Desentendimento/Partida
Desentendimento/Partida
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...
--O que houve com ele? Pra onde o levaram? -- Perguntei quando o silêncio perdurou mais que demais, imaginei o pior. (Viúva?)
--Respira e mantenha calma, por favor! --Falou Nina colocando sua mão sobre a minha. --Ele piorou muito. Tiveram que levá-lo daqui o mais rápido possível para o hospital na cidade mais próxima.. porque ninguém da cidade se arriscaria vir até aqui! Não temos como saber seu estado atual. Mas tenho certeza que deve estar melhor. - Nina explicou.
-- Ok. Mas não me levaram junto por quê? Por que ninguém vem até aqui? E.. Onde é aqui? - Perguntei enquanto finalmente olhei pela janela. Só dava pra ver mato até perder de vista.
--Não dava pra te levar! - Disse Raíra, seca sem nem me olhar.
--E por que não? Eu sou bem mais leve que el..
--Cabelo de fogo precisava mais. Avatí dorme muito. Chamei, chamei, não acordou, não foi! - Raíra falou grossa, se levantando. (Acho que ela não foi muito com a minha cara), fiquei triste com esse pensamento, sem entender o porquê.
--Yaya, Micaella dormia profundamente! O corpo dela precisava desse descanso. - Disse Nina para Raíra.
--Hum. - Murmurou Raíra com desdém.
--Onde é aqui? - Perguntei tentando ignorar o fato de que Raíra não gostava de mim nem fazia questão de esconder.
--Amazonas. - Respondeu Raíra séria, encostando na parede onde estava quando cheguei.
--No meio da floresta amazônica para ser um pouco mais precisa. É como um labirinto aqui, Micaella. Além de ser a horas da cidade mais próxima. Quem não conhece bem ou vem com um guia de verdade, se perde fácil e acaba morrendo no meio da mata. Não te levaram porque o Ruivo é muito pesado. Raíra e só mais 4 índios da aldeia vizinha que aceitaram ajudar.
Fiquei bem assustada com tudo. Como eu iria sair dali? Então, tentei imaginar que era tudo mentira, mais fácil para digerir. Negação.
--Se é tão difícil o acesso até aqui, deve ter sido difícil levá-lo. Como fizeram isso tão rápido?
--Cê achou rápido porque não foi você que levou. - Falou Raíra parecendo irritada.
--Achei rápido sim. Ouvi você, um homem com o sotaque igual ao teu e Mariane conversando no quarto onde eu estava, parecia ser umas 18 horas. No entanto, Henry já piorou, vocês já o levaram a cidade, voltaram e agora parece não passar das 10h da manhã..
--Micaella, você dormiu por dias. Eles levaram o Henry naquela madrugada há três dias. Faziam quatro dias que estavam aqui. Antes que você pergunte o porquê de não termos te levado dormindo nesses dias, te digo, os índios que ajudaram a levar Henry, inclusive Raoní que é irmão da Raíra, foram proibidos pelo Cacique de ajudar novamente. E não dá pra contrariar o Cacique dessa forma, se teimassem em ajudar poderiam ser banidos da aldeia.
Ficou um silêncio constrangedor depois disso. Raíra estava com o semblante fechado. Definitivamente ela não foi com a minha cara. O silêncio foi quebrado pela loirinha.
--Tia, quando cê vai embora? Vai junto com a gente.
--Não sei, lindinha! - Olhei pra Raíra (que não olhava pra mim). --Quando posso ir? -- Perguntei.
--Se conseguir andar sozinha pode ir agora! -- Resmungou.
--Ok. - Devo ter dado muito trabalho para ela. Acho que é isso. Ou ela só não gosta de mim mesmo.
--Yaya gentil como sempre. Logo você estará bem, Mika. Aposto que senti falta da cidade, da sua vida.. - Disse Nina puxando assunto.
--Eu não me lembro bem da minha vida. Só tenho algumas lembraças, mas não sei se são minhas. Vejo pessoas, cenas.. Mas não lembro nomes, nem vejo rostos nítidos.
--Só lembra seu nome? - Indagou curiosa.
Contei que só sabia porque Henry me chamou assim e tudo mais que ele me disse. Conversamos mais um pouco, bom eu e a Nina. Raíra não dizia nada e Mari estava brincando, alheia a tudo.
--Quero saber se esse é meu nome mesmo, lembrar de alguma coisa relacionada a mim. No local do acidente deve ter algum papel ou objeto que me ajude a lembrar ou pra confirmar nome, cidade.. algo para quando chegar na cidade possa ir atrás de algum parente ou amigo. Se estivesse andando direito iria até lá, mas bah.. nem sei onde "lá" é, né.
--Vou procurar lugar onde Avatí caiu, não deve ser muito longe daqui. --Raíra se pronunciou depois de um longo suspiro. Achei fofo ela se propor a isso. No entanto, lembrei onde estávamos, uma sensação de zelo preencheu meu corpo, não queria que nada de ruim acontecesse a Raíra. E não queria que se afastasse de mim.
--É perigoso tu ir se embrenhar no meio dessa mata sozinha, poderia ir cont..
--Cê só ia me atrapalhar mais. Vo sozinha! --Cortou.
Tentei disfarçar a tristeza que me abateu com o modo rude que Raíra me tratava, mas ainda me preocupei com aquela guria marrenta.
--Tu pode se perder, não achar o caminho de volta, morrer de fome, sede ou pior algum bicho selvagem pode te machucar ou..
--Relaxa, Mika! Yaya conhece essa floresta melhor que o próprio corpo e ela 'É' um bicho selvagem. - Falou Nina rindo me interrompendo, acabei rindo junto. Olhei para Raíra que continuava séria. (Ela é linda demais, mesmo sendo uma "ogra")
--Já vô, volto logo. - Raíra falou depois de bufar (que sotaque encantador). Foi em direção a porta de saida para o "quintal"/mata. Antes que ela saísse Nina a segurou pelo braço falando em um idioma que eu não soube identificar, conversaram um pouco nele e Raíra (de costas pra mim.. aiai, melhor não comentar) saiu brava, Nina sorria. Não entendi nada nem perguntei o que houve. Não sou curiosa. U.U
Depois Nina (só) disse que era Guaraní aquela língua que falavam, mas não disse o que conversaram (infelizmente). Aposto que Raíra foi só pra ficar longe de mim, Nina a provocou dizendo que ainda teria que me levar para cidade e ela ficou ainda mais irritadinha.
. . .
Fim do capítulo
Continua..
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