e frágil. Colocou a guia na Blues, descendo do carro e trancando.
Entrou por aquelas portas, falou com alguns porteiros e aquele local parecia cada vez mais nostálgico. Algumas cenas apareciam em sua memória, como: sorrisos trocados, uma época de amizade sincera, verdadeira e de grande amor.
Foi em direção para a velha cafeteria da universidade que havia sido reformado, com novas poltronas, mesas de madeira, mais iluminado, mas ainda sim, com o toque pitoresco do passado. Izzy deixou a Blues solta numa parte petfriendly daquele local, cercadinho e coberto para pessoas que levam seus animais.
O local não estava tão barulhento, afinal alguns usavam como local de leitura social. Foi até o balcão de expressos e pediu um expresso quente com chantilly. Pagou os oito reais e olhava ao redor, sentiu ter visto de novo seu passado.
Uma jovem colegial, com cabelos castanhos, uma franja reta, óculos de aro circular estava com os livros na mão e informando que aquele era o lugar dela. Os jovens aparentavam ser poucos anos mais velhos do que aquela colegial. Elizabeth pensou “por que uma colegial estava no setor dos universitários? Talvez as coisas tenham mudado”. - Por favor, senhores, esse é o meu lugar. – dizia a jovem com uma voz baixa.
- Não somos senhores, temos apenas vinte anos. – dizia o mais alto dos dois – olha, chegamos aqui primeiro e como pode ver – apontava mostrando outros locais – você pode sentar em outras mesas.
- Cadeiras, sentar em outras cadeiras. Sentar nas mesas não seria apropriado, já que suas finalidades não são para sentar. – explicava a jovem e Elizabeth podia ouvir, o que a fez sorrir de lado, enquanto tomava outro gole de café.
- Você é anormal mesmo, não é? – o outro engrossou o tom, o que parecia deixar a jovem com medo e tremendo. Elizabeth interviu, tocando no braço do rapaz exaltado.
- Olá, parece que temos algum problema aqui? Vejam rapazes, dou para cada um de vocês cinquenta reais e deixam a jovem usar esse lugar? – Elizabeth deu duas notadas, uma para cada um que saíram dali. – Qual é o seu lugar? – indagou para a colegial.
- Esse é o meu lugar... – apontou para a cadeira.
- Posso me sentar aqui também? – Elizabeth indagou – você não precisa ter medo.
- Não tenho medo, eu sei quem é você, é uma grande representante do departamento de direito e advogada, não tem motivo racional para ter medo de você. – respondeu a jovem sem fazer contato visual com a mais velha.
- Sabe? – Izzy, franziu o cenho. – Como assim sabe quem sou?
- A senhora é famosa aqui no departamento de direito. Elizabeth Victoria Heinz III, filha única de Holand e Cordélia Heinz III. Se formou na turma de 2008. Também fez teatro e ganhou seu primeiro prêmio em 2012. Resolveu o caso da família Morais, ajudou a empresa Hernandez com suas conexões, um caso bilionário... e – continuava a falar.
- Parece que você sabe mesmo quem eu sou – Elizabeth estava impressionada.
- Eu não terminei... – disse a jovem. – e por enquanto lida com um inventário dos mais antigos da cidade. Agora eu terminei.
- Você está bem informada. Toma alguma coisa, café? A propósito, qual o seu nome? Eu não sabia que as alas de universitários e colegiais estavam misturadas. – Elizabeth soltou tudo de uma vez.
- Ah, eu não bebo café e você também não deveria, é cancerígeno. Segundo a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) os grãos de café torrados contem acrilamina, que é um subproduto do processo de torrefação, sendo uma substância provável carcinógeno do Grupo 2A. É um fator alto para causar câncer em animais. Meu nome é Raphaëlle e as alas ainda estão separadas, mas eu sou universitária. – dizia dando uma mordida na sua fruta.
- Raphaëlle, é francesa? E você está na universidade, que idade tem, não é nova demais? – Elizabeth achava aquela jovem muito familiar, sim, tinha os traços e a fisionomia da Lorelai, detestava admitir, mas sim. Eram parecidas.
- Se Raphaëlle é um nome francês? Bom, a origem do nome é Hebraica, mas se espalhou por diversos países de língua latina, aqui no Brasil existem diversas variações como: Rafael, Rafaela, então pode ter essa origem. Aliás tenho dezessete anos de idade e sou qualificada para fazer universidade, estou adiantada. – Elizabeth observava a jovem falar e novamente sorriu de lado. A jovem Raphaëlle lembrava Lorelai naquela idade, ao menos por fora. Uma sombra do passado, pelo visto.
- Entendi, mas quis saber se você era francesa. – deixou mais específica a sua pergunta.
- Minha família é descendentes de franceses, embora tenha nascido aqui no Brasil. Então se quer saber sobre minha nacionalidade, sou natural do Brasil, mas minha ascendência é francesa sim. – ela olhou para o relógio – eu preciso ir, tenho aula de criminal e não posso me atrasar, não posso chegar atrasada. – arrumou seus livros e começou a levantar.
- Foi um prazer te conhecer, Raphaëlle – Izzy esticou a mão para cumprimenta-la.
- Sem tocar senhora Heinz. – falou pegando cada livro para por no braço.
- Certo, certo. Pode me chamar de você, não sou casada. – explicou a outra, enquanto recolhia a mão.
- Eu prefiro manter assim, é uma forma de não errar. – olhou novamente para o relógio – eu preciso ir, a senhora Ferraz não gosta de atrasos, saiu dali dando um passo de cada vez um tanto apressado.
- Então, até logo. – voltou a sentar, enquanto fitava a jovem desaparecer dali.
Passou uma hora e meia, enquanto Izzy ainda permanecia por lá. O local estava mais vazio agora e deixaram ficar ali com a Blues. A cadela estava cada vez mais aprendendo os comandos certos, socializar e principalmente relaxar. Algum tempo atrás tinha começado seu treinamento de farejar. Uma border com uma mente ocupada, é o que a Blues era. Já tinha tomado água e estava agora descansando.
Izzy havia encontrado o livro de Arthur Conan Doyle, fazia tempo que não lia algo para deleite. Escutou atrás de si uma frase: “Com licença, está sentada no meu lugar”. Sim, a atriz e advogada já tinha decorado aquele tom, era a colegial.
- Não se preocupe Raphaëlle, sou eu, Elizabeth, pode se sentar.
- Obrigada, esse é meu lugar. – A jovem puxou a mesma cadeira que a um tempo havia sentado. Observou que abaixo da cadeira da mulher de cabelo claro repousava um cachorro que estava quietinho, deitadinho sem fazer nenhum barulho. Observou também que a outra lia um livro, “O cão dos Baskervilles”. Blues saiu debaixo da cadeira de sua tutora e encarava Raphaëlle com olhinhos pidões.
- Não se preocupe, a Blues está em constante treinamento, ela não fará nada ou sairá pulando. É uma boa menina. – dizia Elizabeth, passando para a próxima página. – pode se sentar sem medo. – fechou o livro e encarou a jovem a sua frente que sentou sem medo e olhava para a cadelinha.
Blues fez um gesto de cumprimenta de forma lenta, o que fez a jovem soltar um sorriso.
- Ela está cumprimentando. Fazendo uma saudação para você. – Explicou Elizabeth.
- O que eu devo fazer? – a garota não sabia qual era o próximo passo, não tinha tido contato com animais durante a sua infância. Apenas os admirava de longe.
- Você pode pedir a pata à ela ou dar um tchau e ela entenderá como “oi” ou mesmo “tchau” e irá repetir. – sugeriu a mulher observando a interação das duas.
A jovem universitária fez o gesto de “tchau” com a mão, ao que Blues devolveu com outro tchau um tanto desengonçado, pois ainda estava se adaptando. Outro sorriso foi visto pela mais velha.
- Você pode brincar com ela aqui ao lado se quiser. – a mais velha apontou para o local que havia deixado a Blues brincando.
- Eu não posso, isso não estava planejado, nesse caso não poderei ir, pois logo terei que me levantar e ir para o estágio no setor dos relatórios e perícias criminais. – explicava a jovenzinha ainda fascinada com a Blues. – a detetive Van Dahl agendou uma hora.
- Então devo fazer uma solicitação antes? – arqueou a sobrancelha sem entender um pouco. – Van Dahl? Conhece a Valquíria?
- Exatamente, eu preferiria assim. – confirmava a jovem. – Sim, eu conheço a detetive Van Dahl, agora se me der licença. – a jovem tentava ir, mas novamente Izzy se pronunciou.
- Mas então como poderei fazer essa solicitação? Você tem um número de celular por acaso? – Elizabeth a olhava, mas a jovem não fazia o contato visual.
- Exatamente! 92302308, mas há poucas chances de atender você, porque nunca atendo chamadas não registradas anteriormente. – deu novamente tchau para a cadelinha que retribuiu. – eu terminei e preciso ir.
A jovem seguiu em direção a saída da cafeteria universitária e Izzy a observou ir embora. A garçonete daquele lugar perguntou se ela tinha acabado.
- Sim, vem cá, você saberia dizer alguma informação sobre aquela jovem? – fitou a garçonete recolher as coisas.
- A jovem Raphaëlle? Ah, eu não me aproximaria muito se fosse você. – a frase saiu como uma advertência.
- Do que está falando, não irei me aproximar dela, é uma jovenzinha. – Elizabeth pensou que ela a tinha interpretado erroneamente.
- Não senhorita, não digo sobre isso. – A jovem sentou ao lado da outra – escute, a Raphaëlle é conhecida por ter... síndrome de asperger. – ela se inclinou novamente, fitando ao redor. – quando estou no meu turno tento ajuda-la, ela senta todos os dias pontualmente nessa mesa. Porém, as pessoas podem ser malvadas e cruéis se é que me entende.
- Eu entendo sim. Bom, até logo – deixou uma gorjeta de cinquenta reais para a garçonete ali e foi embora.
Elizabeth não podia ignorar o fato de que a jovem Raphaëlle lembrava muito Lorelai. Não lembrava da outra ter uma irmã mais nova. Precisava voltar nessa cafeteria amanhã e encontrar com a jovenzinha.
Enquanto isso, Raphaëlle caminhava para o setor de relatórios de perícias criminais, bateu seu cartão de ponto e foi para seus arquivos. Estava digitalizando um relatório antigo, quando o recepcionista chegou conduzindo uma mulher.
- Senhorita Raphaëlle, a detetive Van Dahl está aqui para vê-la. – disse o homenzinho gordinho e baixinho, na sua camisa estava escrito Sebastian.
- Raphaëlle, boa tarde. – disse a detetive.
- Boa tarde detetive, chegou pontualmente – respondeu a jovem sem fita-la nos olhos.
- Irei deixa-las agora - o homem ao se retirar.
Valquíria se aproximou e mostrou que tinha algo para a jovem. Parecia um embrulho de um presente.
- Eu tenho um presente para você. – mostrou o embrulho preto.
- Sabe que eu não sei reagir caso eu não goste. – disse sendo sincera com a detetive que já estava acostumada com a jovem. Parecia que tinha sido ontem que se conheceram, mas as duas tinham um passado distante.
- Sim, estou lembrada, - comentou Valquíria - por isso você pode abrir sem ser na minha frente. Já falamos sobre isso e eu sei que gosta de presentes. Quando foi que errei? – indagou a detetive esticando novamente o embrulho, pois não queria colocar em nenhum lugar que pudesse desarrumar a mesa da jovem tão organizada.
- Contando até agora, nenhuma vez detetive. – pegou o presente e colocou em um espaço vazio da mesa de forma alinhada com as outras coisas.
- Estamos a sós. Pode ser informal. - explicava Valquíria. – olhou aqueles arquivos que te pedi?
- Sim, tem um conjunto de evidências concordantes entre os dois arquivos que indicam que o ponto comum entre o caso do Thomas segundo e o aparente suicídio da esposa são os mesmos traficantes de armas.
- Os mesmos? Suspeitava que a esposa dele não havia cometido suicídio – Valquíria colocou a mão no queixo, raramente deixava algo passar, por isso falava com Raphaëlle para ter essa certeza, pois a jovem enxergava tudo de uma forma diferente.
- Seus relatórios são sempre bem estruturados, sua caligrafia é impecável e sem erros ortográficos, de igual modo o relatório da legista Seyfried, porém, uma coisa passou despercebido por ambas. Algo muito sutil que fixou na pele como se fosse uma assinatura. Eu mesma demorei para notar um pequeno ramo com oito folhas. Principalmente pelo registro fotográfico da tinta começar a sumir. Tatuagem não somem assim. Aquilo foi a assinatura do assassino. O símbolo me lembrou um antigo caso que, confesso, que me deixou a noite acordada. – Raphaëlle conduzia Valquíria para pegar a pasta de um artigo antigo – O caso de tráfico de mercadorias em 1978, com o patriarca dos Hoffman.
- Raphaëlle, você tem certeza disso? Eu sei da sua capacidade, mas sabe que estamos lidando com os Hoffmans, ninguém, com exceção de você e a Sophie acreditam em mim e o quanto aquela empresa deles é fachada. Seria uma peça importante para ser movimentada. Além disso, é um caso arquivado. – Embora fosse um caso antigo, Valquíria sabia onde a jovem queria chegar, as tatuagens deveriam ter relação com algum símbolo já visto por ela nas mercadorias dos Hoffmans, o que traria rapidamente essa ligação. – Posso levar essa pasta para discutir com a Sophie?
- Deve solicitar ao senhor Sebastian primeiro. – explicou a jovem.
- Irei fazer isso. Obrigada, Raphaëlle, nos falamos depois. – a detetive se despediu e a jovem teve certa curiosidade de abrir o seu presente agora sozinha. Se desfez calmamente do primeiro embrulho, depois do segundo e ali estava, uma caixa viking talhada em madeira, com um visor acrílico na parte de cima, na qual a tampa tinha que resolver um enigma, cujas funcionalidades eram com pequenas bolas de metal, engrenagens e umas alavancas pequenas. Para abrir aquela caixa era preciso decifrar o enigma. A jovem abriu um sorriso adorando aquele presente, porém, adorou ainda mais quando terminou de ler o pequeno cartão da detetive.
“Espero que possa guardar coisas que signifiquem bastante para você. Para ajudar a fazer entende-la melhor, guardei a segunda parte desse presente aí dentro.”
[1] maio de 2018
Fim do capítulo
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