Marina saiu triste por não convencer a mãe, mas como já
havia adiantado que não queria casar-se, pelo menos não com
ele, estava mais tranquila. Antes de ir para aula, passaria na loja
e mataria a saudade de Lorena.
Após o expediente, Marina seguiu rumo ao centro.
— Oi, Lorena, tudo bem? — disse sorridente.
Lorena levou um susto, mas logo abriu um enorme sorriso
que iluminou tudo ao redor:
— Oi, am... Mari, o que faz aqui? — se conteve — Além de
me deixar feliz!
— Vim te ver um pouco, já está fechando?
— Sim, quer me ajudar?
— Claro, assim teremos um tempinho a mais.
— Anna, pode ir, eu fecho a loja — Lorena dispensou a
funcionária.
Assim que Anna saiu e fecharam as portas, as duas se beijaram
muito.
— Lorena, essa semana eu termino com Giane e, apesar
de minha mãe não aprovar, já lhe adiantei que não me casarei
com ele. Não queria mentir, ela é minha mãe. E logo estaremos
livres para viver o nosso amor — e abraçou Lorena.
— Como assim?! Você teve coragem de falar para sua mãe,
não falou sobre nós, né? — perguntou curiosa.
— Não falei sobre nós, apenas que poderia não me casar
com Giane. Ela não gostou, disse que seria um desgosto. Sei
que ela não está totalmente boa, mas é o certo.
— Se fosse possível, eu a amaria ainda mais, Marina!
Lorena pegou Marina e a colocou deitada no balcão, afastou
suas pernas e começou a beijá-la, desde seu ventre até os
seios, esfregou a mão em seu sexo, tirou sua roupa e a amou.
Marina precisava ir à aula, despediram-se na porta da loja,
com Marina roubando um selinho de Lorena. Neste momento,
seu pai Gustavo estava na praça e, ao ver a cena, quase teve um
enfarte, mas não deixou que elas o vissem. Foi embora desnorteado,
chegou em casa e foi direto para o banheiro, lavou seu
rosto e tentou raciocinar sobre o que fazer. Sentou-se em sua
cadeira no canto da sala, ficou em silêncio. Logo chegou sua esposa
que o estranhou, pois ele sempre fora um baixinho muito
falante, rabugento, reclamava de tudo, mas quieto ele não era.
— Gustavo, que cara é essa? Você está esquisito! Está passando
bem?
— Estou bem, não é nada, deixe-me — respondeu grosseiramente.
A cena ficava repassando em sua cabeça, sua filha estava
com uma mulher. Era um homem rígido, mesmo sendo brasileiro
e mais aberto a essa situação do que os italianos, ele não
esperava por isso. Ficou pensando se deveria ou não contar à
sua esposa e em como ela reagiria também. Ficou sentado por
horas até Marina chegar da aula.
Marina fora para a aula, apesar do cansaço devido às últimas
semanas, mas só pensava no momento de amor que teve
na loja. Pensava em Lorena o tempo todo, mal conseguia se
concentrar. Chegou em casa e foi direto à cozinha comer, no
caminho, ao passar pela sala, deu de cara com seu pai sentado
no escuro:
— Pai, que susto, o que o senhor está fazendo sentado sozinho
no escuro? Quase me mata de susto! — riu e beijou-lhe
a testa.
— Nada, como foi seu dia? — perguntou, encarando
Marina.
— Foi ótimo, pai! Boa noite, vou comer uma fruta e dormir
— respondeu toda sorridente, sem saber que ela já conhecia
a verdade.
Pela manhã, seu pai nem conversou com Sophia, se ela lhe
dirigia a palavra, ele respondia com frases curtas. Ela estranhou,
mas preferiu não puxar assunto tão cedo.
— Mãe, a senhora está bem? Quer alguma coisa? — Marina
estava preocupada.
— Só um pouco indisposta, vou tomar meu café e deitar.
Marina saiu para o trabalho preocupada, mas o médico disse
que poderia ser assim mesmo, haveria dias de indisposição.
Enquanto Sophia repousava, seu marido pensava no que fazer.
Deixou sua cunhada cuidando da casa e foi andar pelas
ruas de Florença. Ele não era homofóbico, mas nunca pensara
que sua filha pudesse ser lésbica. Ter visto o que viu, o deixou
confuso e, ao mesmo tempo, bravo. Sabia que o desejo de sua
esposa era vê-la casando-se na igreja. E com Giane. Sua cabeça
estava fervilhando. Caminhava perto do Duomo, quando encontrou
Lorena que se apressava para abrir a loja:
— É você a mulher que está virando a cabeça da minha filha?
—disse nervoso, chamando a atenção de algumas pessoas
que passavam.
— Senhor, eu o conheço? — Lorena se assustou.
— Você estava beijando minha filha ontem na frente de
uma loja, o que pensa que está fazendo? Você sabe que minha
mulher está doente? Que se ela souber do que está acontecendo,
pode sofrer ainda mais?
Lorena ficou sem reação, não sabia o que dizer, não gostava
de discussões e foi pega de surpresa. Só olhava ao redor e pensava
na vergonha que estava passando.
— Senhor, acho que precisa conversar com sua filha. Não é
o que o senhor está pensando.
— E é o quê? Vi vocês se agarrando na frente de todo mundo!
E ela anda dizendo em casa que não vai mais se casar. Eu quero você fora da vida dela, por isso ela queria terminar com
Giane, por causa de... Disso! — esbravejou — Você quer que
minha filha se sinta culpada? Você quer que minha esposa descubra
e morra, imagina a culpa que ela sentiria, é isso o que
você quer para ela?
— Marina me disse que ela estava bem, que foi só um susto.
A discussão ocorria na frente de todos, Lorena tentava baixar
o tom de voz para não chamar tanto a atenção.
— Um susto? O que minha filha não sabe é que a mãe vem
escondendo sua doença por anos, eu pedi ao médico que não
contasse a ninguém. Agora, você quer isso para Marina? Deixe
minha família em paz. Se Sophia morrer por sua causa, Marina
nunca lhe perdoaria e nem a sim mesma.
Lorena ficou arrasada, descompensada, saiu envergonhada
para a loja, entrou correndo e chorando, pediu a Anna que
cuidasse de tudo e foi para os fundos. Desabou a chorar, pensou
que, se fosse homem, não passaria pelo mesmo constrangimento.
Esse tipo de coisa a deixava com muita raiva, mas ela
não estava brava com o pai de Marina, apesar de ter sido ofendida,
entendia que ele estava magoado com a situação da esposa.
E isso começou a pesar. Se sua mãe descobrisse e lhe acontecesse
algo, como Marina reagiria? Será que conseguiriam ser
felizes com a culpa entre elas?
Lembrou-se de sua própria mãe, quando descobriu a sua
homossexualidade, ficou doente. Sabia muito bem o que Marina
sentiria.
Lorena mal conseguiu trabalhar, Anna percebeu que ela
não estava bem e cuidou de tudo. No fim da tarde, Marina mandou uma mensagem perguntando se elas poderiam se encontrar:
“Oi, não estou a fim de ir à aula hoje, será que podemos
no ver?”.
“Oi, Marina, estou cansada hoje, o dia foi duro, também não
é bom você faltar à aula, nos vemos amanhã, tudo bem? Beijo.”.
Marina estranhou a mensagem, Lorena fora muito direta, mas
teve de respeitar. Foi para a aula e depois, em casa, pensou que,
até que enfim, terminaria com Giane. Gostava dele, mas há tempos
não estava feliz, agora entendia o porquê. E, quando rompesse
com ele, poderia, finalmente, tentar ser feliz de verdade.
Lorena se deitou e, em lágrimas, ficou pensando no que fazer,
em como fazer.
Fim do capítulo

rhina
24/06/2020 às 19:26
Caracas.
Pesou heim
Rhina