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Nefário por Maysink

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Palavras: 4708
Acessos: 445   |  Postado em: 29/01/2024

Capitulo I

A escuridão da noite despontava lá fora, enquanto eu permanecia presa à minha mesa no editorial do jornal no qual trabalhava. Por mais que o cômodo fosse extenso e estivesse vazio, o odor característico da junção entre papel e café estava impregnado por todo o ambiente, se destacando. Aquele cheiro mesclado ao barulho das máquinas de escrever ditava os tons caóticos dos meus dias de trabalho. Todavia, naquele momento, somente o silêncio me fazia companhia enquanto esperava pacientemente por Letícia, nossa pauteira. A ideia de que finalmente pudesse ocupar minha cabeça com um tema significativo, era responsável por manter meu bom humor intacto naquela altura. O mundo parecia eclodir acontecimentos mais relevantes. Ao em vez disso, o povo da cidade de Vitório Guerra parecia mais interessado nas fofocas produzidas em massa pela nata endinheirada da cidade. No lugar de escrever sobre a reviravolta política internacional, estava sendo obrigada a me contentar com pautas fúteis. Como a propensão do filho do Prefeito em denegrir a boa imagem de sua família, devido ao vício por jogos de azar e o comportamento mulherengo. Não que já não fosse de conhecimento público os hábitos indesejáveis da parte vitoriana privilegiada, porém todos pareciam se deliciar com a reputação frágil do alto escalão. 

A rotina enfadonha, me aborrecia. Não havia me empenhado tanto nos últimos meses, lutando para cobrir escândalos políticos relevantes, para me satisfazer com a pequenez da vida social dos filhinhos de papai mimados e arrogantes. Não havia fortalecido minha precoce ascensão na carreira jornalística para cobrir as frivolidades da burguesia vitoriana. Não! Eu sou Ylena Montelo, a mais jovem integrante da equipe investigativa de um dos mais prestigiados jornais do estado, o Alvorada Vitoriana. Não seria uma figura miserável. Não era do meu feitio me contentar com pouco.

Irrompendo uma das portas de madeira ao fim do corredor que levava à sala da diretoria jornalística, Letícia vinha apressada para o meu alívio. A urgência de seus passos fazia com que seus saltos ecoassem o tic insistente sobre o assoalho, dispersando o som irritante produzido pelo encontro da ponta fina de seus sapatos com a superfície lisa do chão.

— Oh meu bem, me perdoe pelo atraso. Tive um pequeno imprevisto com o chefe de reportagem, sabe como aquele homem é! – desculpou-se a robusta e adorável senhora de cabelos ondulados. Seus gentis olhos castanhos combinavam perfeitamente com todo o conjunto que a tornava tão querida entre os integrantes mais jovens daquele lugar, inclusive para mim.

— Tudo bem Lets, vamos logo com isso, por favor. Estou exausta! O que tem para mim, hoje? – o sorriso da mulher mais velha alargou-se com a minha ingênua curiosidade, evidenciando ainda mais suas rugas. Em outro momento estaria assustada com sua esquisita feição entusiasmada, mas só conseguia pensar em ir para casa e encerrar aquele dia miserável, que se arrastava.

— Alguns dias atrás uma caravana foi vista se estabelecendo na clareira nos arredores da cidade. Isso acabou chamando a atenção dos moradores mais próximos. Estava pensando se lhe interessaria passar por lá, isso se já não souber do que se trata. – comentou, alegremente.

— Não faço a menor ideia do que seja. É essa a pauta? Terei que ir até lá para descobrir? Pelos céus, Letícia, não acredito que me fez esperar esse tempo todo só para isso. Pode ser apenas um circo itinerante. Francamente! – a cortei impaciente, me levantando da cadeira colocando ambas as mãos na cintura, deixando claro meu descontentamento. As feições gentis da encantadora senhora deram lugar a pura censura. Algo incomum para uma mulher como ela. Vendo a mudança brusca, não consegui me impedir de sentir medo.

— Senhorita Montelo, deveria ter mais modos e paciência! Se não fosse tão imediatista, não teria me interrompido rudemente, e já teríamos encerrado esta conversa! – seu olhar de repreensão me calou tão rápido quanto suas palavras duras saíram. Meu silêncio culpado incentivou a doce mulher a se sentir livre para continuar sua explicação. — Veja, são ciganos, povo de cultura reservada e muito criticada. Você irá ao acampamento para conhecê-los e então fará sua mágica. – Leticia piscou ao final de sua fala empolgada, sentimento que eu também compartilhei. Ciganos! Minhas expectativas haviam sido superadas, pela pauta tão inusitada.

— Já ouvi um relato ou dois sobre eles. São bem criteriosos com o acesso de pessoas alheias à cultura, como espera que eu consiga entrar no acampamento? – conjecturei, contemplativa.

— Não menospreze a si mesma, não combina com a senhorita. Digamos que mexi um pauzinho ou dois para conseguir fazer com que eles, voluntariamente, te recebessem amanhã de manhã. – disse despreocupada. Meu sorriso encantado foi inevitável.

— Você é incrível, alguém já te disse isso? – abracei-a efusivamente, demonstrando toda a minha satisfação e agradecimento, causando-lhe risos divertidos.

— Sou lembrada todos os dias! – respondeu presunçosa, apertando nosso abraço desengonçado. — Agora vá e faça seu trabalho extraordinário, e expanda a mente preconceituosa do povo dessa cidade. – emendou, com um brilho diferente em seus olhos. Semicerrei os meus em desconfiada.

— Se não te conhecesse bem, Leticia, diria que a senhora tem algum interesse pessoal nesta matéria. – a mulher limitou-se a sorrir discreta, habilmente se afastando em direção à porta da saída, mas antes de atravessá-la voltou-se para mim.

— Divirta-se, minha querida Ylena! — a senhora sequer deu tempo para que me despedisse, irrompendo porta a fora, saindo do jornal tão apressada quanto havia chegado, me deixando sozinha outra vez no local.

O cansaço havia deixado meu corpo completamente, dando lugar a uma empolgação genuína. Eu tinha algo precioso em mãos. Uma matéria desafiadora. Durante todo o caminho feito até minha casa minha mente fervilhou criativamente nos mais variados cenários que encontraria no acampamento cigano. Visitar aquelas pessoas seria uma experiência transformadora. A curiosidade era uma das minhas características mais fortes, e por isso, nada parecia bom o suficiente para aplacar minha ansiedade pelo que estava por vir. Toda essa empolgação e expectativa crescente foram responsáveis por me tirar mais cedo do aconchego da minha cama, na manhã seguinte. Após o rotineiro ritual matinal, desci à sala de jantar para o desjejum com os outros integrantes da casa. A longa mesa de madeira envernizada tinha como de costume apenas 3 das 6 cadeiras, ocupadas. Meu pai sentava-se na ponta, como o bom senhor da casa que era, à vista de todos, enquanto minha mãe e irmã se acomodavam cada uma a seu lado.

— Bom dia, família amada! – digo animadamente sorrindo para o nada, me sentando ao lado de Liana, minha irmã mais velha. Em seguida, me servindo de alguns dos deliciosos itens dispostos sobre a mesa.

— Bom dia, Lena! – responderam juntos. A incomum alegria estampada no meu rosto logo tão cedo os fez desconfiados. Eu não era uma pessoa matinal. Acordar cedo sempre foi uma tarefa bem difícil para mim. Aquele entusiasmo vindo de alguém intragável pela manhã era no mínimo suspeito, não os julgava.

— Vejo que está mais animada do que de o costume, querida. Há algum motivo em especial? – meu pai perguntou cauteloso, levando a xícara de café aos lábios. Seu olhar era afiado.

— Nada fora do comum, senhor meu pai. Apenas a oportunidade de uma matéria promissora. – respondi educadamente o altivo homem sentado na ponta da grande mesa. Alistair Montelo no auge de seus 55 anos mantinha intacto o charme masculino com barba e cabelos grisalhos sempre bem aparados e penteados. Eu e minha irmã, Liana, havíamos herdado apenas seus límpidos olhos azuis cobalto, que faziam conjunto aos cabelos loiros de nossa mãe, Liora, cuja jovialidade encantadora contrastava drasticamente com a presença áspera do marido.

Meus pais sorriram forçadamente seguindo com o desjejum, ignorando deliberadamente minhas palavras como sempre faziam quando assuntos sobre nossos trabalhos eram mencionados. Para a minha infelicidade e a de minha irmã, alguns conceitos arcaicos ainda permaneciam intactos no nosso seio familiar. Como por exemplo, o verdadeiro propósito de uma mulher divergir totalmente da independência e ascendência profissional. Apesar disso, passiva e relutantemente, ambos nos apoiavam em nossas escolhas pouco convencionais. Liana era formada em história e trabalhava como avaliadora de obras de arte no museu da cidade, enquanto eu, explorava a área de jornalismo.

— Oh graças aos céus, não aguentava mais ouvir suas lamúrias sobre como estava sendo castigada pela limitada visão da comunidade vitoriana e suas predileções questionáveis. –Liana proferiu seu cuidado fraternal no costumeiro sarcasmo. Assim como eu, ela também não era uma pessoa matinal. Mas, naquele dia, eu não queria gastar minha energia digladiando com seu péssimo humor.

— Por hoje, irei ignorar seu doce veneno, minha irmã. Se me dão licença. Desejo a todos um excelente dia. – me levantei elegantemente da mesa após terminar meu café, não rendendo aos gracejos matinais detestáveis de Liana. — Papai, espero que não se importe, mas precisarei usar um dos carros. – disse antes de sair. Aproveitei para beijar gentilmente a face da minha irmã, que retribuiu, amavelmente.

— Tudo bem, Lena, apenas tome cuidado! – o mais velho respondeu lacônico, voltando-se para o jornal em suas mãos.

Antes de dirigir o Alfa Romeo FNM preto para o esperado encontro com os recém-chegados, passei pelo meu habitual ponto de partida diário, a delegacia. O simpático senhor que ficava na recepção do corpo policial, tornou-se meu melhor aliado quando descobri que era ali onde as melhores pautas se escondiam. Para o desagrado completo do investigador-chefe Hugo Müller, o qual odiava-me mortalmente por sempre conseguir abusar das limitações impostas pela polícia e me livrar das consequências devido o prestígio da minha família. Não que eu fosse alguma criminosa ou algo assim. É que as melhores matérias exigiam certa dose de genialidade, e, Müller não sabia lidar com o nível da minha.

— Bom dia, senhor Esdras! – cumprimentei animadamente o recepcionista.

— Bom dia, senhorita Montelo. Está radiante esta manhã! – o espirituoso homem retribuiu cortês. Alargando seu sorriso de dentes levemente amarelados, quando ofereci a pequena bandeja com os biscoitos doces de minha mãe, que havia levado comigo.

— Como sempre, muito gentil, obrigada! Novidades interessantes essa semana? – perguntei-lhe interessada, debruçando ambos os braços graciosamente em cima do largo balcão que separava a entrada do interior da delegacia.

— Minha querida, o departamento anda bem atarefado. Parece que o Governador designou ao chefe uma importante investigação. Eles se reuniram várias vezes ao longo dos últimos dias. – confidenciou preocupado, enquanto devorava os doces caseiros.

— Deve ser algo grande, para o Governador vir em pessoa. Você já sabe sobre o que é? – externei curiosa. O Governador pouco participava das reais atividades da cidade que não fosse de seu inteiro interesse e total benefício. Saber que suas raras aparições, aparentemente, haviam se tornado rotineiras era no mínimo curioso. Algo bem incomum estava acontecendo.

— Não totalmente, mas andei sondando um dos peritos. Ao que tudo indica, um corpo foi encontrado sob circunstâncias duvidosas nas proximidades da cidade, na tarde de ontem. – conspirou.

Acontece que as palavras “circunstâncias duvidosas” eram o código policial para assassinato. Obviamente pessoas morriam a todo momento na capital, porém, o índice de assassinatos era consideravelmente baixo. Se aquele acontecimento isolado estava chamando atenção o suficiente para mobilizar o próprio Governador, significava algo realmente sério, e pior, não seria o primeiro.

— Lamentável. Já identificaram a vítima? — comentei pesarosa. Esdras limitou-se a acenar a cabeça negativamente, e nos minutos seguintes ambos ficamos em completo silêncio pela fatalidade.

— Bom, é melhor eu ir embora antes que o chefão me encontre aqui. – disse divertida, tentando quebrar o desconforto causado pela trágica notícia. — Se souber de mais alguma coisa, me avise. Obrigada mais uma vez, sr. Esdras. Até breve! – me despedi educadamente, voltando pensativa para o automóvel estacionado à frente do prédio policial.

O caminho até a clareira foi feito envolto a divagações. Devido a precariedade do terreno, estacionei no sopé do monte íngreme que separava, consideravelmente, Vitório Guerra da cidade interiorana de São Valeriano. Conhecia a região como a palma da minha mão, portanto, facilmente consegui chegar no lado onde imaginava que o acampamento fora montado.

Minha primeira visão, foi o grande lago que cercava a parte oeste da encosta que dividia as duas cidades. Se me aproximasse mais ao sul poderia ver toda a cidade vizinha, inclusive a casa de campo da minha família que ficava às margens do lago, na região mais afastada da província valeriana. A vista daquele ponto da elevação terrena era incrivelmente linda. Conseguia entender o porquê de pessoas supostamente tão ligadas à natureza terem a escolhido para se estabelecerem.

Continuei minha caminhada para mais perto do centro do loteamento, encontrando diversas tendas coloridas espalhadas por toda a sua dimensão. O barulho de vozes se misturava ao som de risadas. O delicioso cheiro de alguma especiaria impregnava o ar. Ao contrário da cinzenta capital vitoriana, o assentamento cigano emergia vida em meio a paisagem bucólica, através de suas cores e animação. Do meu refúgio anônimo, pude ver suas vestes coloridas e joias resplandecendo sob a luz do sol, assim como seus largos sorrisos branco e dourado. A junção disso fez meu cérebro estalar tentando assimilar tudo aquilo de uma só vez. Estar diante aquela imagem tão diferente da qual estava acostumada, me fez sentir como se estivesse numa realidade paralela. Talvez por isso não tenha percebido a aproximação de um dos ciganos, só tomando noção de sua forte presença quando ele esbravejou na minha direção usando um idioma pesado e incompreensível. Sua feição severa indicava a insatisfação com minha presença.

O jovem rapaz de tez morena insistia com questionamentos em duras palavras em sua língua natural, mas sequer consegui responder qualquer coisa. Uma distinta senhora lhe tocou o braço direito com a mão tracejada de intrincados desenhos negros, o impedindo. Assim como a mão, também haviam traços que enfeitavam abaixo de seu lábio inferior até metade de sua garganta. A impressionante cigana em vestes douradas e azuis, proferiu palavras baixas de censura ao rapaz, deduzi. Já que ele olhou dela para mim, e como se pedisse desculpas, inclinou sua cabeça para baixo num manear leve, nos deixando a sós.

— Você está perdida, gadje? –  a voz rouca da senhora cigana soou incrivelmente delicada nos meus ouvidos latejantes pela enxurrada áspera proferida momentos antes, pelo outro cigano. Engoli o bolo seco que envolveu minha garganta naqueles minutos tentando sorrir gentilmente para ela.

 — Olá, me chamo Ylena Montelo, vim sob a orientação de Letícia. – respondo comedida, demonstrando-lhe respeito. Afinal, eu era a estranha ali.

— Ah sim, você é a amiga jornalista! – a velha cigana sorriu brandamente. — A menina Letícia disse que viria, estava à sua espera. Sou Siobhan Heredia. – ouvi-la falar tão amavelmente da pauteira aumentou ainda mais minha desconfiança quanto ao interesse dela nesta matéria, principalmente pela influência em conseguir fazer com que eu fosse recebida cordialmente em um círculo restrito como aquele.

— Me desculpe, mas vocês se conhecem há muito tempo? – não consegui guardar minha curiosidade, questionando-a cuidadosamente sobre a profundidade daquela relação. Interesse jornalístico, eu diria.

— A mãe de Letícia fazia parte do clã, e mudou-se quando se casou com um gadje da cidade. Elas ainda mantêm contato conosco. – Siobhan contou, acenando para que andássemos enquanto conversávamos. Eu lhe sorri em concordância.

— Gostaria de me desculpar, senhora Heredia, temo ter sido invasiva por simplesmente chegar e não anunciar minha presença, devidamente. Não é minha intenção desrespeitá-los, portanto, peço que me perdoe se o fiz. – me retratei pelo incidente ocorrido antes de sua chegada.

— Não se preocupe, shukar shei, suas desculpas não são necessárias. Sinto suas intenções e sei que são boas. Venha, vou levá-la para conhecer os outros. E pode me chamar apenas de Siobhan. — Tranquilizou, nos levando para o meio do agitado acampamento, antes que pudesse lhe questionar sobre o que quis dizer com sentir minhas intenções ou qual o significado do termo cigano que usou para se dirigir a mim.

Durante toda a tarde acompanhei a simpática senhora pelo grande acampamento. Ao contrário do que esperei, a cordialidade de Siobhan comigo não se restringiu unicamente dela, todos que cruzavam nosso caminho me destinavam um sorriso gentil e caloroso, demonstrando genuína hospitalidade. Toda a amabilidade deles fez minha visita se estender mais do que o pretendido.

— As mulheres comprometidas têm de manter parte do cabelo preso ou ele todo com um lenço dourado, durante as festividades e fora do acampamento. Os homens têm de colocar o mesmo lenço, de forma visível. Geralmente o colocam preso ao pulso ou ao colete. – disse enquanto seguíamos até a roda que se formava ao redor da grande fogueira no centro do acampamento, onde os ciganos se agitavam eufóricos bebendo, rindo e dançando. Percebi cada um dos detalhes mencionados. Sendo o mais evidente nas mulheres, que circulavam com o adereço sobre os cabelos, andando por entre o aglomerado de pessoas se servindo de comida e vinho. 

Outro detalhe chamou minha atenção, apenas os casais trocavam taças de vinho entre si, e, às vezes bebiam na mesma taça. Quando questionei a ação em particular, Siobhan pacientemente explicou que quando se oferece vinho a outra pessoa ou se partilha da mesma taça, é como se demonstrasse seu interesse a ela, firmava um compromisso. Por isso os descompromissados serviam a si mesmos, ao contrário dos demais. A velha cigana ainda me contou tudo o que as limitações de sua cultura permitiam, desde importantes histórias a pequenos costumes. Como o porquê de suas tatuagens tão incomuns. Somente as anciãs ou curandeiras carregavam desenhos sobre a mão esquerda e queixo. Siobhan era a anciã mais prestigiada de seu clã. Corei violentamente quando descobri que a cigana havia me chamado de menina bonita. Minha reação envergonhada arrancou sorrisos satisfeitos dela, me fazendo ficar ainda mais vermelha.

Em meio a minha disfarçada entrevista em plena festividade, um jovem cigano munido de uma adaga e lenço vermelho e dourado começou a dançar ao redor da grande fogueira, chamando a atenção de todos. A singularidade de seus movimentos despertou meu interesse. O pouco que aprendi, até aquele momento, sobre o costume da dança cigana, é que era mais comum vinda das mulheres. Enquanto aos homens, cabia tocar os instrumentos. O jovem rapaz movia rapidamente a adaga e o lenço, quase como se fundindo os dois com seus gestos precisos e graciosos. Ele ia se aproximando de um pequeno grupo. Se colocando à frente de uma garota. Ele ajoelhou-se aos seus pés lhe oferecendo os objetos. Ela sorriu alegremente os aceitando, ocasionando uma salva de palmas e gritos eufóricos numa saudação em romani, a língua nativa cigana.

— Isso, é um ritual de noivado. A adaga simboliza o papel do homem num casamento, proteção. E o lenço, o papel da mulher, dedicação. A benção que gritamos “bar sastimos saorrengue", significa sorte e saúde para todos! – disse Siobhan, antecedendo minhas mais novas perguntas.

— Então, ele dança, conquista a moça e depois simplesmente se casam? – questionei-a confusa com a simplicidade do importante gesto para selar o elo matrimonial. Apesar de na capital o costumeiro pedido viesse munido de um belo anel antecedido de um discurso ensaiado, ainda assim haviam certos protocolos.

— Não seja tola, menina! A dança é para demonstrar seu comprometimento com o acordo feito entre as famílias, para que o casamento fosse possível. Ou como diriam vocês, gadjes, uma mera formalidade. – a velha cigana me corrigiu divertida. Ao que parecia os costumes daquela cultura resguardavam certas semelhanças aos da civilização comum. Percebi que aqueles viajantes não apenas doavam parte deles por onde passavam, como também carregavam um pouco para si.

A noite já dava seu abraço fresco e estrelado, e, como estávamos próximos ao lago, aquela parte da colina recebia as ondas gélidas de umidade, fazendo com que o calor vindo da fogueira fosse muito bem-vindo. Era impressionante ver tantas pessoas animadas se entregando aos prazeres de uma simples festividade, tendo como única testemunha a natureza. A espontaneidade com que viviam, furtivamente, envolvia até o mais rígido homem na terra, e talvez fosse essa liberdade cativante que os tornava tão maus queridos entre os homens médios. Não éramos ensinados a querê-la e sim, que abdicássemos dela.

 A melodia vinda da fusão entre violão e pandeiro fez com que minha atenção voltasse para sua origem, vendo ao lado dos músicos um cigano mais velho cantando em romani uma divertida letra. Segundo a tradução imprecisa de Siobhan, ele convidava a todos para que se levantassem e dançassem. Se a imagem das tendas quase havia me feito desmaiar pela miríade de cores, ali vendo-os se movimentar, sincronizadamente, parecia motivo para outra explosão sensorial. Nem conseguia manter o foco em um único lugar.

Enquanto ficava entretida com aquela impressionante aquarela viva, meus curiosos olhos se prenderam numa cena em particular. Sentada de forma despojada sobre uma caixa de madeira, uma jovem garota cigana, aparentemente da minha idade, batia suas mãos pela superfície lisa, tocando-a num sincronismo e concentração invejáveis, propagando sua distinta melodia. Ainda que eu não visse seu rosto por estar coberto pelos displicentes cabelos castanhos ondulados, brilhando intensamente sob a luz do fogo assim como sua dourada pele quase totalmente exposta, sua figura capturou completamente meu interesse. A forma como o tecido simples de seu longo vestido branco com flores vermelhas pouco lhe cobria a pele, concedia anseios deletáveis a quem se atrevia desejar ver mais de sua lustrosa tez morena, lutando para dividir espaço com as revoltas mechas castanhas. Estranhamente ansiosa, olhei ao redor para ter a certeza de não ser a única presa naquela instigante cena, e de fato não era, havia inúmeros olhos contagiados pela deslumbrante imagem da cigana tão devota a seus movimentos musicais. Se houvesse em mim, um pingo de dom artístico voltado para o desenho ou fotografia, com toda certeza, capturaria aquela cena intrigante. Era de uma beleza palpável.

— Encontrou algo interessante, gadje? – meu fascínio durou uma fração ínfima de tempo, até ouvir as palavras divertidas de Siobhan, responsáveis por me trazer de volta à lucidez, ainda que parcialmente.

— Quem é ela? – sussurrei hipnotizada. E antes mesmo de ter uma resposta, percebi que havia transparecido um interesse duvidoso, até mesmo para mim. Minha mente inebriada havia cedido outra vez a uma curiosidade inoportuna. — Digo, o que ela está tocando? – rompi meu vergonhoso deslumbramento, voltando meus olhos à cigana ao meu lado. O sorriso jocoso em seu rosto entregava que havia percebido minha falha tentativa de desviar minha pergunta real.

— O instrumento musical, chama-se cajón, e a mulher o tocando, é minha neta, Lia. – Siobhan sorriu orgulhosa quando mencionou a neta, me concedendo a oportunidade perfeita para mudar, convenientemente de assunto.

— Agora que mencionou, notei que não falamos sobre sua família. Se importaria de contar? – antes de começar a falar, a cigana olhou para o céu estrelado. Em seus olhos a calmaria fugia de sua íris castanha, dando espaço somente à saudade e amargura.

— O clã é nossa família. Mas de sangue, resta apenas nós duas. Meu marido se foi há muito tempo, e os pais de Lia, infelizmente, são uma perda recente.

— Meus sinceros pêsames, Siobhan. – tentei vulgarmente conceder-lhe conforto, ciente de que estava falhando miseravelmente. Apesar da minha insignificante condolência, a bondosa cigana voltou seu olhar para mim, com um sorriso mínimo.

— A morte nos dá seu afago todos os dias, menina, não se engane, sua sutileza não nos faz indiferentes a ela. Por isso nós ciganos buscamos viver da melhor maneira, por conhecermos a existência desse inevitável encontro. Esperamos viver bem para morrer bem. – recitou em pura melancolia.

— Um jeito bonito de se encarar a morte. – divaguei soturna.

— O inevitável tem gosto amargo quando se luta contra ele, shukar shei. – as dolorosas e sábias palavras da cigana protagonizaram o foco de minha mente, já que contrariando as expectativas sociais, eu não era devota a divindades rígidas e parciais. Não acreditava que havia algo além de um vasto nada após a morte, portanto, na minha concepção o que se fazia aqui permanecia aqui. No entanto, Siobhan havia conseguido me dar outra perspectiva do irremediável fim. Somos pequenos grãos de areia à mercê do soprar insano da inconstância do tempo, e nossa capacidade de sermos resilientes dava beleza à vida.

Durante todo o restante da festividade, aqueles pensamentos iam descendo suaves como o vinho contido no copo em minhas mãos. Não voltei a ver a impressionante neta de Siobhan, nem mesmo quando praticamente todo o acampamento se juntou para se despedir de mim, ao fim da festa de noivado. Experimentei o sabor inusitado do desapontamento pela sua ausência, mas foi rapidamente ofuscado pela sensação extasiante de ter podido estar dentre pessoas tão sensíveis ao mundo. Havia sido a melhor experiência de minha vida, e eu faria com que o véu da ignorância sobre costumes tão bonitos fosse desfeito, para que eles não perdessem a particularidade característica de suas identidades devido a ignorância. Seria a melhor matéria da minha vida.

Após me despedir, a velha cigana me acompanhou até as margens onde meu carro estava estacionado, e, aproveitando de nossa solidão, decidi externar lhe uma arriscada ideia que vinha matutando ao longo do dia.

— Siobhan, percebi que apesar da fartura, vocês têm poucos recursos aqui para mantê-la. Sei que na cidade será um pouco difícil de conseguirem alguma coisa sólida, por isso, gostaria de saber se posso tentar ajudá-los. – comentei cautelosa, tentando passar segurança através do meu melhor olhar firme e confiante.

— Se for da sua vontade nos ajudar, aceitamos de bom grado. No entanto, dependerá de como pretende o fazer. – divagou em clara dúvida. Sabia que estava soando pretensiosa com minhas ações, mas havia a possibilidade de ajudá-los, então porque não o fazer.

— Não muito longe daqui tem um haras, eles vivem precisando de mão de obra. Aqueles que aceitarem, posso tentar arrumar um trabalho lá, mesmo que a título temporário. Não é muito, infelizmente. Porém, acredito que já será de grande ajuda. – aquela hipótese surgiu quando vi a forma cuidadosa com que eles tratavam não apenas os seus, mas a terra que lhes proveria alimento e os poucos animais que havia à disposição. Fosse para consumo próprio ou não. Soava absurdo que eu oferecesse ajuda a estranhos, porém algo em mim, incitava que o fizesse.

— Oh, que Santa Sara abençoe seu caminho, não tenho como agradecer-lhe! – emocionada Siobhan tomou minhas mãos com as suas pela primeira vez depois de todo aquele tempo que passamos juntas. Foi quase impossível não sentir o choque frio quando nossas palmas se tocaram. Nossos olhos se cruzaram, e a vastidão castanha esverdeada dela me prendeu, completamente. A forma como a cigana me olhava era como se estivesse me invadindo a alma, vasculhando cada pedaço escondido que havia em mim. O abraço gelado que seus olhos me proporcionaram me assustou a ponto de querer sair correndo para longe dela, no entanto, me limitei a adiantar nossa despedida.

— Não tem porque o fazer, é o mínimo que posso oferecer em troca, por ter sido tão bem recebida. Vocês têm em mim uma amiga, se assim quiserem. – proferi meio trêmula, ainda me sentindo abalada. A mulher continuou segurando nossas mãos unidas assim como nossos olhos, sua feição antes suave tornou-se rígida e melancólica, completamente diferente de sua expressão doce e amável de momentos antes.

— Sei que teu coração não pertence a nada além de sua própria razão, mas intercederei pela sua existência à nossa santa. Tens a dualidade fervorosa menina, tome cuidado com os caminhos que se abrirão à sua frente. Akana mukav tut le Devlesa. – a voz agradável de Siobhan retumbou rouca e ancestral, inundando meu peito de pura apreensão quando nossas mãos enfim se soltaram. 

Trocamos poucas palavras depois disso, e o estranho momento foi se dissipando a cada pedaço de distância que o carro cobria indo para longe dali. No entanto, meu corpo insistia em reviver os calafrios causados pelo tom de aviso da velha cigana.

____________________________________

¹Estrangeira em romani, língua cigana.

²Menina bonita, em romani.

³Eu agora deixo-a com Deus, em romani.

Fim do capítulo


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