Capítulo final!
Ufa, acho que foi isso :D
Capitulo final: Agora sabemos por onde começar
Érika batia a perna direita descompassadamente, sem tirar os olhos da porta do consultório em que estavam Débora e Victor. Os pontos que levara na testa latej*v*m, mas ela pouco se importava com a dor. Cada minuto passado sem notícias lhe machucava mais que o ferimento. Na outra extremidade do banco, Audrey a observava, segurando a ansiedade. Foi de Raga a pergunta que todos queriam fazer:
- Como isso aconteceu?
- Filha, não precisa falar nada agora. - Jorge interveio.
Pela primeira vez desde que chegaram, Érika olhou em direção à Raga, reconhecendo-a de imediato. Sentiu que compartilhavam do mesmo sentimento de proteção e preocupação para com Catarina. Contrariando a investida de Jorge, respondeu:
- Ele queria tirar tudo de nós. "Acabar com tudo", como ele mesmo falou. Estava insano, cego de ódio. E aí, atirou. Ela... sempre ela... pensando primeiro... - A voz embargada de Érika se transformou em pranto.
- Tudo bem, não precisa mais continuar. - Raga se sentiu culpada por ter incitado a aflição da outra.
- Ela sempre pensa primeiro nos outros... e eu nada pude fazer pra impedir... pra impedir aquela bala de me acertar... era eu... era eu quem deveria estar naquela sala de cirurgia... Meu Deus... eu a amo tanto! Tanto! Por favor, meu Deus... não deixe... não deixe que ela morra!
Jorge a envolveu num abraço reconfortante. Era raro para ele vê-la tão vulnerável. Aquela Érika que não esmorecia, que tanto suportou o peso de sua doença, estava ruindo ali mesmo, impotente, totalmente amedrontada. Humana. Passou a mão pelos cabelos da filha, admirando a dimensão do amor que ela destinava à Catarina, amor este que ele pensava ter visto uma outra vez. "Não, não é igual. Desta vez é maior do que aquilo", pensou.
Raga baixou a cabeça, derramando algumas lágrimas também e contagiando Audrey. As jovens deram as mãos e assim ficaram, até ouvirem a voz de Débora, recém-saída do consultório:
- Ela está bem, pessoal! Ela está bem!
- O médico falou que a bala não atingiu o coração, estava mais próxima ao ombro mesmo. A cirurgia foi um sucesso! - Victor concluía, sorridente.
Os visitantes comemoraram, em uníssono. Érika abraçou os pais, ainda emocionada. Raga e Audrey também comemoraram juntas a boa notícia.
Débora, mais calma, observou o alívio de Érika e se aproximou. A gerente assumiu uma postura defensiva, temendo que o clima de felicidade esvaísse. Empertigou-se, esperando que a mulher mais velha a culpasse pelo incidente, a expulsasse dali a patadas.
- Você pode me acompanhar um momento? - A mãe de Catarina perguntou.
- Claro. - Érika concordou, um pouco contrariada.
- Tia, nós podemos ver a Cate agora? - Audrey interrompeu.
- Ainda não, ela está na sala de recuperação. O médico disse que em breve poderemos entrar, quando for para o quarto. Mas apenas de dois em dois. - Explicou Débora. Virando-se para Érika, concluiu: - E então, vamos?
A outra mulher assentiu com a cabeça e foram as duas para fora da clínica, sob olhares curiosos de todos os envolvidos naquela estranha configuração. Andaram um pouco, chegando até um canteiro de flores, na saída oposta à emergência que estavam. Débora parou, de costas para Érika. A mais jovem perguntou:
- Está bom aqui?
- Sim. Está ótimo.
- Eu... sinto muito toda essa situação...
- Eu sei.
- Sabe?
A ex-esposa se virou de frente para a ex-amante. Érika não distinguia a expressão dela, não conseguia ler, mas sentia que algo mais precisava ser dito. Chegou a abrir a boca, mas um gesto a impediu. Era um abraço.
- Me desculpe, fui muito intransigente, muito rancorosa, muito teimosa...
O gesto pegou Érika desprevenida, Débora prosseguiu:
- Mas, de forma alguma deixarei que o ódio tome conta de mim como tomou ao Rodolfo... O que ele fez foi imperdoável e por mim apodrecerá na cadeia! A minha filha, meu bem mais precioso, a única coisa boa que esse homem me deixou... ela ama você... ama tanto que tentou dar a própria vida pela sua. Sei que aquele miserável, mesmo tomado pela insanidade, iria destinar à bala para você primeiro. Foi isso que aconteceu, não foi?
- Eu me jogaria na frente dessa bala para salvá-la quantas vezes fosse preciso... mas foi ela... ela quem salvou minha vida. Ela salva a minha vida desde que nos conhecemos. Eu... quero viver ao lado dela... quero vê-la realizar seus sonhos... quero realizar os meus junto a ela...
- Finalmente entendi, da pior maneira possível, o que vocês duas queriam me dizer, me mostrar. Não estarei mais no caminho dos sonhos de vocês. A minha filha sobreviveu e ela merece fazer o que ela quiser fazer. Eu... vou ser a mãe que ela merece a partir de hoje. E a mãe que ela merece te acolhe também, você aceita?
- Mas é claro! Obrigada! Muito obrigada, de verdade! - As duas mulheres choravam, emocionadas, gratas pela vida de seu elo em comum. Uma abelha pousava próxima às flores do canteiro, esperando o momento certo de colher o pólen e dar prosseguimento ao seu próprio ciclo natural.
****
Quando Catarina acordou, pensou estar em outro plano que não o terrestre. Viu Érika e Débora lado a lado, num clima amistoso. Passou alguns segundos contemplando-as, sem coragem de quebrar o momento que tanto almejou que acontecesse. Quase esqueceu o porquê de estar no hospital, mas a dor que sentiu ao respirar a lembrou:
- Ai...
- Cate! Graças a Deus! - Débora se virou para a garota, chorando de alegria pelo seu despertar.
- Amor, como se sente? - Érika, também emocionada, voltou a visão para sua amada.
- Dolorida. Você está bem, Érika? Ele fez mais alguma coisa? Só lembro da arma apontada, depois tudo virou um borrão... ele estava louco, mãe! Muito louco...
- Estou bem, linda. Não se preocupe comigo. Neste momento só o que importa é você.
- Eu sei, minha filha. Está doendo muito?
- Dói quando respiro mais forte... mãe, Érika... eu preciso saber... onde ele está agora?
- Foi preso em flagrante. Tentativa de homicídio.
- Não só tentativa, parece que assassinou o próprio vizinho que o ajudou dias atrás. - Débora falou, surpreendendo as outras duas.
- Como?! Antes de ir até minha casa?
- Sim. O delegado entrou em contato comigo algumas horas atrás. Disse que ele assumiu os crimes no depoimento e emudeceu em seguida.
- Meus vizinhos que nos ajudaram me disseram que ele sequer se defendeu quando a polícia chegou. Acho que a ficha caiu. Mas será que continuará detido? - Érika sabia a injusta realidade do país.
- Ele não pode se livrar! Ele... é um monstro... Faremos o que for preciso para que apodreça na cadeia! Nem que seja necessário que eu contrate o melhor advogado do país. Rodolfo não nos fará mais mal. A nenhuma de nós. - Débora demonstrava convicção em suas palavras.
- Mas pra que isso aconteça, precisaremos depor contra ele, Cate...
- Eu sei... - Cate encheu os olhos de lágrimas e um filme passou pela sua cabeça. Lembrou de quando Rodolfo segurava a garupa da bicicleta para que ela pudesse aprender a pedalar sem medo pela ausência das rodinhas, de quando ele a colocava nos ombros quando iam ao parque de diversões, mesmo que ela já estivesse pesada o suficiente para fazê-lo reclamar de dores nas costas mais tarde, das homenagens ao dia dos pais na escola, as quais ele nunca perdia, do dia em que ela, acidentalmente, bateu a cabeça na quina do armário da cozinha, um arranhão de nada, mas que foi o bastante para que ele a impedisse de ir à aula.
Mas aí as lembranças mudaram drasticamente para o dia de seu vestibular, para as batidas na porta de seu quarto e o último incentivo dado pela figura paterna que ela julgava conhecer tão bem. Em seguida, a cena mudou para a imagem dela mesma correndo de volta ao portão de entrada. A mera caneta esquecida que a levou à cruel realidade.
Por que seu idolatrado pai, antes intocável, imaculado e protetor, se convertera num completo desconhecido, num maníaco descontrolado e potencialmente sociopata? Ela havia lido e ouvido tantas vezes a máxima "todos os homens traem, todos são infiéis", por que com seu pai seria diferente?
Érika pousou a mão esquerda sobre o rosto dela, enxugando-lhe com cuidado as lágrimas e entrelaçando os dedos da direita aos seus. Ali estava a resposta para suas dúvidas. Não era a infidelidade que transformara seu pai daquela forma. Aquele que disparou sempre foi o verdadeiro Rodolfo. Incapaz de amar alguém além de si.
Naquele quarto de hospital estava presente o amor, abandonando seu posto de substantivo abstrato, complexo e ao mesmo tempo tão simples. Plural, afinal não precisava existir só de um jeito e em um só ser humano. E não era por que não era amada por seu pai que desacreditaria do poder e força daquele sentimento. Com esforço, inclinou-se um pouco para frente e beijou Érika nos lábios. Débora apenas observou o gesto e sorriu, resignada.
- Vamos fazer isso. Juntas? - Catarina olhou para a Érika, em seguida para a mãe.
- Vamos. Juntas. - Débora colocou as mãos em torno dos ombros da gerente.
- Juntas, como deve ser. - Érika concluiu, chorando junto com as outras duas.
*** Meses depois ***
A família de Rubens, Catarina, Débora, Érika e seus dois vizinhos depuseram contra Rodolfo. O juiz o condenou a 15 anos de prisão, pelo homicídio qualificado de Rubens e a tentativa à Catarina, pena reduzida pela confissão e pelo réu primário. Ele, por sua vez, sequer contratou um advogado ou levantou a cabeça para encarar as vítimas enquanto depunham.
Não recebia visitas, a notícia de que havia atentado contra a vida da própria filha o afastou por completo do ciclo de amizades interesseiras e superficiais que cultivou por toda sua existência. Na prisão, era constantemente execrado pelos companheiros e vivia isolado em sua cela apertada e desconfortável. Não fazia mais planos, e, nas noites mais frias e dolorosas, resultantes da falta de cobertores e das surras que levava dos mais fortes, desenvolveu pesadelos.
Neles, quase sempre via Érika e Catarina juntas, felizes e devorando doces no belíssimo jardim de sua ex-casa. Débora não tardava a se juntar a elas, apontado e rindo dele, que se afundava num rio de sangue, cuspido pela mais nova. Acordava todas as vezes que o ar já lhe faltava aos pulmões e não dormia novamente, encarando o teto cinza, caído aos pedaços.
Sempre que percebia que o pesadelo lhe doía mais do que a prisão, clamava pela morte, mas esta não vinha. E o ciclo vicioso seguia, implacável, como se lhe dissesse que precisava pagar por seus atos em vida e em dor.
****
Catarina levantou da cama cuidadosamente e conferiu o calendário colado acima de seu computador mais uma vez naquela semana. Andou até o banheiro sem fechar a porta, tentando não fazer barulho, e se olhou no espelho. A cicatriz no ombro esquerdo coçava, então tratou de tirar a camisa para aliviar o desconforto. Sem perceber a movimentação atrás de si, foi envolvida por um abraço carinhoso e quente.
- Bom dia, meu amor. Você dormiu, não dormiu?
- Claro... como um anjo, meu bem...
- Então os anjos agora têm essas olheiras aí? Curioso...
- Tá bem, você me pegou. Não dormi nada, Érika.
- Vire aqui pra mim, quero olhar pra você.
Cate se virou e abraçou a namorada de frente. Ouvir a voz dela e sentir o novo perfume que ela usava resultava em algo mais calmante do que uma noite de sono propriamente dita.
- Podemos só ficar assim o dia todo?
- Poderemos ficar assim por muitos dias. Mas tem algo que você precisa fazer antes e eu sei que vai fazer muito bem!
- Ai, amor, eu tô com medo de não passar de novo!
- Você estudou muito, vai dar tudo certo, acredita!
- Ano passado eu também estudei muito, mas acabou não valendo de muita coisa...
- Claro que valeu, conhecimento nunca é demais, Cate. Além do mais, eu me apaixonei por uma das garotas mais inteligentes desse país, sabia?
- Poxa, me apresenta, não pode ser eu. - Catarina enfim se descontraiu.
- Vou apresentar assim que ela estiver pronta. Vem, vamos tomar esse banho logo.
- Com você? E ainda quer que eu passe? Vou me desconcentrar.
- Vai nada, vem, vamos fazer uma revisão. - Disse Érika, tirando a famigerada camiseta do Tame Impala que ganhava da amada sempre que dormia na casa dela.
Durante aquele ano, Érika ajudou Catarina a estudar o máximo que pôde. Havia se tornado a primeira na fila do incentivo à jovem, ultrapassando até mesmo a dedicada Débora, que agora ficava bastante em casa, quando não saia com Victor.
Estavam ambos, inclusive, a espera das duas no andar de baixo, com o café da manhã a postos. Elas desceram juntas, aos beijos e abraços já habituais aos presentes. Audrey também estava sentada à mesa, batendo palminhas empolgadas:
- Bora, bora, quem é minha campeã? Quem é?
- Audy, tá parecendo uma técnica de futebol, calma aí! - Catarina debochou da empolgação da amiga. - E a Raga, não veio com você?
- Não, ué, por que viria? - A garota ficou sem graça.
- Ai, ai, meses depois e você ainda quer negar pra mim que...
- Poxa, Cate, brincadeiras à parte, boa sorte hoje, já é seu, minha querida irmã. - Audrey mudou de assunto apressadamente, arrancando risos da outra.
- Igualmente, irmãzinha. Boa sorte, ela já é sua. - Cate piscou o olho direito, divertida.
- Cate, minha filha, coma logo, você vai se atrasar, Érika irá te levar?
- Sim, mãe. E a teimosa ainda vai ficar lá esperando, já disse pra ela que volto de outro jeito, mas ela não sossega!
- Eu tenho folga hoje e nada pra fazer, Débora, diga se tem necessidade de ela voltar sozinha?
- Eu digo que a mocinha vai perder a hora se ficar de birra. Agilize! - Débora gesticulou tanto que derrubou a manteiga que passaria em seu pão, fazendo uma cara tão sofrida que gerou a risada de todos.
No caminho, Érika parou em um sinal qualquer, distraída com o trânsito. Catarina reconheceu o lugar imediatamente, mesmo de manhã, com as luzes desligadas. Foi ali que contemplou a mulher que amava pela primeira vez sem perceber a magnitude do sentimento. Antes do sinal abrir, ela desprendeu o cinto e puxou a que dirigia para um beijo, inicialmente despretensioso, mas, como todos os beijos que trocaram, tomado por um significado único e valioso para as duas.
- Não vai perguntar por que eu te beijei aqui, do nada?
- Não, porque eu sei. Eu também olhei pra você naquela noite, neste lugar, mas você já havia se virado.
- Sério? Pensar que um ano atrás estava tudo tão confuso, tantas coisas acontecendo...
- É, eu pensava que entendia muitas coisas, que me conhecia o bastante... e de repente lá estava eu, perdidamente apaixonada por você.
- Sabe, Érika, foi você.
- Eu, eu o quê?
- Que me mostrou por onde começar. Por onde começar a amar e a viver minha própria vida, não a que minha família pintou para mim.
- Ah meu amor, você também me ensinou tantas coisas...
- Os tempos não são mais tão difíceis. Sabe por quê?
- Porque a gente se ama.
- É. Porque a gente se ama, muito.
Naquele dia, Catarina fez a prova de vestibular mais confiante do que nunca. Muita coisa ainda iria acontecer, a vida não é feita de tréguas eternas. Mas os tempos, sem dúvidas, eram menos insólitos para os que amam. As duas mulheres se beijaram mais uma vez, em meio às buzinas desesperadas e ao mundo tipicamente apressado. Elas se amavam, o resto poderia esperar.
Fim do capítulo
E é isso, gente. Acabou. Eu ia escrever um epílogo para contar o que acontece depois da nova prova da Cate, mas deixa a imaginação de vocês fluir. Ou quem sabe eu dê uma pista um dia? Quem sabe?
AGRADECIMENTOS
À minha família, que mesmo não gostando muito de ler me incentiva a continuar escrevendo.
Aos meus amigos Dádila, Tiago, Isaac e Vivian, tão diferentes entre si, mas tão iguais quando o assunto foi me apoiar, cobrar capítulos novos e compartilhar suas torcidas e anseios por esta história. Muito obrigada, pessoal.
Às leitoras deste maravilhoso site, em especial Naty, Cris, Malu, Cma e todas as novas leitoras que foram comentando. Sem vocês esta história não faria sentido.
Tenho muitas outras ideias e espero compartilhar com vocês em breve! Abração!
Miss S.
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kasvattaja Forty-Nine
Em: 25/02/2021
Olá! Tudo bem?
Evidentemente não é o final: a Autora deixou um ''Cliffhanger'', ou não?
Na verdade a história sempre caminhou ''em aberto'' — ou eu deixei alguma coisa pelo caminho, não sei — e, provavelmente, existe uma segunda parte com mais coisas para acontecer.
Fica difícil de saber — ou acreditar — que esse final — Erika e ''Cate'' — é um ''felizes para sempre''. Esperemos.
É isso!
Post scriptum:
''Não negue, apareça. Seja forte. Porque é preciso coragem para se arriscar num futuro incerto. Não posso esperar. Tenho tudo pronto dentro de mim e uma alma que só sabe viver presentes. Sem esperas, sem amarras, sem receios, sem cobertas, sem sentido, sem passados.''
Caio Fernando Abreu
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Marta Andrade dos Santos
Em: 25/02/2021
Parabéns! Deixou saudades.
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