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Capitulo 5
O sol despontou soberano chegou ao miolo do céu, era a primeira vez que ele me acordava com seus raios me batendo no rosto. A anos o relógio traçava um caminho preciso de me despertar bem antes do próprio nascer do sol. Desadormecia dando me conta do cheiro de cafe que minha guerreira preparava na cozinha. De repente, percebi que ela não havia me despertado no horário necessário para chegar a tempo de pegar a primeira aula da faculdade. Não me zanguei, sabia que em sua sensibilidade ela tinha percebido que eu precisava descansar.
Me senti protegida numa redoma de vidro ao me dar conta que adormeci com as pontas de seus dedos finos e descuidados me acariciando os cachos, como se aquele gesto fosse capaz de apagar os demônios invisíveis. E era. Como se aquelas mãos fossem diferentes de outras mãos, de outras consciências, dotada de um super-poder. Quando me teve ela só tinha quinze anos, um bebe, dividas, solidão, desemprego, medo. Quinze anos, uma filha, dinheiro para abortar, escolhas. Mamãe preferiu não me abortar a 30 anos atras, mas, deveria. De certo, eu a compreenderia se o fizesse. Eu o faria.
A cólera me escapuliu da boca do estômago, escalou a garganta e, antes que eu me desse conta abri o berreiro. Encontrei-me em prantos deitada em posição fetal. Chorei em imitação de nenê, que sabe que ao chorar, ira conseguir o que deseja, como que se ordenasse ao mundo que me deixasse lutar, que me reconhecesse, me respeitasse, me absolvesse do crime de nascer mulher, negra, lésbica e favelada.
Apos o pranto era dado o momento de levantar, os dígitos estavam contados para a condução. No metro a ciranda de corpos me engolia, eu era apenas mais uma na multidão. Senti uma vertigem diante de uma linha de trilhos sem curvas. Eu espreitava o abismo simétrico. Ali se acabariam todos os meus problemas. Bastaria um pulo. O cheiro da tinta fresca se mesclava com o odor mais ameno da manha, algo como capim e fezes. Ao meu redor, pessoas caminhavam com celulares nas mãos, alguns aguardavam, enquanto outros desapareciam no interior do vagão. Uma pressão latente na minha garganta indicava que algo me puxava para a queda. O celular vibrou no bolso. O nome Jacqueline seguido de um coração apareceu na tela. Ela mesma, o tinha gravado deste modo.
-- Bom dia doida! cade voce?
-- Estou indo.
-- Vai perder a primeira aula.
-- Acabei dormindo demais.
-- Ta bem. Fim de semana voce ira na festa dos veteranos?
-- Acho que não.
-- Ah, voce vai sim. Eu só vou se voce for. Então voce ira.
Sorri pela primeira vez em dias. Ela me convidada para seguir adiante, queria repartir divertimento comigo. Mal sabia ela que faltava poucos passos para que eu desaparecesse derradeiramente naqueles trilhos.
Entrei no vagão. Mantinha entre um dos braços os cadernos. No outro segurava firmemente o ferro. Eram quase duas horas de viagem. Os pulsos tremiam, os cotovelos vacilavam. Tentava me espremer no fuzuê dos corpos apertados. Todos precisavam caber. Nesta dinâmica uma figura se aproveitando da multidão se aproximou e se aconchegou atras dos meus quadris, a principio acreditei que a pressão de seu corpo sobre o meu ocorria devido ao balançar do coletivo e ao acumulo exagerado de pessoas por vagas. Todos estavam apertados, mas, ele se pressionava a mim com a gana de vencer afogamentos. Meu quadril se jogava pra frente em fuga, mas, os deles me seguiam lentamente. Tive nojo ao perceber que o seu órgão estava enrijecido… Queria ter gritado, mas, emudeci. Queria ter corrido, mas, paralisei. As pernas vacilavam numa cãibra lenta quando algo escorreu morno, caldoso. Por detrás da minha coxa. Não era meu. Não era meu. A primeira lagrima despencou dos olhos.
Os cadernos presos entre os braços foram ao chão numa queda surda. Chorei pela segunda vez naquele dia, me sentindo culpada, suja. Estava inapta a me divertir com acidentes coloridos tão longe de casa, assim tão cedo da manha. Outras, ja despertas, correram em minha direção, arrebatadas pela revolta e pela compreensão e disputas a mergulhar a mão na cara da figura medonha. Eh assim que imagino a cena, apesar de dela só ter experimentado os sons. A figura apressava-se em fechar o zíper da calca enquanto palavrões percorriam a língua.
Uma das mulheres veio ter comigo.
-- Voce esta bem? Machucou -- E me estendeu um lenço para que eu limpasse minhas pernas. Eu agradeci e ela seguiu para fora do vagão, as pessoas se dispersavam aos poucos, cada uma na sua estação. A figura a muito sumiu por entre a multidão.
De súbito tudo que de urgente fazia se desfez em um sopro. Teimei em achar que a tal figura se envergonharia do ato obsceno. Um pensamento bonito lavou a cena de brutalidade e me fez piscar os olhos com forca. Aquelas mulheres haviam decidido que me salvariam da minha própria miséria, nada poderia me ser mais belo. Aquelas me salvaram pela segunda vez naquela manha.
Meus passos se atropelavam em direção ao portão da faculdade. Imóvel diante do meu reboliço, o professor sustentava os braços abertos. Pedi licença e ele me concedeu com um aceno de cabeça. Todos me olharam e eu desejei se invisível. Sentei-me o mais rápido possível no lugar que Jacqueline havia pra mim deixado reservado.
O professor falava acelerado, era um jovem e tinha cabelos lisos, olhou pra mim com olhos muito doces. Os cílios longos eram de causar inveja a qualquer mulher. Os botões da camisa estavam perfeitamente pareados. Me parecia de uma doçura e compreensão surpreendente. Uma vez que, minha referencia de educadores transportavam para a diretora do colégio de gráfico, mulher pequena de garganta napoleônica, a gritar ordens como um general. Por baixo das nuvens de cabelos embranquecidos haviam pequenos chifres escondidos. Era fato que ela se divertia ao humilhar uma pequena criança negra. Afinal, cada um vê a si como humano e aos outros como não humanos.
Uma das colegas me observava e logo questionou.
-- Ana, aconteceu alguma coisa? Parece que não esta muito bem. Quer conversar? - Acenei negativamente com a cabeça, os olhos encheram de lagrimas -- Não se preocupe se a vida esta uma bagunça, a gente vai dar um jeito. O mais importante eh que voce esta aqui -- Tocou levemente minha mão -- Então sossega o coração.
Outra colega ao ouvir o breve dialogo se manifestou. Bem menos amena que a primeira.
Eh houve algo? Voce esta com uma cara medonha, suas roupas estão em desalinho -- Abaixei minha cabeça em vulnerabilidade. Sua expressão era de estranhamento ao qual eu ja havia me habituado.
-- A roupa esta desalinhada? Mas, nada que voce não possa chamar de tendencia… Bobagem, eu diria que ficou mais bonita assim -- Jacqueline logo soltou sem paciência dando fim ao assunto.
Deu a hora do intervalo e no banheiro da faculdade uma mulher de cócoras raspava os grudes do chão. Os pulsos firmes manuseavam os panos em um gesto de esgotamento, enquanto os cabelos estavam em desalinho, tateando o ar em rebeldia. A mulher era invisível, os demais dela apenas desviavam. Quando se sentiu observada, me direcionou o olhar.
De súbito, alguém lhe chamou.
--- Francisca, Voce pode limpar a sala de professores por favor.
A mulher de olhos fundos e gestos esgotados levantou num pesar doloroso, direcionou o olhar para as próprias mãos. Teimei em achar que a Francisca se demonstrava envergonhada por ser notada. Meus olhos se encheram de lágrimas, Francisca era como minha mãe. Era como eu, uma pobre diaba, de cócoras no mundo com a pele do rosto, judiada pelo sol e os lábios rachados. Sorri para ela, ela me respondeu com um sorriso sem mostrar os dentes. Provavelmente apodrecidos dentro do armário da boca. Antes que saísse lhe dei bom dia, seus olhos brilhavam. Parece que aquele gesto lhe salvou o dia. Francisca se sentiu humana.
Fim do capítulo
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