Mel - London por Jubileu
Capitulo 1
Nunca imaginei que um dia estaria tão longe de casa, principalmente quando tudo parecia finalmente entrar nos eixos. Ainda nessa semana folheava uma revista com atrações e guias turísticos de Londres, agora olho para fora da janela e vejo pessoas com gorros, luvas, casacos pesados enrolados em cachecóis peludos. Todos tentando se aquecer a sua maneira. Estou tomando um café cremoso, uma delicia por sinal. Ainda estou hospedada em um hotel a procura de uma casa ou pessoas que queiram dividir o aluguel. Já levei todos os documentos e papeis para o meu futuro emprego. Estou bem empolgada para começar, não fica muito longe daqui dá até para ir a pé.
Vendi o que sobrou do carro, que ficou com a traseira bem comprometida depois do acidente. Sempre levo as mãos aos ouvidos para não escutar os gritos da Paige. Não que ela tenha feito isso, porque em momento algum ela não disse uma só palavra e nem gritou, mas dentro dos seus olhos, aquele silêncio, o terror de quando ela olhava para mim pedindo socorro. Só eu sei quais foram as palavras ditas ou que tentou dizer e eu fiquei imóvel naquela fração de segundos, porque tudo aconteceu rápido demais. Evito fechar os olhos quando tapo os ouvidos, porque eu me perco e apavoro em meio às minhas lágrimas.
- Excuse me your stuffed croassaint. – disse o atendente.
- Thanks!
Dei uma mordida e sorri. O sabor era dos deuses. Sempre gostei de comer bem, não importasse o preço. Confesso ter comido muita porcaria antes, mas não dispenso uma pizza amanhecida, nem o amendoim salgado, isso não mesmo e acenei para outro atendente pedindo mais um croassaint, desta vez de chocolate.
- Que delicia... – disse sorrindo e os que estavam à volta viraram para me olhar, mas não entendiam o meu português.
Ali era o melhor lugar do mundo para se saborear um croassaint.
- Please! – gritei em meio ao burburinho das conversas.
- Yes. – disse o atendente pegando o bloquinho no bolso.
- Another coffee please! Thanks. – sorri.
Voltei a olhar para a janela enquanto comia e pensei na Giulia, a via sorrindo para mim. Antes que meus olhos se enchessem de lágrimas sacudi a cabeça e tentei pensar em outra coisa. Pensei em ligar várias vezes para Margot, mas ela me encheria de perguntas e eu não estava muito a fim de ficar me explicando ou coisas do tipo. Eu quis me isolar de tudo e todos para tentar me recuperar, tentar encontrar uma saída, uma luz em meio a minha escuridão. Era uma dor muito grande ter que olhar para todos os lugares, ver o quanto fui feliz e do nada, tudo escapar por entre os seus dedos.
Meu café veio minutos depois. Aquele frio todo me dava uma fome tremenda, sorte a minha não engordar tudo o que comia, senão.
Não era muito difícil encontrar lugares como aquele. Havia vários cafés, padarias e confeitarias. Já havia experimentado alguns, mas este aqui era impecável, fora o conforto. O seu interior era quentinho, a luz era um tanto dramática, era muito romântico estar ali. As paredes eram cobertas por um tecido vermelho. Olhando mais de perto parecia camurça e quando tocava, era como tocar um urso de pelúcia. Ainda não tinha ido a nenhum pub, apesar de ter visto alguns pelo caminho, mas um dia desses eu iria com toda certeza.
Bebi o último gole de café e me encaminhei até a fila para pagar. Enrolei o cachecol no pescoço, olhando para o balanço das árvores lá fora. Estava caindo uma chuva bem fina, mas o que preocupava mesmo era o vento, que era de cortar a alma.
- Thanks. – disse saindo pela porta.
Coloquei o gorro e atravessei a rua correndo. Ainda queria passar em uma banca, comprar um jornal e algumas revistas. Estava à procura de uma casa ali por perto mesmo. Comprei cigarros, cervejas e voltei para o hotel.
A primeira coisa que fiz ao entrar no quarto foi ligar o aquecedor. Estava congelando. Coloquei a cerveja no frigobar e pulei na cama, me enfiando debaixo das cobertas. Quando senti que o ar já estava quente empurrei as cobertas, peguei o jornal e uma caneta, arrancando a tampa com a boca. Apoiei o papel no joelho e abri na página de imóveis para alugar. Assinalei uns três anúncios sobre casas e duas outras para dividir o aluguel. Olhei para o relógio para ver se ainda não era muito cedo para ligar e estiquei o braço para discar o primeiro número que havia assinalado com a caneta.
Liguei para os cinco e só um me interessou, uns achei caros demais, outro muito longe daqui. Afastei a cortina para verificar se ainda chovia, mas já havia estiado. Enrolei meu cachecol no pescoço novamente e sai para o saguão. Havia conversando com uma senhora que alugava quartos e muitos gostavam de dividir o aluguel. Perguntei se eu poderia dar uma olhada naquele momento e ela disse que sim, que ela poderia me mostrar, então não pensei duas vezes. O preço era muito bom e ficaria ali até arrumar uma casa ou um apartamento, assim que começasse a trabalhar.
Se eu não estivesse enganada esse casarão ficava a duas quadras dali e havia uma padaria bem ao lado. Dito e feito. Lá estava ele. Abri um sorriso, não era tão mal assim como eu imaginava. Havia quatro portas com as suas respectivas sacadas na frente e cinco, em cada uma das laterais. Toda a frente era construída de pedras e tijolos.
Entrei pelo hall de entrada e me dirigi até uma senhora de cabelos presos num coque, coberto por uma redinha de crochê. Disse que havia ligado e demonstrei interesse por um dos quartos. Ela sorriu e disse que se lembrava, subimos as escadas para o segundo piso e parou diante de um quarto que ficava quase no fundo do corredor. Apesar de ter achado o lugar meio escuro e sombrio, quando ela girou a chave abrindo a porta, tive outra impressão. Ela pediu que eu entrasse e fosse até a sacada para ver se era do meu agrado. Depois saiu voltando lá para baixo dizendo que precisava atender uma ligação e que logo estaria de volta. Abri a porta e encostei-me no parapeito de tijolos respirando fundo. Havia adorado o lugar. Dali via-se um jardim repleto de árvores, na primavera deveria estar repleto de flores. Olhei as camas, sentando em uma delas, abri o guarda-roupa, olhei pelo espelho da penteadeira, fui até o banheiro e sorri ao ver uma banheira enorme. Estava perfeito para mim. Fechei a porta da sacada e desci as escadas, conversei com a senhora e disse que iria ficar com o quarto, que estaria de volta em meia hora, com a minha mala e mochila.
Fui saltitante até o hotel, subi e desci com a minha bagagem, acertando a diária. A mochila pesava nas costas por que coloquei as quatro long necks dentro dela e arrastava uma mala com rodinhas completamente quadradas. Pensava em dar fim nela e comprar uma nova, mas como não pensava em viajar tão cedo.
Entrei pela porta de madeira e falei novamente com a senhora. Deixei o mês pago, como era exigido ali e subi com as minhas coisas. Ela insistiu em ajudar, mas eu recusei. O melhor que agora eu poderia fumar de boa, eu tinha uma sacada e ela não via objeções por eu fumar dentro do quarto, já que também era fumante. Só se dividisse o quarto com alguém que não fumasse, ai já era outra conversa. Fui ligar o aquecedor e procurei por tudo, mas não havia nenhum. Nem me toquei, mas o preço era realmente tentador e mais tarde providenciaria um. Deitei na cama retirando uma cerveja de dentro da mochila e peguei o controle da tv sobre a mesinha. Estava passando um filme de comedia. Passei a mão sobre o bolso de fora da mochila abrindo o zíper e retirando um saquinho de amendoim. Abri nos dentes e enchi a boca com um punhado.
Estava ali deitada por pelo menos uma hora e bateu uma solidão tão grande que cheguei a olhar para o telefone na esperança que fosse tocar.
- Acorda Mel. – sorri voltando a prestar atenção no filme.
Meus pés estavam congelando e levantei para ver se encontrava mais um cobertor no guarda roupa, mas só havia lençóis e travesseiros. Liguei para a senhora e ela me disse que era um só por cama, então eu precisaria providenciar outro com certa urgência até a noite porque não tinha aquecedor, como no hotel e eu congelaria na madrugada.
Havia bebido três das quatro cervejas que havia comprado.
- Puts. – meti a mão na testa.
Também não havia geladeira!
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
thays_
Em: 01/06/2020
La vem a Mel novamente. Ainda não superei o final da primeira parte. Espero que ela tenha um final feliz nessa. Achei bem aconchegante a ambientação. Veremos o que essa menina vai aprontar em Londres.
Beijão!
Resposta do autor:
Eita rs Eu também espero. hehehe
Beijo Thays!
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