Mel - London por Jubileu
Capitulo 5
Antes de voltarmos, passamos pelo mercado, fiz uma super compra para Olivia, entre pães, frutas, legumes e carne. Eu confesso, não era muito boa para cozinhar e já que ela adorava. Sem dizer que andei comendo com ela, ou seja, já estava me sentindo mal por não ter ajudado com nada praticamente. Olivia já sorria, como se nada tivesse acontecido há umas horas atrás. Subimos com um monte de sacolas e o frigobar ficou praticamente lotado de compras. Ela preferiu não subir nenhuma das caixas, apenas o violão.
- Está tudo bem com você?
- Sim, olha desculpa pela intimidadi mais cedo, eu só querria... – disse constrangida olhando para os dedos.
- Fica tranqüila. Eu teria feito o mesmo.
Essa era uma possibilidade que não tinha passado pela minha cabeça. Ter certas intimidades com ela, como essa que tivemos quando senti seu corpo colando ao meu, sentindo os seios fartos nas minhas costas, o mamilo rijo pelo contato inesperado. Estava tão mergulhada no meu desespero que não sentia mais nada, além disso. Olhei de soslaio para ela, tinha os olhos baixos e contornei os detalhes do rosto sem que ela visse. As sobrancelhas eram grossas, o piercing brilhava conforme o seu movimento. Os lábios eram bem definidos, lábio inferior carnudo que vez ou outra ela mordia. Disfarçava quando ela olhava para o meu lado e de novo passeava o quarto com o olhar perdido, como descobrindo o que ainda era novo. Aquele quarto era realmente de dar arrepio às vezes. Tinha o rosto meio quadrado, covinha no queixo e sardas no rosto, sobre o nariz. Como não me lembrar da Giulia, dos cabelos ruivos caindo no meu peito quando ela me beijava e do seu gosto na minha boca? Senti um desejo repentino e deixei escapar um gemido. Ela baixou os olhos e virou o rosto, me olhando seriamente.
- É... quer uma cerveja? – tentei disfarçar.
- Que tal um chá? – sorriu ao me ver embaraçada.
- Eu aceito. – disse sentindo o rosto queimar.
Qualquer coisa estava valendo depois daquele gemido.
- Vamus descer?
- Hum, a torta já deve ter esfriado!
- Já sim.
Ela desceu na frente, posso dizer que se ela não usasse aquela calça de moletom, diria que seria um tanto indecente olhá-la assim. Ela era muito gostosa debaixo daquele tecido todo.
- Pare com isso Mel... – sussurrei tentando me concentrar no lance de degraus debaixo dos meus pés.
Quando entramos na cozinha Olivia parou e eu passei por ela, mas não sabia a razão dela ter parado. Quando me virei, uma mulher estava sentada na mesa tomando um chá, o aroma de canela ainda estava fresco e a dona Celina conversava animadamente com ela. Aparentava ter uns trinta e cinco anos, por ai.
- Hello! – disse cumprimentando as duas e olhando para trás onde Olivia estava, mas ela não se mexeu.
Dona Celina disse que essa moça queria falar com Olivia e que a deixássemos a sós para conversarem. Acenei com a cabeça e sai da cozinha, sentando no sofá da recepção.
A noite caia repentina, o vento assobiava lá fora e o tempo em que Olivia ficou com aquela mulher conversando parecia uma eternidade. De repente a mulher passou por mim, arrumou o cachecol, me deu boa noite e saiu. Levantei e fui ter com Olivia. Quando entrei na cozinha ela cortava a torta e tinha posto a água na chaleira para fazer o chá. Ficamos em silêncio e seu semblante pareceu-me indiferente àquela visita.
Coloquei dois pratos, duas xícaras, garfos e facas sobre a mesa. Olivia nos serviu e comemos. Ela não olhava nos meus olhos e nem falava comigo, estava agitada, nervosa. Toda hora ela levava a mão enfaixada na xícara e pensei comigo: essa xícara vai virar ou quebrar na pior das hipóteses. Ela comia um pedaço de torta e mais uma vez levou a esquerda para pegar a xícara. E não deu outra. Só ouvi um gemido, o pedaço de torta caído sobre a madeira da mesa e a xícara entornada. O semblante era de dor. Ela segurava a mão esquerda pelo pulso por ter derramado o chá quente sobre ela. Corri molhando um pano e apertando a água sobre sua mão. Ela chorava. Não sei se pela dor ou pela conversa que teve com aquela estranha. Passei o braço pelo seu ombro e a afaguei. E ela me abraçou pela cintura aos prantos. Quando penso que só coisas ruins aconteciam comigo, eu estava completamente enganada. Sentia que ela estava sufocada ali.
- Vamos sair daqui – disse baixinho. – Só lavar estas coisas. É coisa rápida.
- Podemus sair?
- De carro?
- Não, caminhar um pouco.
- Sim, pronto acabei. Precisamos trocar isso antes.
- Depoix...
- Tem certeza?
- Sim. – disse levantando-se.
- Deixa-me ver.
- Estou bem.
E cruzamos a recepção passando pela porta de madeira. As luzes refletiam no chão molhado, garoava e não estávamos com os gorros.
- Está com frio? – disse olhando para a camisa fina de mangas compridas.
- Não.
Mel apenas ande, não fale. E foi o que fiz. Passamos por dois restaurantes repletos de gente. Crianças gritavam, nem mesmo pareciam dar conta do frio que fazia. Penso que demoraria a acostumar com o clima. Os dias eram mais curtos, o céu estava sempre nublado, pelo menos nesses dias que eu estava ali. Alguém tocava sax e ela parou para ver onde era.
- Quer ouvir? – procurei minha carteira no bolso, mas não a tinha pegado e estava tocando dentro de um bar.
- Podemus? – olhou para mim com um sorriso.
- Claro, só não vamos poder entrar, não trouxe a carteira.
- Não precisar. – olhou para os dois lados e atravessou. – Vem!
E corri atrás dela.
Sentamos em uma muretinha de tijolos à vista e ficamos ali a ver o movimento dos carros, pessoas e ouvindo a música. Paige e eu fazíamos muito isso, tinha um barzinho que ela adorava ir só por causa da música. Não era o mais badalado, mas vivia cheio.
Vi que ela tremia de frio, mas não queria voltar. Sentei mais perto passando o meu braço pelas costas, tentando aquecê-la e ela aninhou-se a mim.
- Esta melhor assim?
- Hum rum. – disse com os olhos fechados, voltando a chorar.
- Por favor, não chora... – e a abracei no meu peito.
Ficamos assim por um tempo, o tremor do seu corpo havia parado. Uma garoa fina começava a cair novamente. Tive vontade de outra xícara de chá agora, mas nem ousei abrir a minha boca. Ela parecia bem mais calma. Alisava as costas em movimentos rápidos para mantê-la aquecida, mas o tecido de sua camisa começava a molhar.
- Vamos voltar, temo que adoeça se ficarmos aqui.
- Só mais um pouco.
E tirei o braço de suas costas, descendo o zíper do agasalho.
- Não, não fazer isso! Please!
- Diz o que aconteceu, deixa te ajudar? – disse sem pensar duas vezes.
- Tu não vaix entender. – ela me olhou nos olhos.
- Como vou saber? Pode se abrir comigo!
E ela levantou-se, ficando diante de mim.
- Não querer que tire impressão ruim de mim.
- Matou alguém?
- No!
E fiquei de pé, olhando nos olhos dela.
- Roubou um banco? – abri um sorriso.
- No!
Ela sorriu.
Que sorriso lindo ela tinha quando estava indefesa.
- Então o que de tão ruim você fez para eu ter uma impressão assim de você?
- No vaix entender...
E ela segurou o meu rosto, cobrindo os meus lábios com os dela. Levantei as mãos para cima reagindo com surpresa e senti sua língua penetrando minha boca, percorrendo o céu, tocando a minha língua. Senti a sua respiração quente, o gosto de canela. Então ela afastou-se bem devagar com lágrimas nos olhos e saiu correndo.
Fim do capítulo
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