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Nefário por Maysink

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Palavras: 4140
Acessos: 298   |  Postado em: 29/01/2024

Capitulo V

— O que é esse desenho em suas costas? – meus dedos traçaram delicadamente os contornos das letras negras da elaborada tatuagem em forma de círculo, como se fossem revelar seu significado. Os olhos avelãs de Lia pareciam especialmente vivos naquela manhã. O sortudo feixe de luz escapando por entre os tecidos da tenda, realçava bem o tom caramelo de sua pele, fazendo-a brilhar feito ouro líquido. 

— É uma roda de samsara. – suspirou preguiçosa, se entregando aos meus carinhos como um felino faria. O mar revolto de tons castanhos que era o seu cabelo, esparramava displicentemente suas ondas incontidas pelo travesseiro e parte de seus ombros. A imagem bagunçada da cigana deitada de bruços, com o lençol cobrindo somente metade de seu corpo desnudo, reavivava com facilidade as sensações experimentadas sob a proteção da noite. A escuridão nos convidava a sermos ousadas e gananciosas com nossas vontades, naquela noite não havia sido diferente. As súplicas outrora sopradas em tons baixíssimos, ainda faziam cócegas em meus ouvidos. Minhas mãos não conseguiam se manter afastadas da pele dourada e convidativa por muito tempo, e não me esforcei nenhum pouco em contê-las. Os rastros de Lia ardiam suaves em minha pele clara, assim como na sua, os resquícios rosados dos meus apertos ansiosos também estavam visíveis. Aqueles fragmentos do momento que compartilhamos me despertavam elevada satisfação. Afinal, certos pecados existiam devido ao fascínio das lembranças de quando foram cometidos. De certo, aquele havia sido o melhor deles. 

— Representa o ciclo de existência de um ser, desde o seu nascimento, morte e renascimento, como nas leis do karma. – continuou ela, cortando meus pensamentos de seguirem rumos inapropriados.

— Achei que karma fosse de origem budista. – franzi o cenho, voltando a atenção às carícias no corpo macio da mulher deitada ao meu lado.

— O conceito de samsara se encaixa bem em nossas crenças. – sua voz saiu abafada quando ela depositou um beijo cálido em meu pescoço, provocando cada uma das minhas terminações nervosas.

— Hummm. – murmurei. A bela cigana riu da minha, evidente, falta de atenção e total entrega a seus carinhos. Sua risada vibrou por todo meu corpo, arrepiando ainda mais minha pele que permanecia tão sensível. Aproveitando-se da minha distração, Lia, habilmente, se deitou por cima de mim. Seus cabelos despencaram lentamente, nos cobrindo feito uma cascata do mais puro chocolate.

— Agora é sua vez. Conte um segredo, murri shukar! – pediu, sorrindo vertiginosamente.

— Não consigo pensar em um que você já não saiba. –sussurrei, afagando carinhosamente a maçã de seu rosto. Na verdade, não conseguia pensar em nada que não fosse a sensação de nossas peles nuas e quentes se tocando, das batidas de seu coração pulsando sobre o meu, no mesmo maldito ritmo.

— Assim não tem graça, gadje! – sorriu, endiabrada. 

— Me conte outro segredo, então. – sugeri. Eu só queria mantê-la ao alcance das minhas mãos. Aproveitando a prisão acolhedora de seus braços ao meu redor. Ela pareceu pensar, se ajeitando em meu colo, elevando seu torso desnudo. Um sorriso de pura conspiração enfeitou sua boca atrevida enquanto ela se sentava confortavelmente sobre meus quadris. 

— Meu nome não é Lia. – afirmou, convencida.

— É alguma brincadeira? – olhei-a confusa. Aquela hipótese me inquietou, fazendo com que me ajeitasse melhor, espelhando a posição elevada dela. Inconscientemente, pousei ambas as mãos em suas coxas desnudas. Não conseguia deixar de tocá-la.

— Nós, ciganos, temos a crença de que o nome de batismo é uma virtude preciosa demais para que seja dado de tão bom grado. Saiba meu nome e me terás sobre as mãos. – entoou como se fosse um sortilégio. — Geralmente usamos apelidos ou abreviações.

— Você diria se eu pedisse? – perguntei curiosa. Mesmo tendo passado a noite toda em sua companhia, desvendando seus segredos mais íntimos, a ideia de poder descobrir mais uma de suas facetas me deixou inebriada. Quem era aquela mulher?

— Depende! – provocou. Suas mãos, assim como as minhas, exigiam contato constante. A ponta de seus dedos ia tecendo caminhos próprios por meus ombros claros enquanto conversávamos, não cessando um segundo sequer. O apelo físico causava uma aflição gostosa.

— De que? – disse, ofegante.

— Diga… o que você deseja de mim, murri shukar? – o tom sedutor causou um frio bem conhecido na minha barriga. Os reflexos da imprudência abrigada pelo manto escuro da noite anterior ainda surtiam seus efeitos, e pareciam intensificar com os comandos implícitos em seu tom de voz. Era o seu jeito mal-intencionado de atordoar meus sentidos. Desviei meus olhos para a curva de seu pescoço, imitando os desenhos em sua pele com os meus próprios dedos, destinando sutilmente meu toque até o início do vale de seus seios.

— Conhecê-la, realmente!

— E por Lia, você já não o faz? – questionou com a voz quebrada, transparecendo seu estado igualmente afetado. 

— Certas coisas precisam ser ditas em voz alta para se tornarem reais. Sem seu nome verdadeiro, parece que não o tenho feito de verdade. – minhas palavras soaram hesitantes, o que fez com que Lia levantasse meu rosto carinhosamente, nivelando nosso olhar. Suas orbes avelãs cintilavam fascínio, reivindicando qualquer incerteza que pairasse dentro de mim, extinguindo-as todas de uma vez. 

— Me chamo Amélia. – o timbre levemente rouco fez minha pele formigar. O nome soou, estranhamente, apropriado à sua dona. Como se tivesse sido criado, exclusivamente, para si própria. Aquele conjunto de letras transcrevia com perfeição as principais características de quem o carregava. Unindo toda a complexidade de seu ser em uma única palavra. Amélia, uma força da natureza em seu auge. A personificação da essência feminina em forma física e palpável.

— Amélia. – repeti, enfeitiçada. Apesar dela ter dito que saber seu nome real daria poder a quem o detivesse, sentia que era ela quem o exercia sobre mim, em troca. O imenso sorriso em seu rosto, transbordando seu absurdo deleite, só servia para afirmar essa ideia. Estar à mercê das exigências de sua boca ambiciosa tornava vaga a ideia de fugir de qualquer que fosse seu plano para mim. Não era como se não me agradasse estar sob seu prazeroso domínio, pois, na urgência de nosso beijo aceitei que havia caído, completamente, pela cigana. Pela forma como seus olhos desvendavam com facilidade a todos ao seu redor e mesmo assim se mantinham misteriosos sobre si mesma. Em como aqueles lábios que traziam um sorriso encantador, proferiam desafios velados com palavras doces. Amélia era meu maior pecado assim como minha maior virtude, e eu viveria exultante os dois lados daquela moeda.

Infelizmente, a dura realidade nos aguardava impaciente do lado de fora. Ainda que minha vontade fosse a de ficar na segurança do tecido marsala da tenda de Lia, envolta ao êxtase que sua presença proporcionava, ambas tínhamos coisas a fazer. Dentre todos os desafios que me esperavam naquele dia, enfrentar a curiosidade invasiva e interminável de uma certa pessoa era o que mais me desmotivava. Porém, nem mesmo o fato de enfrentar tamanha inconveniência conseguiu tirar a felicidade ingênua que pairava sobre mim.

Todavia, o universo, como sempre, parecia ter outros planos. Aquela sensação maravilhosa ganhou fim quando os olhares aflitos dos meus pais, sentados no sofá escuro da sala de estar da nossa casa, pousaram receosos sobre mim, deixando-me totalmente em alerta. Alguma coisa muito ruim deveria ter acontecido para que ambos compartilhassem de um temor tão risível, logo pela manhã. A atmosfera densa pairava entre nós, desagradavelmente, palpável. Contribuindo para que o pior dos cenários se materializasse na minha cabeça. Um, em que aquele maldito lunático finalmente tivesse se cansado daquele joguinho inescrupuloso com desconhecidos e resolvido agir, diretamente, contra mim. Não que eu não esperasse por algo daquele tipo, não era tão ingênua, mas ele parecia especialmente apegado a pessoas mais desinteressantes, pessoas com históricos imaculados, e Liana de forma alguma se encaixava naquele perfil. 

— Onde está minha irmã? – exasperei.

— Ylena. – o silêncio tortuoso que precedeu meu nome só piorou a sensação ruim que se apoderava de mim. A demora de meus pais não estava ajudando nenhum pouco.

— Onde ela está? – insisti, nervosa. 

— Querida, por favor, se acalme. Liana acabou de sair daqui, chamaram-na para trabalhar fora do Estado, ela está segura. Não há nada de errado com sua irmã! –tentou minha mãe. Apesar da afirmação trazer certa satisfação, o desespero mal contido em sua voz pouco trouxe real alívio, apenas diminuiu irrisoriamente o peso em meus ombros. Se Liana estava a salvo, alguém não estava. 

— O que, pelos céus, aconteceu?

— Filha, sente-se por favor! – vendo minha resistência, meu pai bufou resignado. — Antes que perca a cabeça, entenda que nenhuma fatalidade de fato aconteceu. No entanto… Isabelle foi atacada noite passada. – contou, pesaroso.

Sequer dei tempo para que completassem a notícia, tomando o caminho do hospital principal da cidade, às pressas. A culpa me servia de companhia, apertando meus ombros, sussurrando suas injúrias aos meus ouvidos. Entre todas as pessoas possíveis que poderiam ser usadas para me atingir, sem sombra de dúvidas, Isabelle era a melhor delas. Minha amiga estava pagando pela minha arrogância e imprudência. Ainda assim, ela estava a salvo, minha consciência tentava ser otimista, porém, falhando, miseravelmente, pois o sentimento amargo de ter sido responsável por ela ter sido um alvo não dava trégua. 

A fachada branca e imaculada do suntuoso prédio hospitalar ergueu-se à minha frente, pouquíssimos minutos depois. Mal havia colocado os pés na entrada, quando a presença conveniente do investigador chefe ganhou toda a minha atenção. Ali estava alguém que certamente teria as respostas que precisava. Avancei em sua direção como um touro perseguindo uma bandeira vermelha. Nem mesmo o semblante preocupado do homem impediu minha motivação.

— Não se sabe ao certo como realmente aconteceu, mas os capatazes do haras a encontraram desacordada, nesta manhã. Soubemos pelo hospital, quando a trouxeram. –respondeu Müller, antecedendo meus questionamentos.

— Foi ele, não foi? – proferi mal contendo minha raiva. 

— Sim.

— Filho de uma puta, desgraçado! – rugi, passando as mãos pelos fios dourados de meus cabelos, nervosamente.

— Ylena, não sei se serve de consolo, mas sua amiga foi sortuda por sair, praticamente, ilesa. Outros não tiveram a mesma sorte.

— Se ser estrangulada quase até a morte, pode ser chamado de ilesa. – contrapus, debochada.

— Ela poderia estar morta, mas não está! – emendou categórico. 

— Essa é justamente a minha preocupação. Porque ele não a matou? – seu silêncio foi deveras suspeito. Havia uma certa tensão em sua postura, algo que lhe era incomum. Olhei-o desconfiada. — Pensei que estávamos sendo sinceros, Müller! 

— Tem uma mensagem para você, como sempre. – a forma como ele respondeu hesitante parecia que se tratava de uma bomba prestes a explodir e não um pedaço simples de papel com palavras ameaçadoras. O que quer que estivesse escrito ali, foi capaz de amedrontar até mesmo o mais áspero dos homens, afinal, como investigador Hugo estava acostumado com coisas muito piores. O nível elevado de raiva e remorso não me deixava qualquer brecha para sentir medo. Envolver uma das pessoas mais importantes na minha vida havia sido um gatilho muito eficaz para impulsionar o máximo do meu ódio. 

— Onde está? – questionei, séria. Hesitante, ele puxou do bolso de seu paletó chumbo o pequeno saco plástico onde o pedaço de papel estava sendo mantido. A luz do dia refletiu no invólucro transparente evidenciando com perfeição a escrita elegante. 

“Os belíssimos azuis da doce Isabelle continuarão brilhando… será que podemos dizer o mesmo dos demais? 

Tic Tac, minha querida Ylena.” 

A postura de Hugo havia sido um bom indicativo do que se esperar, mas nada me preparou para ler aquela ameaça nada velada às outras pessoas da minha vida. Pura ingenuidade minha cogitar que o serial se limitaria a apenas uma tentativa de me afetar. Suas intenções cruéis me deixaram à beira da inconsequência. Aquele jogo havia subido de nível, consideravelmente. Todos ao meu redor estavam à mercê dos anseios sádicos de um serial killer, virando alvos atraentes demais para seus olhos cobiçosos. O porquê dele estender aquele anseio, era o que mais me causava dúvida. Se ele me queria, porque não vinha até mim de uma vez? Ele queria me tirar muito mais do que o sopro de vida que preenchia a casca chamada de corpo. Queria atingir minha alma antes de esfriar minha carne. Devorar minha felicidade lenta e dolorosamente, saboreando minha derrota. Por um lado, saber que o número de vítimas diminuiria, ainda que por um breve instante, causava uma espécie de consolo, mesmo sabendo que aconteceria em detrimento do meu bem-estar daqueles mais próximos de mim. Eu havia feito muito mais do que colocado lenha na fogueira, havia espalhado fogo em palha seca e não satisfeita, ateado álcool em tudo. Agora, arderia nas chamas da minha própria presunção arrastando todos que eu amava junto.

O investigador Müller logo se foi, mas não antes de despejar, que todos ligados diretamente a mim - inclusive eu mesma - teriam escolta policial. Nem mesmo Liana, que estava em outro estado trabalhando, deixaria de ter alguém a acompanhando. Precaução, ele dissera. A ideia de ter uma sombra medindo meus passos não era nada tentadora, principalmente quando havia outra pessoa nos bastidores com más intenções. Sabia bem que havia causado aquela situação toda, mas ser duplamente observada não me soava nenhum pouco agradável. 

Enquanto remoía com desgosto minha atual situação, liberaram minha visita ao quarto de Isabelle, que infelizmente permanecia desacordada. Minha permanência no hospital pouco se estendeu. Somente após uma breve conversa bastante emotiva com os pais de minha amiga, foi que me permiti seguir para o jornal. Seguia apressada para a saída do prédio, munida de uma dose considerável de café e um cigarro prestes a ser acesso, visto que somente a mistura nociva — mas satisfatória — de nicotina e cafeína conseguiria fazer de mim uma pessoa minimamente decente para aguentar o restante daquele dia. Os corredores excessivamente limpos e brancos daquele hospital estavam me deixando à beira de um colapso nervoso. Piorando minha necessidade por qualquer mínimo alívio. 

Antes que pudesse colocar os pés para fora do hospital, Amélia apareceu tão agitada quanto eu estava horas antes, o que confirmava que a notícia do ataque já havia chegado até ela.

— Como ela está? – mal tive tempo de raciocinar quando seus braços me acolheram, fazendo meu mundo ruir de vez. O calor de Lia dava a sensação de proteção que não me permitiria sentir com outra pessoa. Fosse o poder sobrenatural ao qual ela exercia sobre mim, ou o forte sentimento que nos unia, me deixei aproveitar do abrigo de seus braços.

— Bem, dentro das expectativas. – sussurrei abafado sobre seus cabelos.

— Isso não foi culpa sua. – seus dedos elevaram meu rosto, unindo nossos olhos. Seus castanhos líquidos sustentavam uma certeza que não conseguia se espelhar nos meus olhos azuis inundados de culpa.

— Nós duas sabemos que não é verdade, mas agradeço a tentativa. – ensaiei um sorriso, que tinha certeza que saiu mais como uma careta desagradável. 

— Ylena, você não tem qualquer responsabilidade pelos atos de um psicopata. – retorquiu, indignada.

— Coloquei um maldito alvo nas minhas costas, Lia. Não posso fingir que não sabia das consequências. – afastei-me devagar, limpando o rosto num gesto nervoso.

— Ainda assim, não tem que carregar um fardo que não é seu. Pessoas como ele, não precisam de motivos para causar mal.

— Ok, você tem um ponto. – suspirei rendida, e ela sorriu presunçosa por tê-la dado razão. 

A cigana acabou me convencendo a voltar consigo para dentro do hospital, visto que poderiam barrar sua visita a nossa amiga. Acabei tendo de conversar com os Maldonados para conseguirmos liberar a entrada de Lia, o que aconteceu sob os protestos desnecessários do pai de Isabelle. Para nossa sorte, minha amiga estava parcialmente acordada quando entramos em seu quarto. A imagem debilitada a qual ela se encontrava abalou muito Amélia, preenchendo seus olhos, instantaneamente, de lágrimas. Devido a força empregada no aperto em sua garganta, grande parte da pele de seu pescoço estava num tom entre vermelho e roxo, assim como seus olhos estavam injetados de sangue devido à forte pressão. Vê-la daquela forma fez uma onda de culpa voltar com força, apunhalando meu coração, lembrando-me da minha participação — ainda que indireta — no estado a qual minha amiga se encontrava. Aquela sensação horrível instalada no meu peito só piorou quando seus lindos olhos azuis me olharam aliviados, mesmo estando extremamente machucada era comigo que ela estava preocupada. Não segurei minhas lágrimas, deixando-as deslizarem livres por meu rosto, enquanto segurava sua mão pálida implorando pelo seu perdão incontáveis vezes. Isabelle tentou me consolar — mesmo sendo ela quem precisasse de cuidados. Numa falha tentativa de falar qualquer coisa, no lugar de sua melodiosa voz, saiu um chiado rouco e arranhado, motivo pelo qual nossa permanência não se prolongou. Isabelle precisava de repouso depois de tudo. Nos despedimos prometendo uma nova visita, deixando-a sob os cuidados dos enfermeiros.

— Olha, sei que é pedir muito, mas por favor, confie em Hugo. Vocês compartilham do mesmo objetivo. – Lia disse, antes que eu pudesse entrar totalmente no veículo à minha frente. Estávamos do lado de fora do meu carro no estacionamento do hospital.

— A sua confiança cega em relação a ele chega a ser irritante, sabia. – grunhi, enciumada. A diaba parecia se divertir com a minha implicância infantil quanto a sua amizade duvidosa com Hugo. Em algum momento da noite passada havíamos conversado, e dentre os assuntos, falamos sobre o que motivou minha visita abrupta à sua tenda no meio da noite. O relato da cena deprimente que presenciei lhe rendeu uma gargalhada estrondosa, enquanto eu sustentava uma expressão irritada pelo meu comportamento motivado por algo tão ridículo. Amélia me assegurou com seus beijos e declarações entregues que não existia absolutamente nada além de uma amizade entre os dois, e que assim permaneceria. Não precisava de nada mais para me convencer, mas a parte maldosa que existia em mim ainda insistia em manter a antipatia que sentia pelo homem de moral questionável.

—Você é inteligente e altruísta, mas também é inconstante e impulsiva, murri shukar. – sorriu docemente. — Não são apenas as qualidades que fazem de nós o que somos. São das nossas falhas que conseguimos alcançar nosso potencial máximo em sermos uma pessoa melhor. Ele é tão humano quanto você, Lena. Lhe dê uma chance! – emendou docemente. Sentia meu ego se desfazer com suas palavras, meu orgulho se tornando bobo. Era inacreditável a forma como Amélia conseguia fazer eu me sentir tão vulnerável, com pouco. Bastava um pedido naquele tom suave e coercivo para ter um voluntarioso sim saindo pela minha boca. Maldita cigana!

Nos despedimos, com a promessa de que nos encontraríamos no acampamento dos ciganos, naquela noite. Nem mesmo o clima pesado ao meu redor conseguia apagar a ansiedade que se apossou de mim, pela simples possibilidade de reviver os deliciosos momentos que passei em sua tenda na noite anterior. Era perigoso demais relembrar do que sua boca era capaz de fazer estando em contato com minha pele. Aquele mister de sensações propagava-se como ondas inebriantes de fogo e anseio. Causando uma queimação gostosa em meu corpo. Chacoalhei a cabeça para expulsar aqueles pensamentos imprudentes. Mantenha o foco, Ylena!, repeti a mim mesma.

Quando cheguei ao Alvorada, Heitor já me esperava ansioso para repassar todos os detalhes do novo ataque de Custodibus. O cuidado que o editor-assistente teve ao abordar o assunto, questionando-me se agora com o meu envolvimento pessoal seria interessante que me afastasse da matéria, me agradou bastante. Não precisei tecer um argumento muito elaborado para convencê-lo da minha capacidade de dar seguimento, pois com a menor menção do meu olhar cético e um tanto raivoso, ele atestou rapidamente a minha aptidão de prosseguir com a minha função. Convencido, Hardin me entregou alguns papeis, cujos quais identifiquei a logo do departamento de polícia. Segundo a cópia do relatório pericial, — a qual me perguntei como ele teve acesso tão rapidamente — dada a força e as medidas das marcas das mãos, foi confirmado que o serial era do sex* masculino, da faixa etária de 25 a 40 anos, assim como apurado através das outras vítimas. Mesmo com a voz prejudicada, minha amiga conseguiu relatar que fora apagada com um lenço banhado a formol e, que quando acordou estava vendada, o que não lhe deu qualquer visibilidade do rosto de seu agressor. Contou ainda, que ele tão pouco lhe disse qualquer palavra que pudesse fazer com que sua voz lhe soasse familiar. Um cuidado que não me espantava. 

— O que mais me intriga é o porquê dele não tê-la matado! É inegável que foi um ataque direto a mim. Por isso não faz sentido nenhum mantê-la viva. – compartilhei com Heitor, que me olhava igualmente curioso.

— Talvez, ele queria deixar um aviso? – especulou.

— Não acho que seja o caso, ele tem deixado vários desses avisos, se pararmos para pensar. Fora que um serial comum não teria deixado uma possível prova que pudesse levar a sua identidade.

— Ele não me parece se encaixar em um padrão, sinceramente. Tirando é claro, o modus operandi.

— Isso é verdade. — concordei alheia.

— Então, voltamos à pergunta de milhões, porque ele não matou Isabelle Maldonado?

— Sinto como se ele quisesse meu descontrole, me levar ao limite. Admito que envolver pessoas que amo foi uma jogada cruel, mas também foi pateticamente previsível. Eu diria até que estou me sentindo um pouco decepcionada com isso. – sorri descontente. Quem diria que um infame serial killer também poderia ser vítima da mesmice. Não que eu quisesse incentivar sua criatividade sádica, no entanto, aquele repertório era história batida. E talvez, essa fosse a minha melhor arma. Uma ideia completamente perigosa e desprovida de autopreservação emergiu em forma de uma matéria audaciosa e vingativa. Se ele queria a mim, então porque não o fazer jogar o meu próprio jogo. Eu digitava freneticamente. Cada palavra da nova matéria ressaltava o alvo em minhas costas, incitando o serial a vir diretamente a mim e não a qualquer outra pessoa. Afinal, porque se contentar com tentativas fracassadas quando me dispunha de bom grado a sua vontade insana. 

— Lena, essa matéria de longe foi a melhor que já escreveu, entendo, inclusive sua motivação, mas não acha que está sendo precipitada? – Heitor parecia que ia entrar em combustão depois de ler meu texto. O rascunho tremia tanto que parecia querer se partir ao meio, sob as mãos nervosas de Hardin. Sua pele branca estava levemente avermelhada, indicando o esforço que fazia para manter a compostura. Se ele pudesse me chacoalhar para trazer-me o bom senso de volta, tenho certeza que o faria. 

— Não posso me dar ao luxo de ter uma trilha sangrenta de pessoas que amo, por puro capricho. Eu comecei essa merd*, nada mais justo que também a termine. 

— Está indo longe demais dessa vez, Lena. Você está cutucando onça com vara curta. 

— Eu sei o que estou fazendo, Hardin. Não é como se não soubesse o que vem a seguir. – ele bufou e assentiu relutante, seguindo até sua mesa para fazer as correções necessárias antes de mandar o texto para publicação. 

Não me demorei muito mais que o necessário no jornal. Diferente da noite anterior, a adrenalina que me movia para o acampamento cigano daquela vez agia de forma positiva. O sentimento do quão arriscado era para nós duas sermos pegas juntas, me impulsionava rumo a deleitosa inconsequência. O mundo poderia acabar do lado de fora daquela tenda, e ainda assim, me permitiria ser amparada pela segurança que encontrava nos braços de Amélia.

Na manhã seguinte, o terror da realidade parecia ter me aguardado pacientemente para desejar seu desagradável bom dia. Há alguns passos do meu carro, um movimento incessante do objeto estranho preso no para-brisa do veículo atraiu minha atenção. O tecido acompanhava as rajadas de vento daquela manhã, numa dança desengonçada e insistente. Foi preciso mais alguns passos para que reconhecesse instantaneamente uma das echarpes de Amélia. O perfume inconfundível pairava junto a fria brisa matinal. Entretanto, não foi o tecido familiar que gelou meu sangue. Junto ao tecido da echarpe colorida, jazia um pedaço de papel. Os tons salobres do arrependimento tomaram minha boca quando li a mensagem. Nem precisei de muito esforço para saber meu remetente. Ele havia tocado em meu maior temor, desmanchado toda minha segurança com uma frase, alcançado parte da minha alma, sem arrependimento ou pudor.

“É doce o perfume dos amantes, mas o de sua cigana, minha querida, é o mais doce deles.”

Fim do capítulo


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