Capitulo 47
ELISA
Mamãe examinou Becca. As duas ficaram cerca de duas horas trancadas em meu quarto, só então Dona Marta deixou Becca sozinha para descansar. Com o retorno de Becca, tia Drica já havia voltado para sua casa e para seus problemas fúteis. Meus pais nunca gostaram da desatenção dela com a filha. Mas tia Drica sempre ignorava qualquer advertência, fazia ouvidos de mercador. Infelizmente, algumas pessoas não nasceram para serem mães. Eram apenas progenitores. Por isso, havia tantas crianças com pais vivos abandonadas por aí.
Na sala, eu e papai esperávamos impacientemente.
-- Então, como ela está? -- Perguntei assim que mamãe apareceu.
-- Dei um remédio para ela dormir, a menina estava muito nervosa.
-- Ela vai ficar bem? -- Perguntou papai, preocupado.
-- Não se preocupe, querido. Ela ficará bem. O problema de Rebecca já sabemos qual é.
Papai fechou a cara, irritado.
-- Drica não tem jeito. Nunca soube cuidar da menina, se não fosse por nós...
-- Calma, querido. Não fique assim. -- Pediu mamãe.
-- Se eles tivessem nos passado a guarda da criança quando pedimos...
Raramente eu via meu pai tão frustrado. Ele sempre gostara muito de Becca, para ele nós duas éramos suas menininhas.
-- Roger, não fique assim, querido. Fizemos o que podíamos por Rebecca e há muito ainda que podemos fazer.
Papai respirou fundo.
-- Vocês conversaram, mamãe? -- Perguntei, me dirigindo a ela.
-- Conversamos sobre muitas coisas. No entanto, Rebecca pediu sigilo, do tipo médico-paciente. Não posso contar detalhes, mas vou ajudá-la em tudo o que eu puder.
-- Que bom, mamãe. Fico mais tranquila com você cuidando dela.
Mamãe sorriu e me abraçou, papai se juntou a nós num abraço coletivo. Mas, logo após o momento de carinho, vieram as broncas:
-- Agora, mocinha, não pense que vai fugir do castigo. -- Alertou papai. -- Não gostamos nada de você ter saído ontem à noite e, ainda por cima, naquela chuva onde estava com a cabeça?
-- Nós ficamos preocupados -- Mamãe fez coro.
Fiz cara de culpada.
-- Sua mãe me contou onde você estava. -- Revelou papai.
-- Sério? -- Perguntei, com receio.
-- Ela me disse que você está de namoricos por aí -- Disse ele, contrariado -- Olha, também já fui jovem, embora nunca inconsequente. Mas, entendo essa fase pela qual está passando. Você é como eu, muito racional e organizada, mas quando se trata de amor sou capaz de qualquer loucura pela sua mãe.
Mamãe sorriu, feliz.
-- Então -- Continuou meu pai, enquanto eu ouvia calada -- Vamos proibir você de dormir fora, pelo menos por essa noite.
Sorri, aliviada. Esperava um castigo pior, mas eu tinha a minha “ficha limpa”, sem antecedentes criminais de desobediência aos pais.
-- Ficamos muito felizes de você ter conseguido trazer Rebecca de volta -- Contou mamãe -- Eu sabia que se tinha alguém que poderia fazer isso, esse alguém era você Elisabete.
-- Não foi bem assim. Tive a ajuda de Gabriela. Não teria conseguido sem ela.
-- Fiquei intrigada quando vi a menina aqui -- Falou mamãe -- Vocês não tinham brigado?
-- Sim, mas acho que agora está tudo bem.
-- Que boa notícia! -- Comemorou mamãe.
-- É, o mundo dá voltas.
-- Do que vocês estão falando? -- Quis saber papai.
-- Intriga de adolescentes, conversa de mãe e filha, essas coisas -- Disse Dona Marta, com autoridade.
-- Entendi. E eu já estou acostumado a ser deixado de fora.
Eu e mamãe protestamos, papai se fez de magoado. Só se tranquilizou quando o enchemos de beijos.
***
Mamãe retornou ao trabalho. Meu pai voltou ao colégio para resolver pendências administrativas. Fui encontrar Becca no quarto, ela dormia profundamente com o cabelo caindo sobre o rosto. Ela parecia muito serena, diferente de como a achei mais cedo. Vendo-a assim tranquila, era difícil imaginar sua amargura. Difícil pensar em tantas tramas mesquinhas que sua mente possessiva havia arquitetado. Na posição de sua melhor amiga e quase irmã, eu me sentia profundamente culpada por não ter conseguido ajudá-la. Eu falhei terrivelmente. Será que eu havia feito tudo o que estava ao meu alcance? Dei-lhe todo meu amor e isso foi suficiente apenas para alimentar uma obsessão cega. Becca estava destruindo a si mesma. No fundo, ela sempre fora muito insegura, embora usasse o sarcasmo como mecanismo de defesa. Eu era seu porto seguro como ela me dissera inúmeras vezes. Quando ela pensou ter me perdido, seu autocontrole se desfez totalmente.
Havia conversado sobre essas coisas com minha mãe que me tranquilizou. Disse que Becca ficaria melhor, ela teria toda a assistência médica e psicológica e todo o carinho de meus pais. E, apesar de eu tê-la rejeitado antes, eu estava disposta a perdoá-la, desde que ela encontrasse o caminho de volta. Eu a queria bem e saudável e que voltasse a ser alegre e divertida como ela sempre fora. Queria minha amiga de volta.
Sentei ao lado de Becca na cama e afaguei seu rosto, observando-a dormir enquanto eu pensava em tudo o que havia acontecido. Como havíamos chegado a esse ponto? Apesar das coisas que Becca havia feito eu sabia que ela não era má. Ela tinha problemas de autoestima, se sabotava em seus relacionamentos afetivos. Becca sempre fizera coisas das quais se arrependia, para depois voltar a fazê-las. Eu tinha consciência que ela não me contava tudo, encobria muitos de seus casos. Ela também andava com gente de caráter duvidoso. Eu sempre a alertava de que em uma dessas Becca se daria mal, mas nunca fiz nada para ajudá-la de verdade. Daí vinha minha culpa, eu era omissa em nossa relação, eu deixava Becca fazer mal a si mesma. Eu só enxergava meus estudos, o time de vôlei e o clube de matemática. Ágata tinha razão quando me acusava de ser apática. E não apenas em relação a ela, mas também com Becca.
Minha missão agora era seguir em frente e fazer de tudo para mudar isso e me tornar uma pessoa melhor.
***
Por volta das seis da tarde, tentei localizar Ágata. Primeiro, liguei para Gabriela. Mas a garota não estava mais com Ágata, ela me disse que a havia deixado na casa dos tios e que Ágata provavelmente dormiria por lá. Gabriela me informou que ela já recuperara o número. Fiquei muito contente por saber disso e logo liguei para Ágata.
Conversamos rapidamente pelo telefone, pois Ágata estava ocupada com os tios e o primo e provavelmente sairiam para jantar em um restaurante e voltariam tarde. Fiquei triste, pois queria ficar com ela, ou apenas ouvindo sua voz. Isso me fazia bem. Combinamos de sair no dia seguinte. O primo de Ágata queria se divertir, aproveitar que estava na cidade. Sendo assim, combinamos de nos encontrarmos no shopping no dia seguinte, após o almoço.
Eu esperava ansiosamente por um momento a sós com Ágata. Precisávamos conversar. Ela iria mesmo para longe como Gabi dissera? E se ia, por que ela nunca me disse nada de concreto? Nos últimos dias, as coisas entre nós só se complicavam. E essa indecisão no ar estava me matando. Eu queria o quanto antes resolver nossa situação, mas enquanto isso não acontecia, eu iria aproveitar ao máximo a tarde que tínhamos planejado.
Seja lá o que minha mãe havia dado a Becca para dormir, foi tiro e queda. A garota só acordou no dia seguinte. Dormi ao seu lado na cama como costumávamos fazer desde pequenas e acordei com Becca levantando da cama bruscamente.
-- Aonde você vai? -- Perguntei, ainda despertando de meu sono.
Ela me olhou atordoada.
-- Desculpa, não queria te acordar. -- Disse Becca.
-- Não, tudo bem. -- Falei -- Aonde você vai?
-- Para casa... Eu não devia estar aqui.
-- Fica! -- Pedi -- Não precisa ir embora. Mamãe e papai querem que você fique.
-- É, mas você não me quer aqui.
Fiquei desconcertada. Mas, logo me recuperei.
-- Eu também quero que você fique, Becca.
Ela ficou calada por alguns instantes, pensando no que dizer. Até que decidiu:
-- Tudo bem. Eu fico.
Tomamos café da manhã com meus pais. Becca se comportou bem, mas pouco me dirigiu a palavra. Ela evitava meu olhar como se estivesse envergonhada. Tentei agir normalmente para que ela não se sentisse desconfortável. Talvez agora com a ajuda de minha mãe, Becca conseguisse recolocar sua vida nos eixos.
***
Pela tarde, encontrei Ágata no shopping. Ela me apresentou seu primo, João, que gostava de ser chamado de “Johnny”. O cara era uma peça como Ágata havia me alertado ao telefone. Neste dia, ele vestia uma camisa com o símbolo da banda Ramones, short que deixava suas pernas à mostra e um tênis All Star. Johnny se vestia como um adolescente, mas deveria ter mais de trinta anos de idade. Ele era alto como Ágata e tinha muitos traços dela. Logo, era impossível não gostar dele.
O primo de Ágata era o tipo de pessoa que falava o que vinha a cabeça. Ao sermos apresentados, ele não poupou elogios a mim, fiquei totalmente constrangida.
Ele levava a mão ao peito enquanto dizia:
-- Sério, você é de tirar o fôlego. Eu poderia escrever músicas sobre a sua beleza.
-- Johnny, menos, por favor. Você está deixando Elisa sem graça. -- Disse Ágata, tentando apaziguar o rompante do primo.
-- Mas, Ágata, nunca é demais exaltar a beleza de uma mulher. -- Disse ele, galante.
-- Então, Johnny, você é fã de Ramones? -- Perguntei, mudando o foco da conversa.
Ele fez um gesto com os dedos e gritou, chamando a atenção das pessoas em volta.
-- Hey! Ho! Let´s Go!
Ágata e eu nos entreolhamos abafando o riso.
-- Johnny é muito fã deles. -- Constatou Ágata.
-- Eles são demais. -- Falou ele, feliz -- Você também curte, Elisa?
-- Sim, gosto deles -- Confirmei -- Johnny Ramone foi um grande guitarrista.
-- O maior de todos os tempos! -- Exclamou ele, empolgado.
-- Sim -- Concordei.
-- Ágata, que gata é essa que você me apresentou. -- Disse ele, dirigindo-se a prima -- Além de linda, fã de Ramones.
-- Johnny, Johnny. Menos, cara. -- Disse Ágata -- Vamos logo lá para o boliche, Gabi deve estar nos esperando.
E assim seguimos. Eu caminhando ao lado de Ágata, e Johnny caminhando ao lado dela, mas não sem deixar de me lançar olhares furtivos. Enquanto Ágata me olhava, tímida. Era estranho estarmos naquela situação com muitas coisas não ditas entre nós. Mas precisávamos deixar aquela conversa para mais tarde.
Quando chegamos à pista de boliche do shopping, Johnny foi comprar nossos tickets.
-- Desculpe pelo meu primo -- Falou Ágata, quando ficamos a sós -- Ele é assim mesmo.
-- Relaxa, Ágata. Ele é divertido.
-- Você diz isso porque ele ainda não te pediu em casamento. -- Comentou Ágata.
Não pude deixar de rir.
-- Estou falando sério. Ontem ele pediu a Gabi para casar com ele.
-- Nossa!
-- Você devia ter visto a cara dela.
-- Imagino!
Pouco depois a morena sobre a qual acabamos de falar apareceu.
-- Desculpe o atraso -- Falou ela -- Fui buscar o carro na oficina. O cara queria me enrolar.
-- Tudo bem -- Ágata disse.
Gabriela me cumprimentou educadamente e me lançou um olhar significativo, acho que para ter certeza que eu não havia dito nada a Ágata sobre o que aconteceu no Rancho. Ágata era esperta e acho que percebeu nossa cumplicidade, mas preferiu não comentar nada comigo.
Johnny ficou radiante com a presença da morena.
-- Agora sim. Estou no paraíso com tanta gata. -- Disse ele.
Gabriela riu e abraçou Johnny, para surpresa deste que quase teve um ataque cardíaco.
-- Deve ser o dia mais feliz da minha vida -- Falou ele.
-- Deixa disso, cara! -- Exclamou Gabi -- Vamos logo começar esse jogo. Preparado para levar uma surra hoje?
O sorriso de Johnny morreu. Agora a expressão dele era determinada.
-- É o que vamos ver -- Provocou ele. -- Eu sou um Hoffman e os Hoffman não costumam perder.
Os dois se encararam medindo forças. Dividimo-nos em dois times, Ágata ficou com o primo e eu com Gabi. Ágata não era muito boa naquele jogo assim como eu que raramente derrubava mais de dois pinos, então os times estavam equilibrados já que Johnny e Gabriela disseram serem os melhores no boliche.
Começamos a disputa. Gabriela e Johnny faziam um strike atrás do outro, a diferença na pontuação estava entre mim e Ágata que competíamos para ver quem derrubava menos de tão péssimas que éramos.
-- Assim não dá! -- Disse Johnny, contrariado.
-- Vocês duas, hein! -- Repreendeu Gabi, nos olhando atravessado.
O que aconteceu foi que os dois acabaram nos expulsando do jogo. Na disputa individual, ambos se provocavam o tempo todo e quando um cometia algum deslize, o outro comemorava.
-- Isso vai longe. -- Comentou Ágata.
-- Achei que era para ser divertido -- Falei.
-- E tem coisa mais divertida que esses dois se digladiando?
-- Tem razão, são duas peças aqueles dois.
-- Vamos tomar um sorvete? -- Convidou Ágata.
-- Eu topo.
Compramos nossos sorvetes e retornamos a pista de boliche. Encontramos os dois ainda na disputa, nem pareciam ter dado por nossa falta.
Um tempo depois eles se deram por vencidos e declararam empate.
-- Vai ter revanche. -- Disse Gabi, sentando-se ao lado de Ágata.
-- Eu não tenho mais braço para isso -- Disse Johnny, puxando ar.
-- Vejam pelo lado bom. -- Falou Ágata -- Nenhum dos dois perdeu.
Eles pareciam convencidos e até se deram as mãos reconhecendo a perícia um do outro.
Fomos lanchar na praça de alimentação. Johnny preferiu fast food e devorava um sanduíche atrás do outro, nesse quesito ele e Gabriela também disputavam, pois a morena também comia como alguém que passara quinze dias numa ilha deserta.
Já eu e Ágata preferimos algo mais light.
Estávamos terminando de comer quando Ágata chamou atenção para uma mesa próxima a nossa.
-- Aquela não é a Thaís?
Olhei para o lugar que Ágata se referira. Era mesmo Thaís e ela não estava sozinha, havia uma garota muito bonita ao seu lado. As duas conversavam com animação.
-- Ela mesma. -- Falei -- Mas não conheço a garota que está com ela.
-- Filha da mãe! -- Xingou Gabi que também havia notado sua ex.
-- Ei, Gabi. Deixa a menina. -- Repreendeu Ágata. -- Vocês terminaram, lembra?
-- Eu não tô falando dela, mas daquela vaca que tá com ela.
-- Quem é? - Perguntei.
-- Uma sem-vergonha qualquer que eu tive um caso. Tenho certeza que ela só está com a Thaís pra atingir a mim.
-- E por que tanta certeza disso? -- Perguntou Ágata -- O mundo não gira em torno de você, sabia?
-- Eu sei, Ágata, mas nesse caso tem a ver comigo sim. -- Disse Gabi, irritada --a Mas, isso não fica assim.
Gabi ficou de pé. Ágata fez o mesmo gesto e tentou impedir a morena de ir lá fazer alguma besteira.
-- Gabi, o que vai fazer?
-- Me deixa Ágata. Eu só vou dá um oi.
-- Isso não vai ser bom. -- Alertou ela.
-- Olha, você me conhece Ágata, eu não posso deixar que aquela vagabunda engane a Tatá.
-- Mas, Gabi, ela já não é criança. Pode tomar suas próprias decisões.
Gabi fez que não ouviu e continuou obstinada.
-- Elisa, diz para sua namorada não se meter e deixar que eu resolva as coisas do meu jeito.
-- Prefiro não opinar. -- Falei.
-- Tudo bem. Faça o que quiser, Gabi. -- Rendeu-se Ágata.
Não precisou de mais nada para Gabriela nos deixar e se dirigir à mesa em que Thaís estava.
-- Ela vai fazer besteira -- Bufou Ágata.
-- Você conhece a Gabi, Ágata. Ela só faz o quer.
-- Eu sei, Elisa.
Johnny que estivera calado até então observando a cena entre Ágata e Gabriela, falou:
-- Então, é verdade o que Gabi disse, vocês namoram?
Por essa Ágata e eu não esperávamos. Como dizer para ele o que nem nós duas sabíamos mais? Afinal, para onde caminhava nosso relacionamento?
Fim do capítulo
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