Estamos na fase final do livro, meninas... aproveitem bastante!
Capitulo 44 - Boba ou egoísta?
Capítulo 44 – Boba ou egoísta?
Pov Liz
Acordar no outro dia foi dose. Sua cabeça doía e dava voltas ao mesmo tempo. Assim que abriu os olhos, fechou-os no ato com a claridade absurda que tomava todo o quarto. Reclamou algo consigo mesma e estirou o braço à procura do corpo quente e delicado da namorada, mas encontrou apenas o vazio. Suspirou frustrada e continuou quieta por alguns instantes.
Lentamente, abriu os olhos e se escorou na cabeceira da cama. Mais uma vez, viu o cômodo girar, mas ficou quieta até se sentir melhor. Verificou todo o quarto, mas Lia não estava ali. Olhou seu celular na cômoda e viu que já passava do meio-dia. Ali, tinha também uma mensagem do primo.
Tomás: “Já que você ainda estava dormindo, nós saímos para tomar um banho na praia. Vem com a Lia quando estiver melhor, ok”?
Sorriu ao ler a mensagem. Seus primos eram mesmo cheios de energia. Logo, seus pensamentos voaram até sua tia. Era automático. Apesar de conseguir se distrair naqueles dias de viagem, era nisso que pensava o tempo quase todo. Sua preocupação não tinha fim. Já estavam longe de casa há três dias e resolveu que iria ligar para ver como estavam as coisas.
Luísa atendeu o telefone no terceiro toque e parecia contente.
— Oi, minha rebelde! Você está bem?
— Quando a senhora vai parar de me chamar assim? — perguntou entrando na vibe leve da tia. Era bom saber que ela estava, aparentemente, bem. — Estou me comportando como nunca antes.
— Ser rebelde não é um defeito, às vezes.
— Quer dizer que ainda se preocupa tanto assim comigo?
— Não se supera tudo o que você passou assim tão rápido — confessou a mais velha de forma carinhosa. — E mesmo você dizendo que a Lia te ajuda, ainda assim, eu tenho medo.
— Medo de quê? — Liz agora estava confusa.
— Medo que fique como antes. Que nem semana passada. Sumindo e bebendo.
— Será que pode me dar uma folga? Você sabe que tive meus motivos.
— Eu sei, mas não é assim que se faz as coisas.
Naquele momento, Liz se irritou um pouco com as suposições dela e resolveu mudar de assunto.
— Eu não sou mais a sua maior preocupação no momento e sabe disso. Liguei apenas para saber se estava tudo bem.
— Está tudo bem sim, não se preocupe! Como está sendo a viagem? Tomás e Vitória me enviaram várias fotos de vocês.
— Está sendo ótimo. Foi uma boa ideia ter vindo.
— Está conseguindo se distrair?
— Um pouco, sim!
— Era isso o que eu queria! — disse ela por fim e deu um longo suspiro no final.
— Quando a senhora vai contar isso para a Vitória e o Tomás?
— Eu não sei, Liz — respondeu com indecisão. — Não é fácil. Tenho medo de que eles façam uma besteira.
— Não somos mais crianças, tia — irritou-se novamente. — A senhora tem que aprender a confiar mais em nós. Qual é!
— Eu confio! Mas isso é uma coisa muito complicada e séria — tentou se justificar. — Eu prometo que contarei tudo assim que vocês voltarem.
— Tudo bem! Não vai demorar, daqui dois dias estaremos de volta.
— Já estou com saudades de vocês.
— Também estamos com saudades da senhora.
— Eu tenho que desligar agora. Preciso resolver umas coisas.
— Aconteceu algo? — seu sinal de alerta apitou freneticamente já pensando no que poderia ser. — Pode me contar.
— Não se preocupe. São apenas alguns papéis que o Artur trouxe para eu assinar.
— Tudo bem, então. Até mais.
— Até mais, Liz.
Foi uma ligação estranha e curta. A tia parecia um pouco apressada e fugindo do assunto, mas tudo parecia estar bem. Viu que Lia havia deixado alguns remédios para enjoo na mesinha de cabeceira e tratou de tomá-los logo. Vestiu-se com um roupão e ia sair à procura de Lia quando sentiu ânsia. Correu até o banheiro.
Depois de colocar quase os bofes para fora. Resolveu tomar um banho para ver se melhorava da sonolência que sentia. Ao voltar para o quarto, ainda não havia nem sinal de sua irritadinha. Resolveu sair à sua procura. Assim que abriu a porta do quarto, encontrou-a deitada em uma espreguiçadeira da varanda e ela parecia distante.
Aproximou-se a abraçou-a por trás, sentindo seu perfume. Contudo, ela deu um sobressalto de susto. Definitivamente ela estava bem distante.
— Que susto! — disse levando a mão até o peito e depois desatou a rir.
— Desculpe! — disse se aproximando novamente e abraçando-a. — Você parecia distante. Aconteceu alguma coisa?
Liz percebeu que ela hesitou um pouco a responder e depois apenas negou com a cabeça.
— Está tudo bem! — Ela lhe puxou para um selinho. — E você não está de ressaca? Os meninos já foram para a praia aproveitar o dia.
— É, eu sei. Tomás mandou uma mensagem. Fui no banheiro a pouco tempo e provoquei. Não me sinto muito bem.
— Eu trouxe umas frutas para você. Estão no frigobar. Viu o remédio que deixei?
— Vi sim, já tomei tudo — sorriu com a preocupação e cuidado dela. Com certeza não havia ninguém melhor do que ela para ter ao seu lado. — Obrigada!
— Não precisa agradecer.
— Vem deitar comigo? Quero passar o dia só com você hoje — pediu cheia de manha e fazendo beicinho, o que arrancou um sorriso leve dela.
— Ok, vamos!
Liz abriu as janelas que tinham vista para a praia e as duas passaram o dia praticamente inteiro trancadas no quarto descansando. Lia estava calada e distante. Enquanto assistiam a um filme de comédia, ela mal riu nos momentos engraçados. Liz deu uma pausa no filme e a olhou bem nos olhos.
— Você ‘tá bem?
— Só pensativa — ela disse apenas isso, dando de ombros.
— Fala a verdade! Aconteceu algo?
— Só estou preocupada com os meus pais quando eu voltar — confessou parecendo preocupada. — Já faz mais de uma semana que não vou em casa.
— Eu sei o quanto isso é chato, mas eu prometo que levo você de volta e faço questão de falar com eles.
— E você vai dizer o quê?
A pergunta lhe pegou de jeito. É claro que elas não poderiam falar o verdadeiro motivo, mas na hora iria improvisar alguma coisa como sempre.
— Não se preocupe que eu resolvo isso com meus sogros.
Finalmente conseguiu tirar uma risada verdadeira dela. A rockeira acabou dando um cochilo durante a tarde e acordou-se com os carinhos da irritadinha.
— Está se sentindo melhor? — foi a primeira coisa que a namorada lhe perguntou.
— Estou sim — respondeu ainda grogue. De fato, o mal-estar se fora e sua barriga até já roncava.
— Que bom! — ela sussurrou de volto e sentou sobre sua cintura vagarosamente.
Automaticamente levou as mãos até suas coxas macias e tenras. Lia se inclinou e pousou os lábios em sua orelha, mordendo e lambendo-a. Tinha um enorme ponto fraco ali e arrepiou-se toda com o ato. Ela iria enlouquecê-la. Conseguia sentir o desejo dela.
Fazia alguns dias que não estava muito no clima para trans*r, mas naquela tarde, sentiu um tesão imenso. Com carinho e saudades as duas se entregaram ao momento...
***
Na quinta pela tarde, eles pegaram o voo no jatinho de volta para casa. Aqueles dias haviam sido maravilhosos para Liz, e mesmo apesar de tudo o que acontecia, conseguira distrair um pouco a mente. Voltou ao lado de Lia, as duas vinham de mãos dadas, cada uma distante em seus próprios pensamentos. Tinha certeza que os pais dela estavam reclamando de sua distância.
Assim que chegaram ao condomínio, Luísa estava tendo uma de suas sessões de fisioterapia, mas recebeu-os alegremente. A rockeira estava apreensiva assim que pousaram, mas ao ver a tia bem e sã, seus medos deram lugar ao alívio. Sua cabeça maquinava mil maneiras de tudo o que poderia dar errado nos dias por vir.
Pela tarde, Liz viu quando a tia chamou Tomás e Vitória para conversarem em seu escritório a sós. Ela e Lia trocaram um olhar de entendimento e logo em seguida, se juntaram a Jeniffer e as três foram dar uma volta pelo lindo condomínio. Aquela seria uma conversa longa e eles precisavam de tempo para digerirem tudo.
A reação dos primos foi como o esperado. Vitória saiu para seu quarto com os olhos avermelhados devido ao choro e Jeniffer foi atrás dela prontamente para saber o que estava acontecendo. Já Tomás, estava muito mais quieto e sério do que o normal. Quando o olhar de Liz cruzou com o dele, naquele momento, o primo entendeu que ela já estava a par dos acontecimentos, porém, nada disse.
As duas voltaram para o quarto e deitaram na cama uma ao lado da outra e Lia foi a primeira a quebrar o silêncio.
— Luísa contou para eles, não foi?
— Sim — respondeu, olhando para o teto. — Ela não podia mais adiar. Pedi que ela contasse. Não é justo esconder isso deles.
— Verdade!
Depois de mais alguns minutos de um silêncio incômodo, a irritadinha declarou:
— Eu ainda não consigo acreditar nisso tudo que ‘tá acontecendo!
Quando Liz a olhou, ela estava mesmo com uma expressão de medo na face e naquele momento se deu conta mesmo do quanto ela corria perigo estando tão próxima a eles ali na cidade. Se algo acontecesse a Lia nunca iria se perdoar. Não queria nem cogitar a remota ideia, então, tentando mudar o rumo da conversa, perguntou:
— Você ficou meio calada o resto da viagem. O que foi, hein? — insistiu de forma leve.
— Já disse que não foi nada! — respondeu com veemência, mas aquilo não a convenceu.
— Lia, desculpe, mas eu te conheço e sei que tem algo incomodando.
A namorada suspirou e ficou calada por um tempo, apenas olhando para a tela do telefone.
— Seus pais estão reclamando da sua ausência, não é?
Lia a olhou indecisa, mas acabou cedendo e confirmou com um aceno de cabeça. Liz não podia mais insistir tanto pela sua presença ali, pensando bem ela ter negado o seu pedido para morarem juntas havia sido bom, pelo menos ela não ficaria assim tão exposta. Será que Flávio já percebera o quanto Lia era uma parte importante na sua vida? “Mas é claro que sim, todos já perceberam”! pensou consigo mesma e um plano formou-se em sua mente.
— Você já quer voltar amanhã?
— É melhor. Eu sei que vou ouvir bastante quando eu voltar.
— Desculpe por isso tudo, minha linda...
— Não tem que que se desculpar por nada, amor — A namorada virou-se de lado para ela e passou a mão em seus cabelos. — Eu jamais te deixaria sozinha em uma situação como essa.
— Eu sei e obrigada por tudo!
As duas deram um selinho emocionado e colaram as testas.
— Eu vou deixar você mais quieta só com eles — ponderou inicialmente e Lia apenas ouviu-a em silêncio. — Quando as coisas estiveram mais calmas você me avisa que vou te ver, ok?
— Não, Liz — negou energicamente. — Pode ir me ver a hora que quiser. Sem chances da gente passar tantos dias longe.
— Mas...
— Mas nada! Eu vou voltar sim, porém, você pode ir todo final de semana, como sempre!
Liz sorriu e fez carinho na nuca dela.
— Tudo bem! Como você preferir.
Calou-se em concordância. A verdade é que realmente seria bom dar um tempo para que ela não ficasse tão visada ao seu lado. Só não sabia como iria fazer isso sem preocupá-la. Elas foram interrompidas por batidas na porta. Era Vitória e Tomás. Os dois chamaram Liz para uma conversa a sós.
Ao chegar até o quarto do primo, eles logo trancaram a porta e Vitória começou a falar em um tom bastante preocupado:
— Liz, você já sabe de toda essa loucura que está acontecendo, não é?
— Eu soube semana passada apenas. Naquela noite que vocês estavam procurando por mim.
— Eu sabia! — Tomás disse irônico. — A mamãe sempre teve mais consideração por você do que por eu e Vitória.
Liz foi totalmente pega de surpresa pela enraivecida declaração dele, ficou até sem saber o que dizer. Vitória também pareceu transtornada com a declaração do irmão, porém, antes que a loira pudesse falar algo, ele continuou seu discurso.
— Ela é mais apegada a você do que com nós dois — O primo falava em tom acusatório. Não conseguia entender bem o porquê de ele estar daquela forma. — Como ela guardou isso da gente esse tempo todo. Já faz mais de um mês desde o acidente.
— Escuta aqui Tomás! — Liz foi para mais perto dele e declarou em tom sério. — Eu só soube disse na semana passada e não foi por ela. Artur que me contou tudo depois de eu pressionar ele pela verdade. Eu percebi que algo estava rolando.
— Tomás, esse é o pior momento para você vir com ataques de ciúmes. Pelo amor de Deus! — Vitória declarou com impaciência e levou as mãos até a face, enxugando as lágrimas que caíam sobre sua face novamente. — A gente sabe que a Liz também é como uma filha para a nossa mãe. E quer saber de uma coisa? Ainda bem que ela ficou aqui quando eu e você decidimos ir embora porque o Brasil não era bom o suficiente para a gente. É claro que ela iria se apegar com a Liz, mas esse não é o ponto agora!
Tomás apenas baixou a cabeça com o discurso sentimental da irmã. Liz não imaginava que os dois pudessem se sentir daquela forma devido à sua relação com a tia. Nunca havia parado para pensar muito sobre o assunto.
— Nós temos que ficar unidos agora. Mais do que nunca! — Liz retomou seu pensamento e segurou na mão da prima.
— Você está certa, prima. Temos que ficar juntos. Eu não vou mentir que tenho medo de algo acontecer com ela novamente. Como alguém pode ser capaz de uma crueldade dessas?
A loira falava de forma emotiva e derrubando mais lágrimas. Tomás deu de ombros e correu até ela, abraçando-a.
— Não vai acontecer nada, Vi! — declarou firmemente. — Não ouviu o que ela disse? Ela tem seguranças e logo o detetive vai descobrir quem fez isso.
Liz se sentiu desconfortável com o momento entre os dois e até pensou em sair do quarto, quando a prima olhou por cima do ombro do irmão e estendeu a mão para que ela se juntasse ao abraço. Meio sem jeito, resolveu ir até os dois.
— Tomás está certo, Vi! Nós vamos descobrir quem fez isso e não vamos deixar barato. Quem fez isso vai pagar muito caro!
— Mas quem pode ter sido capaz de fazer algo tão sério?
A pergunta do primo, deixou-a de orelha em pé. Com certeza Luísa não havia tocado no nome de Flávio e apenas ficou na sua. Se ela não havia dito é porque tinha seus motivos. No fundo, Liz não queria acreditar que ela pudesse ter feito algo tão monstruoso.
— Você sabe quem pode ter feito isso, Liz? — Tomás perguntou e agora ele também tinha lágrimas nos olhos. — Existe algum suspeito!
— Para falar a verdade nós todos somos suspeitos — falou ao lembrar da tia duvidando até mesmo de Lia. — Mas eles não me disseram nada sobre isso ainda.
— Mamãe deveria vir para os Estados Unidos com a gente. Ela ficaria mais segura! — Vitória disse em desespero. — Eu estou com medo de ficar aqui.
— Calma, Vitória — Liz tentava acalmá-la. — Era justamente por isso que a tia Luísa não queria contar nada para gente. Temos que manter a calma e ajudar. Você sabe muito bem que ela jamais deixaria o Brasil assim e a empresa na mão de estranhos.
— Por mim a mamãe vendia a parte dela nessa empresa e ia embora daqui — Tomás disse de forma enraivecida. — Essa situação é o cúmulo.
— Ela jamais faria isso! — Liz rebateu. Aquilo não era nada parecido com o jeito da tia. Sabia que ela nunca iria fugir daquela forma, mesmo com o perigo iminente.
— É, eu sei — Vitória concordou parecendo distante e conformada. — Isso é loucura! O que fazemos agora?
— Infelizmente não podemos fazer nada. Apenas aguardar mais notícias e tomarmos muito cuidado.
— Ela disse que está contratando guarda-costas para todos nós — O primo disse, enxugando umas poucas lágrimas que escorriam de seus olhos. — Isso é deprimente!
— Infelizmente temos que seguir com essa recomendação até que algo seja descoberto. Depois de mais algum tempo de conversa, eles decidiram relaxar um pouco e deixar o assunto para depois, mas antes que Liz saísse do quarto, Tomás chamou-a.
— Desculpe pelas coisas que eu disse, Liz — Ele parecia culpado e arrependido. — Não sei o que me deu. Desespero, eu acho...
— Tomás, eu entendo. Não sou do tipo que guarda raivas. Está tudo certo!
— Obrigada, prima!
— Não precisa me agradecer.
Com mais um abraço, ela voltou ao seu quarto onde Lia a esperava ansiosa. Contou toda a conversa para ela até que Silvia bateu na porta, chamando para a janta.
Mesmo sem um pingo de fome, Liz obrigou-se a comer para que a namorada não puxasse em sua orelha. Foi o pior clima de refeição em muito tempo. Todos calados e tensos em volta da mesa. Se perguntava até quando aquela nuvem de preocupação iria pairar sobre suas cabeças.
Antes de dormirem, compraram a passagem de Lia para o outro dia cedo da manhã. Lia agarrou-se a ela antes de dormir, porém, Liz não conseguiu pegar no sono tão cedo. Foi uma noite torturante, ainda mais que no dia seguinte voltaria a ir para a empresa e não sabia como iria conseguir encarar a face cínica do tio. Aquilo tudo era demais...
***
Pov Lia
Voltar para a casa foi mais cansativo do que nunca. Sua mente dava voltas e mais voltas ao redor dos assuntos complicados que vinham se formando ao longo dos dias. Primeiro, todo o perigo que cercava a namorada e sua família. Segundo, a raiva que iria enfrentar dos pais ao chegar em casa e como se isso tudo não bastasse, agora tinha a questão do intercâmbio.
Aquela ligação na segunda-feira havia mudado tudo em sua cabeça, não sabia mesmo o que fazer. A funcionária havia lhe informado que teria até o final do mês de Maio para confirmar sua ida ou não. Estava perdida e sem saber o que fazer. Não contara a informação para mais ninguém, nem mesmo para Vanessa e torceu para que a ruiva não ficasse sabendo daquilo, pois iria ficar falando no seu ouvido sem descanso.
Chegou sexta lá pelas três da tarde e encontrou Pedro em casa, assistindo TV. O irmão sorriu ao vê-la.
— Finalmente voltou, maninha! — Os dois deram um abraço e depois ele voltou a olhá-la. — Como está a Liz? Está tudo bem?
Lia ficou sem saber o que dizer. Geralmente ela dizia tudo para o irmão, mas aquilo ela não poderia.
— Eu não posso contar o que aconteceu, mas as coisas não estão muito bem na empresa — mentiu e tentou disfarçar. — Ela está fazendo o melhor que pode. E como estão as coisas por aqui?
— Como sempre! — ele deu de ombros e sorriu.
— Eu preciso tomar um banho e tirar um cochilo. A gente pode conversar depois?
— Claro! Me chama quando você quiser.
— Valeu, mano!
Lia queria muito ficar sozinha para conseguir colocar os pensamentos em ordem. Desde que soubera do intercâmbio, não havia tido tempo de parar e pensar com calma nas coisas.
De fato, depois do banho, Lia caiu desmaiada em sua cama. Seu corpo gritava por descanso. Acordou já era noite e com batidas na porta. Ainda meio grogue, virou-se e viu a mãe ali parada. Ela estava séria, mas acabou lhe dando um sorriso.
— Finalmente voltou! — Ela disse e aproximou-se sentando ao seu lado na cama e abraçando-a.
— Desculpe a ausência, mãe. Nem sei o que dizer.
— Seu pai e eu ficamos com raiva, não vou mentir. Não voltou em casa nem para dizer tchau. Eu concordei com o namoro e que ia apoiar vocês, mas assim...
— Eu fiquei com medo de vocês ficarem falando um monte de coisas e não deixarem eu ir. A Liz estava precisando muito de mim.
— Filha, eu estou bem preocupada. O que é que está acontecendo?
— São problemas com a tia dela — disse sem dar muita corda. — As coisas andam difíceis no trabalho, é isso.
— Essa família dela parece ser bem problemática, não acha? — A mãe perguntou em tom de reprovação. — Você está mesmo disposta a se arriscar com eles?
A pergunta ficou pairando sobre Lia como um fantasma. As coisas estavam ficando tão loucas e assustadoras a cada dia, que estava mesmo se indagando sobre o certo a se fazer. será que estaria sendo uma filha da puta se aceitasse o intercâmbio e deixasse Liz sozinha em um momento tão difícil.
— Mãe... eu amo a Liz, é tudo o que eu sei. Ela merece minha atenção e carinho.
— E nós também não merecemos? — rebateu feito uma sabe-tudo.
A irritadinha odiava se sentir como se tivesse sete anos de idade sendo repreendida pelos pais ao fazer algo que não deveria. “Eu já tenho 22 anos, pelo amor de Deus”!
Eram por essas e outras coisas que já estava para aceitar o pedido de Liz e ir morar com ela. Talvez isso sim fosse o certo a se fazer.
— Você está diferente a cada dia que se passa. Não quero que se afaste de nós...
— Mãe, eu não quero me afastar de vocês. Não quero! Mas eu também não quero ficar longe da minha namorada. Ela precisou de mim, ponto!
— Olha bem como fala, senhorita! — Nádia a repreendeu em tom de voz mais sério. — Pensa que esqueci as regras dessa casa? Você nos deve obediência.
— Puta que pariu! — exclamou se levantando da cama. — Isso de novo?!
— Estou tentando conversar direito com você, Lia. Queremos chegar a um acordo.
— Acordo? — repetiu e franziu o cenho sem entender o que ela quis dizer.
— Enquanto estiver morando nessa casa vai seguir nas regras. Seu pai já disse que vai cortar sua mesada...
Ouvir aquilo foi o fim para Lia. Será que ela não conseguia ter um minuto de sossego por aqueles dias? Primeiro as preocupações de Liz e agora isso.
— Sabe de uma coisa?! — explodiu de vez. Seu sangue ferveu de raiva. — Liz me chamou para ir morar com ela e quer saber de uma coisa? Eu já estou para aceitar.
A mãe ficou estática sentada na cama e Lia deu as costas para ela indo porta a fora. Quando estava passando pelo corredor, o pai vinha subindo as escadas apressado. Os dois se encararam em silêncio, mas ela pode ver logo o olhar reprovação na face dele.
— Mal chegou e já está com malcriação?! — perguntou em tom severo.
Ela pode sentir aquele frio na barriga. Odiava discutir com os pais, mas era inevitável.
— Olá para o senhor também. E sim, eu estava com saudades também.
— Estava? — ele foi se aproximando vagarosamente e ainda sério. — Pois nem pareceu. Saiu para fazer uma prova e volta uma semana depois. Nem para dar uma satisfação, Lia...
— Eu estava com a minha namorada. Para quê esse escarcéu todo?
— Liana! — A mãe a repreendeu, aparecendo na porta do seu quarto. — Isso não é jeito de falar!
— Vocês que não têm jeito de falar comigo. Pelo amor de Deus! Eu tenho 22 anos, não sou mais uma criança...
— Você não é criança, mas enquanto depender de nós vai andar na linha...
— Pois então eu não vou mais morar aqui!
Declarou enraivecida e correu, descendo pelas escadas. Pedro estava ali perto ouvindo tudo e foi atrás dela de imediato. Lia correu para o deck a fim de ficar sozinha.
— Hey! — Pedro chamou-a e ele parecia preocupado. — O que foi isso?
— É por isso que eu não quis voltar aqui naquele dia. Eu sabia que ia ser esse problema todo! — gritou sentindo angústia. Lia se sentia frágil e vulnerável, como se estivesse sob pressão. Confusa como estava, o resultado foi uma explosão vindo de vários dias segurando suas emoções a respeito de tanta coisa. — Já cansei de tentar ser a menina perfeitinha deles. Chega de satisfações. Já chega!
— Mana, tem calma, por favor!
— Calma o cacete, Pedro. Estou cansada!
— Lia, o pai e a mãe estão preocupados com você, só isso! Eu também estou.
Naquele momento Lia calou-se. Era isso mesmo? Até Pedro estava do lado deles? Será que era tão errado assim ela estar perto de sua namorada? Se sentiu perdida e sem saber o que fazer ou agir.
— Pedro, me deixa sozinha, por favor!
O irmão ainda abriu a boca para falar algo, mas desistiu dando de ombros. Ele a olhou com aqueles olhos negros e doces cheios de preocupação, mas acabou deixando-a sozinha e encostando a porta de vidro.
Por sorte, nem o pai e nem a mãe tentaram falar com ela novamente por um tempo. Ficou sozinha lá fora por horas, chorando e pensando no que fazer da vida. Ligou para Liz, tentando aliviar um pouco a aflição que sentia, mas, só para variar, ela não lhe atendeu. Suspirou de raiva. Por que era tão difícil ela atender a porcaria daquele telefone?
Pedro voltou depois de muito tempo lhe oferecendo um prato com sua janta. Ele apenas deixou a comida ao seu lado no sofá e voltou para dentro de casa. Estava tão nervosa e com o estômago tão embrulhado que quase não conseguiu comer. Já passava das nove da noite quando Liz finalmente lhe retornou.
— Oi linda! Desculpe atender só agora. Eu estava em reunião ainda — já foi se explicando logo e seu tom de voz parecia cansado. — Está tudo bem?
— Está tudo uma merd*, Liz! Tudo péssimo! — respondeu irritada nem ligando para nada. — Eu sabia que eles iam falar um monte de besteiras!
— Os seus pais? — ela disse confusa.
— Quem mais seria, porr*? — bufou irritada. — Claro que são eles.
— Own minha irritadinha! Desculpe não poder estar aí agora.
— Liz, só me escuta, ok? — pediu com impaciência. Acabaria logo com aquele suspense e aceitaria sua proposta.
— Ok!
No momento que Lia ia dizer aquilo que Liz mais esperava, ouviu a voz de uma mulher ao fundo e parecia falar com a rockeira: “você pode me levar em casa, Liz”?
— Lia? — ouviu a voz da namorada ao fundo lhe chamando, mas sua cabeça explodiu com um milhão de ideias absurdas e seu sangue ferveu com força.
— Quem está aí com você? — indagou já se exaltando.
— Calma, Lia! É apenas a secretaria do Artur me pedindo carona, só isso. Não é nada demais...
Naquele momento o seu cérebro ciumento e enciumado parou de funcionar racionalmente. Como ela poderia confiar em Liz solta numa cidade grande e sozinha? Nunca mais havia sentido tanto ciúmes quanto naquele momento.
— Lia, fala comigo! — ela pediu novamente e conseguiu ouvir certo receio em sua voz.
— Vai se ferrar, Lisandra! — praticamente gritou e desligou o telefone na cara dela.
Liz imediatamente retornou a ligação, mas declinou todas as vezes. Lia estava puta de raiva naquela noite. Bastava apenas um dia longe dela para que tudo desmoronasse. Será que mesmo com toda a situação tensa que acontecia, ela teria a capacidade de traí-la? Chorando mais ainda, voltou para o seu quarto.
Por sorte, não se deparou com ninguém. Trancou-se no seu quarto, deitou na cama se sentindo enjoada e deprimida. As coisas só iam de mal a pior. Na sua cabeça só conseguia ouvir aquela voz feminina falando toda derretida e cheia de intimidades para cima da namorada. O quão normalmente os subordinados pediam carona para os seus chefes?
Chorou até pegar no sono e sem ter nenhuma resposta sobre o que iria fazer no dia seguinte. Estava literalmente perdida.
***
Pov Liz
Ficou tentando falar com Lia pelo restante da noite, mas sem sucesso. Quando ligou, o telefone dela foi direto para a caixa postal e ela também não recebeu nenhuma das inúmeras mensagens que havia enviado. Se sentiu frustrada. Tudo por culpa de Amanda! Foi quase como se ela tivesse feito de propósito.
“Puta que pariu”! pensou enraivecida. Tinha ódio de situações como aquelas. Lia com ciúmes era a última coisa que precisava naquele momento. Depois que a namorada desligou o telefone em sua cara, ela olhou bem para Amanda e disse em tom gélido:
— Amanda, desculpe, mas eu não posso te levar, estou com um enorme problema para resolver. É melhor que chame um táxi.
As duas estavam juntas no elevador e assim que as portas abriram, saiu com rapidez deixando-a sozinha e sem ao menos lhe desejar boa noite. Assim que entrou em seu carro, pousou a testa sobre a direção e suspirou fundo, fechando os olhos. Toda a tensão e pressão do dia dominaram o seu corpo e o estopim fora seu desentendimento com Lia.
Lágrimas teimaram em rolar por sua face e um flashback do dia passou em sua mente como um filme. Desde o momento em que chegara na empresa até o momento doloroso em que deu de cara com o tio.
Conseguia lembrar de tudo perfeitamente:
— Olha só quem voltou das “férias”! — falou sarcástico, se aproximando dela com um sorriso enviesado na face e sua pose imponente de sempre. — Estamos cheios de trabalho por aqui. Precisamos de todas as mãos.
Liz esforçou-se para manter a pose e não mandar ele para a puta que pariu. Então, lembrando do pedido da tia, apenas deu um leve sorriso e declarou:
— Estou pronta sim, não se preocupe! — olhou bem para ele por alguns segundos, mas logo desviou o olhar. Tudo nele a enojava. — Se o senhor me der licença!
E saiu apressada para o banheiro. Não se sentia bem em estar na presença dele. Era uma mistura de nojo com o fato de seu coração não querer acreditar que ele fora capaz de planejar tal alto.
E além disso, teve que passar o dia todo lidando com as indiretas de Amanda. Precisava ter uma conversa urgente para que ela parasse de lhe cantar. Aquilo não era certo.
Para piorar tudo, havia esquecido de um jantar que aconteceria pela noite com alguns investidores da empresa e Artur havia pedido sua presença. Então teve que aguentar olhar para a cara de Flávio durante toda a noite também. E para completar o dia infeliz, agora estava brigada com Lia. Não faltava mais nada.
Sua vontade foi de pegar o primeiro avião e ir até ela, mas acabara de voltar ao trabalho. Infelizmente precisaria esperar até o fim da semana, embora não soubesse quanto tempo conseguiria aguentar aquilo.
Limpou as lágrimas dos olhos e deu a partida no carro. Queria ficar sozinha e resolveu ir para o apartamento que comprara, mas dessa vez mandou uma mensagem, avisando a tia. Ao chegar no apartamento, tomou um bom banho e deitou em seu colchão no meio da sala. Tentou ligar para Lia novamente, mas sem sucesso. Conformou-se de que não conseguiria mais falar com ela naquela noite.
Nem durante o sono Liz teve sossego. Acordou-se no meio da madrugada, super assustada e chorando com o pesadelo que acabara de ter. No sonho ela passeava de mãos dadas com Lia em um lindo jardim, porém, do nada a namorada levava um tiro bem no meio do peito e caía morta em seus braços. Liz lembrava de olhar para frente e ver um homem de paletó com a arma ainda em punho, mas não conseguia ver o rosto dele. Por algum motivo, sabia que aquele não era Flávio, era algum outro desconhecido.
Estava sufocada com os pensamentos ruins e foi à procura de água na geladeira. Tentava não lembrar das imagens que sonhara e uma aflição tomou conta de seu peito. Ela não se perdoaria se algo acontecesse a Lia. Um súbito mau pressentimento tomou conta de si e teve vontade de ligar para ela, mas seria em vão.
Ainda eram três da manhã, mas não conseguiu mais dormir no resto da madrugada. Ficou o tempo todo remoendo e pensando as terríveis coisas passadas, desde o acidente dos pais até suas aventuras desesperadas. Conseguiu cochilar um pouco por volta das cinco da manhã e foi despertada pelo toque do celular às sete.
Como ali não tinha nenhuma roupa que pudesse vestir para o trabalho, resolveu ir até o condomínio para se trocar e tentar comer algo. Encontrou a tia fazendo sua sessão de fisioterapia na área de lazer perto da hidromassagem. Ela vinha melhorando cada dia mais dos movimentos das pernas e isso deixava Liz um pouco mais aliviada.
— Bom dia — saudou educadamente a tia e a fisioterapeuta que estava com ela.
— Bom dia! Como você está? — perguntou a mais velha com atenção.
— Na mesma — deu de ombros. Seria mentira se dissesse que estava bem. — Eu vim só trocar de roupa e comer alguma coisa.
— Se alimente bem, então — aconselhou preocupada. — Sei que perde o apetite fácil.
— Aprendi a me alimentar melhor com Lia — seu estômago embrulhou ao falar nela. Se sentia angustiada. — Ela sempre briga porque eu como pouco.
— E nisso ela está certa — a tia concordou com veemência. — É bom saber que você está em boas mãos.
— Eu já vou indo então para não me atrasar.
— Tenha um bom dia de trabalho! — Luísa disse e lhe deu uma olhada sugestiva.
— Obrigada!
Algumas semanas atrás estava sendo um prazer ir trabalhar todos os dias. Agora era quase que uma tortura. Ter que fingir que estava bem, disfarçar seus sentimentos e focar nos projetos era uma coisa complicada. Ainda mais quando esbarrava com Flávio.
Ao longo do dia, tentou entrar em contato com Lia, mas sem sucesso. Ela havia lhe bloqueado em tudo, exceto pelas redes sociais, porém, ela não era muito de mexer nisso e não visualizou nenhuma das suas mensagens. De coração partido e sem saber o que fazer, Liz decidiu apenas dar o espaço que ela precisava para esfriar um pouco a cabeça. Só Deus sabia o quanto ela poderia estar irritada. Ainda era terça-feira. Como conseguiria chegar até o fim da semana?
De fato, os dias se arrastaram. Naqueles dias, Liz já começou a ser acompanhada pelo seu segurança para todos os lados. Vitória e Tomás também não saíam de casa sem seus protetores e já havia um no condomínio em tempo integral. Era infinitamente incômoda aquela situação toda.
Na quinta-feira já quase pela noite, perto de sair da empresa, foi que a namorada lhe desbloqueou e não perdeu tempo em ligar para ela.
— O que é? — Lia atendeu já com raiva. Seu tom de voz estava mesmo magoado, porém, Liz nem ligou. Apenas se sentia aliviada por ela finalmente ter aceitado sua ligação.
— A gente precisa conversar, amor — começou a falar toda dengosa. — Eu estava desesperada sem conseguir falar com você.
— Desesperada é? — retrucou mal-humorada. — É porque fez coisa errada e sabe disso!
— Eu não fiz nada errado! — disse tentando manter a calma, mas o tom acusatório dela lhe tirava do sério. — Você nem me deu chance de explicar. Já foi me acusando.
— Pelo amor de Deus, Liz. Se põe no meu lugar — estourou como sempre. — Você está solta por aí sozinha. Eu não sabia que as secretárias aí eram tão próximas assim dos seus chefes. Ela parecia muito íntima te pedindo carona...
— Sabe o que me deixa puta? — Liz interrompeu-a, perdendo a paciência. — Você não ter nem um pouco de confiança em mim. Eu estou passando por uma barra agora, Lia. Você sabe disso! A última coisa que quero é discutir com você. Qual é!
— Olha só quem fala! — retrucou sarcástica. — E o seu ataque porque eu tinha saído com a Vanessa naquele dia?
— Ok, Lia. Tudo bem. Eu surtei naquele dia, eu sei, mas depois a gente conversou e ficou tudo certo. Eu só quero me explicar e ficar numa boa. Não sabe que eu te amo? Odeio brigar com você! — desabafou tudo de uma vez e apenas escutou o silêncio do outro lado da linha.
— Hum! — A irritadinha exclamou.
— Eu te garanto que não aconteceu nada. Eu estava nessa reunião com Artur, Flávio e várias outras pessoas. Eu nem sei porque ela veio me pedir carona, mas enfim — relatou da forma mais sincera que poderia. Mentir naquele caso seria o certo para evitar uma confusão maior. — Eu só quero você, minha linda. Mais ninguém. Será que pode confiar em mim, por favor!
Ouviu que ela suspirou forte do outro lado da linha, mas depois de alguns segundos, declarou baixinho.
— A gente não dá certo com distância, não é?
— Aparentemente não — Liz concordou. Bastou apenas um dia afastadas para que as coisas ruíssem. Quanto mais aquilo iria durar?
— Você vem no fim de semana para cá? — Lia perguntou incerta.
— O que você acha? — A rockeira disse sorridente. Parecia que havia conseguido baixar a ira da namorada. — Nada vai me segurar de ir até você.
Conseguiu ouvir uma risadinha dela e prontamente seu coração pareceu bater aliviado da tensão.
— Vou esperar. Preciso muito ter uma conversa séria com você.
Imediatamente pensou que seria algo com os pais dela. Referente a briga que ela lhe relatara na segunda-feira e, depois da briga, as duas não haviam mais se falado.
— É sobre os seus pais?
— Também! — respondeu em tom de suspense. — O clima está horrível. Eu falei umas coisas sem pensar e agora eles não estão nem olhando na minha cara. Meu pai disse que ia cortar minha mesada e tudo mais.
— Puta que pariu! — exclamou se sentindo culpada. Odiava ser o foco de brigas entre ela e os sogros. — Você merecia ter um relacionamento com uma pessoa menos complicada. Não é justo eu fazer você passar por isso, Lia...
— Deixa de falar besteiras! — A irritadinha interrompeu-a em tom severo. — Eu não trocaria você por mais ninguém e não faria nada diferente. Se eu tivesse que passar por tudo de novo eu passaria.
O coração de Liz não aguentava quando ela falava aquelas coisas. Achava que não merecia uma pessoa que nem Lia. Já havia feito tanta coisa errada na vida e se sentia uma completa egoísta em fazer ela passar por tanto perigo com tudo o que estava acontecendo.
— Eu sinto o mesmo, Lia... é só que... não é justo eu fazer você passar por mais essa.
— A escolha é minha, está entendendo?! — retrucou em tom firme. — Deixa de dizer essas coisas, eu estou falando sério!
— Ok, linda. Me desculpe!
— Hum! — Liz tinha vontade de rir quando ela usava aquela expressão sempre que tinha raiva. Sua irritadinha era mesmo de uma personalidade única.
— Eu estou saindo da empresa agora, ok?
— Saindo sozinha, eu espero!
Liz revirou os olhos e teve vontade de suspirar, mas controlou-se. Não queria um novo embate.
— É claro que estou sozinha, Lia. Estou sozinha e indo direto para casa.
— Para nossa casa? — Ouvir aquilo alertou algo dentro de Liz. A namorada nunca havia dito “nossa casa” antes. Será que ela estava reconsiderando?
— Para a nossa casa? — repetiu para confirmar e Lia sorriu.
— Não foi você mesma que disse que tinha comprado o apartamento para nós duas?! Que também era meu?
— Eu disse isso sim, mas você nunca tinha dito que era nosso antes.
— Eu sei! — respondeu em tom sapeca. — Enfim, vou deixar você ir para casa.
— Tudo bem! Até mais.
— Até mais.
— Hey! — chamou-a antes de desligar. — Está tudo bem entre a gente, não é?
— Está sim!
— Agora estou aliviada. Tchau, linda!
— Tchau!
Se sentindo infinitamente mais leve, desligou o telefone e ficou alguns poucos segundos ainda sentada em sua mesa e sorrindo para o nada. Era sempre bom conseguir fazer as pazes com ela. De longe, viu Amanda saindo da sala de Artur e logo baixou o olhar. Elas não mais se falaram depois da fatídica noite da reunião e preferia que as coisas permanecessem assim.
Ao chegar ao condomínio, viu que havia um carro diferente na garagem da tia e seus pensamentos logo começaram a disparar. Quando entrou na sala, não viu ninguém por ali e foi até o escritório da tia, porém, a porta estava trancada. Sem nem pensar que poderia estar atrapalhando alguma coisa, bateu com força na mesma e ficou à espera.
— Quem é? — a voz de Artur soou do outro lado do cômodo.
— Sou eu, Liz! — respondeu apressada.
Ouviu apenas o silêncio e alguns segundos depois eles abriram a porta. No cômodo estavam sua tia Luísa, Artur, o investigador Hugo Cortez e uma mulher alta vestida de forma imponente, que Liz não sabia quem era. Os quatro a olharam por algum tempo e perante o silêncio, Liz se manifestou.
— O que aconteceu agora? — seu estômago já comprimiu apreensivo. Sabia que lá vinha bomba.
— Hugo nos trouxe mais informações — a tia se pronunciou e somente naquele momento, percebeu que ela estava com os olhos avermelhados. — Essa é a delegada Girão. Delegada, essa é a minha sobrinha, Lisandra.
— Olá senhorita Vargas.
— Olá! — cumprimentou a delegada com um aperto de mãos e depois perguntou temerosa. — O que foi dessa vez?
— Pode falar tudo para ela, Hugo! — Artur confirmou e pôs uma mão sobre o ombro de Liz, lhe passando forças.
— Nós identificamos o sujeito da gravação — Hugo se dispôs a explicar. — Já sabemos quem ele é e conseguimos os endereços dele. Fomos até uma oficina antiga que ele trabalhava. Está tudo abandonado. Nem vestígios dele, mas revistamos o local e encontramos isso.
Nesse momento o investigador levantou um saco plástico transparente e dentro dele havia um celular branco. Sua imaginação disparou totalmente. Com certeza aquilo era uma prova. Uma evidência do que tinha acontecido com a tia.
— O que tem aí?
— Eles encontraram várias conversas do mecânico desaparecido com o Flávio — Artur respondeu com pesar e a olhou com um misto de pena e tristeza e em seguida ela entregou alguns papéis que mostravam as conversas entre eles. — Não resta mais dúvidas depois disso. Foi ele mesmo!
Mesmo já esperando por isso, não quis acreditar que finalmente era oficial. Era mesmo o número dele. Seu tio, irmão de seu pai, do mesmo sangue que ela, era um assassino. Suas entranhas se contorceram de repudia e ódio por ele. Não conseguia acreditar naquilo.
— Hugo já informou tudo para a polícia e veio aqui com a delegada — Luísa concluiu e sentou-se no sofá. Imediatamente Artur foi para o seu lado e abraçou-a. — No fundo eu não queria acreditar que fosse ele.
— Aquele filho da puta! — Liz sussurrou entre dentes e fechou os punhos tamanha raiva que estava sentindo. — Vontade de acabar com a raça desse miserável...
— Senhorita Vargas, vamos manter a calma! — A delegada se pôs ao seu lado e disse em tom firme. — Ele vai pagar por tudo o que fez. Nesse momento meus homens já estão redigindo o pedido de prisão contra ele e vamos ainda hoje detê-lo na delegacia.
— Eu agradeço muito pela atenção, delegada — Artur disse solicito. — E também a você, Hugo, por ter descoberto as pistas com tanta rapidez.
— Eu confesso que foi tudo muito fácil mesmo. Estou até admirado.
— Você sempre faz um bom trabalho, Hugo! — A delegada declarou. — Pode deixar que a minha equipe vai assumir daqui para a frente.
Luísa ainda parecia em estado de choque e enquanto todos se falavam, ela permanecia calada. Liz estava se sentindo irada e uma lágrima de ódio escapou por sua face.
— A gente não pode recuar agora — A rockeira foi até a tia e ajoelhou-se à sua frente. — Eu só sossego quando o Flávio passar o resto dos dias dele na prisão.
— Vamos dar um fim nisso, minha menina! — Luísa disse e passou a mão pelos cabelos dela.
— Vamos correr para a casa do desgraçado agora — A delegada disse parecendo enérgica. — Hugo, você vem comigo!
— Agora mesmo! Vamos colocar pressão nesse desgraçado — Ele virou-se para Liz, Luísa e Artur antes de ir. — Vou manter vocês informados de tudo. Só quero que fiquem aqui em segurança, ok?
Artur acompanhou-os até a porta e assim que os três saíram e um silêncio reinou no escritório. Luísa escorou as mãos na cabeça e apenas começou a chorar silenciosamente. Liz sentou-se ao lado dela no sofá e abraçou-a.
— Onde está Vitória e Tomás?
— Acho que saíram para aproveitar a noite — disse dando de ombros. — Assim que eles chegarem eu vou dar a notícia.
— A senhora está se sentindo bem?
— Só meio que em choque por tudo — Ela levou a mão ao peito e respondeu angustiada. Lágrimas rolavam por sua face. — Eu nunca esperaria isso dele. Nós somos família. Por que ele fez isso?
— Porque ele é um escroto! Um cretino! — Liz praticamente cuspiu as palavras. — Ele vai pagar por essa atrocidade que fez! Não consigo me conformar com isso. Puta que pariu!
— Agora já está nas mãos da justiça.
— Mas a minha vontade é de arrebentar a cara daquele infeliz...
— Shhiu! — Luísa tentou acalmá-la. — Eu só quero ele bem longe de nós. E a certeza de que ele não vai mexer com mais ninguém. Falando nisso, já contratei um guarda-costas para a Lia.
— Como é? — perguntou surpresa.
— Ele vai ser discreto. Vai ficar sempre perto da casa dela e seguir para onde ela for.
— Ok! — suspirou aliviada. — Obrigada, tia.
— Por nada, minha menina!
Artur logo voltou para onde elas estavam e perguntou atenciosamente.
— Vocês estão bem?
— Na medida do possível — Luísa respondeu e lhe lançou um sorriso.
— Eu sei que está muito abalada com tudo isso, querida! — ele foi até ela e os dois trocaram um selinho. Por algum motivo Liz sentiu um desconforto com o ato. — Foi uma noite agitada. Acho que merecemos uma bebida.
— Isso seria bom! — a tia concordou.
— O que você vai querer, Liz?
— A bebida mais forte que tiver, por favor!
— Ok!
A notícia parecia algo tão distante para Liz. Era como se ela não quisesse acreditar no que estava mesmo acontecendo. Tudo estava fácil demais. Ela pegou os papéis com as conversas e voltou a ler apenas para sua ira aumentar ainda mais.
— Não acredito que o Flávio deu um vacilo desses — pensou alto.
— Como assim? — a tia perguntou intrigada.
— Como ele planeja algo assim e simplesmente dá um vacilo de ter conversas gravadas no próprio número? Isso está entranho, não acha?
Luísa apenas franziu o cenho e deu de ombros, mas antes que pudessem comentar mais alguma coisa, Artur voltou com as bebidas.
— Eu não sei nem o que pensar sobre isso! — ele falou depois de algum tempo. — Mas estou feliz que ele seja preso nesse exato momento. Flávio tem que pagar pelo que fez.
Os três passaram bastante tempo conversando sobre o acontecido até que o telefone de Artur tocou. Era Hugo. Os dois não falaram muito. Artur apenas concordou com a cabeça várias vezes e apenas agradeceu.
— Flávio já está detido na delegacia. Está sendo interrogado nesse exato momento.
— Vai começar um verdadeiro inferno agora — Luísa disse e depois de um generoso gole em sua bebida. Ela já havia bebida além da conta e Liz também.
— Nem me fale — Liz concordou. — Amanhã na empresa vai ser um bafafá daqueles. Creio que todo mundo logo vá ficar sabendo disso.
— Estou até vendo que precisaremos fazer uma reunião com acionistas. Com urgência para explicar a situação.
— Eu só tenho medo pela reputação da empresa — Luísa parecia temerosa. — Isso vai pegar muito mal, posso sentir.
— Isso é o de menos! — Liz disse parecendo contrariada. — Como a senhora ainda consegue pensar nisso? Que se foda! Flávio tem que pagar pelo que fez. Se preciso for a senhora se afasta da empresa, vende ou sei lá o quê. O importante aqui é a sua segurança e a sua paz.
— Ainda é cedo para dizer qualquer coisa, Liz — a mais velha respondeu severamente. — Precisamos manter a calma.
— Luísa tem razão, Liz — Artur disse. — Agora mais do que nunca temos que manter o sangue frio. Vai ser um golpe isso. Temos que nos preparar.
Liz ficou calada e pensativa. Estava com tanta raiva. Não queria mais nem pensar em tudo o que viria pela frente. Assim que Vitória e Tomás chegaram, Liz e Artur os deixaram a sós com a mãe para que ela contasse tudo. Foi para o seu quarto levando uma garrafa de uísque consigo. Não conseguiria dormir naquela noite sem muito álcool. Precisava desligar a sua mente.
***
Pov Lia
Depois de brigar com Liz, quase havia feito uma besteira, aceitando a vaga do intercâmbio. Por pouco segurou seus impulsos quanto a isso. Estava tão atordoada naqueles dias que não sabia o que fazer.
Até mesmo o seu ataque de ciúmes havia sido exagerado e admitia isso. Por fim, elas fizeram as pazes e as coisas começaram a ficar mais claras em sua mente. Era definitivo. Iria mesmo aceitar o pedido de ir morar com ela e deixaria o assunto do intercâmbio de lado. Não teria como participar daquele sonho agora. Nem mesmo para Vanessa ela havia dito algo.
Lia trancou-se no quarto durante boa parte da semana quando os pais estavam em casa, não conseguia aguentar o clima péssimo que havia se instaurado ali com eles. Ela e o irmão marcaram as aulas práticas na autoescola e aproveitaram as manhãs para nadarem no lago da cidade, aproveitando os dias de chuva. Pedro era a única pessoa que podia contar no momento e o único que a estava ajudando a manter a sanidade naquele fim de mundo.
Naquela quinta-feira ele chegou ao seu quarto lhe levando um prato com sua janta. Ela se recusava a descer para jantar na mesa com os pais e se não fosse por ele, teria passado vários dias de fome já que não tinha mais dinheiro para comprar comida fora. Era foda!
Depois de jantar ele ficou apenas a olhando por um longo tempo, naquele silêncio pertinente. Lia sabia que ele não estava concordando com o seu comportamento.
— Está me olhando assim por quê?
— Só pensando — respondeu parecendo distante. — Sabe que eu nunca pensei que um dia você ia estar em uma situação como essa?
— Como assim?
— Brigada com a mãe e o pai. Eu não estou gostando nada disso!
— Eles começaram, Pedro — falou já se exaltando. Será que ninguém via o seu lado? — O que você quer que eu faça? Que eu deixe eles ditarem regras sobre o meu relacionamento com a Liz? Eu já tenho 22 anos. Isso está ultrapassado. Cansei de fazer sempre a vontade deles e ficar tentando agradar.
— Lia, pega leve! Eles só estão preocupados com você. Só isso! — o irmão a repreendeu. Nem lembrava a última vez que ele havia estado contra ela. — Até eu estou. Eu sei que vocês duas se amam, mas poxa... dá um tempo para eles.
— Eu vou morar com a Liz, já me decidi.
— Sério que vai mesmo fazer isso? — Pedro parecia incrédulo. — E por birra?
— Eu não estou fazendo por birra. Não lembra que naquele dia eu contei que estava indecisa? Pois agora eu só tenho mais certeza.
— Eu só não quero que você se arrependa depois, mas tirando isso, se for pro teu bem eu fico feliz por isso.
— Obrigada! — agradeceu.
O irmão abraçou-a de forma terna. Ele sabia quando ela estava frágil e apenas a amparou. Eram tantas coisas que estavam acontecendo, que sentiu vontade de falar abertamente com ele.
— Posso confessar uma coisa? — Lia perguntou e olhou-o seriamente. — Mas você não pode contar para ninguém.
— É claro que pode confiar — ele respondeu imediatamente. — O que foi?
— Eu recebi uma ligação semana passada da universidade.
— Para quê? Vai sair da greve?
— Não — Lia deu um longo suspiro e fitou as próprias mãos. — Eles me ligaram para dizer que eu fiquei em uma lista de espera do intercâmbio e que tinha chegado minha vez. Eu acabei passando, mano!
Pedro sorriu exultante ao ouvir isso e abraçou apertando, comemorando a sua conquista.
— Mana, eu não acredito! Caraca! Meus parabéns por isso.
Lia ficou feliz com as felicitações. Já se sentia bem em saber que havia conseguido esse reconhecimento mesmo que por pouco tempo.
— Obrigada, mano! A moça da coordenação me ligou dizendo que eu tinha até o fim do mês para me decidir.
— E agora? O que vai fazer? Tem que começar a juntar sua documentação. Já é dia 10 de maio, não tem tempo a perder.
Naquele momento seu sorriso se quebrou. Ela voltou a fitar as mãos e calou-se. Era doloroso dizer aquilo em voz alta.
— Eu fiquei muito feliz em receber essa notícia, Pedro. Não sabe o quanto, mas... agora não é a hora de eu fazer esse intercâmbio. Não é um bom momento.
— O quê? — Pedro parecia indignado e olhou-a como se ela tivesse perdido o juízo. — Lia, como você consegue uma oportunidade boa dessa e não aproveita? Você está louca?
— Eu não estou louca e não faz eu me arrepender de ter te contado tudo, por favor!
— Lia, agora já foi demais — O irmão se levantou da cama e começou a andar pelo quarto dela. — Você conseguiu isso sozinha, mana. Com seu esforço e estudo. Fazer esse intercâmbio sempre foi seu sonho. Vai desistir disso por causa da Liz? Ela está sabendo disso?
— Ninguém sabe isso! — Lia foi até ele e o segurou pelo braço, fazendo-o lhe encarar. — Promete que não vai dizer isso para ninguém, Pedro.
O irmão reprovava sua decisão e balançou a cabeça várias vezes em negação.
— Lia, eu não vou deixar você perder essa oportunidade. Você vai se arrepender disso.
— Eu sei que posso me arrepender, porr*! — Lia irritou-se. Odiava quando ficavam lhe dizendo o que fazer. — Mas a escolha é minha. Não fica me dizendo o que fazer como se eu fosse uma criança...
— Então para de agir feito uma, Lia — o irmão soltou-se das mãos dela e saiu do quarto.
— Pedro! — ela correu atrás dele e tentou segurá-lo.
— Me solta! — ele declarou de forma firme e a olhou com raiva. Nunca antes ele havia lhe encarado daquela forma e se sentiu intimidada. Parecia até que ele era o irmão mais velho daquela vez. — Você que sabe mesmo o que fazer da sua vida, Liana. Mas você vai se arrepender muito de perder essa oportunidade.
E sem mais olhar para trás, ele saiu, fechando a porta com força. Havia sido doloroso escutar as coisas que Pedro havia dito e apesar de ter ficado com raiva, tinha que admitir que ele estava certo. É claro que estava e ela sabia disso. Perder aquela oportunidade do seu grande sonho era inacreditável.
Será que seus sentimentos por Liz estavam mesmo lhe deixando assim tão cega? Se não fosse pela namorada, tinha certeza que jamais iria perder aquela vaga. Por outro lado, o pensamento de aceitar ir e deixar sua rockeira em um momento tão delicado também era impensável.
Deitou-se na cama e chorou por alguns minutos sem saber o que fazer. Precisava conversar logo com ela e se decidir de uma vez por todas. Achava que seria melhor se a namorada não soubesse. Tinha certeza que ela a incentivaria a ir, mas pensando bem, o certo era ser sincera com ela.
Será que era melhor ser uma cega de amor ou apenas mais uma egoísta?
***
Fim do capítulo
Boa noite, lindas.
Como sempre, desculpem pela demora.
E como eu já avisei lá em cima, aproveitem, pois agora estamos já na fase final da estória.
Beijinhos e espero que gostem o capítulo. S2 S2 S2
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Ester francisco
Em: 28/10/2020
Capítulo tenso!!!! Parece q nunca termina...
Mas q bom q elas estão bem...vai dar td certo!!!
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