Capitulo VI
Eu sabia que aquela tentativa medíocre de fuga seria temporária e totalmente ineficiente, mas precisava de tempo para organizar meus pensamentos para enfim tomar alguma atitude sensata – ou o mais próximo disso. Depois de ler a ameaça de Custodibus direcionada a minha cigana, meu primeiro instinto foi de afastá-la para o mais longe possível do caos que eu mesma havia causado. Precisava de tempo. O quão irônico isso soava, me fazia querer rir, enlouquecidamente. O universo parecia empenhadíssimo em me testar, e eu só queria entender o maldito porquê.
Ainda que estivéssemos a um par de horas da cidade, a frágil proteção daquele lugar tão querido e familiar soava, perfeitamente, adequada. A pacata cidade de São Valeriano, exalava aconchego e privacidade como o de qualquer outra cidadezinha interiorana. Fosse pela sua arquitetura rústica de detalhes amadeirados ao longo dos prédios ou pelas ruelas estreitas cheias de tendas coloridas. Eu amava aquele lugar, amava ainda mais o Château da minha família. O conjunto rochoso que formava a construção antiga daquela casa podia ser considerado o meu paraíso particular. Nenhuma outra ideia soou mais atraente do que levar Amélia até lá, e aproveitar as duas maiores preciosidades da minha vida. Ver o olhar deslumbrado da cigana só reforçou minha escolha.
O dia mal havia começado e já estávamos entre as flores e arbustos do jardim frontal do casarão. A cigana inventara de revirar a terra na pretensão insana de plantar alguma flor exótica – que segundo ela, daria muito certo naquele tipo de ambiente. Me limitei a sentar ao seu lado, lhe cedendo água e proteção contra os raios solares que castigavam nossas peles, enquanto a mulher digladiava bravamente com alguns galhos que resistiam em se desprender do solo sob sua vontade.
Estando em meio a natureza crua, era inevitável que meus pensamentos seguissem em completa admiração. A existência daquela mulher fazia com que todo aquele embate valesse a pena. Se para salvá-la precisasse abraçar voluntariamente o caos que me espreitava, o faria de bom grado. Lia era o paraíso ao qual os tolos mortais buscavam, incansavelmente, no entanto, ela se colocava somente à minha disposição. Diante todas as hipóteses perversas que me assombravam, estar em seus braços era a minha única certeza. Precisava mantê-la a salvo, mesmo que custasse a minha própria vida. Perder Amélia era um preço alto demais a se pagar.
— Amélia! Não me faça ter de lutar com as flores apenas para mantermos uma conversa civilizada. – tentei atrair sua atenção, pela enésima vez consecutiva. A cigana estava tão concentrada naquela batalha que sequer me olhava. Linda e empenhada.
— Você mais do que ninguém deveria tentar abrandar essa sua energia caótica, não há nada melhor do que flores para isso! – persuadiu divertida, ainda sem me dignificar um mísero olhar.
Não podia negar que sua audácia me cativava, não mais que seu amplo sorriso convencido. Sua pele brilhava feito o ouro das joias que adornavam seus pulsos e pescoço. O sol daquele dia quente fazia de seus olhos uma piscina castanho-esverdeada deslumbrante. Seu característico sorriso presunçoso, me instigava a juntar a minha boca à sua tão vermelha e convidativa. Aquela cigana era atraente demais para seu próprio bem. Eu parecia a porr* de uma estranha no universo, mas Lia fazia com que eu conseguisse integrar parte do mundo, ainda que fosse somente o dela. Colorido e mágico.
— Tentador, mas dispenso! – entortei a boca em puro desagrado, fazendo-a sorrir ainda mais largo do que achei ser possível. —Você poderia dar uma pausa para pelo menos comermos alguma coisa, que tal? – sugeri esperançosa.
— Tudo bem! – declarou, finalmente se dando por convencida. Não havia um só pedaço de seu corpo curvilíneo que não estivesse completamente tomado de terra. Meu olhar de desagrado deu-lhe incentivos o suficiente para ela ir tomar um banho e livrar-se da roupa imunda, enquanto eu me ocupava em preparar algo para comermos.
Antes de chegarmos ao casarão, fiz questão de dispensar todos os funcionários. Queria aproveitar cada instante que pudesse ao lado de Amélia, sem qualquer interrupção ou plateia curiosa. Ainda na cidade, não dei tempo para que houvesse a sombra de qualquer guardinha em meu encalço. Estávamos sozinhas. A presença animada e brilhante da cigana ocupava facilmente todos os cantos escuros da minha mente, equilibrando com perfeição calmaria e turbulência.
Eu estava concentradíssima cortando algumas frutas sob o balcão da cozinha, quando meu corpo fora agraciado pelos poderosos efeitos da presença inquietante de Amélia. Ela maldosamente não perdeu a oportunidade de tomar posse da minha cintura por ambos os lados, sem pena da minha precária sanidade. Não tinha como se manter sã estando tão próxima daquela mulher, principalmente quando ela parecia muito satisfeita em não permitir isso.
— Tão cheirosa, murri shukar. – seu hálito quente tão próximo ao meu ouvido se espalhou feito um mar de fogo por todo o meu corpo, consumindo não só minha pele como também minha mente. Podia sentia-la por todos os lugares. Cada pedacinho de mim, se derretia sob sua vontade implícita.
— Amélia… – minha voz saiu, vergonhosamente quebrada, trêmula. Se não fosse pelo amparo de suas mãos firmes me segurando, com toda certeza estaria caída no chão daquela cozinha. O som da sua risada lotada de más intenções me deu coragem para buscar seus olhos. Nada, absolutamente nada, havia me preparado para a imagem de Amélia trajando uma chemise branca amparada por um corpete marrom, caprichosamente amarrado. O tecido claro dispunha de uma transparência perigosa, convidando meus pensamentos a seguirem caminhos imprudentes. Eu precisava tocá-la, só para confirmar se ela era real, ou se seria apenas um capricho da minha imaginação insana e desejosa.
Bastou um sorriso convidativo e o toque de suas mãos exigentes, para que as frutas sobre o balcão fossem esquecidas, que as necessidades fossem refeitas. Nossas bocas encontraram subsistência na extensão de nossas peles, branco e dourado ditando o sabor de apego. Entre suspiros e apertos, desejo e entrega, nos tornamos atemporais.
Inconscientemente, migramos aquele espetáculo particular para a antessala do Château. Estávamos deitadas no largo sofá de couro, com as peles desnudas de qualquer outro tecido que não fosse o ineficaz lençol perolado que havia sido capturado ao acaso. Ainda nos buscávamos, pele contra pele, cedendo um carinho ou outro. Minhas mãos não paravam de traçar aquela tatuagem que dizia tanto de sua dona, que na ausência de tinta fazia em minha pele seus próprios traços marcados em vermelho. A miríade de sensações inebriantes que Amélia causava, ressoava como música, intensas demais para que não fossem reproduzidas. As notas daquela melodia singular dançavam sobre meus olhos, exigindo tomar forma. Não demorei para me levantar, totalmente nua, sentando-me no banco do lustroso e elegante piano que também ocupava espaço naquele cômodo. Meus dedos pálidos procuravam tecla por tecla, seguindo as ordens ditadas por cada sensação que gritava dentro de mim de forma quase sinestésica. Em algum momento durante minha epifania criativa, minha musa sentou-se ao meu lado em completo silêncio, deixando-me à mercê daquela descarga emocional tão abrupta e bem-vinda.
Assim como havia começado, aquela música tão cheia de sentimentos e significados chegou ao fim. Meio temerosa, olhei para a mulher ao meu lado, e o que vi em seus olhos foi o mais puro amor. Amélia me retribuía com seu olhar, sempre tão carregado e afetuoso, a mesma dose profunda de amor que havia lhe cedido voluntariamente através dos sons cadenciados daquele piano.
— Você gostou? – perguntei ansiosa, meio ofegante.
— Não tenho palavras para descrevê-la, adequadamente. – seu tom adocicado enchia-me a boca com gosto. Seus lindos cabelos desajeitados caiam em ondulações castanhas pelos ombros sedutoramente desnudos, enquanto suas mãos lutavam para manter o lençol claro cobrindo-lhe o restante do corpo. A imagem como um todo era deliciosa demais para que não beijasse a ponta de seu queixo marcado.
— Fiz para você! – confidenciei.
— A música é linda, murri shukar. Obrigada!
— Se não ficou claro, eu amo você! — disse baixinho, como se fosse um segredo, e de certa forma o era. Um segredo que merecia ser dito em voz alta apenas para nós duas.
— Eu amo você! – cobriu-me a boca com vontade, me dando aquele beijo meio sorriso, gostoso demais.
Existem momentos em que a conjunção das palavras certas ocasiona circunstâncias extraordinárias. Quando imaginei que diria aquele conjunto específico, pensei que o mundo explodiria em mil pedaços, que a terra tremeria sob meus pés, e seria lançada ao espaço fundindo-me com as estrelas. Mas absolutamente nada me preparou para a realidade. Meu peito parecia pequeno demais para o tamanho excessivo que meu coração parecia expandir a cada batida. O sangue em minhas veias corria frenético. Amar Amélia era como ser lançada dentro de uma tempestade crua de intensidade e imensidão. Porque sequer dava para dimensionar a amplitude daquele sentimento em uma palavra só.
Nós ainda ficamos agarradas, aproveitando mais de nós duas, mais de sorrisos abertos cheios de declarações calorosas e beijos carinhosos. Quando nossos corpos resolveram manifestar em contrário, nos recompomos somente para começar todo aquele ciclo de novo. Poderia colocar a culpa nos maravilhosos dias que vinha passando em exclusiva companhia de Amélia, por estar sendo mimada pelos seus cuidados e atenção, pois bastara a presença de outras pessoas para minha insatisfação tornar-se inevitável. Antes fosse uma interrupção passageira, mas não era. A presença tão inesperada quanto indesejada de Heitor e Hugo se fizeram notar quando ambos simplesmente bateram na porta de entrada do velho casarão.
Minha cabeça estava uma bagunça de decisões precipitadas e irresponsáveis, nublando qualquer solução razoável que eu pudesse tomar sem piorar ainda mais as coisas. Não podia simplesmente expulsá-los ou ignorá-los. Então, quase que naturalmente, fiz a única coisa que me permitiria colocar os pensamentos em ordem. Peguei uma cigarrilha do maço que mantinha escondido dentro da bolsa. Desistindo imediatamente após a quarta tragada, porque claramente não estava funcionando. Não iria funcionar. Eu tinha um problema dos grandes nas mãos, e como se não bastasse, as consequências dele vieram bater na minha porta. Hugo e Heitor me esperavam na escadaria da entrada. Suas feições impacientes e tensas reafirmavam com facilidade o quão ruim as coisas estavam.
Assim que abri a porta, com Amélia do lado, troquei um rápido olhar inquisitivo com Heitor, não dando tempo para que o policial se manifestasse. Adiantei-me em puxá-lo – o mais delicadamente que a situação permitia – pelo cotovelo.
— Vocês se importam de nos dar licença? – disse aos outros dois, sequer dando tempo de uma resposta contrária. Arrastando o editor-chefe junto comigo.
— Juro que tentei evitar de envolve-la, mas o investigador insistiu para que viéssemos o mais rápido possível. – adiantou-se Heitor naquela característica parcimônia, quando ficamos a sós.
— O que vieram fazer aqui? Ou melhor como é que ficaram sabendo onde eu estava? – rugi agitada e desgostosa de ter meu momento de paz atrapalhado.
— A senhora Heredia a procurou no jornal, acredito que seja pela notícia que aliás viemos lhe contar em primeira mão. – zombou ácido.
— Siobhan foi ao jornal? – questionei confusa. Para a velha cigana sair do acampamento e voluntariamente ir até a cidade a situação não deveria ser nada boa mesmo.
— Sim, na noite passada. Agora quem nos contou onde você estava foi sua mãe, muito simpática a senhora Montelo. –contou-me.
— Tudo bem. Vamos lá falar com esse idiota. – suspirei derrotada.
— Posso beber algo, primeiro? Toda essa agitação tem acabado comigo, não tenho estado de espírito para lidar com tudo isso num único dia. – lamuriou-se.
— Estou desapontada, Hardin. Pensei que fosse um homem de ação. – zombei, indicando o caminho até a cristaleira onde havia algumas bebidas.
— A não, não mesmo. Deixo isso para você! – disse divertido enquanto pegava o copo de whiskey da minha mão quando o ofereci. — O Château é bem bonito. – completou distraído.
— Muito. Peco em dizer que é meu lugar favorito do mundo. – segredei.
Não trocamos mais qualquer palavra depois do sorriso cúmplice que Hardin me deu. Assim que a bebida terminou, pedi a Heitor que esperasse no carro enquanto lidava com o investigador que trocava sorrisos com Amélia na porcaria do meu jardim frontal. Não bastasse sua presença inconveniente, ainda tinha que presenciar cenas ridículas como aquela. Ensaiei minha melhor cara atrevida e arrogante, rumando até onde os dois amiguinhos estavam. Minha energia devia estar bem pesada pois ambos levantaram os olhos para mim, enquanto me aproximava.
— Um dos ciganos foi preso na noite passada. – Hugo soltou rígido antes mesmo que pudesse soltar qualquer uma das minhas frases de efeito debochadas.
— Sob qual acusação? – inquiri surpresa e receosa. Ao ouvir aquilo Amélia remexeu-se inquieta ao meu lado. Não queria que ela participasse daquela conversa, mas essa era uma luta que não conseguiria travar naquele momento.
— Uma denúncia anônima! O identificaram como sendo o suposto agressor da senhorita Maldonado. – revelou resignado.
— Como assim vocês o prenderam por algo tão substancial como uma denúncia anônima? – Lia manifestou sua indignação. Aproveitei por míseros segundos a satisfação de ver a cigana direcionar sua raiva ao investigadorzinho que mal sabia onde enfiar sua cara carrancuda. A cena de sua pose galanteadora desmoronando diante o furor da minha cigana, apesar de rápida, fora magnifica. Prazerosa, até.
— Infelizmente, não sou eu quem faz as regras por aqui Lia. – respondeu Müller derrotado, amuado. O homem me olhou suplicante em busca de auxílio, visto que eu era a única ali que poderia dar lhe certo crédito quanto as extravagâncias do senhor Governador, de quem provavelmente partira aquela ordem esdrúxula. Por um minuto pensei se o ajudaria ou não, mas eu era refém do meu bom senso.
— O Governador está tão ávido para resolver essa questão que usará qualquer oportunidade a sua disposição. Claramente, o está fazendo de bode expiatório.— argumentei. — Os ciganos precisam partir, urgentemente. – Amélia olhou-me incrédula e magoada, mas não lhe dei tempo para contrapor. — Hugo, você acha que consegue liberar o cigano hoje ainda? Irei conversar com Siobhan para agilizarmos a partida de todos antes que isso vire uma caça às bruxas.
Ante as minhas últimas palavras Amélia nos deixou a sós, rumando a passos largos pelo jardim lateral do casarão. Meus olhos seguiram sua caminhada apressada, até que sua figura desaparecesse. Bastou voltar minha atenção ao investigador, para saber que não fui a única a velar os passos da cigana. Seu olhar apaixonado me irritava, profundamente. Investigadorzinho infeliz.
— Não seja tão desagradável. Faça esse favor a si mesmo, Müller. – ralhei, impaciente. — Temos assuntos mais importantes do que seu interesse amoroso frustrado. – o olhar raivoso do homem aliviou um pouco a minha tensão. Desafiá-lo era, extremamente, revigorante. Eu sabia lidar bem com aquilo.
— Enfim… também acredito que o melhor seja a partida dos ciganos. Apesar de conseguir liberar o rapaz que fora preso injustamente, não demorará muito para que essa situação piore. – grunhiu de volta, insatisfeito.
— Irei levar Lia embora, chegando lá converso com Siobhan, adequadamente. Quanto mais cedo resolvermos isso, melhor. – Hugo assentiu, se retirando. Não tinha muita certeza se queria colocar minha confiança na eficiência de Hugo, mas tinha que confiar no julgamento de Amélia quanto a sua boa índole.
Os dois homens não se demoraram muito na propriedade. Amélia estava do lado de fora do Château, sendo banhada pela fraca chuva que começou a cair de repente. Caminhei relutantemente a seu encontro, deixando com que meu corpo também recebesse os respingos que ganhavam força, lentamente. Como o de costume, antes mesmo que eu pudesse dizer qualquer coisa, minha cigana, virou-se buscando meus olhos com os seus sempre tão inquietos. Ela exalava tanto medo e tristeza, que doía. Amélia não perdeu tempo em vir até mim, a mulher que eu amava completou o pequeno espaço que nos separava, tomando meu rosto carinhosamente em suas mãos urgentes.
— Peça-me para ficar! – suplicou junto a minha boca. O hálito quente e mentolado me atordoando os sentidos. Ela estava disposta a se desfazer da parte mais importante de si mesma, renunciando a quem era para que ficássemos juntas. Eu não poderia ser tão malditamente egoísta em roubar-lhe a identidade. Amélia era quem era, e isso a fazia inestimável para mim. Esta seria minha maior prova de amor, deixá-la intocável a mãos mundanas. Inclusive das minhas.
— Você é feita de liberdade, Lia. Não me peça para reivindicá-la, não seria justo. – sussurrei, unindo nossas testas, aprisionando-a em meus braços. Sentia seu corpo tremer tanto quanto o meu. Espelhando o frenesi intenso de nossos corações sendo despedaçados.
— Não o fará, se o estarei fazendo de bom grado. – Amélia me banhava com sua determinação amendoada, assim como aquela tempestade caindo, desmedidamente, sobre nossas cabeças. Pelos céus, eu só queria abraça-la para nunca mais soltar. Eu repassava insistentemente todas as possibilidades de mantê-la perto, de resolver aquela situação sem que precisasse pedi-la para partir, mas não tinha outra saída. Sua sobrevivência era minha prioridade. Ao meu lado haveria somente trevas e morte.
— Eu não posso! – palavras nunca causaram tanta dor como as que proferi naquele instante. Queria me esbaldar no calor do seu abraço, do cheiro delicioso de seus cabelos e do gosto doce de seus beijos, entretanto, aquele sentimento de preservação, ainda me impedia de contar-lhe toda a verdade. Me sentia tão patética, tão impotente.
— Tudo bem, eu entendo! – decepcionada, a cigana me deu as costas, impondo passos apressados em direção ao casarão. Eu me sentia doente com a distância crescente. Precisava dela como as águas do oceano precisam da lua para ganharem força, em sua ausência eu deixaria de ser mar revolto, me tornaria insossa, imóvel. Amélia era o caos calculado que seduzia tão bem minha existência simplória.
— Amélia! – gritei, fazendo-a parar, mas ela manteve seus lindos olhos escondidos dos meus. Por um instante pensei em dizer-lhe os reais motivos de negar aquele pedido tentador de me entregar totalmente ao que podíamos ser juntas. Mas contar-lhe daria motivos fortes demais para que ela tendesse a ficar e enfrentar aquilo ao meu lado. Não poderia arriscar que isso acontecesse.
— Você fez sua escolha, Ylena! – seu tom de voz foi incisivo e cortante. Quando voltou a andar para longe de mim, o peso da falta preencheu meu peito de um vazio opressor. Eu a deixei ir. Vendo-a partir magoada, machucada. Depois de todas as pessoas que já passaram pela minha vida, Amélia continuaria sendo única. A certeza de que ela estaria marcada em mim, permanentemente, ardia minha pele enquanto a via se afastando. Meu interior estava tão caótico e intempestivo como a chuva que molhava meu corpo, furiosa. Minhas lágrimas se misturavam as gotas caindo incessantes e pesadas. Por um momento me deixei ser confortada pelo carinho úmido dos céus, pois, de certa forma, parecia que não estava lamentando sozinha.
A volta à Vitório Guerra foi tão silenciosa quanto angustiante. O clima dentro do carro estava intragável. Amélia não me dirigiu um olhar sequer, se fechando em sua fortaleza hostil e impenetrável. Assim que chegamos ao acampamento, a cigana saiu apressada do carro, sumindo entre as tendas. Me deixando outra vez sozinha. Aproveitando-me de seu abandono, fui conversar com Siobhan, explicando toda a situação e qual fora a minha ideia de solução imediata. Depois de um longo abraço acolhedor, acertamos alguns detalhes necessários para a partida dos ciganos e a segurança de Amélia. Minha declaração enfática para que cedesse maior atenção a garota foi motivo de desconfiança, mas foi aceita sem maiores questionamentos. Fora uma despedida igualmente dolorosa, pois de forma alguma podia deixá-la perceber minhas reais intenções por trás daquele adeus. Apesar de que algo em sua postura me dizia que ela sabia que algo maior estava acontecendo. Não voltei a ver minha cigana. O que de certa forma era o melhor. Não teria forças para outro de nossos embates fervorosos e cheios de vontades, como era tão comum de nós duas. Eu acabaria cedendo, pois ela sempre ganhava. Mas não daquela vez.
— Que nossa santa esteja ao seu favor, minha querida. – a velha cigana disse, segurando ambas as minhas mãos.
— Obrigada, minha amiga. – sorri emocionada demais para lhe render qualquer gracinha cética.
— Se tu olhas para a escuridão, abrirás portas para que ela lhe olhe de volta. – alertou-me pesarosa. Sua voz havia assumido aquele mesmo tom místico acompanhado da feição estoica de quando nos conhecemos. Outra vez, um arrepio nervoso e premonitório se encarregava de tomar meu corpo inteiro.
No caminho para casa, essas últimas palavras de Siobhan ainda corriam gélidas em minhas veias. Ambas já sabíamos que não havia volta para qualquer que fosse a minha escolha. O abismo clamava pelo meu nome como um amante saudoso. Minha sentença já havia sido assinada, só faltava meu carcereiro vir para cumpri-la.
Dizer que minha noite havia sido péssima seria um grande eufemismo, e o peso das consequências das minhas decisões dobraram quando na tarde do dia seguinte, a extensa caravana de ciganos seguiu morosamente rumo ao desconhecido. Ver aquela partida, apertava meu coração, dolorosamente. Poderia sair correndo e impedi-los de levarem consigo parte da minha alma, mas minha razão segurava a força os impulsos do meu coração quebrado. Precisava permitir aquele adeus. Amélia estaria muito mais segura longe de mim, do que se estivesse ao meu lado. Foi me agarrando a esse fio de esperança que abracei qualquer que fosse o meu destino.
Fim do capítulo
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