Capitulo 6
Quando eu havia começado a pegar no sono, cruzando já a linha entre as notas mentais do dia derradeiro e a fantasia do dia imediato, a ansiedade bateu a porta. Gritou! Abriu o berreiro. Lembrando-me que minha voz se perderia na frequência de tantas outras vozes e aos poucos a rotina me engoliria, a branquitude me silenciaria. Eu não estava acostumada as pessoas, evitava convívio. Só Mariana e mamãe me bastavam, me faziam sentir segura. Mas, a tempos algo de novo se passava comigo, despertando em mim uma sede de coletividade, de pertencimento. De fato, estava farta daquela sensação de solidão, e por isso ansiava por replicar outro ambiente, e conhecer outras pessoas.
Às vezes damo-nos de encontro com pessoas totalmente desconhecidas, que despertam o nosso interesse logo no primeiro olhar, assim de improviso, antes mesmo de se ter trocado uma palavra que seja. Esta foi a impressão que a veterana me provocou. Do mesmo modo, como ela tambem não tinha tirado os olhos de mim, e eu percebia claramente que desejava entabular conversa.
Se ocorresse, eu ascenderia ao reino dos absurdos. A mulher era muito bela. De certo que eu estava viciada em sonhar. Metida entre as cobertas, as paredes do barraco se fechavam como faces de uma caixa, eu me sufocava. A mim não cabiam sonhos gloriosos, devia me contentar com o modesto, de uma simplicidade injusta. Uma vez, Raquel a prima de Mariana riu até faltar o fôlego quando contei-lhe, das minhas fantasias.
Esses sonhos não te cabem - Dizia-me - De certo que, quando grande vai limpar banheiros igual tua mãe.
Lembro-me da mágoa me escapulindo goela a fora, como se cada sílaba daquelas palavras me rasgassem o peito e me contaminasse com o peso que traziam.
Uma certa irritação era constantemente dedicada a mim. Ela é arrogante em demasia, eles diziam, ou descreviam-me como exageradamente agressiva.
Ela deveria procurar um lugar que lhe coubesse. Repetiam pelos corredores.
O lugar que me cabia era o invisível, a margem, o silêncio. Negro não fala. As narrativas produzidas eram sempre cruéis, de um tom de racismo velado, embora maquiado.
Quem essa neguinha pensa que é -- rugiam
O pensamento me fez relembrar da senhora Ricarda, diretora da escola. Mulher, com dois pés na aposentadoria. De aparência jovial para a idade. Um dia convocou mamãe na escola, e advertiu “ Senhora, sua filha tem tido episódios atípicos nos corredores”. Num primeiro momento pensamos que ela estivesse preocupada com o meu bem-estar. Apenas depois nos damos conta que se tratava de uma advertência. De uma avaliação do meu comportamento, como se a minha maneira diferente de ser e existir provocasse nos outros alguma espécie de manifestação. Afinal, eu que era a invasora. Pois, o colégio tal qual a sociedade não tolerava a diversidade. Estamos sempre cercados de limites. Estar ali era ultrapassar um.
Espantei as lembranças e deitei-me de bruços na cama, com a cabeça repousada no travesseiro, lutei para adormecer. Temia que a claridade do dia me pegasse desavisada, com o corpo quente e pesado enrolado nos cobertores. Temia que o chamado do despertador falhasse, que mamãe também entregue ao cansaço não despertasse, que esquecesse pela primeira vez de me gritar ou que minha paspalhice não fosse capaz de ouvir seu chamado, e por fim eu perdesse a hora, eu perdesse a aula.
Contei no relógio quantas horas faltavam até que o primeiro ônibus começasse a circular e eu saísse acelerada a caminho da parada do ônibus. O coração dando pinotes dentro do peito, respirando o ar frio da manhã até o ônibus abrir as portas e eu olhar para as caras sonolentas dos outros passageiros, ouvindo a marcha organizada dos vendedores ambulantes, num despertar acelerado de São Paulo. Antes mesmo do escuro da noite ser lavado do céu através da janela do quarto, eu a estaria de pé, tomando o café preto passado por mamãe, e pronta para cruzar a porta e viver mais um dia.
Na ânsia de perder a hora fui incapaz de dormir mais de três horas. Levantei e segui o ritual sentindo o peso do sono nos olhos. A cólera me escapuliu das entranhas do estômago. Ao mesmo tempo que me via animada para seguir rotina entre os corredores da universidade. Além de tudo queria novamente encontrar a veterana pelos corredores. A ideia de vê-la me trazia uma sensação de satisfação. Talvez lhe fala-se ou acenasse com a cabeça em sinal de reconhecimento. Mas, de certo que emudeceria. Eu tão pequena, estranha tinha encontrado uma beleza tão padrão um interesse palpável, coisa mais minha viver no reino dos absurdos. Chorei de pena de mim por ser tão estranha tão invisível. Ruminava com as mãos que seguravam minha maleta de ossos no ônibus, em pose de estátua. Bolei a hipótese de que minha beleza exótica podia agradar aos olhos da veterana, como uma beleza única e original.
Não que eu de fato fosse uma mulher feia, mas, o contraste com o resto dos humanos, nos condenavam a meia existências, de uma beleza considerada no máximo exótica, sexualmente atrativa, devido a crenças de uma libido naturalmente exacerbada, mas, que em casa ainda desbravava solidão. Enquanto nas ruas enfrentam olhos maravilhados.
Quando adentrei os portões da universidade, compreendi que seria difícil vê-la, éramos vários. A dor cutucou o peito. As salas eram numerosas. Contentei-me com a ideia de que não lhe veria por ali. Aceitei, muito decepcionada.
Deslizei para dentro do ônibus de vidros fechados, e comecei o longo percurso de volta. A cabeça distante se sentia frustrada por não conseguir localizar a veterana gostosona pelos corredores da faculdade. Abri a porta de casa em silêncio. Mamãe não estava. Entrei no banheiro e arranquei a roupa do corpo em gestos ríspidos. Abri a gaveta da pia e de lá tirei uma navalha. Sentada na privada cortei minha pele, na esperança de aliviar o vazio da dor interna. Me olhava no espelho e não via beleza, todos os padrões me pareciam prisões. Eu gostaria de me ver bela o bastante, para ela me enxergasse bela também. Mas, a revelia a vida tinha me pintado como uma galáxia com pequenas marcas de cortes que se fixaram entre meu ventre e cobriam minha pele, como planetas alinhados.
As batidas na porta interromperam meu submergir de dor quase alegre. No susto de me descobrir viva, nua e coberta de sangue.
Filha! Ana! -- Dona Célia chamava na porta.
Respondi com algum balbuciar de palavras desconexas. A água descia em torrentes quentes e juntava-se ao vermelho sangue que jorrava dos ferimentos abertos na minha coxa. Me senti suja, esfregando a pele até ela avermelhar, ensaboei o corpo. Eu queria embranquece-la. E na ardência da dor externa esqueci de sentir a dor interna.
Sai do banheiro com o corpo molhado, os cabelos gotejavam deixando marcas de água pelo chão.
Está com fome -- Perguntou mamãe -- Acho que você tem que se alimentado mal, olha para estas costelas tão visíveis minha filha.
Concordei com um aceno de cabeça e sorri amarelo. Mas, permaneci em silêncio.
Você esta estranha minha filha, gripou outra vez. Vá deitar, trate de colocar roupas quentes, calce meias e descanse.
Dentro do único quarto dos pequenos dois cômodos, deitada de barriga pra cima no edredom florido, eu balançava a perna. Olhava para as paredes brancas como se fizesse parte da anatomia do quarto, dos móveis. Na televisão o horário político chamava a minha atenção. Tamanha a imbecilidade do candidato.
Morava em mim uma sensação de que algo me era negligenciado. Algo que me pertencia, mas, que me era negado. Às vezes, madrugada adentro passava-me pela cabeça a menina mulher de poucos anos. Uma criatura entusiasmada e feliz. Magricela, com cabelos armados e indomáveis, cheia de ideias, a criança daqueles dias se perdeu. Tudo agora se resumia, apenas a rituais vazios, a vida já não era mais tão empolgante. Estava tão farta da enorme rotina de tudo. Como um pano de fundo consistente. Sempre me surgia uma dor por tudo que me podia ter sido. Se aquele demônio ruivo, não tivesse nos meus primeiros anos escolares me levando ao limite, eu não teria perdido a bolsa, mamãe não teria perdido o emprego e certamente agora eu estaria a muito tempo formada, e minha história seria outra. Minhas aspirações foram prejudicadas muitos anos antes.
Eu fui incapaz de me confrontar com a implícita mentira que era a minha existência. Amedrontada demais para viver autenticamente dei as costas a verdade. Minha derrota era um projeto, pra mim e para tantos jovens de cor na pele.
Havia em mim um tremendo cansaço. Eu experimentava crises de choro, durante as madrugadas que eu sentia ser impossível adormecer. Em contrapartida sentimentos de indescritível alegria e esperanças surgiram para contrabandear todos os sintomas depressivos. As vezes me postava forte e agressiva contra a vida, pronta para batalhar, esta Ana, tão gritante divergia grosseiramente dos aspectos internos da minha personalidade. A estudante do ensino fundamental, tímida, insegura e medrosa não tinha espaço para existir.
Mamãe por sua vez, mulher pequenina e miúda, de uns 70 anos, olhos vivos e experientes, com um nariz grosseiro e de cabeça raspada, trazia sempre um lenço de flanela amarrado no pescoço e se retraia. Ficava feliz se os dígitos cobriam os boletos. De que mais precisava. Além de teto e comida. Ela aprendeu a ter pouco e o pouco não me apetecia. A cor da minha pele não deveria me determinar. Que vida mais limitada era essa que me ofereciam. Eu não deveria ter que lutar do dobro ou mais para conquistar aquilo que me era de direito. Ele deveria vir até mim tão fluidamente quanto um manto de seda.
No entanto, fortes ondas de oposição agiam contra qualquer crescimento para uma mulher negra. Recordo-me de quando tinha seis ou sete anos e era pequena demais para me entender como uma mulher negra. Mamãe tentava me explicar, me dizer que estas coisas aconteceriam sempre, mas, pra mim aquilo não fazia sentido. Na verdade ainda não faz. Tudo era absolutamente assustador para uma criança, medonho, gigantesco demais para ser enfrentado. E lá estavam elas de novos, as lembranças da minha infância, opressoras, caminhando a meu encontro a passos largos e destemidos. Rivalizando contra o meu sono. Tomando a minha paz.
Fim do capítulo
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AlRibeiro
Em: 18/04/2020
Venho acompanhando a história desde o início e a cada capítulo que passa sinto mais fome de um novo! É muito de um poder grande ler uma história com personagens que "destoem" do padrão, com personagens que sejam reais. Ana poderia facilmente ser minha vizinha, minha amiga, uma pessoa da família. Ana poderia ser eu. Enfim, muito grata por uma história real, pela escrita poética e espero que continue! Abraços <3
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