10. Se está na internet, é verdade.
Juliana
Minha ideia de beber para esquecer e pegar, sem me apegar, alguma desconhecida naquela boate foi por água abaixo quando vi a entrada triunfal da Caterine. Parecia cena de comédia romântica.
A Mari vai pirar quando eu contar. — pensei e sorri.
Fiquei de pé ali, feito idiota, esperando que viesse na minha direção, mas ela parou para falar com um casal e voltei para o lounge.
— O Marcel Blanchard e a irmã dele estão chegando aí, tá? Ele me ligou querendo sair pra comemorar a fusão, e chamei. Nem te consultei, pois não achei que fosse se importar. — Hugo avisou quando me sentei.
Bom, pelo menos fez sentido, porque já havia tido coincidências demais com a Caterine nos últimos dois dias.
— Tudo bem! — falei com falsa indiferença e vi os dois se aproximarem.
Passei a maior parte do tempo tentando convencer o meu corpo a não reagir à visão perfeita dela, bem ali, do meu lado. Mas tudo parecia tramar contra. Sem contar que, não sei se era o álcool inflando a minha autoestima, mas eu podia jurar que ela estava dando em cima de mim. Quase a agarrei quando me abraçou e senti seu cheiro.
Até interessante ela passou a ser quando notei que não era apenas só mais uma patricinha aristocrata, que vivia da mesada do papai. Ela exercia a engenharia e, pelo que conversamos, parecia ser muito boa nisso.
Que merd*! Custava ser burra?
Eu não sou cega. É óbvio que mulheres bonitas chamam a minha atenção, mas a beleza física por si só agrada somente os meus olhos. O que me dá tesão de verdade é uma conversa envolvente, aquele clima de sedução... foi aí que a Caterine me pegou.
Mas eu não podia ceder àquela tentação, só não sabia como fugir. Foi quando o Hugo a chamou para dançar. Fiquei hipnotizada ao vê-la na pista. Era linda demais, perfeita demais. E aquilo era perigoso demais. Não tive outra saída, precisei fugir. Cheguei ao bar e pedi uma dose de vodca pura, que desceu queimando.
A garota do vestido vermelho apareceu e vi nela a oportunidade perfeita de fuga. Depois de conversarmos um pouco — confesso que nem lembro o assunto — aceitei seu convite para dançar. Passei direto para a pista, evitando olhar na direção do lounge, pois se eu visse a Caterine de novo, com certeza, não conseguiria mais responder por mim.
E foi assim mesmo que aconteceu.
Confesso que me diverti quando a vi empurrar sutilmente a minha parceira de dança. E mesmo com a plena consciência de que estava deixando o álcool tomar as rédeas da situação, coisa que faria com que eu me arrependesse amargamente no dia seguinte, recebi sua boca na minha com a ânsia que uma pessoa com sede ataca um copo de água.
Aquele beijo superou todas as minhas expectativas, foi muito mais que ardente. Caterine podia ser metida e prepotente, mas sabia ser incrivelmente sensual quando queria. A ponto de me fazer esquecer que, apesar da pouca luz, estávamos no meio de uma multidão.
O encaixe e a sincronia das nossas línguas eram perfeitos e faziam meu corpo inteiro arrepiar. As mãos dela agarravam os cabelos da minha nuca e me puxavam para mais perto, como se fosse possível tornar aquele contato ficar mais intenso. Enlacei sua cintura com os meus braços e trouxe o corpo dela para junto do meu. O simples roçar dos nossos seios, por cima da roupa mesmo, me fazendo perder o senso por completo.
Eu acho que a teria despido ali mesmo se o Hugo não tivesse nos interrompido. Senti vontade de matá-lo quando me chamou e precisei interromper o beijo.
— Que foi, Hugo? — perguntei irritada quando ele aproximou a boca do meu ouvido para falar algo.
— Juliana, desculpa, mas achei que devia te avisar. Tem gente filmando. Melhor saírem daqui.
Só então eu caí na real e lembrei que a Caterine havia se tornado uma espécie de celebridade depois do vídeo dela na blitz.
— Droga! — esbravejei levando uma das mãos a testa e notei Caterine nos olhando sem entender.
— Pega as chaves do meu flat, vai pra lá. Eu vou esticar com o Marcel e as meninas e a gente vai cair em algum lugar por aí. Qualquer coisa pego uma roupa emprestada pra trabalhar amanhã. Fiquem à vontade.
— Tá bom! Usa o cartão corporativo pra acertar a conta e leva a nota pra mim amanhã que justifico.
— Beleza! Se precisar, meu carro tá na garagem. Chave na mesinha, ao lado da porta de entrada. Ah, chamei o motorista. Ele já está lá fora esperando vocês. Vão logo.
Recebi as chaves da mão dele. Eu não tinha outra opção, não poderia levar a Caterine para a minha casa com a minha mãe, minha irmã e meu sobrinho lá. Pelo menos não com as intenções que eu estava.
— Valeu, Hugo! Te devo essa. — agradeci e o vi se afastar.
O Hugo tinha aquela mania de facilitar tudo para mim. Acho que aquele era o jeito dele de puxar o saco da chefe. De vez em quando eu me incomodava, mas naquele momento agradeci por ser tão proativo.
Voltei a olhar para Caterine, que ainda aguardava ansiosa por uma explicação.
— Quer sair daqui? Acho que seus fãs já te notaram. — brinquei no ouvido dela e levei um tapinha no ombro.
— Engraçadinha! Acabei de notar isso. — Ela falou olhando em volta.
— Então, vamos?
— Vamos.
Puxei-a pela mão e saímos, desviando das pessoas.
Já no carro, travamos uma batalha silenciosa de olhares e sorrisos maliciosos. Ela era linda demais quando se despia da fantasia de menininha metida a besta. Nossa!
Eu estava com sede dela, mas jamais faria nada com o Isaías ali na frente. Olhei um instante pela janela e ponderei sobre aquela situação. Eu não era de fazer aquilo, não pegava mulheres em festas e levava para casa de amigos. E talvez não tivesse sequer passado de alguns beijos vazios, caso a Caterine tivesse desistido de mim e me deixado ficar com a menina de vermelho. Mas apesar de achar errado, eu estava me sentindo incrivelmente bem ali, com ela.
Voltei a olhá-la quando senti seus dedos se entrelaçando aos meus.
— Posso saber pra onde estamos indo?
— Pra casa do Hugo!
— Ah! — Suspirou e olhou pela janela.
— Ei... que foi? — perguntei, fazendo-a voltar a me olhar.
— Nada! Achei que fôssemos pra sua casa. — respondeu meio sem graça.
Acho que estava justamente se perguntando se aquilo era hábito meu. Por isso fiz questão de explicar:
— Eu nunca fiz isso, tá?
— Tudo bem! Não é da minha conta.
— Mas eu quero falar. Eu não faço essas coisas, não pego garotas em boates e levo pra passar a noite. Você é... — Comecei a falar, mas me interrompi. Fiquei com medo de ser cedo demais para falar que ela era diferente.
— Eu sou...? — perguntou com um sorriso radiante, que não me deu opções.
Sorri e encostei no banco. Levei as mãos ao rosto e cobri, envergonhada.
— Fala... o que eu sou?
— Diferente.
— Hum... tipo um ET? — perguntou, sorrindo, com ar de implicância e me fez soltar uma gargalhada abafada. — Fala. Quando penso em 'diferente' penso em coisas estranhas. Quero entender...
— Diferente tipo... me deixa maluca. — falei e fui presenteada com um belo sorriso. — Feliz agora?
— Tô!
Foi a vez dela encostar no banco e olhar para cima. Levou o dedo mindinho à boca e mordeu. Percebi que era um tique nervoso e achei a coisa mais fofa do mundo.
Deus, eu tô ferrada!
A viagem foi rápida, em menos de 10 minutos chegamos ao prédio do Hugo e dispensei o Isaías. Subimos comportadas, tinha câmeras de vigilância por toda parte. Além disso, eu não queria que ela pensasse que eu só queria sex*. Por isso mesmo, assim que entramos, fui direto para a cozinha.
— Você quer beber alguma coisa? Deixa eu ver o que tem aqui... — falei, abrindo a geladeira. — Tem água, cerveja... hum... uma caixa de leite estragado e uma garrafa aberta de vinho. — Olhei para ela sorrindo e perguntei: — E então, o que vai querer?
Ela se aproximou, sorrindo também e fechou a porta da geladeira, dando, de um jeito absurdamente sedutor, a melhor resposta possível em seguida:
— Quero que me beije de novo!
Pedido que atendi de imediato.
O beijo começou suave, mas não menos sedutor por isso. As mãos dela ganharam mais ousadia e começaram a acariciar meus braços e costas. Encostei-a na ilha e colei meu corpo no dela. Segurei seu rosto e passei a conduzir aquele beijo perfeito. Foi a vez dela me enlaçar pela cintura e me puxar para mais perto, como se aquilo fosse possível.
Interrompi o beijo para encará-la brevemente e me encantar com a visão daquele rosto ruborizado e lábios inchados.
— Dá pra ser menos linda, por favor? — falei séria e a vi sorrir de olhos fechados.
— Boba! — disse e me abraçou.
Aproveitei para inalar o perfume daquele pescoço. Revirei os olhos ao sentir o efeito que o cheiro dela me causou. Beijei e mordisquei toda a extensão da orelha até o colo enquanto a ouvia gem*r baixinho e sentia suas unhas arranhando levemente o meu braço. Desci uma das mãos da nuca para o colo e passei a acariciar aquela região enquanto continuava a exploração deliciosa mais acima. Senti-a reagir àquele toque, pois me apertou contra si, e entendi aquilo como um convite para mais.
Desci a boca até o decote e me demorei por ali, até que minhas mãos tocaram seus seios por cima do vestido e... ela as segurou.
— Espera! — pediu e me afastou um pouco. Estava ofegante.
— Desculpa! Eu... eu... — Tentei falar, mas não consegui. Fiquei nervosa.
— Não... não se desculpa, por favor!
— Eu não queria te invadir... eu...
— Ei, para! — pediu firme, segurando o meu rosto. — Eu só... — Desviou o olhar e fez uma pausa. Segundos depois voltou a me encarar e continuou. — Eu nunca...
Só aí me dei conta do que queria revelar. Sorri.
— Nunca esteve com uma mulher? — completei acariciando seu rosto.
— É... bom, na verdade, só tive uma pessoa a minha vida inteira. — falou envergonhada e desviou o olhar.
— Seu noivo? — Ela assentiu sem me encarar. — Tudo bem! Podemos parar se quiser.
— Não! — respondeu firme e voltou a me olhar. — Só preciso... será que podemos ir devagar? Por favor!
Eu ri. Aquilo foi tão meigo que soou pueril. Acariciei seu rosto novamente com os polegares antes de completar:
— Devagar tá bom pra mim! — Rimos juntas e dei um selinho nela. — Eu tô morrendo de fome, e você?
— Faminta!
— Pizza? Sei que não é nenhuma iguaria francesa, mas acho que a essa hora é o melhor que podemos conseguir.
— Boba! Ok, pizza!
Pedi por um aplicativo e fui tomar um banho. Aproveitei para procurar e encontrar no banheiro escovas de dente novas. Como bom solteiro que era, o Hugo não podia deixar faltar. Separei duas e deixei sobre a pia. Ele me deu carta branca, disse para ficar à vontade, então procurei camisetas de malha no armário dele. Peguei duas. Ele era bem alto, então elas serviriam como camisolas.
Voltei para a sala de cabelos molhados e vestindo apenas a camiseta e a minha calcinha. Ela me olhou e riu.
— Que é? Improvisei.
— Ficou ótimo!
— Que bom que achou, porque separei uma pra você também. Tá em cima da cama.
Ela assentiu e foi tomar banho. A pizza chegou assim que ela voltou, completamente perfeita com aqueles cabelos molhados e pernas de fora.
Se controla, Juliana!
— Ficou melhor em você!
— Cê acha? — perguntou fazendo uma pose e sorri.
— Vem, sua boba! Vamos comer enquanto tá quentinha.
Peguei uma fatia com as mãos enquanto a vi toda fresca comendo com garfo e faca. Ofereci refrigerante, mas ela não quis. Ela comeu uma fatia enquanto comi três, depois pus o resto na geladeira.
Fresca! — pensei, mas estava nas nuvens com ela. Então ignorei a parte que não me agradava.
Fomos para o sofá e perguntei se queria ouvir música. Ela disse que sim e sincronizei meu celular com o som da sala. Não escolhi nada, não queria perder tempo. Então, apenas apertei play, dando continuidade à minha playlist. Começou a tocar Girl On Fire, da Alicia Keys e pensei que outra música não seria tão pertinente. Ri da ironia e ela quis saber:
— Que foi?
— Nada! — desconversei. — Vem cá, beijar pode, né? Beijo devagar se quiser...
Ela sorriu e me deu um tapinha no ombro, antes de me puxar para um beijo, que começou sutil, quase casto, mas aos poucos foi ganhando uma intensidade que ela mesmo imprimia. Quando vi, já estava deitada sobre ela, nossas pernas enroscadas.
Precisei tirar forças não sei de onde para me sentar de novo.
— Ei, vai pra onde? Volta pra cá! — Ela pediu ainda deitada e me puxou, mas resisti e quase chorei de frustração.
Estava tão linda ali! Toda largada, descabelada, usando apenas aquela camiseta... deitar sobre ela era tudo o que eu mais queria, mas se fizesse isso correria o risco de perder o controle, e uma vez que ela pediu para irmos devagar, eu não ultrapassaria o limite, mesmo que ela mesma estivesse me provocando a isso.
— Não! Melhor ficarmos sentadinhas. É mais seguro. Vem cá! — chamei e a puxei.
Ela sorriu ao entender e ficamos ali por um longo tempo. Namorando no sofá, como duas adolescentes de um século distante.
Foi bem difícil me controlar, mas não estou reclamando. Gostei de ficar daquele jeito. Claro que queria trans*r com ela. Era linda demais, cheirosa demais, gostosa demais... e beijava muito bem. Além do mais, eu estava a flor da pele depois de tanto tempo sozinha. Mas tirando isso, eu sempre fui romântica. Numa situação normal, seria eu a dispensar o sex* de primeiro encontro.
Conversamos muito, ela era engraçada. Às vezes disparava a falar e parecia que nunca mais se calaria. Lembrei do vídeo da noiva cadáver, o monólogo dela tentando convencer o policial a liberá-la. Comentei e levei outro tapinha no ombro. Não doía, mas tive que implicar:
— Amanhã vou estar com um roxo bem aqui, de tanto que você bate. — brinquei e levei outro.
— É bem feito, pra você deixar de ser engraçadinha. — retrucou e me puxou para um beijo.
Notei que era mais patricinha do que eu pensava, mas percebi também que na essência ela era só uma menina sonhadora que vivia deslumbrada com o mundo glamouroso em que vivia.
— Em sempre fui a melhor aluna da turma, mas isso acabava com a minha vida social. Eu era a nerd de óculos de grau que ninguém queria sentar perto e que era motivo de piadinhas infames. — falou e lembrei que o próprio irmão tirava sarro disso.
— O nome disso é bulliyng!
— É, eu sei. Mas naquele tempo eu só queria deixar de ser ridícula. Era assim que eu me sentia. Então convenci papa e maman que precisava de cirurgia pra corrigir a miopia. Eles não queriam que eu fizesse porque achavam invasivo e pouco eficaz. E de fato não corrigiu muita coisa, mas foi bom porque pude ao menos me livrar dos óculos.
— Você usa lentes de contato?
— Sim... e pouco enxergo sem elas.
Uau! Ela é humana.
— Eu também sofri muito bulliyng na escola. Era a bolsista, filha da zeladora. Mas meu "foda-se" vivia ligado. Eu apenas ignorava e seguia estudando. Só queria um bom futuro profissional pra poder tirar a minha mãe e a minha irmã da situação de quase miséria em que passamos a viver depois que o meu pai morreu. Ralei muito, me matei de estudar, mas consegui. Hoje sou feliz por não precisar mais ver a minha mãe trabalhando no pesado de domingo a domingo.
Ela me olhou enternecida e acariciou meu rosto. Acho que notou o quão diferente eram as nossas realidades.
— Que máximo! Sua mãe deve se orgulhar de você.
Eu sorri ao lembrar da conversa que tive com a minha mãe no dia anterior.
— Sim, e eu me orgulho muito de ser filha dela. Mas, continua... eu te interrompi.
Ela saiu do meu colo e encostou no sofá. Ficamos lado a lado.
— Eu fiz a cirurgia nas férias de fim de ano e resolvi que no ano letivo seguinte eu seria outra Caterine. Sempre achei a minha mãe linda, então passei a me espelhar nela em tudo: roupas, cabelo, maquiagem... ela amou, virei a bonequinha que sempre quis ter. Enfim, no ano seguinte, mudei de escola e estreei a Caterine 2.0. Foi sucesso. Logo eu virei a aluna mais popular. Continuei tirando notas boas, mas escondia dos outros alunos que era viciada em estudar.
Eu ri daquilo. Sempre me impressionava com o quão os conceitos eram invertidos nas cabeças das crianças e adolescentes.
Ela continuou:
— Sei que pra você isso não deve fazer qualquer sentido, mas essa minha nova versão, apesar de parecer superficial, me ajudou bastante com a minha autoestima. Passei a gostar de mim, me achar bonita, interessante... tanto que ainda no primeiro semestre comecei a namorar o Olavinho.
— Seu ex-noivo?
— É. — confirmou com ar de frustração e percebi que ainda se incomodava com aquele assunto. — Mas vamos falar de outra coisa, pode ser?
— Vamos.
Não insisti. Confesso que estava curiosa, queria entender melhor o que havia acontecido entre os dois, mas sabia que ainda era recente. Ela ainda estava bem abalada e provavelmente ainda sentia algo por ele.
Lembrei da Andreia.
Ah, saco! Agora não.
Afastei aquele pensamento chato e voltamos a falar de outras coisas. Fomos para a cama quando começou a clarear. Deitamos e ela se aconchegou no meu peito. Adormeci cheirando seus cabelos.
Acordei cerca de três horas depois e estávamos na mesma posição. Ela dormia tranquila no meu peito e morri de medo de acordá-la, mas precisava tirar o braço, que estava dormente. Felizmente ela apenas se virou, agarrou o travesseiro e voltou a dormir. Fiquei velando seu sono por uns minutos e pensei que seria muito fácil me apaixonar por ela. Aquilo me preocupou, mas decidi não pirar.
Nem sabia o que seria de nós depois daquela noite. Eu poderia ter sido apenas uma experiência para ela, e talvez isso fosse melhor. Só me preocupava em deixar um clima estranho entre nós depois, afinal, o pai dela havia se tornado meu sócio.
Meu estômago roncou, interrompendo os meus pensamentos. Não tinha nada para comer naquela casa e eu não podia sair com as roupas da noite anterior para comprar nada, então pedi café da manhã pelo aplicativo.
Tomei banho, recebi o entregador, arrumei a mesa e nada da Caterine acordar. Odiei ter que fazer aquilo, mas a chamei. Eu tinha vários compromissos naquele dia e ainda precisaria passar em casa para me trocar.
— Acorda, preguiçosa! — chamei, carinhosamente, enquanto beijava a sua nuca.
Ela se virou sorrindo, com os olhos ainda fechados.
— Bom dia!
— Bom dia! Dormiu bem?
— Sim, mas poderia dormir por mais umas 5 horas.
Eu ri. Ela certamente faria isso quando chegasse em casa. Dei um beijo estalado nela, antes de confessar:
— Eu também, mas não posso.
— Deve estar cheia de compromisso, né, dona toda poderosa? — falou com ironia enquanto sentava e me puxava para um beijo.
— Pior que sim. Mas antes vamos comer, depois te levo em casa e vou pra minha torre de controle. — brinquei de volta e ela sorriu.
Fomos para a sala e ela riu incrédula quando viu a mesa posta.
— De onde veio tudo isso? — perguntou ao se sentar e começou a se servir.
— Aplicativo de delivery. Tecnologia é vida.
Comemos e ela foi tomar banho. Depois nos vestimos e descemos para a garagem, onde peguei o carro do Hugo. Deixei-a na porta de casa e ela pediu meu celular. Entreguei e a vi salvar seu contato nele.
— Me liga, tá?
— Tá bom! — confirmei, sorrindo.
— Adorei a noite. — confessou, sorrindo de um jeito tímido, e achei a coisa mais linda.
— Eu também.
Nos beijamos e ela desceu.
Saí de lá extasiada, já planejando a que horas eu ligaria para ela e quando e onde nos encontraríamos novamente.
Entrei em casa sorrindo de orelha a orelha e fui recebida pelas lambidas do Julius. Agachei para brincar com ele e senti o cheirinho peculiar da comida da dona Aurora, que logo apareceu na sala.
— Muito bonito, dona Juliana! Decide dormir fora de casa e nem se dá ao trabalho de avisar. Um dia você vai ter um filho e sentir a preocupação que eu sinto quando apronta essas coisas. — reclamou como se eu ainda tivesse quinze anos e me fez sorrir.
— Desculpa, mãe! Acabei esquecendo.
— É assim mesmo. Filho só lembra de mãe quando quer comer ou precisa de roupa limpa. Mas Deus tá vendo, viu?
E começou a reclamar e reclamar. Não parou nem quando a abracei e comecei a beijá-la por toda a parte. Depois de um tempo nisso, fui me trocar para sair, mas fui impedida pelo furacão Mariana, que quando ouviu da nossa mãe que eu estava no quarto, entrou empurrando a porta e tagarelando feito uma doida:
— Juli, você só pode tá maluca. Não acredito nisso, cara! — falou empolgada e sorrindo, mas tomei um susto.
— Do que tá falando, doida?
— Como assim? Você não sabe?
— Saber de quê?
— Que você agora é celebridade também. E que sou cunhada da noiva cadáver. Meu Deus, que emoção! — disse empolgada e me mostrou a tela do celular.
Quase caí para trás quando vi um vídeo meu e da Caterine nos beijando. Peguei o celular e vi o início da legenda em caixa alta:
BAPHO: NOIVA CADÁVER SE VINGA DO EX COM DESCONHECIDA.
— Puta merd*! — disse e caí sentada na cama.
Mari tomou o celular da minha mão e começou a ler o resto da legenda.
— Após reencontrar o ex-noivo em boate de luxo e vê-lo se agarrando com o atual namorado, a nossa noiva cadáver aparentemente decidiu se vingar à altura, dando esse beijão em uma desconhecida bem no meio da pista de dança...
— Espera, como é que é? Vingança? Que palhaçada é essa, Mari? — perguntei, irritada.
— Juli, eu só tô lendo o que tá escrito aqui. Sabei como é a internet.
Sei... e todo mundo sabe também, não é? Se está na internet, é verdade.
Ela me usou. Que ódio!
Fim do capítulo
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