Capitulo 6 - Sociedade que me faz beber
Para consertar a situação imposta pela versão bêbada de Ingrid, Fernanda começou a colocar o plano, agora adaptado, em ação. Na quinta-feira à noite da semana seguinte, já arrumada, Fernanda chamou Lorena na cozinha para uma conversa, sendo que esta chegou com algumas folhas de papel.
- Fer, pode me emprestar seu celular? Ele tem uma ótima câmera. Eu quero tirar foto dos exames que a obstetra me mandou fazer, vou mandar para o meu primo que é técnico em enfermagem, para ele me explicar certinho.
- Empresto sim, mas antes tenho que conversar contigo um negócio.
- O que houve?
- Bem, eu venho falando com um garoto pela internet há algum tempo, e como você sabe, sou celibatária e expliquei isso para ele. Tenho extrema confiança nele e acredito que ele possa ser o escolhido. – Fernanda tentou soar natural, apesar de ter repassado o texto diversas vezes para si.
- Uau! Isso é maravilhoso, Fer! Fico tão feliz de você ter confiado em mim para contar isso! – Lorena deixou os papeis na mesa e abraçou a amiga. – Então é por isso que a senhorita está toda arrumada antes das sete da noite?
- Sim... ele vem me buscar para um encontro.
- Então vou ter a oportunidade de conhecê-lo?
- Vai. Mas por favor, nada de contar anedotas da minha infância.
- Pode deixar...
Não muitos minutos depois, o interfone tocou e Fernanda pediu para o rapaz subir. O garoto, aproximadamente da mesma idade de Ingrid, era um estudante de teatro que fora contratado pelo casal para fazer o papel de Edgar, um jovem belo, recatado e do lar à procura de seu grande amor.
- Maria Fernanda! Que prazer em lhe conhecer pessoalmente. – Humildemente, Edgar beijou a mão de sua falsa pretendente.
- Ele chegou? – Gritou Lorena da cozinha.
- Chegou sim. Por favor, Edgar, entre.
- Esta deve ser sua amiga Lorena, certo? – Edgar havia estudado bem o seu papel.
- É ela sim.
- Nossa, como ele é bonito! – Lorena o analisou por inteiro. – Aí sim hein! E olha só, traz minha amiga cedo!
- Ela está em boas mãos, não se preocupe.
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Já no carro, a caminho da casa de Ingrid, onde Edgar deixaria a pretendente de mentirinha e buscaria algumas horas depois, o rapaz ficou mais curioso a respeito de toda a situação.
- Acho que já perguntei isso, mas não ficou muito claro. Por quanto tempo vamos “namorar”? Vocês me contrataram, no papel, para três encontros iniciais, não sei se isso vai ser algo recorrente. Já tem planejado alguma espécie de término?
- Queremos ver como ela vai responder primeiro, e a partir daí podemos lhe contratar para jantares em grupo com as nossas amigas e etc.
- E tudo isso para que ela não descubra e conte para sua família?
- Sim e não... digo, não sei.
- Você tem vergonha de quem você é?
- Não! Lógico que não. Por que pergunta isso?
- Parece que tem vergonha de revelar seu verdadeiro eu para ela.
- Você faz psicologia agora para me analisar?
- Temos um pouco de psicologia dentro do teatro.
- Olha, ela me conhece desde criança. É difícil falar dessas coisas com alguém que conhecia uma versão sua completamente diferente.
- Relaxa, não estou julgando. Na verdade, isso é lucrativo para mim, quanto mais encontros de mentirinha, mais dinheiro eu ganho.
- O prédio da Ingrid fica na próxima rua. Você me busca em três horas?
- Busco sim. Posso fazer uma última pergunta?
- Faça.
- Quando nós “terminarmos”, posso chamar sua amiga Lorena para sair?
- Espera, você não é...?
- Gay? Não. Nunca se deixe levar por estereótipos acadêmicos, Fernanda...
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As horas muito bem aproveitadas se passaram de modo que Fernanda simplesmente esqueceu a passagem do tempo. A advogada e sua namorada, ambas nuas, cobertas apenas por um lençol, assistiam à televisão no quarto após estrearem a nova cama diversas vezes.
- Edgar mandou mensagem. Está na hora de encerrar o encontro de mentirinha com ele. – Fernanda torceu o lábio ao olhar o celular.
- Ele não pode atrasar mais meia horinha não? Está tão gostoso ficar deitadinha aqui com você...
- No contrato que fizemos deixamos bem claro que seria no período de três horas, amor... e na mensagem diz que ele já está chegando.
- Tudo seria resolvido se você simplesmente falasse a verdade, Fernanda.
- Não me estressa agora, Ingrid. – Fernanda puxou o lençol para si e o enrolou em volta do corpo até encontrar suas roupas. – Eu já falei várias e várias vezes o motivo! Cansa ficar repetindo.
- Calma! Não queria lhe irritar. Não quero que você vá embora em clima de briga, perdão.
- É sério, Ingrid, eu já estou cansada de você me cobrar isso! A gente acabou de trans*r, e você já fica falando na Lorena!
- Está bem, Fernanda, está bem. Não toco mais no assunto.
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Ao retornar para casa, Fernanda havia sido claramente afetada pela última cobrança de sua namorada. Não que das vezes anteriores lhe incomodasse, mas esta particularmente, justo quando o plano estava em andamento, deixou-lhe irritada, como se nada que fizesse pudesse consertar a situação de se manter escondida.
- Que cara fechada é essa? – Lorena já conhecia bem as expressões da amiga.
- Nada, Lorena.
- Não parece nada. Edgar lhe fez algum mal?
- Não, não tem nada a ver com ele.
- Então o que foi?
- Nada, Lorena, eu briguei com a Ingrid, só isso, coisa boba. Foi... foi uma briga por mensagem, não tem importância, relaxa.
- Se não tivesse importância você não estaria transtornada dessa forma. O que houve?
- Eu não quero falar sobre isso agora, Lorena, por favor.
Fernanda então foi ao seu quarto e por lá ficou algumas horas, mexendo em seu notebook até adormecer. Só acordou quando ouviu algumas batidas na porta.
- Fer? Posso entrar? – Lorena, mesmo antes da permissão, girou a maçaneta e abriu a porta.
- Hã? Oi? Que horas são? – Fernanda lentamente abriu os olhos.
- Já é quase uma da manhã, acabei de retornar do meu turno extra. Eu ia me despedir mais cedo, mas como vi que você estava em um sono profundo, deixei você descansando. Está melhor?
- Melhor de quê?
- Está menos irritada?
- Ah.. estou sim, estou sim. Desculpa se fui grossa contigo. Só não estava em um bom momento.
- Entendo. Peço desculpas por ter me intrometido. Você quer jantar? Trouxe umas sobras do restaurante.
- Obrigada. Acho que vou querer sim, estou morrendo de fome. – Fernanda se levantou foi acompanhada por Lorena até a cozinha.
- Preciso lhe contar algo que aconteceu no trabalho hoje. Pedro me chamou para sair.
- Isso é bom, não é?
- Não sei, ele nem sabe que estou grávida. Logo minha barriga vai começar a aparecer.
- Não era você que falava que não queria nada com ele? – Fernanda questionou, enquanto tirava dois copos do armário para servir o suco de abacaxi que estava na geladeira.
- Sim... mas os hormônios da gravidez estão me deixando...
- Com tesão?
- Não, sua boba! Veja só você falando essas coisas! – Lorena riu, enquanto abria as embalagens de marmitex com as sobras do turno do restaurante. – Esses hormônios estão me deixando carente, no sentido de necessitar de carinho, de um abraço, de dormir abraçada. Sexo acredito que talvez seja uma consequência disso.
- Mas você sabe que provavelmente ele pensa o contrário né?
- Pare com esses estereótipos, Fer. Nem todo homem é assim. Veja o Edgar, por exemplo. Ele é super compreensível com você, não é?
- Sim... vamos comer antes que esfrie. – Fernanda rapidamente cortou o assunto.
- Ele é compreensível mesmo, né, dona Fernanda? – Lorena questionou novamente, preocupando-se.
- Sim, dona Lorena. – Fernanda respondeu pausadamente, olhando nos olhos da amiga.
- E quando vai ser o próximo encontro?
- Semana que vem, talvez.
- Estava pensando sobre sua discussão com Ingrid, não sei o que houve, mas pode ter a ver com a briga que ela teve com o menino que ela estava se relacionando.
- Como assim? – Fernanda perguntou, confusa.
- Na festa ela disse que estava chateada com um garoto que ela estava ficando, namorando, sei lá. Disse que ele saiu com a ex. Ela disse que confiava, sabia que eram só amigos, mas estava perturbada com aquilo.
- Ela disse isso para você?
- Estávamos em grupo quando ela desabafou. Mari e Sophia pareciam estar mais por dentro da situação. Talvez o fato de você não estar lá consolando pode ter influenciado nessa briga de hoje.
- Ela não me falou nada disso... – Fernanda coçou a têmpora e desviou o olhar.
- Talvez ela sinta falta da melhor amiga dela, Fer.
- Não sabia que ela tinha ficado mal por... por esse carinha com quem ela estava ficando.
- Ela ficou bem mal. Eu via a tristeza no olhar dela enquanto ela bebia. Era uma chateação de quem estava realmente apaixonada e decepcionada ao mesmo tempo. Homens sendo homens. Ruim com eles, pior sem eles.
- Nossa, isso explica tanta coisa...
- Explica o quê?
- Ah, é que quando conversei, ela não me contou isso, digo, ela estava meio estranha, só isso. Não sabia que ela estava chateada.
- Não conheci esse ficante dela, mas se for para ela ficar sofrendo assim, eu procuraria rever meu relacionamento. Você o conheceu?
- Sim, digo, não, aliás, só vi uma vez. Não conheço muito bem.
- Vocês se dizem melhores amigas e você nem se deu ao trabalho de investigar o rapaz? Era seu dever, Fernanda!
- Vamos parar fofocar sobre a vida alheia, Lorena, termina aí de jantar.
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A sexta-feira despontou-se, e logo pela manhã, pouco antes de Lorena ir para o trabalho, o interfone tocou. Era Edgar, alegando que Fernanda havia esquecido algo no encontro do dia anterior. Lorena atendeu e pediu para que subisse.
- Fernanda está no banho agora, ela disse que não esqueceu nada. – Avisou Lorena, enquanto deixava o rapaz entrar.
- Na verdade, era só para trazer isso para vocês. – Edgar mostrou uma bandeja com três copos de café e uma pequena caixa de isopor com pães doces.
- Nossa, que cavalheiro!
- Posso levar vocês duas ao trabalho também, se quiserem.
- Edgar? – Fernanda saiu do banho com uma toalha em volta de sua cabeça. – O que faz aqui?
- Fer, eu avisei você que ele estava subindo!
- Sim mas eu disse que eu não tinha esquecido nada, achei que já tivesse ido embora.
- Desculpe, eu não queria incomodar... – Edgar respondeu, sem graça.
- Fernanda, não seja grossa! Edgar nos trouxe café da manhã e se propôs a nos levar para o trabalho!
- Gentil de sua parte... – Fernanda respondeu, enquanto reparava a maneira que Edgar olhava para Lorena. – Edgar, posso falar com você rapidinho no meu quarto?
- Vou aproveitar para curtir o café da manhã, não façam nada indecente, hein! – Lorena comentou enquanto a amiga fechava a porta com Edgar dentro do cômodo.
- O que raios é isso? – Sussurrou Fernanda. – O que você está fazendo aqui?!
- Você me disse para agir como namorado, é o que estou fazendo!
- Aquele foi nosso primeiro “encontro”! – Fernanda então reabriu a porta sutilmente para ver se Lorena não estava ouvindo, e logo em seguida fechou. – Se você forçar demais, ela pode desconfiar!
- Desconfiar de quê? De que eu sou um rapaz com boas intenções? Eu sei o que estou fazendo, sei entrar no personagem.
- E você vai cobrar pelo dia de hoje? Esse imprevisto não estava no contrato que Ingrid e eu fizemos contigo.
- Lógico que não vou cobrar, eu não sou um mercenário. Eu me ofereci para levar vocês duas ao trabalho, só isso.
- Acho que já saquei. – Fernanda riu e cruzou os braços. – Você está querendo impressionar a Lorena.
- Não! Acabei de conhecer a garota. Estou apenas treinando para esse papel que vocês me deram. Caso não saiba, é meu primeiro emprego como ator. – Edgar respondeu, extremamente desconfortável.
- Pessoal, vocês estão prontos? – Lorena gritou do corredor. – Não estão se beijando aí no quarto, né? Se estiverem, podem me avisar, eu aguardo... mas não façam mais que isso, hein!
- Não! – Fernanda e Edgar gritaram, simultaneamente, quase que como em uma resposta de reflexo ou desespero.
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Um pouco sem jeito, Fernanda sentou no banco da frente do carro de Edgar. No carro, tocava algum pagode genérico.
- Pode desligar o som por favor? – Pediu Fernanda.
- Por quê? – Interrompeu Lorena. – Essa música é legal.
- Não tem problema, eu desligo. – Respondeu Edgar.
- Pode deixar a gente aqui, nessa próxima esquina, aí a gente pega o metrô. Se você continuar nessa avenida, vamos pegar trânsito e nos atrasar, fica mais rápido de metrô.
- Eu posso levar vocês até a porta do trabalho, a avenida adjacente está com menos congestionamento.
- Não precisa, é só deixar a gente no metrô... – Fernanda insistiu.
- Deixa o menino ficar mais uns minutos com você, Fer! – Lorena chamou a atenção da amiga.
- Certo... – Fernanda suspirou.
- Já me acostumei com a teimosia dela, Lorena. – Edgar riu. – Por acaso vocês têm planos para hoje à noite?
- Vou fazer hora extra lá no restaurante, preciso guardar dinheiro para o meu bebê que vai nascer daqui uns meses.
- Você está grávida? – Perguntou Edgar.
- Estou sim. Não dá para perceber, estou no comecinho do primeiro trimestre ainda. Foi por isso que vim para São Paulo.
- Entendi. E o pai da criança vem para cá também?
- Não. Nós não estamos juntos.
- Certo. Minha irmã deu à luz no final do ano passado. O bebê está enorme. Ela está doando tudo que é de recém-nascido, pois não cabe mais. Várias roupas de cores neutras, então não importa o sex* do seu bebê. Se quiser posso falar com ela.
- Você faria isso mesmo?! – Os olhos de Lorena brilharam. – Que rapaz perfeito, Fernanda! E sobre hoje à noite, por que você não vai lá no restaurante? Você e a Fer podem ir lá, você já conhece a Mari?
- Já ouvi falar dela. – Através do estudo do personagem, Edgar já estava por dentro. – É a amiga da Fernanda que é dona do restaurante, certo?
- Ela mesma! E Fernanda, aproveita e chama a Ingrid também! Se ela já tiver acertado com o rapaz que ela fica, chama ele também! Prometo que peço para um dos chefs fazer um jantar especial para vocês!
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Fernanda chegou então no escritório com um mau humor indescritível. Foi direto para sua sala, sem ao menos passar para cumprimentar a namorada. Mal olhou para Thomás, que não se incomodou com o silêncio, até porque não escutaria nem se Fernanda estivesse com uma britadeira, devido ao novo par de fones de ouvido com redução eficiente de som externo. Meia hora se passou, tempo suficiente para Fernanda arrumar seu espaço de trabalho e iniciar uma petição no editor de texto de seu computador, quando então apareceu Ingrid sem bater.
- Eu achei que você não tivesse chegado! Fiquei ligando para você à toa, preocupada.
- Desculpa, é que eu não queria lhe infectar com meu mau humor. Edgar apareceu em casa para me dar carona, aliás, para dar carona para nós, Lorena e eu.
- Como assim? Isso não estava no contrato! Ele cobrou por isso?
- Não, e ainda levou café da manhã. Ele está a fim da Lorena.
- Você acha que isso pode estragar a história?
- Não sei, ele parece bem engajado. Talvez podemos levar por um tempo e forjar um término. Ah, Lorena quer um encontro duplo entre mim, Edgar, você e seu tal ficante.
- Que ficante?!
- O tal que você estava chateada por ter saído com a ex.
- Não acredito que ela lhe contou isso...
- Ela só me contou para me dar bronca, dizer que não estou sendo uma boa ‘amiga’ para você nessa questão. Eu não sabia que você estava chateada com isso. Por que não me falou?
- Não queria ser a namorada ciumenta.
- Mas nem tem motivo para ciúme, você sabe disso. E o que vamos fazer sobre a situação de hoje à noite?
- Não tem o que fazer, eu simplesmente não vou, ué.
- Não quero sair sem você. Não tem graça ir ao restaurante da Mari sem sua presença.
- Mesmo que eu fosse, não iríamos como um casal. Corre o risco da Lorena fazer um monte de perguntas e cairmos em contradição. Mas se quiser, podemos passar a tarde juntas, Dr. Raul me passou a lista de quem vai fazer parte de um processo envolvendo uma empresa de marketing, e você vai fazer parte da minha equipe. A dona da empresa me chamou para almoçar hoje, você pode ir junto e me ajudar a tomar notas sobre o caso, o que acha?
- Que lista? Não recebi e-mail nenh- ah. – Fernanda atualizou a caixa de entrada. – Já recebi tantos e-mails do Dr. Raul que tenho coisas a fazer pelas próximas duas semanas ininterruptamente. Sobre o que é esse processo?
- Sobre o governo estadual estar processando a empresa de marketing por causa de uma campanha LGBTQia+. A dona da empresa pediu para nos chamar, o almoço é por conta dela.
- Almoço grátis em uma sexta-feira à tarde? Estou dentro.
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No horário marcado, Ingrid levou a namorada para o endereço indicado, onde uma empresária a aguardava em sua casa no bairro Jardins. Enquanto dirigia, Ingrid aproveitou para inteirar Fernanda sobre o caso:
- Eleanor é sócia-majoritária dessa empresa de marketing e publicidade. Logo quando o senado colocou em pauta aquela lei que poderia proibir propagandas de cunho “ideológico” LGBTQIA+, o que claramente é inconstitucional, ela e Emma compraram um horário nobre em uma rede televisiva e soltaram uma propaganda contra, exigindo que os eleitores cobrassem seus políticos a lutarem contra isso.
- E quem é Emma? – Fernanda perguntou.
- A esposa, digo, ex esposa de Eleanor. Ela é sócia da empresa. O divórcio foi recente e amigável, inclusive quem fez a divisão dos bens fui eu. Não foi um caso difícil, a maioria das questões já havia sido resolvida extrajudicialmente. E sobre a propaganda, você se recorda? Ela viralizou também na internet.
- Acho que me lembro sim. Aquela que mostrava diversas famílias homoparentais, todas felizes e que no final mostrava uma família tradicional cujo pai traía a mãe, com um ator bem parecido com um político conservador bem conhecido, mostrando quem realmente destrói a família brasileira.
- Essa mesma.
- Pois bem, gastaram mais de meio milhão naquele minuto de propaganda. Foi um sucesso, receberam elogios inclusive de entidades internacionais. Alguns grupos conservadores se irritaram com o conteúdo e invocaram a Lei de Segurança Nacional. Como a assinatura final do contrato da propaganda foi da ex esposa, o maior risco está com Emma.
- E por que estamos nos encontrando com Eleanor ao invés de Emma?
- É isso que queremos saber.
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Ao chegarem, depararam-se com uma mulher simpática, com pouco mais de quarenta anos, extremamente elegante.
- Ingrid, querida! Chegou bem a tempo. – A empresária a cumprimentou com um sorriso no rosto. – E você, quem seria?
- Ela é a advogada assistente, Eleanor. O Dr. Raul a colocou na equipe que estou dirigindo para o seu caso. É novata na empresa, acabou de se formar na faculdade.
- Eu me chamo Fernanda. Prazer em lhe conhecer, dona Eleanor.
- Não me chame de dona, querida! Faz-me parecer velha! – Eleanor riu. – Venha, sentem-se, vão servir o almoço agora.
As jovens advogadas foram agraciadas com um generoso banquete.
- Eleanor, sei que temos que tratar sobre o processo. Mas como sua advogada, sou obrigada a perguntar: Emma está bem? Está em segurança?
- Ela me diz que está em segurança sim. Como sabem, foi dada voz de prisão a ela, que resolveu se refugiar longe daqui até resolvermos isso.
- Entendo, e onde ela está agora? – Fernanda questionou.
- Nem eu sei. Ela está tão paranoica que não me fala nada. Mas prezo pela vida dela. Apesar de estarmos separadas, tenho um carinho muito grande por ela e fui eu que insisti para fazermos a propaganda.
- Não seria melhor fazê-la voltar? – Fernanda continuou a perguntar. – A fiança seria paga e ela seria prontamente liberada.
- Tentei propor isso a ela. Mas ela surtou, não queria ir para a cadeia nem por um segundo, pensou que isso traria repercussões negativas para a empresa e não queria dar esse gosto para os grupos conservadores por trás disso.
- Tem algum meio de comunicação para que possamos falar com ela? – Perguntou Ingrid.
- Ela está usando celulares pré-pagos. Passa-me pouquíssimas informações.
- Veja bem, Eleanor. Precisamos conversar com ela. Poderíamos negociar o retorno dela. Enquanto ela estiver foragida, não há muito o que fazer. Pelo que já li do boletim de ocorrência e da petição inicial da outra parte, foi algo mais direcionado a ela do que a empresa em si. Não sei se isso partiu de grupos que a conheciam bem, mas o ataque pareceu bem pessoal. – Ingrid explicou.
- Uma das organizações que tomou a frente disso pertence a um primo dela que tenta nos destruir há anos. Outras organizações estão meio perdidas nas acusações. Algumas nos acusam de não termos moral por estarmos divorciadas e tentarmos falar sobre família tradicional, outras nem consideravam nossa união como um casamento.
- O que podemos fazer de início, enquanto ela não retorna, é colher depoimentos de testemunhas para atestarem a respeito da boa conduta dela como cidadã, por exemplo. – Fernanda sugeriu. – A boa relação com a ex-cônjuge já é um ponto positivo.
- Se possível também, colher depoimentos dos donos daquelas ONGs LGBT que vocês auxiliam, mostrar como a propaganda teve um impacto positivo. – Ingrid adicionou.
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O almoço se prolongou por mais um tempo, até ficar acertado que Eleanor tentaria entrar em contato com a ex esposa. Perto das nove da noite, Edgar buscou Fernanda para o suposto encontro no restaurante de Mari. Lorena preparou um prato bem especial para o “casal”, algo que havia aprendido em um dos primeiros dias de trabalho.
- Eu preparei esse frango com champignon exclusivamente para vocês dois, com muito carinho, e pode colocar na minha conta, viu? – Lorena fez questão de servir o par.
- Não precisa, Lorena, é dever do cavalheiro pagar. – Edgar intervém.
- Nossa, Fernanda, isso sim que é homem! – Lorena não podia conter a felicidade pela amiga.
- Já que ele vai pagar, por favor, traga-me uma lata de cerveja para acompanhar. – Fernanda pediu, sentindo que precisaria de muito mais para aguentar aquela noite.
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Após a sobremesa e vários coquetéis, Edgar deixou Fernanda e Lorena em casa.
- Não acha que você bebeu um pouco além da conta, não? – Lorena perguntou, preocupada.
- Bebi, sim. – Fernanda admitiu. – Essa sociedade é uma droga. É por isso que eu bebo.
- Por quê?
- Uma de nossas clientes está foragida porque foi enquadrada na Lei de Segurança Nacional. Não posso dar detalhes por causa de confidencialidade.
- É a lei que o governo estadual anda utilizando para qualquer opositor?
- Exatamente.
- Esses políticos conservadores extremistas são uma droga.
- Você está falando sério?
- Estou sim, por quê? Achou que eu fosse a favor desses desmandos?
- Não, é que... devido a cidade e famílias que viemos...
- Eu tenho mente própria e pensamentos próprios. Sou capaz de formar minha própria opinião.
- E como você faz para não se deixar abater pelas pequenas situações do dia-a-dia que nos influenciam?
- Tento fazer o meu melhor e esperar por dias melhores. Não há mal que sempre dure. O fascismo não será eterno.
- Espera... você nunca, em momento algum, apoiou essa ala extremista
- Não, Fernanda. Eu só não ficava postando minhas opiniões na Internet, mas sempre votei no mesmo candidato que você apoia publicamente.
- Uau. E seus pais sabem da sua visão política?
- Acho que sabem por cima, mas para falar a verdade nunca discutimos isso. Eles não aceitam a oposição, assim como os seus, então apenas não tocamos no assunto. Aos poucos aprendi que há coisas que não conversamos com nossos pais e está tudo bem.
- Eu devo estar extremamente bêbada para ouvir essas palavras vindo da sua boca. – Fernanda ri, completamente incrédula.
- Como assim?
- Porque eu jurava que você fosse igual aos nossos pais!
- Quantas vezes tenho que repetir que tive que sair da casa deles justamente por pensar diferente deles e engravidar sem casar?! Pelo meu entendimento, até você é mais parecida com nossos pais do que eu.
- Por que diz isso?
- Porque você, por exemplo, quer esperar o casamento para se entregar.
- Lógico que não! Eu...
Fernanda respirou fundo. Um breve segundo de coragem lhe sobreveio, como se estivesse prestes a revelar tudo. No entanto, um lapso de sobriedade e cisma momentânea barrou o momento catártico.
- Você o quê? – Lorena questionou, enquanto Fernanda coçava o olho pensando em como consertar a frase. – É mentira isso então?
- É. É tudo mentira. Eu não esperei o casamento. É isso. Eu já me entreguei antes.
- Foi com o Edgar?
- Não. Foi com outra pessoa. Muito tempo atrás, quando eu ainda estava no primeiro ano de faculdade.
- E foi bom? Você gostou?
- Foi sim. Foi maravilhoso. – Fernanda suspirou e se jogou no sofá, relembrando-se de Jennifer. – Foi minha primeira paixão intensa, o desejo ardia, parecia que doía toda vez que tinha que ir embora. Mas tínhamos planos diferentes, essa pessoa tinha que seguir a carreira dos sonhos, e eu fiquei aqui plantada.
- E você ainda está apaixonada por ele?
- Ele quem?
- Por esse rapaz que você perdeu a virgindade.
- Ah... pelo rapaz.... – Fernanda coçou a cabeça. – Não sei, digo, eu ainda penso naqueles momentos que tivemos? Penso. Acontece que esse rapaz... não faria bem para minha vida agora, até porque estou compromissada no momento.
- Você e Edgar já se consideram namorando? Isso é tão fofinho! E vocês dois já...?
- Quem? Edgar e eu? Não! Lógico que não! Digo, é que com ele eu quero esperar. É isto.
- Entendo. Então nunca foi questão de princípio celibatário, você somente quer ir devagar com ele para ver onde vai dar.
- Vamos parar de falar sobre isso? As cervejas e os coquetéis me deram sono, se duvidar durmo aqui mesmo no sofá.
Não tardou muito tempo, e Fernanda, esquecendo-se completamente que tinha um quarto e uma cama, tirou seus sapatos e adormeceu ali mesmo por cerca de dez minutos, quando seu celular tocou.
- Alô? Ingrid?
- Oi, amor. Eleanor acabou de me ligar. Emma está em uma fazenda no interior, a polícia achou o paradeiro dela, mas por algum milagre, e por milagre, diga-se pressão da imprensa, a deixaram ficar por lá até o amanhecer. Eleanor quer que a gente a encontre com o Dr. Raul no aeroporto, estamos indo para lá. A imprensa ficou sabendo, parece que ela vai se entregar e quer os advogados por perto.
- Espera, agora à noite? Em pleno fim de semana?
- Ela vai para a delegacia de manhã, mas temos que ir para chegar o mais cedo possível e orientá-la.
- Eu... eu bebi bastante, Ingrid.
- Pois tome um café, um banho, e em uma hora estou indo aí lhe buscar.
Fim do capítulo
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