Vinte e Três
|Não leve as coisas tão a sério. Procure o lado mais leve de tudo;|
Nicolle
Estava discutindo com minha irmã sobre o fato de ela querer se meter em meu relacionamento quando Caroline me enviou algumas mensagens. Não consegui responder de imediato, pois estava muito chateada com Lily, então me dei um tempo para respirar, espairecer, pensar um pouco em mim. Não me veio à mente o fato de ela ficar ansiosa, só pensei em aliviar um pouco o meu estresse, então deixei para responder pela manhã, assim que acordasse e estivesse mais calma.
Tá, que sabendo da situação dela, eu deveria ter dito pelo menos um boa noite e dizer algo para evitar qualquer paranoia que ela pudesse criar. Mas nem pensei, só queria aliviar o bolo na garganta que se instalou por eu estar vivendo todo esse caos. Eu, como psicóloga, deveria me manter sempre calma? Sempre não, mas o fato é que eu precisava ter responsabilidade emocional com as pessoas ao meu redor e ao mesmo tempo, comigo mesma. Não é uma missão fácil. Não poderia me deixar de lado para cuidar dos outros ou sucumbiria e chegaria um momento que não conseguiria fazer mais nada por ninguém por não ter cuidado de mim também.
Enquanto pensava todas essas questões e colocava a Nicolle profissional e a Nicolle pessoa para dialogar, recebi uma ligação dela. Caroline precisava de autocontrole, para tudo na vida. Ela precisava reaprender a esperar, pois ela sabia, apesar de sempre ter sido um pouco apressadinha, ela sabia manter a calma quando era preciso. Não surtava quando eu demorava um pouco para responder, não ficava nutrindo paranoias, pois cofiava em mim e sabia que eu tinha coisas comuns para fazer.
Mas como a situação já não era mais a mesma e eu entendia o que Caroline passava, atendi antes que as chamadas fossem encerradas. Porém, estava estressada demais para soar carinhosa ou simpática; acho que soei um tanto grosseira. A discussão com Lily havia tirado toda a minha paciência.
— Oi — respondi, suspirando.
— Liguei porque fiquei preocupada. Você estava online e saiu quando mandei mensagem.
— Sim, larguei o celular para ir ao banheiro! Precisava fazer xixi, estava apertada, não tinha necessidade de te levar comigo sendo que você pode esperar. Não pode? Eu poderia estar caindo de sono ou em um momento ruim e você deveria saber esperar, até amanhã, pela minha resposta. — Minha voz soou rude, não estava conseguindo controlar.
— Eita, eita... — Ficamos em silêncio por alguns instantes. Depois a voz dela soou branda: — Ei, minha calmaria, o que houve, hem? Algo que eu fiz?
— Estou estressada, só, Caroline.
— Percebi. Mas por quê, quer falar? Senão, amanhã a gente conversa e você me fala. Mas só responde se foi algo que eu fiz. Foi?
— Não, Caroline! Só não consegui dormir e entrei no aplicativo para falar com a Lily, e acabei me estressando. Minha irmã resolveu me testar ultimamente.
— O que aquela vaca te fez, veio encher tua cabeça uma hora dessas? Garota intragável... Porr*!
— Caroline! Esqueceu que estamos falando da minha irmã? Vá com calma.
— Ah, sim, desculpe. É que ela tem nos criado problemas demais e até esqueço que ainda é sua irmã. Sério, Nicolle... Peguei ranço.
— Continua sendo e sempre será minha irmã. E eu a amo. Por isso me estresso, senão seria indiferente em relação as bobagens dela. Tenta se segurar, porque saber que ela se tornou alguém tão mesquinho, me machuca. E saber desse teu ranço por ela, também.
— Tudo bem, meu amor. Vou tentar.
— Obrigada.
— Quer me contar o que houve agora ou deixa para amanhã?
Pensei um pouco, suspirei e respondi:
— Te conto amanhã. Agora eu só quero dormir mesmo.
— Tudo bem. Durma bem. Amo você.
— Você deveria fazer o mesmo. Deve estar cansada.
— Vou fazer, já tomei banho e estou deitada.
— Ótimo. Então... Durma bem. Te amo.
No dia seguinte acordei por volta das nove e me arrumei para ir até o escritório. Antes passaria no hospital para ver como estava minha perna. Caroline deveria estar dormindo, então eu ligaria para ela depois. Mandei apenas uma mensagem de bom dia e avisei que estava saindo, explicando-lhe o que faria.
— Vou ver como está minha perna e passar no consultório. Me avisa quando acordar, vou te ligar. Beijos” — falei, em uma das mensagens de texto.
Como ainda não poderia dirigir, fui num carro de aplicativo. Lia alguns artigos de estudos recentes sobre ansiedade e depressão enquanto o veículo se movimentava. Estava superconcentrada na leitura quando sinto o celular vibrar em minhas mãos, notificando uma mensagem de Lily.
— Eu sei que está chateada comigo, mas eu quero que saiba que se falei tudo aquilo ontem é porque te amo. Eu realmente não acho que essa garota vá te fazer ser uma mulher realmente feliz, ela não é uma mulher madura como você e vive lhe enchendo de preocupações. Queria muito que você abrisse os olhos para novas possibilidades, Nicolle. Você anda distante de todo mundo e meio fria e acho que é tudo por culpa dela. Mas se prefere assim, não vou mais me envolver no relacionamento de vocês.
— Ótimo, não se envolva. Também te amo. Tenha um bom dia. Cuide-se.
Algumas pessoas querem se meter demais em nossas vidas e acham que sabem o que é melhor para nós. Mas não sabem, pois não vivem nossas dores. Eu adoro conselhos, acho muito válido e sigo vários quando eles realmente vão acrescentar algo bom para mim. Mas nesse caso, era pura implicância de Lily com minha namorada. Eu entendia seus motivos, mas já conversamos e discutimos o suficiente a respeito, então tudo o que eu queria dela era que me deixasse cuidar da minha vida amorosa sozinha. Ela não era nenhuma profissional de saúde mental para vir me dizer o que devo ou não fazer.
Tudo o que vivi com Caroline me fez bem demais para eu deixar que uma fase ruim acabasse com nosso o relacionamento. Meu amor não tinha sido desgastado, ainda estava vivo e forte, então se fosse acabar, seria por nós e não pelos outros.
Depois de responder minha irmã, voltei a focar no artigo que lia, mas logo cheguei ao hospital. Fiz minha consulta com o médico ortopedista, que examinou minha perna e recomendou mais algumas sessões de fisioterapia, pois os comandos motores ainda estavam meio lentos.
— Devo me preocupar, doutor Álvaro? — perguntei, enquanto ele tocava minha panturrilha e fazia algumas caretas que eu não consegui bem decifrar.
— Não, não. Está no tempo de recuperação, o acidente é recente, então é natural que ainda sinta alguns incômodos e tremores. As sessões extras de fisioterapia vão te ajudar a ficar cem por cento logo, logo. Estou otimista.
— Acha que andarei normal como antes?
— Acredito que sim. Não dá para ter certeza agora, mas estou otimista, de verdade. No seu caso, ocorreu uma neuropraxia, que é uma lesão leve na classe das neuro, na bainha de mielina. O prognóstico dele geralmente é bastante positivo, levando de 1 a 6 meses para ocorrer a recuperação. Já expliquei basicamente como funciona esse tipo de recuperação.
— Sim, já. É que sinto medo de ficar assim pra sempre — respirei fundo. Queria acreditar nele e acreditei, mas temia ficar para sempre com uma das pernas com atrasos nos movimentos.
— Daqui há alguns meses a senhorita poderá sair para dançar, andar de bicicleta, dirigir e fazer tudo o que fazia antes. É só ter calma e seguir todas as recomendações médicas.
—Estou ansiosa para ter tudo isso de volta, doutor. Os tremores me deixam nervosa.
— Tenha calma, minha filha — falou, sorrindo, abaixando o tecido da minha saia longa preta. — Mas, olha, já está bem boa, pode até levar a namorada para dançar. Se divertir também ajuda na recuperação, a senhorita sabe bem disso, não é mesmo? — disse, pois sabia que eu era psicóloga. Seu filho foi meu paciente por um tempo, até mudar-se para Portugal, onde faria sua primeira faculdade.
Eu apenas sorri com o último comentário do médico coroa de cabelos crespos levemente grisalhos. Era uma boa ideia, levar Caroline para dançar em algum lugar calmo e romântico. Há tempos não fazíamos isso, acho que a prática seria boa para nós duas.
†
Caroline
— Oi, meu amor! — ela disse ao me ligar, tirando-me um pouco a agonia que sentia por estar longe.
— Oi, minha calmaria. Como está, dormiu bem? — perguntei, sentada à mesa da minha cozinha, literalmente.
— Sim. Já estou no consultório, vendo como estão as coisas por aqui.
— Ah, e está tudo bem, estão cuidando bem de tudo?
— Sim, sim, eu tenho uma ótima secretária e ótimos colegas. Tá tudo certinho. Os pacientes só estão cobrando meu retorno — falou, em tom animado.
— Você é a melhor, amor, então não vão sossegar até te ter de volta aí, para atendê-los. — Ouvi o risinho leve dela do outro lado da linha e isso me encheu de uma calmaria empolgante. Ela gostava de saber que era boa no que fazia. Aliás, quem não gosta? Se queres ver uma mulher sorrir, elogie o que ela faz, seu trabalho; diga a ela que ela é a melhor naquilo.
— Acordou tarde, né? Conseguiu dormir bem, descansou?
— Nossa, apaguei! Estou até sentindo meu corpo mais leve.
— Isso é um sinal positivo, hem?! Dormir bem ajuda o corpo e a mente a trabalharem melhor. Ajuda a amenizar a ansiedade.
— Eu sei, amor. Já falou isso várias vezes. E estou realmente me sentindo bem hoje. Mais ainda por saber e perceber que você está bem também. A consulta com o ortopedista foi boa, né?
— Sim, sim...
Me contou como havia sido com o médico e fiquei contente por percebê-la positiva em relação a tudo. Me contou sobre a conversa com a secretária e como os colegas a tinham recebido na clínica, com uma festa de retorno, sendo todos muito afetuosos. Enquanto ela me contava, empolgada, eu sorria satisfeita.
Contou-me também sobre a conversa com a irmã e pediu para que não deixasse a implicância da infeliz me abalar. E eu não deixaria, não tinha muitos motivos para me preocupar com ela. Já com o embuste do Bruno, sim, eu tinha:
— Ele estava distante, de sorriso forçado enquanto todos conversávamos animadamente. Quando todos saíam da copa, o chamei para perguntar o que estava havendo. Estava estranho demais, nunca o tinha visto daquele jeito.
— Você sabe o que está havendo, Nicolle... Ele te quer e já que você disse que não pode ter, vai ficar com cara de cu mesmo. Macho levando toco é um horror. Isso se chama masculinidade frágil, amor.
— Mas ele sempre foi meu amigo, Caroline. Não quero que nossa amizade acabe por isso. O chamei para conversar depois da consulta dele. Estou esperando em meu consultório. Éramos quase irmãos, cúmplices, não quero perder isso.
— Ok, depois me conta.
— Conto.
Não pude evitar a pontada de ciúme que me atingiu, então fiquei em silêncio por um tempo enquanto o sorriso se recolhia dentro de mim. Ela continuou:
— Ei...
— Oi? — Tentei soar tranquila, mas óbvio que ela saberia que eu não estava. Parecia me conhecer melhor que eu mesma. E conhecia. Ela sabia reconhecer cada mudança de tom em minha voz.
— Fica tranquila e confia em mim, garota. Mais uma vez estou te pedindo isso...
— Eu confio em você, não confio é nele. Já te falei isso também. Mas enfim, estou tranquila, ok?
— Não está, não.
— Ok, não muito. Mas nada para se preocupar. Hoje acordei melhor. Suas mensagens pela manhã me fizeram bem.
— O que vai fazer hoje, antes de ir trabalhar?
— Vou lavar algumas roupas. Percebi que estou ficando sem roupa limpa. E, preciso passar na faculdade para trancar aquela porr* de novo, pois não estou conseguindo dar conta de tudo agora.
— Estive pensando nisso. Acho que não é uma boa hora para voltar mesmo, amor. Quando você estiver melhor, com um emprego em um horário bom, você volta. Vamos ter calma, com o tempo as coisas se ajeitam.
— Sim. E a gente casa.
Conversamos bastante. Falei sobre o bico que faria na casa do velho Inácio e me mostrei empolgada, para que ela ficasse satisfeita de alguma forma. Falei que pretendia voltar para a terapia e ela ficou superfeliz.
— Melhor notícia que eu poderia receber hoje! — falou, com o tom de voz animado. — Precisamos comemorar!
— Vou para a sua casa quando sair do trabalho, tá?
— Tá bom, quero que vá. Mas quero comemorar de outra forma também. Estou a fim de sair, faz tempo que não saio. Que não saímos, né?
— Sim, verdade. Vou te levar para jantar, ok? Minha folga é na segunda e podemos ir em algum restaurante que goste. Um italiano?
— Na verdade, eu quero que me leve para dançar.
— Dançar? — perguntei, curiosa.
— Sim. Tem um restaurante com uma pista de dança. Só para os românticos, com músicas leves, para dançarmos agarradinhas. Quero ir.
— Pois então, se prepare, senhorita Nicolle Monteiro, pois o amor da sua vida vai te levar para jantar!
— Nossa, até arrepiei com a grandeza dessa frase!
— Pretendo causar muito mais arrepios bons como esse em você.
— Uau... — disse entre sorrisinhos, os quais eu amava provocar — Mas amor, acho que só terá velhinhos nessa pista de dança. É naquele restaurante frequentado por idosos, que a dona Gertrudes, minha paciente, uma vez comentou e eu te falei, lembra?
— Ah, sim. Lembro. Vamos! Os melhores românticos são os idosos de hoje. Devemos nos unir a eles. E aprender com eles. Para que o amor não se perca.
— Minha linda! É verdade. Vamos... Já estou imaginando como será lindo.
Olha, se tinha algo que eu nunca havia feito, foi levá-la para dançar em um lugar romântico frequentado por idosos. Seria algo inusitado, mas lido.
Nicolle
Saí da clínica após a conversa com Bruno, que apesar de demonstrar insatisfação com a situação, compreendeu que eu e ele não tínhamos a mínima chance de termos algo além da amizade.
— Eu pretendia te fazer a mulher mais feliz desse mundo, Nicolle. Te mimaria, cuidaria de você, te...
— Bruno, não! Nós somos amigos e não nos vejo sendo mais que isso. Não dá, sério.
— E aquele beijo, realmente não significou nada?
— Eu estava desnorteada, carente, chateada, morrendo de saudade dela, preocupada. Foi por impulso. Não deveria ter feito aquilo.
— E por que fez, Nicolle? Aquilo mexeu demais comigo. Poxa!
— Por estar desnorteada, carente, chateada, morrendo de sau...
— Tá, tá bom. Já entendi. Não precisa terminar, já entendi que foi um erro. Que somos e sempre seremos apenas amigos.
— Eu não quero que mude nada entre a gente, Bruno. Sempre nos demos tão bem. Por favor...
— Relaxa, não vai mudar nada. Estou vendo que realmente a ama. Vou recolher o que sinto e continuamos amigos, ok?
— Promete?
— Prometo. — Mostrou um risinho tristonho, balançou a cabeça em positivo e levantou-se para sair da sala. — Vou nessa. O paciente já deve estar me esperando.
— Vai lá. Depois conversamos por mensagens, tá?
— Tá bom. Beijo. — Me abraçou e beijou meu rosto rapidamente. Ficou com movimentos robóticos, indiscutivelmente incomodado — Tenha um bom dia.
— Você também.
Então, fiquei alguns minutos sozinha ali na sala pensando sobre a conversa e logo depois saí, determinada a ir para casa. Estava um pouco desanimada por tê-lo desapontado de alguma forma, mas satisfeita por ele ter compreendido e aceitado facilmente, sem me odiar por não conseguir corresponder aos seus sentimentos mais profundos.
Saí do consultório em um carro de aplicativo e ao invés de ir direto para casa, desci no centro para comprar algumas coisas que precisava.
Passei numa loja de cosméticos para comprar cremes e depois entrei numa papelaria. Peguei materiais que faltavam em meu escritório e antes de me dirigir ao caixa para pagar minhas compras, bati o olho em uma coisa que imediatamente lembrou-me Caroline. Peguei o objeto e fui pagar. Tinha certeza que ela ficaria feliz. Mandei embrulhar e depois chamei o carro que me levaria para casa.
“Como não pensei nisso antes? Ela vai amar demais.” — pensei enquanto o veículo seguia.
Olhei para o motorista através do visor da frente e ele me sorriu simpático. Por um momento eu senti que tudo voltaria aos trilhos. Sentia uma energia boa, o dia estava levemente ensolarado e ao descer do Uber, na frente de casa, ouvi alguns pássaros cantando como se festejassem o meu retorno. Há tempos que não me sentia tão leve e bem recebida assim.
O motorista do CrossFox vermelho me ajudou com a sacola e quando estávamos na metade do Jardim, fui abordada por uma garotinha com os cabelos diferentes, acompanhada por João, o meu vizinho da casa ao lado, filho dos advogados Rodrigues.
— Oi, Nicolle!! — disse ela, com um sorriso de orelha a orelha.
— Olá! — respondi, com um sorriso e uma expressão de questionamento. — Tudo bem?
Estavam os dois na calçada da casa do João. O garoto portava o celular na mão e parecia filmar ou tirar fotos minhas. Não parecia nenhum pouco intimidado com minha presença. Ao contrário da menina, que o encarou com olhar reprovador e lhe deu uma cotovelada.
— Que foi? — perguntou ele, abaixando o aparelho e encarando a amiga.
— Ela pode não gostar. Se liga!
— Ok.
O motorista que estava com minhas compras nas mãos parecia bastante paciente e não interrompeu a situação. Mas eu precisava liberá-lo logo, então paguei a corrida e pedi que deixasse as coisas na varanda.
— Deixe tudo ali na poltrona, por favor.
— Está ótimo. Obrigada. Bom trabalho.
— Vou pegar seu troco no carro.
— Relaxa, pode ficar com o troco.
— Obrigada, senhorita. Tenha um bom dia — disse e eu assenti com a cabeça.
Os adolescentes se aproximaram; a menina na frente, e ficaram diante de mim, olhando-me com admiração. A garota falou novamente:
— Somos os administradores do fã clube Carolle, no Instagram. Podemos tirar uma foto com você?
— Tá... — respondi, um tanto reticente, pois achava aquilo bem esquisito. — Mas por que isso, eu não sou nenhuma celebridade.
— Para a gente e os seguidores, você e Caroline, são. O melhor casal do bairro. Vocês são lindas juntas. Nossa, o melhor casal que eu já conheci na minha vida!
— É. São lindas juntas — concordou João.
— Por acaso você fica me espiando, João?
— Não sempre. Quer dizer... Desculpe. Eu tento não invadir muito a privacidade de vocês — falou, parecendo um pouco constrangido. Não olhava diretamente para mim, mantinha a cabeça pendida para baixo.
— Tudo bem. Podemos tirar uma foto juntos.
— Eba!! — exclamou a garotinha. — Obrigada. Você é mesmo incrível, Nicolle. Quando eu crescer quero ser igual a você. Eu também serei psicóloga. Você é minha maior referência.
— Meu Deus, que coisa linda! Vamos lá... Uma selfie com os três? — questionei.
— Sim. — respondeu João, se aproximando, para ficar ao meu lado.
— Ok.
Tiramos umas três selfies em poses diferentes e percebi que ficaram felizes.
— Muito obrigada, Nicolle! Os seguidores vão amar. Agora só falta foto com a Caroline. João falou que vocês reataram, que ela saiu daqui hoje e parecia feliz.
— Mas, gente! Vocês passam vinte e quatro horas nos vigiando, é isso? Tem câmeras escondidas filmando minha casa? Que coisa é essa?
— Não. Claro que não. Nem tenho dinheiro pra isso, não... É que acordei cedo e vi pela janela da minha casa quando ela saiu. Parecia feliz, só isso.
— Ah! Que medo de vocês...
— A gente promete não invadir muito a privacidade de vocês, sério. Torcemos para que sejam felizes, pois só queremos registrar a felicidade das duas. Assim, incentivamos outros casais LGBT’s a saírem do armário e mostrarem para o mundo como o amor é bonito em todas as cores.
— Isso é muito importante. Passei a gostar mais dessa ideia de fã clube. Vou confiar em vocês dois. Só porque gostei do carinho com que nos tratam. E da causa nobre com que regem a página.
Me ajudaram com a bolsa e me trataram como se eu fosse uma atriz reconhecida ou uma verdadeira princesa entrando em seu castelo após um longo período de viagem. Ajudaram-me a subir os quatro degraus da minha varanda, fizeram questão de colocar minhas compras para dentro. Ofereci um suco e eles aceitaram. Pareciam felizes por estarem em minha casa; ficavam olhando ao redor como se quisessem memorizar cada detalhe do cômodo. Fiquei feliz por notar as carinhas satisfeitas. Foram embora depois que terminaram de tomar o suco de manga. Me deram um imenso abraço ao saírem.
— Falo para Caroline que estiveram aqui. Ela vai gostar de saber — falei, com eles já do lado de fora.
— Muito obrigada por tudo... Tudo mesmo — agradeceu a menina loira, parecendo emocionada e extremamente feliz. Os olhinhos estavam marejados.
“Isso foi bastante esquisito, mas com certeza tornou meu dia mais bonito.”
Sentei-me no sofá e fiquei olhando através da janela, sorrindo boba, observando os beija-flores enfeitando meu jardim. Fui pega de surpresa quando um pássaro verde pousou gracioso no batente da janela e ficou, de costas para mim, como se contemplasse as minhas flores, como em uma pintura colorida de David Hockney.
— Oi, passarinho. Será que isso é um sinal de que as coisas vão começar a dar certo? — questionei, de onde estava mesmo. O pássaro, alheio ao que eu dizia, alçou voo e sumiu do meu campo de visão.
Fim do capítulo
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