Capítulo 14

Nosotros

de La Maestra, por May Poetisa

Tamanho do texto
2.280 palavras1.501 leituras4 comentários

 

14.    Nosotros

 

Amaya passou o final de semana com a melhor amiga, dando todo o suporte que ela precisava, no domingo visitaram o Juninho no hospital, apesar de muito machucado, aos poucos ele começou a se recuperar.

Vanda adorou saber que a filha queria mudar de turno e compareceu na secretaria da escola para solicitar a alteração e foi bem tranquilo.

 

- Alô!

 

- Oi, tudo bem?

 

- Tudo sim e contigo?

 

- Também! Amanhã já volto a estudar pela manhã.

 

- Que bom, mais seguro, assim ficamos mais tranquilas. A parte chata é que não vou mais dar aula para a minha aluna favorita.

 

- Como assim? Não entendi.

 

- Não sou professora do último ano matutino.

 

- Poxa, você nem tinha me contado, gosto tanto das tuas aulas.

 

- Não contei para não interferir na tua mudança de turno, sua segurança em primeiro lugar e posso te auxiliar no que precisar. Além disso, prefiro assim, fico mais confortável e menos receosa, por conta da nossa relação e a ética profissional. Seria complicado se surgisse algum comentário, poderiam dizer que descumpro regras da escola e acho melhor evitarmos problemas. Confesso que é como tirar um fardo das minhas costas, ainda mais agora que estamos tão bem.

 

- Eu entendo, vou sentir falta das tuas aulas, mas, também acho que é melhor assim, você fica mais aliviada e podemos ficar juntas.

 

- Tomara que a semana passe logo, para que possamos ficar juntas.

 

Conversaram por  mais alguns minutos antes de adormecerem.

 

Vanda combinou o almoço para o sábado, pensou em chamar seus pais, mas, de última hora eles decidiram viajar para o interior naquele final de semana, para visitar algum parente que estava acamado. Amaya fez pudim e mousse para sobremesa. Coraline terminou a aula de canto, passou em uma loja para comprar algo, pois, não queria chegar de mãos vazias e estava muito ansiosa.

 

- Filha, você vai dormir em casa hoje?

 

- Acho que sim, não combinamos nada.

 

- Uma amiga me chamou para ir num forró.

 

- Vá sim, faz tempo que a senhora não sai.

 

- Nossa filha, não lembramos de chamar a sua amiga, para vir almoçar conosco, seria bom para ela também sair um pouco e espairecer né.

 

- Hoje ela já tem compromisso, é aniversário da madrinha dela.

 

- O cheiro está muito bom e a mesa toda arrumada, cadê a visita?

 

- Léo foi só você perguntar, ela acabou de mandar mensagem avisando que chegou, vou abrir o portão (foi toda feliz e saltitante).

 

- Mãe, nunca vi a Amaya tão alegrinha assim.

 

- O amor faz isso com as pessoas. Coloca uma camiseta e tira esse boné para almoçarmos. Lave as mãos também rapaz.

 

- Oi, estou um pouco nervosa. Trouxe o vinho certo?

 

- Fique tranquila! É esse que ela gosta sim.

 

- Para você (entregou uma sacola com chocolates).

 

- Muito obrigada! Entre e fique a vontade.

 

Coraline cumprimentou a dona da casa, que agradeceu pelo vinho e também deu chocolate para o mais novo. O almoço foi muito agradável.

 

- O que deu no seu irmão? Já esta lavando a louça e nem precisei pedir.

 

- Está querendo ganhar uns pontinhos com a senhora. Ele estava comentando de um jogo novo, deve ser isso. Vem, vamos para o quarto.

 

- Não precisa ficar envergonhada, pode ficar a vontade, você é muito bem-vinda, também vou para o meu quarto, deitar um pouco.

 

- Gostou do almoço?

 

- Adorei! Também temos que marcar um almoço com a minha avó.

 

- Você contou para ela sobre nós duas?

 

- Contei e ela quer te conhecer.

 

- Que legal, quem diria hein.

 

- Seu quarto é sempre assim? Tão organizado.

 

- Você também é toda organizada, temos isso em comum. Só que a minha cama é de solteiro, vamos ter que ficar agarradinhas.

 

- Quanto sacrifício (deu risada e a abraçou).

 

- Sinto falta das tuas aulas.

 

- É melhor assim meu bem e você pode acompanhar as aulas de canto.

 

- Antes tudo o que eu tinha era você exclusivamente como professora, é estranho não ser mais a sua aluna. Eu quis tanto você, quando você não me quis, tem hora que nem acredito que estamos juntas.

 

- Sinto muito por ter sido tão dura contigo, era muito complicado.

 

- E agora não é mais? Já que não é mais a minha professora, para você deixou de ser complicado? Sempre foi essa a grande questão?

 

- Diminuiu o medo, me sinto mais confortável, mas, você continua sendo menor de idade, nunca me imaginei numa relação como a nossa.

 

- Você já teve relacionamentos melhores?

 

- Ei, não foi isso que eu disse, você é maravilhosa e eu te amo!

 

Elas se beijaram e ficaram deitadas ouvindo músicas por longos minutos.

 

♡

 

- Alô!

 

- Amiga, tudo bem?

 

- Tudo sim e com você tudo certo?

 

- Estou bem. Novidades?

 

- Meu braço melhorou, não sinto mais dor nenhuma. Acho que vou ficar com cicatriz dos pontos, mas, tranquilo. O Juninho está se recuperando bem, só que toda semana precisa voltar ao hospital para fazer fisioterapia, estamos fazendo terapia e contando com apoio da família.

 

- Que bom amiga, aos poucos vocês estão superando o que sofreram.

 

- Am, comecei a estudar na nova escola, uma galera legal, que me recebeu super bem, a parte chata é voltar a estudar de manhã.

 

- É mais seguro, também voltei para manhã, não ligo de acordar cedo.

 

- Como foi o almoço com a Coraline e a tua família?

 

- Foi bem legal e ela disse que adorou.

 

- Preciso arrumar uma namorada para sairmos em casais.

 

- E desde quando você namora Aninha?

 

- Am, eu ando tão medrosa que só estou saindo de casa com os meus pais, então o jeito vai ser arranjar uma garota que não goste de sair e que fique em casa jogando vídeo game comigo, ou vou ficar para titia.

 

- Deixa de drama! Aposto que logo você se envolve com alguém da nova escola. Liguei para saber como você estava. Qualquer coisa me liga. Beijo!

 

♡

 

Coraline ficou aguardando em seu carro, mas, nada da Amaya, estranhou e mandou mensagem perguntando por ela, mas, não obteve resposta, ela nem mesmo visualizou, depois de vinte minutos esperando, decidiu procurar por ela. Sua sala estava vazia e logo a turma da tarde entraria, o pátio estava movimentado, porém, nada dela, na quadra alguns alunos estavam jogando bola. Tentou ligar, mas, só chamou. Lembrou que tinha deixado seu avental no armário e precisava levar para lavar, foi até a sala dos professores, cumprimentou alguns colegas, pegou o avental e quando estava deixando o local, viu Amaya saindo da diretoria toda cabisbaixa.

 

- Oi, estava te procurando.

 

- Desculpa me atrasei e não consegui te avisar.

 

- Sem problemas. Vamos sair pelo portão lateral, é mais rápido o acesso para o estacionamento, o portão principal deve estar muito movimentado.

 

Logo entraram no carro e Coraline percebendo que a mais nova estava chateada, antes de dirigir achou melhor conversar com ela.

 

- Amaya, o que foi? Algum problema?

 

- Depois conversamos (respondeu desanimada).

 

- Anjo, você estava chorando? Não quer me contar o que houve?

 

- Agora não, por favor, vamos embora.

 

O trajeto foi percorrido em silêncio, elas tinham combinado de passar o feriado juntas na casa da mais velha, que estava curiosa e preocupada.

 

- Estou com dor de cabeça (reclamou massageando as têmporas).

 

- Já estamos chegando, almoçamos, você toma um remédio e deita um pouco. Deixei lasanha pronta é só aquecer, está com fome?

 

- Um pouco e você?

 

- Também. Se você estiver muito chateada e preferir ir para sua casa, te levo a hora que quiser, o que achar melhor, quero você bem.

 

- Obrigada, vou ficar bem e quero ficar com você.

 

- Que bom, adoro a tua companhia. Chegamos.

 

Elas almoçaram assistindo ao que passava na TV.

 

- Quer o remédio para dor de cabeça?

 

- Quero sim, por favor, vou precisar de umas gotinhas.

 

- Vou pegar para você.

 

Ela tomou e deitou no sofá com a cabeça no colo da Coraline, que ficou fazendo cafuné nela e não perguntou mais nada, estava dando o tempo que ela precisava para ficar bem e para conseguir se abrir.

 

- Lembra do Tulio?

 

- Lembro, preguiçoso e inconveniente.

 

- O próprio, além de preconceituoso, ele foi suspenso, por isso, atrasei.

 

- Quer me contar o que houve?

 

- Ele disse que meu cabelo natural não é bonito, mas, que é melhor assim, do que com trança, falou que trançado parece sujo. Eu mal falo com ele, no final da aula se aproximou da minha mesa e falou essas bobagens. Na hora travei, fiquei calada e sem saber o que dizer. Ainda bem que a Mica estava ao meu lado, ela o chamou de estúpido e idiota, ele teve a coragem de dizer que estava me elogiando. A professora perguntou o que estava acontecendo, a Mica contou, o sinal tocou e ela nos levou para diretoria. Só entendi que tinha sido vítima de racismo, quando o diretor disse que o ocorrido era inadmissível e que a escola é antirracista.

 

- Meu amor, o que ele fez contigo foi injúria racial, suspensão é pouco, o correto é ele ser expulso, te disseram se os pais dele serão chamados?

 

- Ele só pode voltar depois de três dias acompanhado de um responsável.

 

- Minha linda, além de ter sido muito grave e ter te ofendido, é um crime.

 

- Você gosta do meu cabelo? (Perguntou chorosa).

 

- Claro que eu gosto, você é lindíssima! Nunca tenha dúvidas disso.

 

- Demorei para me acalmar, fiquei um tempo chorando na diretoria. Até pensei em pedir para te chamarem, só que como temos que ser discretas, fiquei com receio de te atrapalhar e que você não gostasse.

 

- Sinto muito por isso, saiba que estou ao seu lado e vou lutar pela expulsão dele, foi uma atitude criminosa e a lei tem quer ser respeitada.

 

- Estou brava comigo mesma por não ter reagido na hora.

 

- Não fique, você não esperava por algo tão baixo.

 

- Vou lavar meu rosto, já volto.

 

Coraline ficou revoltada, não tolera nenhuma tipo de discriminação e sabia que aquela situação tinha machucado Amaya. Lembrou que tinha maracujá na geladeira, resolveu preparar um suco, precisava se acalmar.

 

- Mandei mensagem para a minha mãe e ela disse que já está indo para casa. Quero conversar com ela.

 

- Eu te levo. O que eu puder fazer por você é só me dizer.

 

- Obrigada!

 

Vanda ficou em silêncio ouvindo a filha narrar o ocorrido, infelizmente durante a sua vida já enfrentou vários episódios discriminatórios por causa da cor da sua pele e não era a primeira vez que a filha reclamava de algum comentário maldoso. Ela acolheu a filha em seus braços, respirou fundo e engoliu o choro, tinha que ser forte por ela.

 

- Filha, você tem ótimas amigas, lembra quando a Ana quase bateu numa menina que foi grossa com você numa excursão, infelizmente existem muitas pessoas preconceituosas, ainda bem que você tem ao seu lado a tua família que te ama, a Mica que quando você travou te defendeu, agora a Coraline que também está te apoiando, acredito que a postura da direção da escola foi correta e nós podemos abrir um boletim de ocorrência, é importante não nos calarmos.

 

As três compareceram na delegacia mais próxima e foram aconselhadas a apresentar a queixa para a equipe escolar, visando que fossem tomadas medidas educacionais categóricas e elas seguiram a orientação.

 

- Vanda, a Amaya é uma aluna exemplar e muito querida por todos os professores. Nós repudiamos qualquer tipo de hostilização, com frequência realizamos palestras e orientações sobre diversidade de opinião, raça e gênero.

 

- Vocês não podem pegar leve, passar a mão na cabeça, já que foi crime.

 

- Não iremos apaziguar, foi gravíssimo, vários professores já reclamaram deste mesmo aluno por falta de comprometimento e briga com colegas, já levou várias advertências e ele veio transferido de outra escola por mal comportamento.

 

- No meu ponto de vista ele deve ser expulso (disse Coraline que ainda não tinha se manifestado e continuava muito revoltada).

 

- Diretor, eu concordo com a professora, suspensão é uma medida leve. Os pais do Tulio já foram chamados diversas vezes para reuniões e ele não apresentou melhora, até as notas dele estão baixas (comentou a coordenadora que adora Amaya e sempre faz encomendas com ela).

 

- Compreendo, sendo assim, vamos avaliar a expulsão.

 

Amaya, Coraline e Vanda deixaram a escola já no começo da noite.

 

- Mamãe vou voltar para casa da Coraline, como tínhamos combinado.

 

- Aproveitem o feriado e qualquer coisa me liga (se despediu e entrou).

 

- Já fizemos tudo que estava ao nosso alcance. Agora só quero saber de nós, da nossa paz. Amanhã vamos fazer bolo de chocolate juntas.

 

 

 

Fim do capítulo

Publicidade
Conversa

Comentários

4
M

Mille

08/04/2023 às 03:49

Oi May

O mundo ainda é muito ignorante. 

Força Amaya e com o carinho da Caroline vai enfrentar de cabeça erguida.

Bjus

Foto de May Poetisa

May Poetisa 11/04/2023 às 03:56

Oi Mille, infelizmente é mesmo. Elas são ótimas juntas né adoro! Beijos
H

HelOliveira

06/04/2023 às 08:08

Fiquei feliz com sua volta...fiquei com peninha da Amaya ninguém merece esses ataques....ainda vem que teve todo apoio...

Tá muito fofo essas duas juntas....

Bom feriado e feliz páscoa 

Foto de May Poetisa

May Poetisa 11/04/2023 às 03:58

Hel, que bom que a minha volta te deixou feliz =D
Pior que ataques assim são tão comuns né
Concordo contigo elas são super fofas. Beijos!
Foto de Marta Andrade dos Santos

Marta Andrade dos Santos

06/04/2023 às 06:56

Complicado! As pessoas ainda ficam nessa de fazer comentários ridículos sobre as outras.

Foto de May Poetisa

May Poetisa 11/04/2023 às 03:59

É uma chatice e muita falta de respeito, totalmente desnecessário. Beijocas!
Foto de Lea

Lea

06/04/2023 às 06:19

Fiquei pensando: "nossa,a May desistiu da estória" .

Até pensei em perguntar se estava tudo bem. Mas como sei que vocês escritoras tem suas vidas pessoais para administrar e muitas das vezes tem os bloqueios na hora da escrita,resolvi aguardar pela sua volta,sem fazer cobranças!

Voltando a estória. 

Coraline está cada dia se aproximando mais da família da Amaya. Ter o apoio da família é de,transbordar o coração.

Até quando vamos ter que sofrer,tanto por causa da  nossa cor de pele,nossa orientação sexual,por ser mulher e pela nossa condição social?!?!

 

#lutoporblumenau

Foto de May Poetisa

May Poetisa 11/04/2023 às 04:02

Lea, nem desisti não e pode mandar mensagem quando quiser viu, eu respondo =)
Tanto preconceito desnecessário né haja paciência, é luta. Nossa você citou sobre Blumenau e nós últimos dias li notícias de vários ataques, fico inconformada, tão triste, é tanta maldade. Beijos e abraços, May.
Informar violação das regras