Capitulo 5 - O que é isso que estou sentindo?
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A semana passou muito rápido. Lara almoçou comigo umas duas vezes durante e ela sempre contava suas histórias ou fazia alguma gracinha que me fazia rir. Compramos a tortinha mais vezes e teve uma vez ela que me chamou pra sentar no chão, puxando minha mão e dizendo que comer ali ou na mesa gastaria o mesmo tempo. Só que no chão seria bem mais divertido e foi mesmo. Enquanto eu me soltava e me sentia mais leve, sempre aparecia alguém pra me lembrar que eu era a chefe e deveria ser mais rígida do que eu estava sendo. Aí meu humor mudava e eu tentava parecer mais séria, mas aí Lara começava tudo de novo, incansavelmente, e eu me soltava de novo.
Acabei sonhando com ela um par de vezes durante a semana, mas eu nunca me lembrava muito bem com o que. Acho que era algo entre estarmos em minha sala rindo muito e conversando, ou com ela pegando minha mão e saindo correndo. Talvez os sonhos viessem pelo fato de ela estar entrando em minha vida de uma forma tão rápida e se infiltrando, conseguintemente, em meus pensamentos. Senti saudades do meu ensino médio. Lembrei de Andréa que nunca mais vi, de como éramos amigas e arteiras. Pensei em ligar pra ela um dia desses, imaginando que talvez Lara estivesse tanto em meus sonhos porque eu estava carente de amigas ou de viver, sei lá.
Mas lá pela quarta-feira Victor ligou me informando que sábado estaria na cidade pra me visitar. Não me senti feliz e nem triste, como sempre. Foi quase o mesmo de alguém me ligar para contar que horas eram. Eu não o odiava, mas também não o amava. Também nunca acreditei no que os livros contam. Histórias de amor permaneciam nos livros e era por isso que se vendiam tantos. Porque amores perfeitos não existiam, pelo menos no meu mundo, mas todo mundo sonhava com um. Enfim, meu pai era feliz assim, ele adorava Victor e dava total apoio para nosso futuro (bem futuro) casamento. Então se estava tudo bem para ele, estava tudo bem pra mim.
Em um dos almoços Lara me mostrou sua mãe em uma foto. Ela soava muito mais doce falando dela e de como sentia saudades. Impossível o coração de uma pessoa não abrir com alguém falando assim na sua frente. Com o meu não foi diferente e se abriu também.
-- Sua mãe é muito bonita. A minha se separou do meu pai quando eu tinha uns 12 anos. Se apaixonou por um inglês, deixou tudo e foi embora... Não a culpo, acho que ela não podia mais aguentar essa vida.
Sem perceber viajei em meus pensamentos. Lembrei de quando ela se foi, de como a odiei anos por isso e de como nosso contato foram poucos apesar de seus esforços. Lembrei principalmente de como senti falta de ter uma mãe, por muitos anos e de como meu pai me culpou por sua partida. Longe, muito longe ouvi a voz da Lara me perguntando:
-- Que vida, Ana?
Olhei pra ela pensando que por um segundo, apenas, eu gostaria de derrubar todas as paredes entre chefe e funcionária que existia entre nós, me acolher naquela pessoa tão leve e que parecia tão confiável quanto um porto seguro. Mas esse sentimento, ou melhor, essa carência não durou muito e foi apenas por um segundo. Voltei a me arrepender logo depois, pois eu não podia continuar esquecendo assim, a todo instante, quem eu era e qual era o meu papel ali. Tentei fazer minha voz soar mais firme, mas não saiu.
-- Ah, a vida e seus problemas. - ri sem graça. - Continuemos Lara, não tente me distrair, mocinha...
O dia de trabalho tinha chegado ao fim, meu carro tinha estragado e como eu não entendia nada daquilo mandei concertá-lo. Teria que esperar um táxi, mas para falar a verdade eu não queria muito ir embora, então fiquei enrolando. Ela apareceu e começou a se despedir.
-- Já estou indo, não vai também?
-- Já vou, tenho que ligar para o táxi ainda. – OK, eu tinha que parar de bobeira e ir embora também. Comecei a arrumar minhas coisas.
-- Táxi? Pra que?
-- Meu carro estragou, sei lá o que é. Estou sem ele até segunda...
-- Deixa disso, te dou uma carona... – Olhei para ela não acreditando no que eu ouvia. Eu queria aceitar, lógico! Algum bichinho pulou de alegria dentro de mim, causando um tremor estranho. Mas eu não queria dar trabalho, era sábado e ela também deveria estar morrendo de vontade de sair. Tinha o tal Lucas, né.
-- Eu moro longe, Lara.
-- Se acelerar dá. - Ela piscou e foi inevitável não lembrar o nosso primeiro encontro. Ela não tinha mesmo jeito, ou melhor, ela sempre dava um jeitinho de me driblar.
-- Boa. Depois dessa não tem como negar a carona. Vamos, então?!
Entramos no carro e ela ligou o som bem baixo. Comecei a pensar nas coisas que tinha que fazer ainda hoje. Desejei secretamente que ela me chamasse para tomar algo ou comer, sei lá. Ela era tão impulsiva, assim nós poderíamos rir mais e eu sempre me soltava com a ajuda do álcool, eu era muito fraca com bebida. Eu sempre me soltava com ela, imagina com uma ajudinha do álcool então... Mas sua voz me trouxe de volta ao carro.
-- Então... Vai passar o fim de semana com seu namorado?
Comecei a rir com a ironia da vida, eu aqui pensando que ela poderia me chamar pra fazer algo e ela vem me falar do meu namorado. Não soava engraçado e ao mesmo tempo triste? Pois é, e eu nem estava me lembrando dele.
-- Ah sim, o Victor... Vou. – Eu não queria falar sobre ele. Queria falar sobre eu e ela. Cortei rápido esse pensamento, como assim? Não, não. Nada disso! Quis pensamentos bobos eram esses? Eu queria era esquecer ele, só isso.
-- Algum plano em especial? – Mas ela insistiu no assunto, mesmo parecendo mais concentrada no trânsito do que em minha resposta.
-- Não, nenhum... – Eu sei que soava triste minha resposta, mas não era eu juro. E que não tinha plano nenhum, mesmo. Provavelmente jantaríamos com meu pai e eles ficariam conversando assunto de homens e eu ficaria lá jogada, completamente esquecida. Eu não queria contar pra ela como meu fim de semana seria sem graça, não para ela que parecia alguém tão viva e com certeza iria se divertir muito o fim de semana inteiro.
-- Huumm...
Acho que ela ia dizer alguma coisa, mas aí seu telefone tocou e até deu pra escutar o toque a cobrar de onde eu estava. Percebi como ela riu com carinho e fiquei curiosa para saber quem era, mas eu já imaginava que deveria ser o Lucas. Ela estava prestes a retornar à ligação quando não aguentei e antes que pudesse me conter, perguntei.
-- O tal Lucas? – Não consegui conter o tom de ironia em minha voz.
-- É, o Lucas. Ele tá doido pra sair hoje. – E devia estar mesmo, afinal ela era bonita, solteira e cheia de vida, quem não estaria?
-- Huuumm.. – Eu murmurei, tentando não fazer a pergunta que estava na ponta da minha língua, mas acabei fazendo. - Vocês estão tendo alguma coisa?
Eu tive que perguntar, não teve como. Não entendi bem o porquê, mas ela me olhou espantada, freou muito rápido e me encarou como se eu tivesse dito alguma coisa muito absurda. Meio assustada, me senti uma idiota e logo me arrependi da pergunta. Ela devia estar me olhando assim porque eu tinha ultrapassado a linha tênue entre chefe e funcionária que existia entre nós. Deve que ela achou uma falta de respeito e ela tinha razão, eu não deveria ter perguntado nada. Mas assim que ela abriu a boca eu percebi que não era nada disso.
-- Não, que isso... O Lucas!! – Ela enfatizou o nome dele como se somente com isso eu pudesse me lembrar de alguma coisa muito obvia, mas eu não conseguia adivinhar o que era. Ela continuou. - O Lucas que estava me ajudando no primeiro dia, lembra?
Puxei na memória uma imagem de todos os Lucas que trabalhavam na empresa e quase suspirei de alivio, não me perguntem o porquê. O cara era gay, daqueles que você reconhece só de olhar! Todo arrumadinho e cheio de manias. Percebi a bola fora que eu tinha dado e comecei a rir, foi inevitável. Tentei me recompor, dei os ombros como quem não se importa e respondi.
-- Ah, sim, aquele Lucas... Sei! É que tem tanto Lucas, né? – Tentei fingir indiferença, mesmo com ela me encarando. Ela continuou o que estava fazendo antes do meu chilique e ligou para ele de volta.
-- Oi, Lucas.. Fala! –Forcei muito minha audição para além do barulho dos carros, xinguei todos mentalmente e consegui escutar bem baixinho o que ele disse. Esperei a resposta dela.
-- Ah não, não esqueci não, claro! - Mas fez cara de quem obviamente tinha esquecido e quase dava pra ver ela batendo com a mão na testa, se ela não estivesse tão grudada no volante. Virei o rosto rumo à janela para que ela não me pegasse rindo. Mas de qualquer maneira ela não estava olhando pra mim, mesmo, porque ela parecia muito concentrada em dirigir e falar com ele ao mesmo tempo. Estava prestes a viajar novamente em meus pensamentos sobre como eu estava certa; ela se divertiria o fim de semana inteiro e eu ficaria presa em casa quando ela sorrindo, disse:
-- Mostrou? É bonita?
Quase quebrei o pescoço me virando com tudo para olhá-la. Sua expressão era de uma criança arteira, mas não foi isso que me chamou atenção e me fez voltar o rosto pra ela. Ela disse bonita? No feminino? Eu tinha escutado razoavelmente bem o que o Lucas tinha dito no telefone, mas o motor de um caminhão atrapalhou todo meu esquema de escutar a conversa. Droga! Consegui escutar um ‘lindíssima’, um ‘não perca’, “advogada” e o resto da frase foi totalmente abafado. O que aquilo queria dizer? Eu tinha escutado bem?
Não podia ser o que eu estava começando a imaginar que fosse, poderia? Ela nunca, jamais disse nada. Tentei puxar na memória algum momento em que ela comentou algo relacionado a esse assunto, mas pensando bem, quando o assunto era relacionamentos ela sempre esquivava ou mudava de assunto. Só comentou uma vez, bem por alto, que era separada e nada mais.
Sai da nuvem de pensamentos assim que ela desligou o telefone, mas o encarou por um tempo sorrindo. Abaixou a mão para colocar o aparelho no suporte entre os bancos do carro e parece que percebeu que eu ainda estava ali. Sua expressão foi de puro susto, por mais que ela tivesse tentado disfarçar voltando rapidamente sua atenção para a pista. Percebi como ela apertou o volante e quase pude ouvir o ruído dela engolindo sua saliva a seco. Tudo isso aguçou ainda mais a minha curiosidade! Ela iria me contar fosse o que fosse e seria agora! Eu sempre fui direta em vários assuntos, encarnei esse meu lado nesse momento e perguntei.
-- Tem um encontro hoje à noite? – ela podia se fazer de desentendida o quanto quisesse, mas ela iria perceber onde eu queria chegar logo.
-- Hum, nada não, é rolo do Lucas. – Como eu imaginei lá estava ela tentando se esquivar do assunto de novo, mas eu não deixaria assim. Eu precisava saber.
-- Algum cara da empresa? – Eu tinha escutado muito bem quando Lucas disse que alguém estava interessado nela e o gênero foi usado no feminino. Mas preferi não ser tão direta. Eu não iria desistir, arrumaria um jeito de entender tudo aquilo. Não sei por que, mas aquilo me deixou com... Raiva?
-- Não, nenhum cara da empresa... - Ela olhava pra estrada mostrando claramente que não queria falar daquilo e aquilo estava me irritando! Eu queria saber a verdade, eu tinha escutado a conversa, então por que ela queria fingir que nada tinha acontecido e insistia em me responder monossilabicamente? Resolvi chutar o balde e falar logo o que eu achava. Eu sempre era direta em tudo, por que não agora? Ela aumentou o volume do som em outra tentativa, clara, de tirar o corpo fora do assunto. Fui firme e falei mais alto.
-- Alguma mulher da empresa? – Senti o exato momento em que ela prendeu o ar por alguns segundos. Ela era boa, fingia muito bem e enganaria qualquer um que não estivesse olhando atenciosamente para ela, tão de perto e tão interessada. Meio sem perceber eu também prendi a respiração e o clima no carro ficou tenso. Ela ficou calada por um tempo, olhou a estrada e soltou o ar fazendo uma cara de pesar. Seu olhar ficou triste. Aquilo me incomodou, eu não queria ver ela assim. Nunca foi minha intenção causar desconforto a ela e não queria que sequer passasse em sua mente que eu a odiaria, caso tudo aquilo fosse verdade. Me perguntei se ela não estaria com medo de perder o emprego, de eu contar ao meu pai ou... Sei lá.
Ah, se ela soubesse como já era tarde e que eu não seria capaz de deixá-la ir.
-- Não vou te despedir, te minimizar ou deixar de conversar com você por isso Lara. – Quis deixar bem claro para ela isso e passar segurança ao mesmo tempo. Quis principalmente que ela confiasse em mim.
De repente ela virou para mim, olhou dentro dos meus olhos e o modo que eu estremeci, nem preciso comentar isso. Acho que ela conseguiu encontrar sinceridade neles porque disse:
-- Não, não é da empresa. Como você ouviu o Lucas dizendo, parece ser uma advogada. Eu não sei quem é... Não conheço.
-- Ah... – Foi tudo o que consegui dizer. Eu quis tanto que ela me contasse a verdade, que confessasse aquelas palavras, mas estranhamente e sem entender o porquê aquilo me deixou chateada. Virei o rosto rumo à janela e meio que me afundei no banco. Nem me preocupei nesse momento em entender o porquê daquele sentimento em mim. Um milhão de coisas passava na minha cabeça agora, mas eu não conseguia organizar pensamento nenhum. Senti meus olhos úmidos de pura raiva, claro. Me senti traída. Ela poderia ter me contado! Mas eu sentia algo, além disso, mais fundo em mim e era aí que eu me sentia perdida e não entendia o que acontecia. Ela não podia ser... Eu não conseguia sequer pensar na palavra, porque ela simplesmente não podia ser aquilo. Se eu já me senti meio enciumada quando pensei que ela tinha um caso com o Lucas, com uma mulher então...
-- Então... – Eu não sabia bem o que perguntar e nem como perguntar, mas eu queria saber mais, muito mais. - Você fica com homens e mulheres?
Sabe o que é, mas eu não queria confessar nem para mim mesma? Eu não queria ter que dividir aquele sorriso com mais pessoas e dividir com uma mulher me parecia pior. Muito pior. Com outro homem eu podia compreender, já que na sociedade existiam os parceiros, as amigas, e cada um desempenhava seu papel na vida de uma pessoa. Mas agora eu... Ah, nada fazia sentido e eu não conseguia explicar, tão pouco. Continuei olhando chocada para a estrada quando ela respondeu.
-- Bem, na verdade sim e não. – Olhei para ela com quem não entendia. Dava pra ela ser mais clara? O tremor das minhas pernas e o tremor dentro de mim foi aumentando. - Não me lembro a última vez que fiquei com um homem, mas nunca digo nunca.
-- Hum... – Eu não soube o que falar. Eram várias coisas passando na minha cabeça, mas a única coisa latejante era: Havia muita gente pra um só sorriso e eu teria que me conformar com isso. Ela acrescentou.
-- Mas, na verdade, gosto mesmo é de mulher, não vou mentir pra você.
-- Ahhh.... – Eu estava passada, em choque. Não sabia o que era pior, ela dizer que gostava dos dois ou se gostava só de mulher. Não que eu fosse preconceituosa, nada disso. Não pensem isso de mim. Sempre vi os homossexuais como pessoas normais, porque pra mim não fazia diferença se alguém era negro ou branco. Gay, lésbica, trans... Todo eram iguais para mim, eu não via diferença alguma e nem rotulava.
Não teve como, minha mente foi mais forte do que eu e me levou de volta aos tempos da escola, onde eu nunca me interessava nos garotos e só queria ficar perto das minhas amigas. Era muito melhor, eu me divertia mais e nunca criei caso quanto a isso. Na verdade, eu nunca pensava muito em sex*, fosse homo ou hétero e, às vezes, eu pensava ser até meio assexuada porque eu nunca gostei muito disso.
Enquanto minhas amigas na puberdade falavam disso o tempo todo e ficavam babando nos garotos, eu sentava debaixo de uma sombra e ia ler algum livro. Era bem mais interessante para mim, porque eu nunca sentia tanto prazer como, aparentemente, minhas amigas sentiam com aquilo. Continuei presa em meus pensamentos, eu não sabia o que dizer e acho que não tinha mais o que ser dito. Eu não conseguia raciocinar direito, mas de uma coisa eu sabia. Ela ia sair com uma advogada, alguém importante que deveria ser linda. E eu estaria, dentro de poucas horas, mofando no sofá da casa do meu pai, de cabeça baixa, encarando algum copo quente de vinho em minhas mãos.
Mal percebi quando chegamos a minha casa, só dei por mim quando senti o motor do carro sendo desligado. Tirei o cinto de segurança ainda em silêncio e fui abrir a porta quando ela segurou meu braço, olhou bem pra mim e disse com uma voz doce, mas que ao mesmo tempo parecia cheia de sofrimento.
-- Ana, eu espero que isso não mude nada. Por favor...
Nossa, aquele ‘por favor’ me vez querer chorar de novo. Eu não sabia o que responder, porque eu até me sentia meio dopada. Devia ser a TPM, só pode, pois eu sempre ficava chorosa nessas épocas, era normal. Então naquele momento em que minha mente não estava funcionando direito, a culpa de tudo era da minha TPM. Quando abri a boca para respondê-la minha voz saiu um tanto quanto triste, um tanto quanto cansada.
-- Claro que não, imagina, Lara.. – Foi tudo o que consegui dizer, porque na verdade eu não queria que ela saísse com a advogada, que sentasse no chão com ela ou a fizesse rir, como ela me fazia. Meu Deus, eu estava uma bagunça. Que tipo de pensamentos eram aqueles? Minha funcionária acaba de me contar que era lésbica e tudo que eu conseguia fazer era imaginar ela com outra? Aquilo não podia ser normal. Eu tinha que voltar minha cabeça pro lugar, lembrar que eu era somente sua chefe e isso não deveria me afetar, emocionalmente, de maneira alguma. Eu iria me colocaria no meu lugar assim que eu tomasse um banho e dormisse um pouco, descansasse. Tentei dizer algo a mais para me despedir dela, mas não consegui e acabei sendo irônica, mas a ironia era mais pra mim do que para ela.
-- Bom fim de semana e se divirta com a advogada.
Vi de relance como se olhar caiu e não entendi bem o porquê de tal atitude, só sei que sua voz saiu meio seca quando ela disse:
-- Bom fim de semana Ana, divirta-se com seu namorado também...
Senti afundando mais ainda. A simples lembrança no nome Victor fez meu estomago embrulhar. Eu me senti meio tonta, minhas pernas estavam bambas e eu só queria minha cama. Sai do carro e caminhei pra dentro do prédio sem nem agradecer a carona. Olhei pra trás uma última vez, como quem espera que o outro alguém grite que é tudo brincadeira. Esperei que ela não percebesse a bambeza das minhas pernas, mas ao mesmo tempo desejei que ela percebesse, me levasse até meu apartamento, permanecendo comigo e principalmente quis que ela não fosse embora me deixando jogada nas mãos do meu pai e do meu namorado. Ela balançou a cabeça em um aceno mínimo e partiu, rápido demais, me deixando ali sozinha.
Lara
Dirigi quase na velocidade máxima até em casa tamanha era minha raiva, tristeza, não sei definir bem. Estacionei o carro de qualquer jeito, acho que dei uma esbarrada no carro da frente e xinguei muito, mais do que o necessário, por isso. Chegando em casa recolhi algumas cartas, eu já tinha contas, acreditam? Joguei- as de qualquer jeito em cima do sofá e fui olhar o que tinha na geladeira. Bebi leite direto da caixinha, porque desde adolescente eu me sentia meio foda, daquelas que não tá nem aí pra nada e vira tudo no bico quando está com muita raiva, sem pensar nas consequências. ‘‘Tô nem aí pra você, Ana. Sou melhor que isso! Morra você e seu namoradinho, eu não to nem ligando. Sou foda e bebo leite do bico.’’ Pensei enquanto virava quase meio litro de uma vez.
‘‘Aff Ana!’’ Aquela voz chata em minha cabeça, disse de novo. Cansada disso, fui me deitar um pouco. Tomaria um banho e me arrumaria mais tarde para encontrar o Lucas se eu animasse.
Ana
Não me lembro bem como consegui me manter em pé dentro do elevador e não me lembro de ter apertado o botão do meu andar. Acho que fiz tudo no automático, até mesmo abrir a porta de casa. Entrei e fui direto pro quarto sem nem me preocupei em trancar a porta. Acho que vi a luzinha vermelha do meu telefone piscando, indicando que tinha mensagens de voz, mas eu não conseguia pensar nisso agora direito. Deitei de roupa e tudo, tentei tirar os sapatos sem as mãos apenas esfregando um pé no outro, mas a merd* não saia! Comecei a bater os pés na cama com muita raiva e acabei chorando um pouco. Não sei por que eu chorava. Tudo passava pela minha cabeça, meu pai, minha mãe, o Victor, a empresa, minha vida sem graça e no meio de cada lembrança vinha o sorriso de Lara. Logo depois vinha a imagem dela no telefone com o Lucas e de seu rosto me confirmando quem ela era verdadeiramente. Eu não queria que ela fosse aquilo, porque eu a queria sempre perto de mim. OK, vou confessar essa parte. Mas aí se ela fosse mesmo lésbica, ela não acabaria confundindo a minha amizade? Eu não queria que ela se apaixonasse por mim, pois eu era muito, muito... Na verdade, quem eu era? Eu não sabia de nada. Eu só sabia que não queria Lara com a tal advogada hoje à noite enquanto eu permaneceria afundada em casa. Não queria que aquilo soasse como se eu estivesse sentindo ciúmes dela, porque eu não estava. Talvez eu chamasse Victor para sairmos, ir à balada ou algo do tipo. Mas não consegui visualizar nenhum lugar bom o suficiente. Se ao menos eu soubesse onde Lara estaria, eu poderia passar lá como quem não quer nada e dar uma boa olhada, mas não, eu não sabia de nada e perdida nesse turbilhão de pensamentos, acabei adormecendo.
Lara
Abri os olhos devagar e por trás da cortina era perceptível o céu em um azul mais escuro, estava anoitecendo. Decidi ir tomar banho, pois meu corpo parecia muito pesado como se eu não tivesse tomado banho por muitos anos e eu tivesse carregado mil baldes de pedra. Enquanto eu ligava o chuveiro e sentia a água quente escorrer sobre meu corpo, causando arrepios em minha pele gelada, comecei a relembrar de tudo que tinha acontecido mais cedo e da reação estranha de Ana. ‘‘Que tipo de reação foi aquela?’’, me perguntei. Não tinha explicação seu silêncio, suas perguntas em tom distante. Tentei imaginar mil coisas, mas não achava explicação em nenhuma. A única alternativa plausível em minha cabeça era: Preconceito. Porque outro motivo ela sairia do carro sem nem me olhar direito? Senti medo. Medo de perder meu emprego, mesmo que ela tivesse me prometido não fazer isso. Mas meu principal medo era perder ela, mesmo que ela não fosse minha. Eu estava divida entre vários sentimentos, pois um lado de mim dizia que aquilo era puro preconceito, mas o outro lado só queria vê-la e esquecer aquilo tudo. Percebi que tinha esquecido o tempo e já estava ali no banho há quase uma hora. Resolvi que não iria ficar a noite inteira amargurada por tais pensamentos, uma vez que não adiantaria em nada, e fui me arrumar para encontrar o Lucas.
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Fim do capítulo
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