Bom dia galerinha, segue aqui as músicas do capítulo:
> Call me - Chris Montez
https://www.youtube.com/watch?v=gZLgq8NjzGk
> Irene - Caetano Veloso
https://www.youtube.com/watch?v=INA4Tc0qVcE
> Soy loco por ti America - Caetano Veloso
https://www.youtube.com/watch?v=xL2eemWSH5U
> Senza Fine - Ornella Vanoni
https://www.youtube.com/watch?v=L21teozub6k
Capitulo 12 - Pelo olhar de Janine
CAPÍTULO 12 - POV - Pelos olhos de Janine
Janine seguia trabalhando duramente como socorrista, seu trabalho era impecável, ajudava pessoas que desencarnavam através de mortes violentas e era bastante elogiada, não apenas pela equipe e por seus líderes, mas, principalmente por pessoas que reencontrava depois do resgate. Já não tinha mais necessidade de se alimentar, nem de dormir e já conseguia se higienizar apenas com a força do pensamento, enfim, quem a visse tinha certeza que estava tudo bem, mas, o seu bom humor, as brincadeiras, o brilho no olhar não estavam mais presentes, talvez por isso passava a maior parte do tempo trabalhando incansavelmente.
Um dos poucos momentos que tirava para descansar, depois de muita insistência do líder de sua equipe, ficava no seu quarto, ouvindo músicas e escrevendo as suas memórias em um pequeno diário, nem sabia pra quê, mas, seguia com essa rotina. Tinha acabado de terminar a última frase do dia e ligou o pequeno aparelho de som, digitando um nome de uma música na tampa, era "Senza Fine de Ornella Vanoni", escutou a música para logo depois mudar para "Call me - Chris Montez", depois escolheu o volume e uma das versões que estavam disponíveis, colocando a música para tocar.
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If you're feelin' sad and lonely
There's a service I can render
Tell the one who loves you only
I can be so warm and tender
Call me, don't be afraid, you can call me
Maybe it's late but just call me
Tell me and I'll be around...
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Uma lágrima escorreu pelo rosto, seguida de muitas outras, não a tempo de esconder do colega de trabalho que entrou no quarto para chama-la.
- Janine, desculpe interromper, mas, preciso que me siga, desculpa entrar abruptamente nesse teu momento, estou aqui a tanto tempo que as vezes até esqueço que os socorristas tiveram uma vida anterior a essa, que tem seus medos, seus amores, enfim, tudo o que nós seres humanos temos, seja desse lado, ou do outro lado, não é?.
- Oi Felipe, não precisa se desculpar, estava apenas em um momento de saudade, perdida nos anos 60, e ouvindo uma música que me traz uma ótima recordação.
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Flashback on
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O sítio era bastante escondido, localizado em uma serra gaúcha, era lá que Janine, Anna, Camilla e mais alguns companheiros se escondiam após o sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick em 04 de setembro de 1969, com o objetivo de libertar outros integrantes que haviam sido presos pelos militares.
Janine e os demais companheiros pertenciam ao MR-8, grupo atuante do Rio de Janeiro, formado principalmente por estudantes universitários, foram eles que idealizaram o sequestro de Elbrick, cujo o objetivo inicial era a troca do embaixador por um amigo preso pelos militares, no entanto, mudaram de ideia, exigindo que um manifesto do grupo fosse lido na íntegra em cadeia nacional tanto no rádio, quanto na televisão, e também exigiram que quinze presos políticos fossem libertos e enviados em segurança para o exterior. Assim foi feito, os quinze presos embarcaram em um avião da Força Aérea Brasileira - FAB em um avião Hércules 56, que os levou até o México, onde foram libertados. Confirmada a chegada dos presos políticos em segurança, o grupo soltou o embaixador, que ficou mantido em cativeiro por dois dias.
Mas, não era isso que trazia saudade a Janine, o que mais trazia saudade era o clima de fraternidade que existia naquele sítio, ali escondida se sentia protegida, mais do que isso, se sentia feliz como nunca tinha sido, seu coração estava carregado de esperanças e sentia que junto com a namorada e com os seus companheiros poderiam lutar por uma vida melhor, queriam liberdade, desejavam o fim do governo opressor, enfim, Janine gostaria de viver em um país onde não fosse preciso sequestrar uma pessoa para libertar outras.
Longe de tudo isso, muitas vezes encostada em uma árvore, parava para admirar onde estavam residindo, o sítio era lindo, todo construído de tijolos aparentes com uma enorme varanda onde podiam olhar o pôr do sol, ao redor da construção havia muitas árvores frutíferas, muitas flores e canteiros com leguminosas e folhas, além de vários bichos que compunham o cenário, todos eles batizados com um nome por um integrante sorteado do grupo, os bichinhos eram cuidados de forma revezada, todos viravam animais de estimação, ali nada era morto, das galinhas só utilizavam os ovos, da vaca apenas seu leite. Ali os companheiros podiam relaxar, tocar violão, ouvir música, dançar, ler, namorar e esperar as futuras ordens de sua liderança, os líderes voltavam a cada mês trazendo muitos mantimentos arrecadados pela organização, junto a isso, um dia trouxeram Ajax, um filhote de cachorro, um pequinês que foi dado de presente de aniversário a Camilla, Ajax veio com um bolo de chocolate com confetes coloridos um pouco amassado devido a viagem, mas, para Camilla, era o bolo mais lindo que havia ganho em toda sua vida.
Os vizinhos de nada sabiam, na verdade nem desconfiavam, consideravam o grupo totalmente alienado, com suas roupas coloridas, suas músicas e barulhos típicos dos jovens, achavam que eram alegres, ricos e que curtiam uma vida alternativa e despreocupada. Em apenas uma coisa tinham razão, todos estavam alegres ou se esforçavam dentro de um contexto para isso, enfim, estavam sobrevivendo, tentando afogar os momentos tristes, e de alguma forma fazer do esconderijo um lar, por isso mantinham tudo de forma impecável, o único problema era a falta de um chuveiro elétrico que permaneceu assim até o final do segundo mês, fazer o quê?, o banho era no frio mesmo, Janine contava até três e entrava de mão dada com Anna debaixo do chuveiro gelado.
- Meu amor, vamos fingir que estamos na cachoeira, a água é gelada por lá, não é?, fecha os olhos e imagina, daqui a pouco o corpo acostuma, vê, já está melhorando. - Janine dizia tentando não bater o queixo e segurando os tremores que estava sentindo, dessa forma Anna sentiria menos frio, Janine sorria e pensava "o psicológico é tudo".
- É mesmo amor, já está melhorando, você tem razão, olha, já acostumei - Anna respondia morrendo de frio, mas, tentando disfarçar da forma que podia para que a namorada não ficasse triste.
Depois que trocavam de roupa, corriam para a lareira para se aquecer perto do fogo, era lá que muitas vezes ficavam abraçadas enquanto Camilla tocava um pouco o violão vermelho e gasto pelo tempo, sempre músicas de mpb pois se recusava a tocar qualquer música em outro idioma que não fosse o seu, já tinha decidido tudo com Roger, após a volta do exílio teriam um filho e ele seria criado como ela nas areias de Ipanema.
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"Eu quero ir, minha gente, eu não sou daqui
Eu não tenho nada, quero ver Irene rir
Quero ver Irene dar sua risada"
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- Ai Camilla, Irene de novo?, só tem essa frase a música todinha, passa para a próxima.
- Oh Janine, você não entendeu a profundidade dessa música, tem uma segunda parte, logo depois ele fala "Irene ri, Irene ri, Irene"...
- Quer saber?, pra mim essa música não diz nada, só fala de uma tal de Irene que ri o tempo todo.
Camilla olha com desdém para logo depois rir, passando a cantar "Soy loco por ti America", também de Caetano Veloso.
- Ai Camilla, essa música tem um pouco de espanhol - Falou Janine.
- Oh Janine, mas, a música é do Caetano e tem todo um contexto, se aquece ai com a Anna e fica quietinha, não estou dizendo, as duas estão até com a boca roxa, se quiser me ouvir tocar já sabem, eu escolho as músicas.
Janine sentiu falta da sua amiga, as vezes passava no Rio de Janeiro para visita-la no lar onde havia reencarnado, pertinho das areias de Ipanema, seu nome era novamente Camilla e já dizia as primeiras palavras, era vizinha de Roger, reencarnado como Dante, seu namorado de guerrilha, nascido dois anos antes e assim poderiam no futuro construir seus planos e o amor que havia sido retirado deles, sempre que encontrava Roger reencarnado estirava os bracinhos e dizia "rô, rô", a mãe ria e corrigia, "não querida, esse é Dante, nosso vizinho, o Dan", Camila bufava irritada, e seguia chamado de Rô.
Janine sorriu novamente ao lembrar de Anna, tempos depois até sentiram falta da água gelada quando instalaram o chuveiro elétrico, mas, logo descobriram a delícia que era namorar debaixo da água quentinha.
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Flashback off
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- Janine? - falou novamente Felipe tentando traze-la de volta ao presente.
- Pode falar, vou só desligar a música, não quer sentar?.
Felipe sentou percebendo que a mesa quadrada com as quatro cadeiras era uma réplica dos anos 60.
- Janine, resgatamos de uma zona umbralina bem radical um homem bem debilitado, ele está em estado deplorável, foi torturado por entidades trevosas e agora está no hospital, precisando de um tratamento profundo, então, fomos acessar os seus registros e vimos que ele é o seu ex marido, você tem condições de ir até ele?.
- Claro Felipe já o perdoei há muito tempo.
Janine deixou as lembranças anotadas e seguiu em direção ao posto de saúde, Renato realmente não era nem sombra do homem forte que havia sido, no entanto, quando entrou na ala dos recém resgatados, foi reconhecida. Renato deu um grito de pavor, muitas vezes nas suas alucinações Janine e Anna apareciam com objetos de tortura diversos, no entanto, eram apenas os efeitos das drogas e do sentimento de culpa que carregava.
- Calma Renato, não vou lhe fazer mal algum, na verdade vim aplicar uma passe, uma energia benéfica, pode ter certeza que vai se sentir muito melhor depois, na verdade, eu vim te dar o que mais precisa no momento, não se preocupe Renato, está perdoado há muito tempo, tente se recuperar, tenho certeza que vamos ter muito tempo de conversar depois.
Janine pediu licença a Felipe e ia em direção ao seu quarto quando foi avisada que tinha uma visitante esperando na Ala 7. A socorrista franziu a sobrancelha, como fazia quando questionava ou estava intrigada com algo, mas, seguiu, quem poderia ser?.
Assim que entrou correu e afagou Helena em seus braços.
- Helena, minha amiga, que alegria em te ver aqui...
- Janine, querida, estou precisando de você, na verdade, Alice precisa muito mais. Janine, Irina a prendeu no "sono intocável", você sabe, para todos ela está apenas em coma, eu tentei entrar na área que ela está, mas, não consegui acessa-la, tenho certeza que você pode meu bem, eu sei que é perigoso, que pode ficar presa junto com ela, pra sempre se Irina quiser...bom, eu, eu não tinha mais a quem pedir ajuda.
- Pode deixar Helena, volto contigo, eu tenho meus truques, sei como lidar com esses casos.
Janine estava com medo, mas, o medo não era de fato nada perto do sentimento que a movia, juntou os pertences que estavam no seu quarto, desintegrou o que não podia levar, despediu-se da sua equipe e junto com Helena voltou a orbe terrestre.
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
Gabi2020
Em: 30/07/2020
Que trilha sonora maravilhosa!! Não tem como ficar alheia a tantas preciosidades, destaque para Call me do Chris Montez, que foi tema da personagem Heloísa em Anos Rebeldes.
Resposta do autor:
Oie Gabi, foi lá que busquei inspiração para as músicas...amava essa série...a Heloísa foi inspirada em uma guerrilheira, a única que de fato participou do sequestro do embaixador.
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