Capítulo 1 – A Cigarra
O dia de Antônia nunca começava antes do meio-dia, quando ela geralmente acordava. Era como se a manhã estivesse apenas começando, apesar de o sol já bater forte contra a janela de seu quarto, iluminando pelas frestas o ambiente escurecido. E “acordar” jamais era sinônimo de despertar. Por isso, Antônia enrolava na cama, depois de abrir os olhos. Às vezes pegava o celular e se distraía em alguma rede social; em outras, ficava só olhando para o teto, nenhum ponto específico, a cabeça tumultuada por diversos pensamentos.
Antônia era uma “pessoa da noite”, como se diz. Dona de uma voz ímpar, ganhava a vida se apresentando nos barzinhos, nas baladas. Ora como convidada de alguma banda, ora sozinha, acompanhada apenas de seu violão, companheiro de anos. Por isso, quase sempre ia dormir quando a maioria das pessoas já estava acordando; seu trabalho era a diversão dos outros.
Não tinha planejado uma carreira desse tipo. Quando criança, seu sonho era ser astronauta. Depois que cresceu, e percebeu que seria difícil trabalhar na Nasa, estudou Comunicação Social, mas queria Artes Cênicas. O pai que pagou a faculdade, e meio que escolheu o curso, por isso: Publicidade e Propaganda. Pelo menos o que aprendeu naquela época a ajudava de algum jeito, nos dias atuais.
Quando levantava, era cotidiano tomar só um café preto; não comia. Tinha péssimos hábitos alimentares, prejudicados ainda mais por uma Síndrome do Intestino Irritável, que ela jurava que era só intolerância a glúten. Tinha crises intestinais diárias, e por isso o final do café era sempre no banheiro. Seria tudo bem, se ela não morasse numa pensão, cujo banheiro era compartilhado por pessoas que sempre eram diferentes (mudavam a cada semana). Antônia era fixa. Conhecia o dono do lugar, que lhe dava um desconto na diária.
Tomava o café na companhia de estranhos, sempre.
Estava com 35 anos, completados no último mês de novembro. Comemorou o aniversário no trabalho: à meia-noite seus amigos fizeram contagem regressiva no bar em que ela se apresentava, como se fosse virada do ano. Ao assoprar a velinha improvisada em cima do bolo, fez um desejo para que sua vida nunca mudasse. Se sentia realizada.
Agora, em frente ao espelho manchado do banheiro, verificava algumas rugas em volta dos olhos, e marcas de expressão provocadas pela risada constante (em volta da boca havia duas linhas, como parênteses). Talvez fosse hora de comprar aqueles cremes anti-idade, mas ela ainda resistia porque aquilo era praticamente declarar que estava mesmo velha. Ou, pior ainda, que estava envelhecendo.
Antônia tinha pressa de viver. Sentia que seus dias eram muito curtos, assim como as noites, que voavam num piscar de olhos. Por isso aproveitava ao máximo, aceitava todos os convites, convivia com pessoas que conhecia num dia e no outro já eram grandes amigos.
Com relação a relacionamentos, teve várias namoradas ao longo da vida. Algumas, ao mesmo tempo. Atualmente estava solteira por falta de tempo para namorar; gostava de acreditar que no momento certo, alguém certo apareceria.
Essa era a lógica da vida, na visão de Antônia: tudo estava sempre previamente traçado – dos acontecimentos às pessoas, aos relacionamentos. Chamava de destino o que muitos chamam de acaso.
A primeira vez que Antônia viu Alícia foi numa festa de fim de ano. Tinha sido contratada para se apresentar num show, e fazer a contagem regressiva perto da meia-noite. Ao gritar “feliz ano novo”, viu a mulher no canto; era a única que não sorria, ou comemorava.
Fim do capítulo
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