Capitulo II
Um par de dias depois, fui até o Haras Maldonado, em busca da pessoa que iria conseguir me ajudar na mais nova loucura a qual voluntariamente havia me metido. Isabelle Maldonado. Além de filha do dono, era também minha amiga e por mais vezes que poderia contar havia sido minha cúmplice. Não tinha uma só aventura que não envolvêssemos uma à outra, e devido o teor nada agradável de nossas peripécias, nossa crescente má reputação entre a alta sociedade nos precedia. Ao que parecia, nossas ideias de entretenimento ofendiam gravemente a concepção de bons costumes, fazendo com que nossas famílias tivessem de se esforçar para abafar nossas ocorrências deselegantes.
Como se não bastasse, Isabelle também era uma mulher com ambições detestáveis aos olhos alheios. A garota amava tanto o haras de sua família que se aventurou na área veterinária, e, mesmo que esta profissão fosse contrária às retrógradas exigências sociais, o sr° Maldonado só fez apoiar a escolha de sua única filha, lhe concedendo certas mordomias em consequência. Era com isso que eu estava contando. Sendo filha única, Isabelle detinha certos privilégios com seus pais, e eu acreditava seriamente que isso pesaria quando fossemos argumentar sobre a contratação dos ciganos.
Antes de passar pelo jornal para entregar a matéria sobre minha inusitada visita ao acampamento, segui para o haras, indo até as baias onde certamente encontraria minha amiga. O desagradável cheiro de esterco pairava suavemente no ar, e mais uma vez me perguntava como aquela garota conseguia venerar a vivência naquele ambiente fedorento.
A procurei incansavelmente, no entanto, em seu lugar encontrei um dos cavalariços que a auxiliava, o qual me indicou onde a garota estava passeando com uns dos cavalos. Assim que me escorei na cerca de madeira do pequeno espaço de treinamento do lado de fora, minha amiga montada no corcel marrom se dirigiu até mim. A cada trotada os fios negros e lisos de Isabelle se remexiam livremente pelo ar. O conjunto de seus cabelos esvoaçantes, a expressão séria e a pose altiva em cima do enorme cavalo compunham uma imagem fascinante de uma amazona feroz. Sempre que a observava naquele ambiente me surpreendia com o quanto aquilo tudo destoava completamente da sua versão delicada. Porque sim, Isabelle era uma mulher delicada. Aquela garota conseguia manter a feição imperturbável enquanto montava, ao mesmo tempo em que exalava uma delicadeza natural.
— Apreciando a vista? – ela disse desmontando habilmente o cavalo, e, levando-o em seguida na direção do estábulo por trás da cerca, enquanto eu os acompanhava pelo lado de fora.
— Ah por favor, não seja tão presunçosa. – retruquei-a com uma careta desagradável de desdém, a fazendo alargar seu sorriso jocoso.
— A que devo a honra de tão ilustre presença?
— Preciso da sua ajuda, Belle. – minhas palavras apressadas a fizeram interromper subitamente seus passos, me fazendo imitá-la. Eu já estava preparada mentalmente para sua previsível relutância, ainda sim disfarcei habilidosamente.
— Ah não! Não tem nem um mês desde a última vez que nos metemos em problemas, Lena. – exaltou falsamente contrariada. Abri a boca para continuar, porém ela negou rapidamente, não me deixando concluir o elaborado discurso que fiz para convencê-la. Não que fosse necessário, mas Isabelle parecia gostar de ser persuadida antes de aceitar de vez. O porquê disso eu desconhecia.
— Você nem me ouviu totalmente, como pode prever que será problema? – continuei o teatrinho, andando atrás dela que continuou o seu caminho para as baias.
— Sei lá, acho que seu cabelo brilha diferente quando a ideia é absurda demais. Fica mais loiro que o normal. – brincou voltando a andar com o cavalo. Eu a conhecia bem demais para perceber que ela já tinha aceitado qualquer que fosse a minha ideia. Então contei cada detalhe do que presenciei no acampamento cigano. Como esperado, minha amiga amaldiçoou todas as minhas gerações por não tê-la levado comigo, assim como empolgou-se pela oportunidade de estar ao lado deles, ainda que apenas trabalhando. — Você é impressionante! Duvido que meu pai vá aceitar esse pedido, mas não custa tentar. – disse não contendo sua empolgação.
— Obrigada! – segurei agradecida ambas as mãos dela, sentindo o tecido de couro de suas luvas pinicando a palma das minhas. A docilidade do meu gesto se foi tão rapidamente quanto a sutileza de minha amiga, que sorriu perigosamente em minha direção. Nada de bom saía quando alguém lhe olhava daquele jeito.
— Não me agradeça ainda. Se aquele homem finalmente me deserdar, você quem terá que financiar minha vida com o salariozinho de jornalista, querida. Isso, ou ambas fugiremos com seus amigos ciganos. – sorriu triunfante pela própria brincadeira, que soou mais como uma curiosa expectativa. Quase como se a ideia lhe fosse verdadeiramente atraente.
A conversa com o sr° Maldonado foi longa e cansativa, mas felizmente produtiva. Ele aceitou, relutantemente, contratar alguns ciganos que ficariam sob a supervisão de Isabelle, e na menor hipótese de problemas não hesitaria em demiti-los. Ainda, nos responsabilizou por eventuais prejuízos que eles viessem a causar, o que prontamente me coloquei à disposição para arcar, mesmo que isso implicasse na minha pessoa tendo de trabalhar nos fedorentos estábulos.
Depois de uma breve comemoração com Isabelle pela vitória, não me demorei no haras, pois mesmo estando levemente embriagada, ainda precisava passar no jornal antes de irmos juntas até os ciganos. Estávamos muito ansiosas para entregar-lhes as boas notícias. Entretanto, antes de conseguir chegar à calçada na frente do suntuoso prédio do Alvorada, o recepcionista do departamento policial me parou abruptamente, relatando com riqueza de detalhes suas recém descobertas quanto às repentinas aparições do Governador.
Devo confessar, ali, ouvindo suas palavras meu estômago embrulhava desconfortavelmente e não era pela pequena quantidade de vinho que ingeri momentos antes. Uma série de assassinatos vinham acontecendo nos arredores de Vitório Guerra ao longo do último mês. Ao que parecia, as vítimas eram mortas asfixiadas, e os corpos abandonados carregavam números em algarismos romanos entalhados em suas peles, como uma assinatura cruel do responsável. Impactada pela maldade sem tamanho, questionei Esdras sobre a quantidade de vítimas confirmadas até o momento, e não foi surpresa alguma saber que já contabilizavam 7. Ouvir aquilo me deixou alarmada. Não entrava na minha cabeça o porquê de já não terem tornado aquilo público, a fim de orientar a população para tomarem cuidado. Com toda certeza, o investigador chefe tinha um dedo naquilo. Desde sempre Hugo Müller tinha sérios problemas em compartilhar informações de interesse público. Segundo ele, era melhor apresentar casos solucionados do que causar comoção desnecessária com evidências vagas.
Por outro lado, eu discordava plenamente do seu ponto de vista. Na verdade, tudo que saia da boca daquele homem parecia ir de encontro a tudo o que eu acreditava. E talvez fosse por isso, que ele não gostasse tanto de assim de mim. Eu era a única jornalista audaciosa o suficiente para publicar matérias de cunho altamente informativo quanto às atividades da polícia local. Ao contrário do que ele pensava, não disponibilizava informações para mobilizar negativamente a cidade, mas sim, para lembrá-los de que havia pontos que necessitavam de atenção, situações preocupantes que estavam acontecendo bem debaixo de seus olhos. Consequentemente, toda a atenção se voltava para Hugo, que parecia detestar tê-la em si de forma sempre tão negativa. Azar o dele.
Depois daquela conversa e de enviar meu texto sobre os ciganos para a redação, mobilizei Letícia para que nos reuníssemos com o chefe de reportagem para tratarmos da possível nova pauta. Chegando em sua sala, tanto ele como a mulher, já me aguardavam aflitos no abafado cômodo, como toda vez que nos reuníamos.
Havia diversos papéis espalhados por todo ambiente com o inconfundível cheiro de tabaco e bourbon barato, combinando com a indelicada personalidade do homem que os consumia com avidez. Ninguém no jornal gostava muito do cara, principalmente pelo jeito pouco ortodoxo de gerir nosso departamento, mas ele era a representação de autoridade que tínhamos, e nenhuma pauta saia do lugar sem o seu aval.
Após me sentar, relatei toda a barbárie que me fora contada pelo recepcionista. A pauteira, assim como eu, demonstrou seu claro repúdio pelos desagradáveis detalhes, ao contrário do nosso chefe que se mantinha impassível.
— Você tem certeza de que quer ser responsável por essa matéria, Ylena? Não tenho dúvidas da sua capacidade, mas é um tema que requer extremo cuidado, não quero que atraia atenção indesejada. – as palavras do meu chefe me surpreenderam. Pela primeira vez ele havia tecido um elogio a meu trabalho, ainda que envolto em genuína temeridade.
— Não se preocupe, tomarei todo cuidado para que isso não aconteça. – garanti convicta. Eu acreditava seriamente que meu único empecilho seria afetar demais o delicado ego do investigador Müller. O que de mal poderia me acontecer? Ser presa? Já havia passado por maus bocados com o dito cujo, para saber como sair ilesa.
Ao fim de nossa reunião, estava oficialmente designada para cobrir a investigação dos assassinatos. Não sabia como Letícia conseguia fazer minhas pautas - em regra perturbadoras – serem aprovadas, mas a agradecia imensamente. Enfim poderia dar a cidade de Vitório Guerra um aviso de que enfrentávamos tempos sombrios. Aquela matéria tomaria boa parte do meu tempo e sanidade, principalmente, por ter de manter um contato ainda maior com o detestável investigador, no intuito de estar o mais atualizada possível. Eu teria de ser extremamente cuidadosa com meus próximos passos, para não travar uma guerra com aquele sujeitinho arrogante. Tais pensamentos foram me acompanhando durante todo o tempo que gastei indo de encontro a Isabelle nos arredores do acampamento cigano. O semblante animado e curioso dela me recepcionaram tão logo que cheguei a sua frente, dissipando minhas enérgicas divagações em relação a história macabra sob a minha tutela.
— Estou tão empolgada! Será que eles vão gostar de mim? – disse a garota insegura, me abraçando um pouco trêmula.
— Claro que vão, não há uma criatura viva que não goste de você, Belle! – tentei acalmá-la, brandamente. Me compadecia de sua temeridade. Ainda que já tivesse estado ali, aquela inquietação ansiosa não me abandonava de forma alguma.
Pedi para Isabelle aguardar ao lado dos carros, enquanto subia o restante da colina a fim de encontrar a anciã cigana. Apesar de Siobhan ter me garantido que não recusaria minha ajuda, não faria minha amiga ultrapassar os limites dos ciganos sem o consentimento expresso deles. Havia sido muito bem recebida para cometer tamanha deselegância naquela altura. Com pouca dificuldade encontrei a distinta senhora, pois nem havia me aproximado das tendas quando ela apareceu repentinamente, sorrindo acolhedora. Sua amável recepção me deu a ligeira impressão de que ela me aguardava, mesmo não tendo lhe garantido um breve retorno. Desde nossos últimos momentos juntas ao fim de minha primeira visita, a aura enigmática daquela mulher inspirava minha criativa imaginação. A sucessão de sentimentos, quase conseguiu abalar minha descrença em misticismos, pela busca miserável por uma explicação satisfatória do que causou a sensação que experimentei quando nossas mãos e olhos se tocaram, porque foi como me senti quando me vi presa aos intensos olhos castanhos daquela mulher, completa e bizarramente tocada.
Esquecendo a curiosa situação passada, me concentrei na mulher à frente, cumprimentando-a, e justificando a súbita visita. Os minutos que precederam nossa chegada foram preenchidos pelas explicações de Isabelle quanto às condições do trabalho. Apesar de ambas demonstrarmos nossa insatisfação por não poder ajudá-los como um todo, os ciganos receberam a singela oferta de muito bom grado. Nos oferecendo, como forma de agradecimento, um modesto jantar regado a muito vinho e conversas calorosas. Siobhan se incumbiu de entreter minha amiga com histórias incríveis sobre suas viagens, e mesmo de longe podia-se ver o quão fascinada a garota estava com cada detalhe que lhe era oferecido.
Poucas foram as vezes em que me senti tão bem em meio a tantas pessoas como me sentia naquele lugar. A energia gostosa de ser abraçada pela natureza, o suave carinho do vento bagunçando meus cabelos e o delicioso sabor do líquido púrpura e alcoólico, embriagavam meus sentidos. Estar ali ajudava a dissipar o agror causado pelos repulsivos acontecimentos dos quais tomei conhecimento mais cedo naquele dia. Principalmente, o inebriante aroma de erva doce e hortelã que se destacou em meio ao odor de especiarias mesclado ao suor dos corpos animados. Aquele cheiro sobressaia a tudo, parecendo aumentar exponencialmente a cada segundo, capturando por completo meu olfato e instigando minha visão numa busca aflitiva pela fonte daquela fragrância perturbadora. Fui surpreendida pela imagem da garota cigana. Lia! Meu cérebro insistiu em se lembrar. Seu perfume havia chegado antes mesmo dela, como se propositalmente anunciasse sua aproximação. Não sabia o quão fortemente ansiava pela sua presença até voltar a vê-la, atraindo minha atenção completa, tão somente para si.
Dessa vez, Lia trajava uma saia longa de estampa colorida em tons terrosos e em seu busto levava uma pequena blusa branca ombro a ombro, que em nada servia para cobrir a pele brilhosa de seu voluptuoso torso. O conjunto que ela vestia transmitia tamanho conforto que me fazia sentir incomodada em minhas próprias roupas, tornando-as pesadas demais. A gola da camisa social azul parecia apertar sobre meu pescoço a cada passo que a neta de Siobhan dava em nossa direção, mesmo com três botões abertos.
A suavidade de seus movimentos estava me irritando profundamente, contribuindo para a elevação do meu estado inquieto diante sua subversiva imagem. Seus olhos grudaram-se aos meus, curiosos, causando efeitos desconhecidos em meu corpo. Suas orbes castanhas consumiam minha pele como se a tocasse diretamente com as próprias mãos, fazendo-a se arrepiar em resposta pelo seu contato invisível. Seus grossos lábios carmim se expandiram numa sinuosa curva, e me perguntei como um sorriso poderia ter gosto, pois, podia jurar sentir em minha própria boca a docilidade que escorria do seu gesto despretensioso.
— Lia, deixe-me apresentá-las, essas são Isabelle e Ylena. Vieram nos ajudar a conseguir trabalho na cidade. – Siobhan tratou de nos apresentar animada, me obrigando a voltar a ser um ser humano em pleno uso de sua capacidade intelectual e focar na conversa se desenvolvendo à minha frente. Entretanto, nenhuma palavra conseguia sair da minha boca. Eu estava petrificada.
— Muito prazer, gadjes. Que nossa santa lhes abençoe em abundância, em retribuição a tamanha generosidade! Por favor, me contém o que faremos! – disse a garota radiante, inclinando sua cabeça num sutil gesto de agradecimento, sem perder sua altivez natural. Ainda me sentia anestesiada quando Isabelle adiantou-se, dispensando o agradecimento enquanto lhe contava animadamente sobre a dita ajuda. Já eu, permanecia restrita a qualquer manifestação que não fosse acenar. Durante toda a breve conversa delas, fui alvo dos curiosos olhos castanhos. E assim foi, até antes das duas se afastarem. Pensei ter visto a jovem cigana relutante em ceder sua completa atenção à minha amiga, mantendo seus olhos fixos aos meus, porém logo se foi junto a Isabelle, com um sorriso conspirador.
— Acho que perdeu sua amiga! – a voz de Siobhan fez com que eu a olhasse confusa. — Minha neta tem verdadeiro fascínio por cavalos, e a menina Isabelle parece partilhar do mesmo sentimento. – continuou falando em meio a um sorriso largo de contentamento.
— Há noites em que os pais dela têm de buscá-la, senão acaba dormindo junto aos animais. – sussurrei divertida como se aquilo fosse um grande segredo.
— É um amor lindo, não é mesmo? – a anciã soou contemplativa, e me limitei a sorrir concordando com a cabeça. Suas poucas palavras, outra vez, faziam minha mente se rebelar contra conceitos já tão bem enraizados, forçando minha percepção sobre uma nova ótica. Eu considerava admirável aqueles que faziam algo com verdadeira devoção. O ser humano tem o potencial de ser extraordinário, mas se deixava prender pela mediocridade ao em vez de dar vazão aos seus reais desejos. Esse fato me fazia admirar tanto Liana quanto Isabelle, pois elas não se rendiam às restrições alheias, e sim, viviam a sua própria vontade. Tal como os ciganos.
— Está muito tarde. Vocês deveriam passar a noite conosco, gadje! Irei mandar preparar uma tenda e roupas para vocês. – a velha cigana sentenciou já se levantando, não me dando outra opção senão concordar.
Momentos depois de sua retirada, fui checar minha amiga. Não consegui segurar o riso ao vê-la dançando desajeitada entre as mulheres ciganas, claramente embriagada. Não que meu estado de sobriedade fosse dos melhores também. No entanto, ainda conseguia traçar uma linha reta com firmeza, ou algo próximo disso, ao contrário da garota na minha frente. Seu lindo rosto brilhava a suor devido seu esforço para acompanhar os elaborados passos da dança cigana, enquanto seus pés descalços ficavam cada vez mais sujos da terra abaixo deles. Permaneci ali, a observando, até o retorno de Siobhan dizendo que tudo estava pronto e que seria melhor que levasse logo minha amiga para descansar, o que prontamente me dispus a fazer.
— Belle, o que acha de sentarmos um pouco? – digo suavemente, tentando coagi-la a render-se ao evidente esgotamento físico causado pelo excesso de álcool e euforia. O cheiro de vinho exalava tão fortemente dela, que nem sabia como ainda conseguia se manter consciente e de pé, quando quase desmaiei com o odor azedo vindo de seu corpo.
— Acho uma boa ideia, o chão não para de girar, e isso está me deixando enjoada. – minha amiga estava com a voz engraçada, tentando escorar um de seus braços em mim, esforçando para se manter de pé.
— Espere para ver como estará amanhã! – sussurrei divertida, apoiando-a o mais firmemente possível nos guiando por entre as tendas.
— O que você disse? – questionou confusa, formando um vinco entre suas sobrancelhas negras e bem desenhadas. Sua confusão a deixava mais adorável do que o de costume, me fazendo sorrir involuntariamente.
— Vamos parar e beber um pouco de água. Pelo visto, a noite acabou para você, senhorita Maldonado. – brinquei, incentivando-a, a dar mais passos por entre os ciganos.
— Han... Tudo bem, tudo bem! – resmungou cambaleando ao meu lado, indo em direção àquela que seria a nossa tenda.
Depois de deixar uma Isabelle completamente apagada sobre confortáveis lençóis com cheiro de lavanda, segui para a margem do lago próxima à encosta da colina, na parte mais afastada do acampamento. Sua localização entre as árvores proporcionava privacidade àqueles que o buscavam para se banhar, assim como eu estava fazendo naquele momento. O caminho até ali fora cercado de pequenas lâmpadas marroquinas penduradas em varas de bambu, firmemente fincadas no chão, iluminando a trilha. À minha frente, a depressão líquida do lago se estendia majestosamente misturando-se à escuridão do céu noturno. A sensação pegajosa da minha pele me fez avançar ansiosa para molhar as mãos e os pés, testando a temperatura da água. Os efeitos do vinho pareciam fazer seu papel, pois não senti a real sensação do quão gelada a água deveria estar àquela hora.
Procurei um tronco ou pedra grande para colocar a muda de roupas limpas enquanto me limpava. Porém quando voltei minha atenção para a imensidão sombria do lago, eu a vi. A figura emergiu imperiosa do manto líquido sob o céu noturno, levando ambas as mãos aos cabelos, tirando o excesso de água, jogando-os para o lado, cuidadosamente. Mesmo estando de costas, não precisei de muito esforço para saber exatamente de quem se tratava. Seu corpo esguio seguia em sincronia o pouco movimento da água, alheia a minha milimétrica observação. Silenciosamente, e com muito esforço, permaneci imóvel, temendo que meus batimentos cardíacos acelerados fossem audíveis o suficiente para fazê-la se virar e me apanhar ali, inquieta e curiosa, a observando.
O desenho de seu corpo destacava-se facilmente sob a luz natural da lua abraçando sua forma delgada. Sua figura mesclava-se perfeitamente a toda aquela escuridão, tornando-a tentadora e mortal. Concedendo-lhe o direito de ser comparada a personificação da deusa da noite em sua glória. Não pude impedir meus olhos de acompanharem seus contornos, escorregando por cada detalhe que os opacos raios prateados gentilmente revelavam. Sobre seu torso desnudo parcialmente encoberto pela água, entre as omoplatas, havia um irregular círculo negro desenhado cujo centro possuía intrigados traços curvos, mas naquela distância não conseguia distinguir o que formavam. A composição daquela imagem me causou um desconforto estranho. Ao mesmo tempo em que cobiçava vencer a distância para ver por completo o desenho, e tocá-lo se ousasse o suficiente, em contrapartida sentia vontade de correr para o mais longe dali. Por mais que tenha sido quase difícil lutar contra aquela impulsão desconhecida de me aproximar, saí o mais depressa que meus pés embriagados permitiram. Me afastei daquela intrigante situação, me agarrando a falsa segurança da minha tenda. Meu coração pulsava fortemente em meus ouvidos, meu corpo suava frio assim como arrepiava-se, ininterruptamente, enquanto minha mente insistia em repassar a performance íntima da garota cigana no lago.
Seja qual fosse o motivo que me fazia sentir tão afetada com sua presença, tentava a todo custo me convencer de que a partir dali iria controlar esses efeitos indesejados. Contudo, parecia que o universo tinha seus próprios planos, pois sequer havia me recuperado quando o familiar perfume se fez presente, tão próximo que poderia dizer que sua dona estava colada em mim. Do lado de fora, por trás do tecido grosso da tenda que nos separava, sua sombra projetou-se à minha frente, não dando trégua ao idiota órgão pulsante dentro do meu peito. Seu chamado soou incerto, mas firme. Respirei fundo, antes de respondê-la, implorando silenciosamente que a garota do lado de fora não pudesse perceber a inquietação que mordia meus ombros, enquanto tentava recompor a postura, antes de ficar cara a cara com aquela maldita cigana.
— Você esqueceu suas roupas, vim devolvê-las. – ouço-a dizer cuidadosa. Senti que meu sorriso vacilou ao pegar metodicamente o amontoado de roupas de suas mãos. Haviam gotas de água salpicando seus ombros, e esse detalhe estava prendendo minha atenção.
— Obrigada! – respondi sentindo minha voz tremer. Mas ver o divertimento em seus olhos fez com que meu estômago vibrasse, me fazendo endurecer ao máximo a minha voz. — Não precisava se preocupar, na verdade, estava voltando para lá neste instante.
— Imagino que sim…– sorriu presunçosa pela clara tentativa de soar indiferente ao seu agradável gesto. — Vamos ser bem sinceras aqui… Não é incomum para vocês, gadjes, se sentirem tão perturbados em nossa presença. Não deveria ficar ressentida por isso. – a suave afirmação fez meu corpo retesar, me pegando desprevenida pela ousadia de suas palavras. Como ela podia mostrar-se inalterada enquanto destilava seu veneno num tom tão ameno. Traiçoeira.
— Você deveria tomar cuidado com suas suposições, cigana. – ergui meu queixo num ato de evidente arrogância. Eu queria fazê-la sentir ao menos metade do que causava, queria vê-la desconcertada em sua própria pele diante o escrutínio de meus olhos. Mas ao contrário do que desejava, aquela garota infernal alargara seu sorriso triunfante, como se soubesse o que estava provocando e adorasse ser responsável por tal. Tudo isso mantendo firmemente a fachada de recato e amabilidade.
— Manterei isso em mente. Boa noite, gadje! – ouço-a dizer divertida, enquanto se afastava, me deixando só com meus sentimentos mesclados entre tensão e descrença por seu atrevimento. Quem ela pensa que é?
Dizer que aquela noite havia sido a pior da minha vida, seria um eufemismo dos grandes. A cigana invadiu sem permissão meus pensamentos, tal como em meus sonhos, me fazendo temer fechar os olhos. Passei horas praguejando-a por afastar de vez meu sono. Consequentemente, presenciei o início de outro dia, e somente o som do ressonar embriagado de Isabelle, de alguma forma, conseguiu nublar a potência dos involuntários pensamentos, impedindo-os de persistirem pela manhã. Minha amiga sequer havia aberto os olhos, quando a instiguei para que partíssemos o mais depressa, antevendo outro embate enervante com a petulante garota cigana. Para minha sorte, conseguimos nos despedir bem antes de sua inquietante aparição.
Fim do capítulo
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