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O Amor Está no Ar, Salve-se Quem Puder por linierfarias

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Palavras: 3790
Acessos: 1108   |  Postado em: 01/03/2020

14. Ser feliz é descomplicar a vida pelo lado de dentro

Juliana

Cheguei ao bar onde havia marcado com a Andreia faltando dez minutos para as oito da noite, e ela já me esperava à mesa. Levantou-se quando me viu.

— Você está linda! — disse e tentou me beijar na boca, mas virei o rosto e recebi o beijo na bochecha.

— Obrigada! Você também. — falei mais por cortesia.

Não que a bandida não estivesse linda, pois estava, mas depois de termos nos falado ao telefone, passei o resto da tarde exercitando o meu cérebro contra ela. Repetindo milhões de vezes o mantra:

Ela não presta. Tentou te dar um golpe.

Por isso, achei melhor não dar muita atenção para a sua aparência.

A Andreia era manipuladora, sempre foi. Mesmo antes de descobrir as tramoias dela com o amante, eu já havia notado essa característica. Mas achava até bonitinho, pois ela costumava usar isso para conseguir coisas bobas, como escolher o destino de uma viagem, convencer-me a dormir na casa dela, etc. Na época, eu não tinha a menor noção do que ela era capaz.

— Vamos sentar? Eu não tenho muito tempo. — falei, séria e a vi franzir o cenho.

— Mal chegou e já quer ir embora? — perguntou, enquanto sentávamos.

O garçom se aproximou para pegar os nossos pedidos. Ela pediu uma dose de gim, mas eu fiquei no chá gelado. Não queria que o álcool interferisse no que eu iria falar.

— Por que não vai beber?

— Andreia, eu não vim aqui para bater papo. Isso não é um encontro amoroso. — falei, séria, e a vi se endireitar na cadeira. — Marquei com você aqui porque achei que precisava dizer na sua cara para me deixar em paz. O que tivemos acabou. — Ela me analisava de olhos semicerrados. — Você acabou com tudo, lembra? Não tem mais volta.

— Ah, não? E por que ficou comigo na praia, naquela noite?

— Eu não fiquei. Você me beijou e acabei cedendo. Estava fragilizada, tinha tido um dia difícil... — corte-me e expliquei: — eu fui fraca, mas felizmente recobrei a razão a tempo e parei.

— Você gostou, Juliana! Me correspondeu com a mesma intensidade.

— Sim, mas isso não significa que tudo voltou ao normal. O que você fez não se apaga com um pedido de desculpas e uns amassos na praia, Andreia. Ainda está aqui e ainda dói. — falei com a mão no peito, depois notei que não devia ter dito.

— Eu sei, meu amor, e me sinto muito mal por isso. Só tô te pedindo uma chance. Quero reparar o que fiz, fazer essa dor que te causei passar. Quero te fazer feliz, Juliana!

— Não dá. Eu não confio mais em você.

— Me deixa recuperar a sua confiança, por favor? — pediu em um fio de voz. Tinha os olhos marejados.

— Não funciona assim, Andreia. — falei olhando para o meu copo, pois não consegui encará-la.

O garçom chegou com nossas bebidas, e ela quase virou a dose inteira de uma vez na boca. Observei-a fazer aquilo sem encará-la diretamente, mas percebi que tinha expressão triste no rosto.

— Juliana, olha pra mim. — Fiz o que pediu, mas não consegui sustentar o olhar. — Você ainda me ama, eu sinto isso. Sei que perdi a sua confiança, mas o seu amor ainda está aqui, e o meu só aumenta. Então abre essa porta e me deixa entrar? Vou te provar que te mereço, você vai voltar a confiar em mim e vamos ser felizes. — Tentou tocar na minha mão, mas a afastei.

— Para, Andreia. Para de falar, por favor! — pedi quase implorando. Aquilo estava me maltratando.

— Você não pode simplesmente virar as costas pro que sente. Nós nos amamos e...

— Para, Andreia. — pedi de novo, mas em tom firme. — Chega, para com isso. Já que você não respeitou o que tínhamos, respeite ao menos a minha decisão. Que história é essa que nos amamos? Não tem amor aqui. Você não me ama e já demonstrou isso, e eu... tá, admito que ainda sinto algo, mas não é amor. E se fosse, eu arrancaria de dentro de mim à força, porque me recusaria a amar alguém tão suja, tão mau-caráter como você.

— Você está com outra, é isso? É a garota do calçadão? Por isso não quer mais nada comigo. É por causa dela? — perguntou irritada, tinha os olhos vermelhos.

— Põe uma coisa na tua cabeça: independente de estar ou não com ela e ainda que você fosse a última mulher do mundo, acabou. Ok? E não me procura mais, ou vou pedir uma ordem de restrição. — cuspi as palavras e mencionei me levantar.

— Não ache que vou desistir de nós assim, Juliana. Eu vou te provar que pode confiar em mim.

— Você pode até tentar, desde que não me importune mais. Tchau, Andreia.

Joguei uma nota de cem sobre a mesa e saí sem olhar para trás.

Entrei no carro e saí em disparada. Eu ainda me sentia mal, mas incrivelmente mais leve. A Andreia era insistente, eu sabia que aquele não era o fim, mas sabia também que ela não era burra, então não arriscaria me procurar de novo. Pelo menos não por um bom tempo. Tempo esse que eu usaria para me fortalecer ainda mais.

Entrei em casa e encontrei minha mãe vendo novela no sofá. Eu estava zonza ainda, as vozes da Andreia e da Caterine se misturavam na minha cabeça, tirando a minha sanidade. Até pensei em ligar para o Hugo e chamá-lo para sair, mas percebi que só queria paz. E vi no colo da minha mãe o meu paraíso.

Pulei no sofá, assustando-a, e ri da carinha que ela fez enquanto me aninhava em seu colo.

— Por que não foi jogar hoje? — perguntou, sem tirar os olhos da TV, mas acariciando a minha cabeça.

— Tô cansada! Cadê o resto do povo dessa casa?

— Desceram pra passear com o Julius. Já jantou? Fiz macarronada. Acho que ainda tá quentinha. Quer que eu ponha pra você?

— Não, mãe, tô sem fome!

— Sei. E por isso vai dormir sem jantar? Depois passa mal e não sabe por que é.

— Mais tarde faço um sanduíche. — falei, meio aérea, olhando para o teto.

Não conseguia parar de pensar naquelas duas, e naquele instante estava lembrando da Caterine me chamando de medrosa.

Dona Aurora percebeu o meu tom e parou de olhar para a TV.

— Que carinha é essa, filha? Eu te conheço, você não tá bem. Conta pra mãe o que tá acontecendo?

— Nada, mãe! — desconversei. — É coisa do trabalho, nada demais. Volta pra sua novela, eu só quero ficar aqui quietinha um pouquinho, recebendo cafuné.

— Deixe de mentir pra sua mãe que Deus castiga, e quando morrer, sua língua vai ficar pro lado de fora.

Eu ri, ela tinha um monte de teorias como aquelas sobre os castigos de Deus para filhos que agem de forma incorreta com os pais.

— Eu só tô cansada. Daqui a pouco vou tomar um banho e deitar.

— Eu te conheço, Juliana. Essa cara aí não é de cansaço, não. O que foi? Fala pra mãe? É alguma namoradinha nova?

— Ah, mãe, porque tudo tem que ser tão complicado?

— Será, minha filha? Será que tudo é realmente tão complicado? Ou será que somos nós quem complicamos tudo?

Refleti uns instantes sobre aquilo e acabei falando:

— Tem uma menina. — falei, meio sem jeito, e me senti como se tivesse 15 anos. Ela sorriu e continuei: — Nós ficamos juntas e foi incrível, sabe? Mas depois fiquei achando que ela me usou pra fazer ciúme em outra pessoa e fiquei muito chateada.

— Você conversou com ela depois disso?

— Sim, ela negou.

— Mas você preferiu acreditar que ela havia te usado a aceitar que ficou com você porque estava interessada. — Fiquei em silêncio e a vi suspirar antes de continuar: — Minha filha, tente se observar um pouco.

— Como assim?

— Olha, eu não estou dizendo que você se enganou, tá? Eu nem conheço essa moça, então não posso afirmar. Mas será que você não está transferindo para ela o que passou com aquela Andreia e vendo coisa onde não tem?

Sentei e me virei para ela.

— Será, mãe?

— Eu não sei. Só você pode responder essa pergunta. Olhe para dentro de si, filha. Ouça o seu coração. Se foi incrível para você, com certeza deve ter sido para ela também. Caso contrário, você teria notado. Ninguém consegue fingir interesse tão bem assim.

— Mas, e se eu quebrar a cara?

— Sua cara já está quebrada, Juliana. Olha só o seu estado! Minha filha, complicado é matemática, e ainda assim você sempre foi a melhor da turma. A vida, quem está complicando é você. Pare de se boicotar, vá ser feliz. E depois, se acabar, paciência! Que seja eterno enquanto dure, não é assim que se diz?

Eu sorri. As palavras dela foram como um bálsamo para a minha alma.

— A senhora é uma sábia, dona Aurora. — brinquei e a abracei.

— Ah, minha filha, não é isso, não. Eu já sofri muito na vida e um belo dia percebi que eu mesma era responsável por aquele sofrimento. Foi aí que entendi que só podemos encontrar a felicidade quando deixamos de culpar o mundo pelas nossas frustrações e passamos a descomplicar a vida pelo lado de dentro.

Eu sabia exatamente de que sofrimento ela estava falando. Minha mãe foi criada em um ambiente muito conservador, estudou pouco. Durante muito tempo, foi aquele tipo de pessoa que só acreditava no que o padre dizia. Quando meu pai morreu, ela ficou desolada. O tempo passava, mas o luto não saía dela.

Quando descobriu sobre a minha sexualidade, a depressão se agravou. Ela nunca me afastou ou brigou comigo por eu ser lésbica, mas se culpou. Achava que estava sendo castigada por Deus por algo errado que pudesse ter feito. E tudo piorou muito quando a Mariana engravidou ainda adolescente.

Até que, certo dia, ela foi fazer faxina na casa de uma senhora chamada Zulene, que a viu chorar em um canto. Sentiu muito medo de ser dispensada, por isso, desculpou-se e voltou a trabalhar, mas dona Zulene a chamou para conversar e, ao invés de mandá-la embora, quis saber o motivo daquelas lágrimas.

Dali em diante, tornaram-se grandes amigas. Dona Zulene lecionava no EJA e a convenceu a voltar a estudar. Passou também a leva-la às palestras do centro espírita que frequentava e, aos poucos, dona Aurora foi tomando gosto, até que passou a ir sozinha. Fez tratamento espiritual, entrou no grupo de estudo do evangelho, passou a se engajar em projetos sociais... hoje é uma mulher mais leve, tranquila. Ela costuma dizer que dona Zulene foi o anjo que apareceu em sua vida para mostrar o caminho certo a seguir.

Naquela noite, adormeci refletindo sobre as palavras da minha mãe. E se ela estivesse certa? E se eu estivesse complicando o que não é complicado por medo?

Eu sou uma franga!

O final de semana se arrastou. Acordei cedo no sábado e fui até a fábrica do Pecém. Gostava de fazer isso de vez quando. Era bom ver as coisas acontecendo, relembrar os tempos em que eu punha a mão na massa, ao invés de me ficar perdida em meio às pilhas e pilhas de contratos, reuniões de negócios e tudo mais dentro daquele escritório.

Cheguei em casa quase de noite, exausta. Tomei um banho demorado, jantei e fui jogar videogame com o Enzo. A Mari havia saído com umas amigas da faculdade para uma confraternização de final de semestre.

— Tia, você até joga bem, mas sabe por que sempre perde de mim?

— Não. Por quê? — perguntei, curiosa, achando o máximo o jeito que ele falava, como se fosse o ás do videogame, e eu uma reles aprendiz.

— Porque você tem medo de arriscar. Fica na defesa o tempo todo. Nunca ataca. E quem não ataca, não faz gol.

— Até tu, Brutus? — perguntei largando o joystick no sofá.

— Quê? Quem é Brutus?

— Então, quer que eu ataque, né, seu moleque? Pois agora você vai ver a ira de Juliana Ferreira da Cruz. Quando eu acabar, não sobrará Enzo sobre Enzo. Vem cá. — falei e me joguei por cima dele, deitando-o no sofá e começamos uma guerra de cócegas.

Ficamos ali por um bom tempo naquela brincadeira infantil, mas, mesmo no meio da bagunça, não pude deixar de pensar que até um garoto de oito anos parecia ser mais corajoso que eu.

No domingo, dormi até tarde. Até estranhei quando olhei o relógio e vi que já passava das 9h, mas fiquei feliz. Fazia muito tempo que não dormia tanto. E teria dormido mais, se a doida da minha irmã não tivesse entrado no quarto abrindo cortina e puxando coberta.

— Sai daqui, satanás. Me deixa em paz! — reclamei, cobrindo a cabeça com o travesseiro.

— Larga de ser preguiçosa, mulher. Acorda, tenho um babado pra te contar. Adivinha quem acabei de conhecer no quiosque da Cristal?

— Não quero saber. Vai embora!

— Tá bom, eu vou. Mas se não te contar agora, não conto mais.

— Chantagista barata. Anda, fala. — falei e me sentei, coçando os olhos.

— Caterine Vernon Blanchard, em carne, osso, unhas de gel e cílios postiços.

— Quê? O que ela estava fazendo na Cristal?

— Tomando água de coco, ué! Tinha acabado de correr. Enfim... fui lá falar com ela.

— Não, Mariana, você não fez isso.

— Ué, por que não? Ela é uma celebridade agora, sabia? Fui pedir uma selfie.

— Mentira!

— Tá, essa parte da selfie é mentira, mas falei com ela mesmo. E... olha, irmãzinha, a menina tá louca com você.

— Que história é essa, Mari? O que você disse pra ela? Me conta tudo, cada detalhe. E vou logo avisando que se eu não gostar, você é uma mulher morta. — falei, irritada, e a vi rir da minha cara.

— Eita, paixão doida! Calma, mulher, vou te contar.

Eu a fiz repetir cada detalhe da conversa umas três vezes e fiquei com aquela história na cabeça o dia inteiro. Pensei em procurar a Caterine, senti muita vontade de falar com ela, mas a covardia continuou me contendo.

Por que ela me atenderia depois de tudo que eu falei?

Desci para a praia com o Julius e o Enzo, brinquei por horas com eles e depois mergulhei. Saí do mar com a sensação de ter deixado muita coisa lá, pois senti uma necessidade tremenda de viver, de seguir em frente. Só não sabia como fazer isso.

Assistimos o sol se pôr em silêncio, sentados na areia. Sacudi a cabeça do Julius e depois a do Enzo, em seguida subimos.

Levei a família buscapé para jantar fora na noite daquele dia, e nos divertimos muito. Chegamos em casa quase onze da noite e precisei subir com o Enzo do colo, pois ele adormecera de tão cansado daquele dia cheio.

Minha mãe foi para o quarto dela também, despediu-se de mim e da Mariana e se recolheu. Ela dormia cedo, pois nunca levantava depois das 6h.

Fiquei conversando com a minha irmã na sala até quase meia noite. Contei da conversa com a Andreia e de como estava me sentindo sobre a Caterine.

— Tô feliz de você finalmente ter tido coragem de encerrar esse ciclo com a Andreia. Agora só falta se redimir com a Caterine e começar uma nova história.

— Ah, Mari, não é assim que funciona. De repente, ela não tá mais nem aí pra mim.

— Duvido, Juli. Eu vi nos olhos dela. Ela gosta de você. Larga de ser boba, para de se boicotar. Vai atrás dela.

— Tá, mas como eu faço isso?

— Isso eu não posso te dizer como fazer. — Deu um beijo no meu rosto e levantou. — Agora vou dormir, tenho aula cedo amanhã. Boa noite! Amo você!

— Também te amo! Boa noite!

Deitei com o celular na mão, com a janela de mensagens da Caterine aberta. Vi que estava online, mas não tive coragem de enviar nada. Estava com muito medo de ser rejeitada. Abri sua foto e fiquei observando, linda demais! Depois procurei o vídeo do nosso beijo e assisti mil vezes.

Já passava das duas da madrugada e o sono não vinha. Resolvi pôr música para tentar relaxar. A voz da Sandy sempre me acalmava. Pus a playlist para tocar e fiquei rolando, tentando sem sucesso ficar confortável.

Eu senti o vento arrastar o medo pra longe de mim...

— Até você resolveu falar de medo agora, Sandy?

Eu senti o tempo se abrir e o sol tocar a pele...

E eu vi que eu podia mais do que eu sabia...

Eu vi a vida se abrir pra mim quando eu disse sim...

— Ah, filha da mãe! Tá bom, universo, eu já entendi. Agora me deixa dormir, por favor!

Na manhã seguinte, acordei decidida a procurar a minha maluquinha, mas o dia foi tão corrido que não me sobrou tempo. Quando a noite chegou, a coragem se foi de novo. Depois de passar meia hora com o celular na mão, larguei-o e desci para jogar.

Meu coração quase saiu pela boca quando a vi passar correndo. Ela me olhou, acenei, mas fui ignorada. Aquele foi o maior balde de água fria. Dormi quase nada aquela noite, completamente frustrada. Fiquei aérea o dia seguinte inteiro. Estava na Zéfiro só de corpo presente. De noite, fui para praia mais para tentar vê-la novamente do que para jogar. E deu certo, ela passou de novo. E me ignorou de novo. Só que daquela vez não deixei por isso e fui atrás dela.

O jeito áspero com o qual me tratou me fez ter certeza do tamanho da raiva que sentia de mim. Eu só queria poder me redimir e a convidei para tomar uma água de coco, mas ela foi embora dizendo que precisava acordar cedo para viajar, e lembrei que iria para o Trairi na manhã seguinte.

Resolvi deixá-la em paz aqueles dias, assim a raiva poderia passar, mas não consegui tirá-la da cabeça um instante sequer.

Para minha felicidade, Andreia sumira. Mas apesar de ter certeza de que ela estava aprontando alguma volta triunfal, preferi não pensar naquilo por ora e apenas aproveitei a paz.

Na sexta de manhã, assim que cheguei à Zéfiro, Hugo foi até a minha sala e disse que havia conversado com o Edgard e achado ele muito inseguro sobre o desempenho da Caterine na coordenação da equipe. Eu estranhei, afinal, ele havia falado muito bem da filha. Mas aquela era uma oportunidade que eu não perderia por nada.

— Kelly, cancela os meus compromissos de hoje, por favor! Vou ter que ir em Trairi.

— Certo, chefe!

Fui em casa e fiz uma mala. Avisei a minha mãe que viajaria e deveria passar o final de semana na casa de praia da Lagoinha. Ela me abençoou e pediu que eu não corresse na estrada. Saí em seguida.

Cerca de duas horas depois cheguei no local onde a equipe técnica da Blanchard trabalhava. Estacionei ao lado dos carros com o logotipo da construtora e fui até as tendas improvisadas, armadas no entre as dunas.

Eu já havia passado filtro solar no rosto, mas pus também os óculos escuros. O sol estava matando.

Cheguei à tenda e vi Caterine de costas, conversando com um dos técnicos, indicando alguma coisa em um mapa estendido sobre as mesas de plástico.

— Bom dia! — falei, sorrindo, atrás dela e a vi se virar e me encarar séria.

Estava absolutamente perfeita. Senti vontade de beijá-la ali mesmo, na frente de todo mundo. Natural, sem aquela maquiagem toda e aquelas roupas cheias de frufrus. Usava apenas uma calça jeans, uma camiseta babylook branca e botas adventure. Tinha o cabelo preso em um rabo de cavalo e usava óculos de grau. Lembrei que falou da miopia, e lente de contato em um ambiente com tanta areia e vento realmente não era uma boa opção para enxergar.

— O que faz aqui? — perguntou em um tom desafiador e senti borboletas voando no meu estômago.

— Seu pai disse que você estava com dificuldades. Vim pra ajudar.

— Sim, eu tive uns problemas, mas já resolvi. Tá tudo sob controle, pode voltar.

Ai, quanto desdém! Doeu.

Sim, doeu, mas fiquei feliz. Pois segundo os provérbios da pensadora contemporânea Mariana da Cruz, quem desdenha, quer comprar.

— Tem certeza? Se quiser, posso dar uma olhada nos cálculos. — falei em tom de provocação, pois senti vontade de vê-la me xingar.

Fiquei rindo por dentro, esperando uma resposta abusada, que veio exatamente como o previsto:

— Você vai ter tempo de revisar o projeto quando eu entregá-lo, Juliana. Pode voltar pra sua torre de controle. Eu sei o que estou fazendo. Agora, se me der licença...

Virou-se e saiu na direção das pessoas que trabalhavam, fora da tenda. Fui atrás.

— Eeeei... volta aqui. — chamei, tentando acompanhá-la, e a vi se virar de supetão.

— O que você quer, Juliana?

Você.

Foi o que quis falar, mas tudo o que consegui foi gaguejar e desconversar.

— Eu... é... você passou protetor? Esse sol tá forte...

— Você veio de Fortaleza pra cá, pra perguntar se passei protetor? Quanto zelo com os seus funcionários! Sim, eu passei. — disse e voltou a andar.

— Espera, Caterine. Eu quero falar com você.

— Pode falar. Estou ouvindo. — retrucou sem parar de andar.

— Aqui, não. Vamos almoçar na cidade. Eu conheço um restaurante que serve um peixe ao molho de camarão maravilhoso.

— Sou alérgica a camarão.

— Tá. Então a gente come só o peixe.

— Não gosto de peixe.

— Ok. Então carne, frango, mingau de aveia... o que você quiser. Só almoça comigo, por favor. E ouve o que tenho pra dizer.

— Não, obrigada! Não tenho tempo. Vou almoçar com a minha equipe aqui mesmo. — concluiu e apressou o passo.

Entrei em desespero, não sabia mais o que dizer para convence-la.

— Me desculpa! — falei alto, sem nem pensar.

Funcionou. Ela parou de costas, mas parou. Virou-se devagar e me olhou.

— O que disse?

— Desculpa! Eu fui uma completa imbecil com você. Devia ter te ligado depois daquela noite, mas eu... por favor, vamos sair daqui. Tá todo mundo olhando! — pedi em tom de súplica.

— Tá bom, eu vou. Mas só tenho uma hora.

— Ok!


Fim do capítulo


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