Capítulo fresquinho e cremoso pra animar a segunda :D
Capítulo 3: Concentração, por favor
O garçom prontamente chegou à mesa do casal apaixonado, mas ali estava apenas Érika olhando cuidadosamente o cardápio, parecia indecisa quanto ao pedido:
— Oi, um instante, moço... O que vai neste crepe à moda da casa?
Já fora da visão de Érika, Rodolfo puxava Cate pelo braço até a traseira de um caminhão de entregas d’água que estava estacionado depois do carro dele. Suava em bicas, apesar do pouco esforço e da insignificante distância percorrida.
— Bebê, o que estava fazendo ali parada? A prova já não começou? Há quanto tempo você...
— Eu vi o beijo. Não precisaria nem ver, a atmosfera entre vocês já entregava tudo, mesmo sem demonstração de afeto... Meu Deus, pai...
— Mas a prova, você... não entendo... eu...
— Esquece a prova! Você é quem tem que me explicar as coisas por aqui. Merda, que porr* foi isso? Desde quando nos engana assim?
— Minha filha... Não consigo te explicar... eu só... Não é justo contigo que este assunto venha à tona agora! Não posso deixar que estrague seu futuro... você precisa voltar e...
— Deixei cair minha caneta no carro, voltei. Você já havia saído, mas descrevi o carro pro porteiro e ele apontou a direção que seguiu. Eu tenho tempo, resolvi vir atrás. Afinal, você é burro? Traz sua amante pro café do outro lado da rua justamente em frente à universidade!
Rodolfo nada podia falar. A imprudência custou caro. Sabia dos riscos, mas pensou que seria muito novelesco alguma coisa assim acontecer, ainda mais após ver Cate entrando no prédio e não voltando imediatamente para buscar a tal caneta perdida. Foi, realmente, um burro. A excitação cegou-lhe a noção do perigo. Às vezes, a vida imita mesmo a arte, não o contrário.
— Pai... Essa decepção eu nunca esperaria de você! Eu voltarei agora, por mim e não por que está me pedindo. Não vale à pena perder meu vestibular por sua culpa.
Catarina saiu, sem correr, sem derramar lágrimas. Somente quem a conhecesse bem iria notar seu nervosismo: o tique em afastar a franja com a ponta dos dedos e as sobrancelhas arqueadas. Internamente, seu cérebro era um emaranhado de ideias, sentimentos e confusões.
Olhou para a banquinha do lado esquerdo da entrada. Lá vendiam-se água, balinhas, lanches e... canetas. Distante de seu pai, praguejou finalmente, em voz alta e completamente sozinha:
— Por que diabos eu não comprei a maldita caneta aqui?
Daí em diante tudo desmoronou ao seu redor. Não lembrou mais quem era Camilo Castelo Branco. Qual escola literária pertencia Aluísio Azevedo? Qual a fórmula da análise combinatória? Quem era aquela garota que seu pai, seu adorado pai, tão apaixonado, tão dedicado à mãe dela, tão carinhoso, estava beijando num café universitário? Por que o aplicador estava vindo em sua direção?
— Moça, acabou o tempo. Entregue, por favor.
—Como assim, eu comecei agora, eu...
As horas passaram tão rápido. A imagem da garota sorrindo para seu pai – insistindo em aparecer a cada novo texto da prova – e o suor frio que pingava por seu rosto tomaram toda a preparação de anos para aquele teste. Foram necessários minutos para destruir três anos de pura dedicação. Catarina agora não segurava mais as lágrimas. O tempo final servira apenas para que marcasse o gabarito, “chutando” boa parte das questões.
Ao sair, conferiu que o relógio já apontava meio-dia. Obviamente não ligaria para o pai. A vontade de ir para casa era nula, não iria conseguir encarar a mãe sem contar o que havia acontecido naquela manhã. Não queria ver ninguém, falar com ninguém.
Olhou para o celular, já sabendo o que encontraria. De fato, dezesseis registros de chamadas perdidas, todas de Rodolfo, e cinco recados novos na caixa postal. Desligou o celular novamente. Tomou o primeiro ônibus com o letreiro “Terminal” que viu.
O ônibus estava tão lotado como qualquer outro dia, mesmo no fim de semana. Não se deu ao luxo de contemplar a janela, como manda a tradição de um coração aflito, partido pela pessoa que mais admirava na Terra. Seu estado contemplativo deu-se de pé mesmo, empurrada de um lado a outro pelos que passavam rumo à saída. Após cruzar praticamente metade da cidade, enfim desceu no terminal.
Ali, a aglomeração era um pouco diferente, estranhamente animada. Foi quando olhou para uma criança agarrada à mãe, ambas com roupas frescas que deixavam transparecer alças de biquínis. Seguiu passos mecânicos até a parada em que elas estavam, rumo à praia.
A imagem não poderia ser mais estranha. Uma jovem que não aparentava ter nem dezoito anos, sentada na areia, de calça jeans, tênis e camiseta vermelha. Longos cabelos negros invadindo seu rosto, extremamente assanhados pelo vento:
— O que eu vou fazer agora?
Esperava que o sol quente a derretesse de vez, ou que a resposta surgisse magicamente do mar, tão óbvia como a dos questionamentos que fez em frente ao espelho naquela manhã. Passou os dedos pela franja, a quem estava querendo enganar? Sabia sim o que tinha de fazer, mas por hora, pelo menos, adiaria ao máximo voltar para casa.
Fim do capítulo
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Joyyycefelix
Em: 12/11/2021
Já me encontrei em uma situação conflitante, daquelas que voltar para casa não é a melhor saída, quando isso aconteceu eu também fui para a praia... Foi o mais belo pôr do Sol que vivenciei.
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