Capitulo III
Para minha infelicidade a matéria dos ciganos foi completamente ofuscada pelos assassinatos. As pautas haviam sido publicadas, consecutivamente, no início do mês passado. A população vitoriana sentia sede da desgraça alheia ao em vez de ter o bom senso de proporcionar certa hospitalidade aos nossos visitantes. Era alarmante como a tragédia movimentava aquela cidade. Quase como se precisassem sentir a adrenalina causada pelo terror e medo para impulsionar suas vidas da mediocridade cotidiana. Em compensação, esse sentimento fazia com que eu cometesse certas loucuras. Como invadir a delegacia pela enésima vez, sendo fatalmente descoberta pelo desagradável investigador Müller, que sempre me olhava colérico. Exatamente como estava fazendo naquele momento.
— Sabe caríssimo Hugo, achei que os investigadores devessem se vestir melhor. – deixei meus olhos caírem lentamente por seu terno chumbo surrado, medindo-o da cabeça aos pés em falsa recriminação. — Talvez o departamento de polícia precise cobrar certa atenção dos investidores, se é que me entende. – elevei as sobrancelhas, sorrindo sugestivamente.
A corrupção desenfreada da polícia local era pura especulação, cogitada devido o patrocínio de alguns importantes integrantes da nata privilegiada, porém ninguém conseguia comprovar. Eu tinha minhas dúvidas quanto a Hugo. Mencionar sobre a possibilidade de sua frágil índole facilmente o afetava. O homem ficava fora de si. Detalhe do qual aproveitei bem para desviar sua atenção das intenções que me levavam até ali.
— Talvez a alta sociedade devesse se preocupar com a boa educação de suas senhoritas, pois pelo que vejo da sua… – sugeriu carrancudo. Suas feições severas não prejudicavam em nada a beleza de seu rosto anguloso. Mesmo sendo tão bonito fisicamente, com seus olhos e cabelos negros, sua personalidade era detestável. Sua beleza sumia com rapidez.
— Ora sr° Müller, se é assim que trata uma mulher de respeito, com toda certeza não espere menos do que arrogância disfarçada de boa educação. – podia ver as artérias temporais dele saltarem devido o esforço desumano que fazia para não perder a postura profissional. Quase me preocupei que aquele homem tivesse uma síncope de nervos bem na minha frente. Quase. Uma partezinha de mim, adorava provoca-lo.
— Não quero vê-la mais aqui! Suas incursões entre os cadáveres acabaram. – explodiu Hugo, totalmente irritado. Ao que parecia, não precisaria mais manter minha farsa, ele parecia saber muito bem das minhas inúmeras visitas às escondidas à sala de necropsia. Não era bem como esperava me safar, mas não deixaria a oportunidade passar.
— Como desejar! – sorri cínica, contornando lentamente seu corpo forte, em direção a porta da sala.
— Sua arrogância ainda irá lhe colocar em maus lençóis, senhorita Montelo. – o alerta soou agressivo por cima do som dos meus saltos, causando um breve arrepio em minha coluna. Aquelas palavras pareciam um mau agouro, ainda que eu não acreditasse muito em pressentimentos criativos baseados em reações físicas involuntárias.
— Espero que isso não tenha sido uma ameaça, Müller. Ou irá descobrir que não sou uma boa opção como inimiga. – sequer lhe olhei. Apenas continuei meu caminho, não lhe dando tempo para estender seu descontentamento verbal. Não precisava ouvir suas injúrias tão bem direcionadas à minha pessoa, quando era eu quem vivia presa a minha própria pele. Sabia bem meus piores defeitos, e suas observações miseráveis não acrescentariam em nada no meu autojulgamento.
Estando à frente daquela matéria, meu nome havia ganhado ainda mais destaque, e desconfiava que por isso o ódio nutrido pelo investigador tivesse aumentado. A cidade em peso dobrou a atenção em seus passos, dificultando a discrição que o homem tanto prezava. O que eu fazia questão de usar a meu favor, é claro. Enquanto o intragável investigador lidava com a curiosidade fútil dos cidadãos de Vitório Guerra, eu ganhava acesso às dependências do corpo policial. Bom, pelo menos à algumas partes.
Estando de volta a minha mesa no Alvorada, comecei a escrever sobre as novas pistas encontradas. Naquele dia, descobri que havia uma pequena lista de suspeitos, o que para minha completa insatisfação, eram nomes facilmente descartáveis. Ao longo das semanas que passaram, outras duas vítimas foram encontradas sob as mesmas circunstâncias, marcas de asfixia e números romanos marcados friamente sobre suas pálidas peles, insinuando a figura de um relógio. Este último detalhe, havia percebido numa das várias observações depois de uma das visitas clandestinas à necrópsia. Thalia, a legista, era outra forte aliada a qual eu detinha apreço. Nós duas juntas havíamos chegado a conclusões bem interessantes sobre os métodos utilizados pelo serial.
Devo dizer que, apesar das desavenças entre nós, Müller aproveitava muito bem as nossas pequenas descobertas. Por vezes sentia que o investigador se fazia indiferente a certos detalhes, que obviamente importavam para a investigação. Todas as vezes que tentei convencê-lo a ir mais afundo, o paspalho tão somente ignorava, por pura implicância. Agora, bastava vê-lo para que meus olhos revirassem, involuntariamente, em desgosto. A pirraça exclusiva a minha pessoa, vinha dificultando ainda mais nossa convivência e também as minhas aparições furtivas na delegacia em busca de novas informações. Apesar de sempre tomar cuidado, contava com a ajuda de Esdras e Thalia, não podia deixá-los sofrerem por isso. Arrumaria outro jeito de ter acesso às informações, sem envolvê-los.
Em contraponto a aquele dissabor rotineiro, minha presença no acampamento cigano havia se tornado comum nos dias que se passaram. Adorava ouvir o tom grave da anciã cigana pregando palavras de sabedoria. Ainda que não fosse adepta de crenças religiosas, sabia admirar o fervor de uma fé saudável. Siobhan amava sua natureza cigana. Demonstrava isso em cada pequeno gesto. E sua neta também parecia compartilhar da mesma devoção. Apesar do início conturbado, acabei estabelecendo certo respeito pela outra cigana. O que inicialmente parecia impossível.
Numa das minhas visitas ao Haras, a garota se mostrou completamente o oposto da primeira impressão que tive. Ao contrário da prepotência velada daquela noite estranha, Lia fora atenciosa e adorável, mas continuava muito presunçosa. Não tínhamos nada em comum que facilitasse nossa convivência. Por vezes caíamos em diálogos acalorados que só terminavam por interferência de alguém, ou porque seu sorriso perverso me desconcertava. Mesmo estando constantemente em sua presença, seus efeitos confusos se estendiam. Um calafrio percorria minha espinha ao ouvir sua voz, minhas mãos se apertavam nervosamente com sua aproximação, e o pior deles, a hipersensibilidade repentina da minha pele. Eu sentia a força de seus vívidos castanhos me acompanhando a cada passo, sentia sua presença como nenhuma outra. Até o balançar de seus vestidos diáfanos pareciam querer me incitar a ter um ataque cardíaco. Poderia atribuir o meu desconforto pelo magnetismo cigano, mas até que ponto isso seria verdade? Lia desmontava a armadura dura de controle que geralmente me cobria, e esse seu poder me assustava.
Ao contrário de mim, Isabelle parecia ser imune às habilidades singulares da cigana. Admito, que a convivência das duas me causava certo ciúmes. Eu detestava o cheiro desagradável do estábulo, enquanto ambas partilhavam a genuína afeição pelos animais. Naquele ponto, quase estava me acostumando com o odor característico do equinos, já que, por diversas vezes, me encontrava cuidando dos animais ao lado de Belle e Lia. Ainda que não fosse admitir em voz alta, aqueles momentos estavam se tornando os melhores do meu dia.
Encerrei as últimas linhas da matéria do dia, e, me permiti uma última análise do texto sobre as vítimas identificadas, para depois enviá-lo à redação. Só então segui o conhecido caminho para o Haras. Logo que cheguei, fui informada que Isabelle e Lia estavam recepcionando um grupo de associados importantes nas áreas abertas para cavalgadas. Com isso, fui para os vestiários onde troquei meu traje social por algo mais adequado para o trabalho que faria ali, pois iria auxiliar os demais ciganos nas baias. Com a presença constante dos ciganos no haras e a responsabilidade compartilhada de auxiliá-los, não conseguia fugir de comparecer aos estábulos em grande parte da semana.
— Lena, você não vai acreditar! — O familiar tom estridente saiu alto o bastante para fazer o animal a minha frente relinchar se remexendo inquieto, me assustando no processo. Olhei feio por cima dos ombros, repreendendo Isabelle, que nem pareceu notar a inconveniência quase desastrosa. A desgraçada veio até a entrada da baia onde eu estava, escorando os ombros no arco de madeira. Toda a sua aproximação foi feita numa lentidão dolorosa, quase como se quisesse me provocar ainda mais.
— Pelos céus, Isabelle, você sabe como adoro um suspense desnecessário. – respondi sarcástica. Voltando a escovar metodicamente os pelos dourados do cavalo caramelo, acalmando-o, mas não antes de vê-la revirando os olhos pela recepção indelicada.
— O seu amado policial apareceu hoje, acompanhando o Governador e família. – foi impossível conter a careta desgostosa a menção a Hugo. Parecia que ele havia tirado o dia para me importunar. Sua ameaça ainda escorria gelada pela minha espinha. O que só piorava meu humor.
— Qual a importância disso? – ridicularizei.
— Sobre os dois juntos, nenhuma. Já sobre Hugo, talvez lhe importe o súbito interesse dele por Lia. – rapidamente me virei em sua direção, percebendo tarde demais o meu erro. A minha aparente urgência me entregou, fazendo Isabelle sorrir amplamente. A derrota caiu pesada sobre meus ombros. — Deveria se atentar a essas demonstrações um tanto duvidosas quando se trata da cigana, minha amiga. – disse com cinismo descarado. Ignorá-la pareceu ser a melhor saída. Mesmo não acreditando ser o suficiente para fazê-la parar com aquele assunto.
— Sabe... estou indecisa, se você é atrevida ou apenas indelicada, Isabelle. – alfinetei descontente por suas insistentes insinuações sobre minha frágil situação com a garota cigana. Não era de hoje que ela vinha com conversas atravessadas a fim de arrancar algo de mim.
— Nós podemos ter essa conversa quantas vezes quiser, mas a minha opinião continuará a mesma. Seria mais fácil se admitisse logo para si mesma, suas inclinações amo….
— Não tenho o porquê fazer isso, sinceramente. – cortei suas acusações antes que se tornassem ainda mais perigosas. Tentei demonstrar completo descaso com o assunto, porém, por um momento, pareceu que o universo resolvera agir a meu favor, pois antes que a Maldonado pudesse continuar com o discurso interminável sobre os meus possíveis sentimentos conflituosos, a razão deles entrava despreocupada pela porta principal do estábulo, vindo em direção a baia onde estávamos. Serenidade não estava no repertório daquele dia, presumi.
Eu conseguia entender muito bem o que havia prendido a atenção do enfadonho policial. A maldita cigana parecia brilhar mais que o próprio sol em pleno verão. Seu amplo sorriso, facilmente, poderia desintegrar quem o olhasse diretamente. Mesmo estando vestida completamente de preto, parecia que a cor realçava ainda mais sua presença dourada. Enquanto outras mulheres exalavam o requinte das vestes claras de montaria, Lia parecia estar vestida para matar qualquer idiota desavisado que ousasse cruzar seu caminho. Ou no caso, qualquer policial idiota. O tecido escuro abraçava seu corpo como uma segunda pele, contornando suas curvas com gosto. As mangas da camisa social estavam dobradas no fim dos antebraços, propondo um visual de desleixo refinado. Seus volumosos cabelos castanhos estavam presos num rabo desalinhado, e, toda aquela bagunça casual, transmitia o sutil convite para desarrumá-la ainda mais.
— Olá, gadje! – meu corpo inteiro respondeu, involuntariamente, quando seu olhar atrevido me alcançou. O nervosismo era tamanho que me limitei a um aceno breve de cabeça, voltando a atenção para o cavalo à minha frente. Não lhe daria a satisfação de presenciar o estado vertiginoso ao qual me encontrava. A quem eu queria enganar? Ela nunca estava alheia ao que causava. Maldita. Sabia que se virasse outra vez veria seu sorriso petulante.
— Ah Lia, você chegou na hora certa. Por favor, conte-nos o que você e o entojado do Hugo estavam conversando. Estou morrendo de curiosidade! – a indelicadeza em forma de pessoa, que eu chamava de amiga, se manifestou estranhamente animada. Suspeitava que aquela era a sua forma de me castigar indiretamente pela interrupção oportuna da conversa que estávamos tendo. Minha mão coçou pela ideia de jogar a escova em sua cabeça. Entretanto, a curta risada sem graça da cigana impediu minha agressão gratuita.
— Ele me convidou para jantar, nada demais. – aquilo na voz dela era interesse? Ela não poderia estar realmente cogitando aceitar aquela proposta esdrúxula, não é mesmo? Antes mesmo que pudesse evitar aquelas dúvidas saíram por minha boca, completamente ultrajadas.
— Você não pode estar falando sério sobre ir jantar com Hugo. – deveria simplesmente ter me calado e ficado no meu canto, mas quando dei por mim, já estava debatendo sobre a oferta ridícula. Quase como se tivesse a obrigação de trazer de volta a consciência da cigana, que em troca ao meu altruísmo involuntário somente me olhava surpresa. Nem percebi quando havia me virado de frente para ela.
— Porque, não? Ao menos que tenha um bom motivo para não o fazer, estou propensa a aceitar. — meu maxilar doeu devido à pressão dos meus dentes cerrados, reflexo ao tom de desafio em sua fala. A insolência em seu semblante só piorava minha tensão. Como alguém conseguia ser tão irritante?
— O que Siobhan acharia disso? – seus olhos reviraram pela pergunta malcriada e infantil. Até eu tinha que admitir que não fora meu melhor argumento.
— Pode parecer uma surpresa para você, mas sou uma mulher livre, Ylena. Inclusive, aproveito bem essa liberdade, deveria experimentar também! – ignorei o duplo sentido discreto impresso em suas palavras. Seria pura imprudência cair em suas provocações ambíguas. Principalmente com Isabelle Maldonado totalmente atenta aquele bate-boca descabido. Estávamos lhe dando munição letal. Ter consciência disso me fez praguejar ainda mais. O porquê de eu simplesmente não ter ficado quieta na minha sabendo disso, eu não sabia!
— Você não o conhece para dizer que algo bom pode sair disso. – impliquei contrariada.
— Sei bem o que vi, e definitivamente não é nada mal. –garantiu, firme.
— Ah claro, um belo rosto é garantia suficiente. – a arrogância da qual eu vivia lutando contra deu as caras num átimo, efervescendo o resto da minha prudência. Não sei em qual momento perdi meu dom de manter o controle diante de alguém, ou talvez fosse o superpoder de Lia, conseguindo anular o meu. O que aquela cigana me fazia sentir poderia ser facilmente comparado a uma viagem só de ida ao inferno. Então, garantiria que fosse uma viagem feita por nós duas.
— Não me tome por tola, gajde. – ela vociferou irritada. Se um olhar pudesse acabar com uma pessoa, o dela, certamente me transformaria em pó, naquele exato momento. Um tom incomum entre o verde e o castanho de sua íris, incendiava sua revolta, voltando-a toda contra mim, como uma onda gigantesca. Saber que poderia lhe causar uma parcela, ainda que ínfima, das inúmeras sensações que ela causava, me fez regozijar em puro êxtase ao vez de sentir medo. O sorriso triunfante no meu rosto era a prova viva de como estava satisfeita por finalmente revidar. Isabelle deve ter visto o caminho desastroso que aquela conversa estava seguindo, pois se colocou entre nós duas num pulo.
— Hey, contenham-se, meninas! – interveio.
— Sabe, agora você conseguiu me intrigar de verdade. – Lia a ignorou. E tão rápido meu júbilo veio, também se desfez pela promessa venenosa respingando do seu sorriso maldoso. Nada que viria a seguir seria bom, percebi. — Por favor, me esclareça, gosta tanto assim de ter a atenção das pessoas somente para si, ou só se aplica a ele, Ylena?
— Você não sabe do que está falando, garota. – meu coração saltava agitado demais para o meu próprio bem. A mera suposição, ainda que velada, de que meus sentimentos por Hugo fossem além do desprezo, era inconcebível até mesmo para a mais desatenta das criaturas. Aquela ideia absurda saindo da boca daquela garota parecia o maior dos insultos.
— Lia, por favor! – Isabelle tentou impedir que aquela situação desmoronasse de vez. Podia sentir meu sangue ferver em genuína raiva, porém o aperto da mão da Maldonado no meu braço conteve qualquer ideia homicida que perpassava por minha cabeça. Respirei fundo.
— Tudo bem, Belle. Deixe-a com sua imaginação fértil. – engoli seco, calculando as próximas palavras. — Não tenho porque me intrometer nas suas decisões, cigana, ainda que por pura solidariedade. Reconheço que talvez tenha me excedido. – dizer aquilo foi extremamente difícil. Mesmo em respeito à trégua exigida por Isabelle, e, mesmo sendo necessário, nenhuma de nós duas parecia querer por fim naquele cabo de guerra invisível. Alguém tinha de parar o show, então que fosse eu a ditar o fim.
Antes que a cigana pudesse dizer qualquer outra provocação infundada, o momento foi interrompido por um dos funcionários do Haras, chamando a Maldonado para alguma demanda urgente da qual sequer consegui ouvir. Minha atenção se recusava a desviar da cigana a minha frente, tanto que mal registrei a relutância na postura de minha amiga ao se afastar, temendo que entrássemos em outro embate caloroso. Ela nos deu um último olhar apreensivo, como se pedisse que nos comportássemos na sua ausência, para só então seguir para fora do estábulo, massageando as têmporas.
Assim que Isabelle nos deixou, me afastei o máximo que pude da cigana, que parecia ter outra ideia em mente. Vi a determinação em seus olhos. Eu sentia o ar ficando mais denso ao nosso redor. A aproximação dela só agravava a sensação dos meus pulmões comprimindo, sem ar. Porque ela simplesmente não podia parar de me enfrentar daquele jeito? Por mais que tentasse imaginar qualquer possível motivo, não sabia se realmente queria saber o que a instigava.
— Então, estou errada? – não precisei olhar para trás, para ver que Lia estava a pouquíssimos centímetros de mim. Seu hálito quente na minha nuca, fazia bem o trabalho de me mostrar o quão perto ela estava. Suas arfadas suaves enviando arrepios para todo o meu corpo, me fez amaldiçoar ter prendido meus cabelos num coque bagunçado no início do dia.
— Não sei do que você está falando. – quase não consegui dizer aquela frase sem que meu corpo despencasse, sem força. Meu peito subia e descia com tanta dificuldade devido as arfadas, que não sabia como ainda conseguia estar de pé, respirando o perfume dela. Nunca achei que meu coração pudesse bater tão rápido, como fazia naquele momento.
— Nós duas sabemos que isso é mentira. – sua voz entregou seu estado idêntico ao meu. Perceber aquilo não ajudou nenhum pouco a me acalmar. Uma urgência desconhecida irradiava por meus músculos, implorando por algum tipo de alívio milagroso. Culpei aquele sentimento quando cometi o erro de me virar. Lia estava, impossivelmente, mais perto do que estava preparada para admitir ser capaz de aguentar, e duvidava que sairia sã de mais um debate caloroso estando daquele jeito. Meus olhos teimavam admirar seu belo rosto, fixando displicentemente nos seus lábios vermelhos e convidativos. Inferno.
— O que você quer de mim, Lia? – o nó na minha garganta se apertou, fazendo meu coração acelerar ensandecido dentro do peito quando aquela tempestade chamada de olhos também se focou na minha boca. Ela só podia estar querendo me matar.
— Conheço meus desejos, você pode dizer o mesmo? – estávamos tão perto que nossas respirações se tornaram uma. Podia sentir o sabor de hortelã em minha própria boca. Ah, e como eu queria senti-lo direto da fonte, verdadeiramente! Aquela súbita vontade me fez afastar do conforto de seu corpo quente, dando-lhe as costas outra vez, desconcertada pelos intensos sentimentos pairando sobre mim. Eu costumava acreditar que era feita de pedra. Que nada me abalaria sem que eu permitisse. Estava terrivelmente enganada.
— Conhece-los e dar vazão a eles, são coisas totalmente diferentes. – minhas mãos passaram pelo meu rosto inquietas, tentando afastar aquelas sensações. Tentando reerguer algum controle. Ver a reciprocidade espelhada em seus olhos avelãs, me compelia a lhe ceder carinhos perigosos. Não podia deixar isso acontecer, seria meu fim. Então fiz a pior coisa a se fazer em momentos como esses, eu fugi.
Lia não foi atrás, o que agradeci imensamente. Disparei a cegas em direção ao estacionamento do Haras, empenhada a colocar a maior distância entre mim e a razão do meu colapso emocional. Agora que o véu da consciência do que aquilo tudo significava havia sido retirado, ao invés de alívio, me sentia pior do que quando não tinha verdadeira noção.
Eu estava irrevogavelmente atraída pela cigana.
Isso nem de longe era a parte mais assustadora. Ser totalmente recíproco, era.
Aquele fato inquestionável terminou de foder com todo o resto do meu controle que a muito estava às favas. Sequer podia ousar ficar atrás de um volante sem causar a merd* de um acidente, de tanto que meu corpo tremia nervoso, excitado. Então, eu corri. Até que meus pulmões reclamassem. Até que aquela maldita adrenalina, causada pela presença enervante da cigana, queimasse completamente. Até que a vontade enlouquecedora de beijá-la, evaporasse até não restar nada. Porém, nem toda distância do mundo faria com que aquela verdade gritante desaparecesse como se nunca tivesse existido. Eu estava malditamente ferrada.
Quando minha sanidade resolveu emergir das cinzas, eu vi a única pessoa que não queria ver naquele momento. Hugo Müller não percebeu minha presença, o que também seria difícil devido a pressa com que ele se dirigia até o estacionamento. O comportamento apressado e desatento só poderia indicar uma coisa, outro homicídio. Não perderia aquela oportunidade, por isso o segui. Deixei para lidar com meu estado emocional em frangalhos depois. Aquela distração me dava as boas-vindas, convenientemente.
O investigador Müller não estranhou minha presença no local do crime. Depois de uma rápida conferida nas roupas que eu vestia, ele deduziu que o havia seguido do Haras. Dispensando explicações bem elaboradas. O conformismo brilhando em seu olhar severo, dizia que ele também se pouparia do trabalho de me impedir de estar ali. A verdade era que, silenciosamente, havíamos estabelecido uma trégua temporária quanto a minha presença ali. Não havia como lutar contra minha persistência.
Como em todas as vezes, a vítima apresentava marcas de pressão no pescoço, indicando asfixia. A palma da mão esquerda, voltada para cima, deixava bem visível a representação, impossivelmente, simétrica de um relógio de bolso. Levando em consideração que os ponteiros expeliam gotículas de sangue, a morte fora a pouquíssimas horas. Uma indicação da brevidade do óbito. Ou seja, o corpo ainda estava quente.
Deixei aquela área, para encontrar um dos policiais amparando uma mulher visivelmente abalada. Havia um punhado de pessoas ao redor, devido a rapidez com que a polícia isolou o local. Portanto, aquela mulher dentro do isolamento, provavelmente, fora quem o encontrou primeiro. Com gentileza e cuidado a entrevistei. Segundo seu relato, foi passeando pelo parque que viu o corpo a poucos metros de um dos arbustos. Disse ainda, que não havia ninguém por perto que pudesse identificar como aparente responsável. Como sempre, o serial fora extremamente cuidadoso.
Um dos peritos gritou por Hugo, exigindo sua atenção, consequentemente, também obtendo a minha. Aparentemente havia algo de incomum na cena do crime. A diferença daquela vez, era que junto ao pálido corpo inerte havia um recorte de jornal de uma recente matéria sobre os assassinatos. O grotesco folheto tinha em destaque um trecho grifado, onde eu descrevia os atos de crueldade do serial killer como sendo desnecessários e risíveis, um claro apelo emocional por socorro. Junto dele havia também um pequeno papel escrito com letras cursivas elegantes. Esse foi o detalhe responsável por atrair meu olhos, imediatamente, capturados pelas sugestivas palavras traçadas em negro.
“Agora tens meu apreço, minha querida Ylena Montelo. Faça bom uso.”
— O que é isso? – Hugo pronunciou perplexo, ao meu lado.
— Eu não faço ideia! – soprei de volta. Mesmo dizendo que não, eu entendia muito bem quais as intenções por trás daquelas palavras, e, não conseguia ter receio por ter ganhado uma atenção que soasse tão mortalmente perigosa como aquela. Não temia a morte, mas sim o esquecimento que a precedia. Aquele gesto pessoal e bem direcionado me mostrava que a morte dava seu olá, descaradamente, em resposta ao meu desafio.
Fim do capítulo
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